sábado, 13 de dezembro de 2014

ARTE POPULAR EM QUESTÃO (em questão?)

“Arte popular e Dominação”, de Ivan Mauricio Marcos Cirano e Ricardo de Almeida (Editora Perspectiva, 1978), procura mostrar, à base de pesquisa de documentação e de campo realizadas, de 1975 a 1978, na Região Metropolitana do Recife aspectos, experiências e influências da arte e cultura popular em Pernambuco, nos últimos 15 anos, do Movimento Popular ao Movimento Armorial. Os pesquisadores partiram de algumas premissas, como, por exemplo, de que “documentar a arte popular não significa salvá-la de coisa alguma”, para chegar a conclusões válidas e de maior interesse sócio/político/cultural, tal sejam: 
– as artes populares, se são uma referência fundamental para a cultura central, por outro lado se formam como ideologia dominada e estão impregnadas de elementos conservadores. 
– de início a cultura do povo é reprimida como “imoral e anti-social”, mas, também, a elite gosta das coisas que o povo faz e incorpora em seus hábitos a cultura periférica. 
– o Estado e certa intelectualidade, de forma sutil e eficiente, com objetivos de manter o status dominante, criam conceitos diversos, como “a arte popular é espontânea e pura, os meios de comunicação é que tiram a sua pureza” ou, este outro, “a arte popular é a base para a elaboração de uma arte erudita nacional”. 

Após colher o depoimento de 114 artistas recifenses nos campos da dança, música, xilogravura, cordel, artes populares em geral, Ivan, Marcos e Ricardo narram e comprovam casos de apropriação cultural de obras de muitos artistas populares. Vale a pena ler a obra/pesquisa, bem realizada e documentada. 

Chico da Silva está em casa nova, no Pirambu, em Fortaleza, e também com novo, e mais bem organizado “marchand”, e, ainda, coma mesma cirrose hepática, que o torna inchado e febril, embora bebendo menos, só as cervejinhas na esquina. Contente com a sua participação na 1ª Bienal Latino Americana de S. Paulo, o Chico pinta e apronta seus quadros míticos-mágicos – parece que ele é quem forneceu o tema da Bienal, e não vice-versa e, efetivamente, sem o vigor e a autenticidade antigos, que o tornaram um dos maiores primitivos ágrafos do mundo.

Uma pergunta: não seria mais válido e real que a direção da Bienal selecionasse de colecionadores e museus obras do Chico das décadas de 40 e 50 – e para isso poderia ser contratado seu descobridor, Pierre Chabloz – do que mostrar um Chico já decadente, descaracterizado de sua pintura magistral de antes? Afinal, a Bienal não pode, sem trair seus objetivos, que parecem válidos, apresentar a arte popular brasileira, no caso de Chico da Silva, como adorno ou folclore nacional.

Câmara Cascudo continua seu patriarcado cultural sólido, octogenariamente fincado em sua mansão imperial da Junqueira Aires, em Natal. Em carta de maio, nos diz: 
– “... subo a rampa dos 79 e vivi o Sertão de Pedra e Sol tendo nos folhetos, seu nome batismal, o divertimento e a excitação líricas até 1915, quando as rodovias perpendiculares às praias do Mar, levaram a poeira das Cidades às vilas e povoados ignorados... O cordel é a nossa literatura profundamente popular, secular e outrora a única manifestação de mentalidade do interior, nos planos sentimentais e julgadores das condutas humanas... Creio que estamos na hora de Noé, onde a tarefa natural é carregar a Arca do documentário do Hoje e do Agora populares... Depois a Arca rumará o ano 3.000. É de temer que o “mercado” convide à industrialização maquinal e sórdida, a Imaginação substituindo a paisagem autêntica do raciocínio e mentalidade do Povo real e visível”.

No Paço das Artes os artistas artesãos cearenses, Frasca (bordado, renda, labirinto, vestidos pintados à mão), Raimunda (cerâmica), Expedito (couro), Maia (madeira), Sena (sementes, adornos, decoração e brinquedos populares), Moisés (fibras), Giovani (papel, cordel), todos filiados – como outros 2.300 artesãos – à Associação Brasileira de Artesãos – secção do Ceará, apresentam suas técnicas ao vivo, em mostra bem engrenada e sucedida. O artesanato, ali, não é aquele oficial nem oficioso, paternalizado ou comercializado. 

No catálogo, em apresentação dedicada aos cearenses Luiz Edgard de Andrade, Lívio Xavier, Eleazar de Carvalho, Aldemir Martins, Glauco Carneiro e outros dissemos sobre a arte popular do Ceará e seu povo: 
“Ceará-ao-Vivo é festa para os olhos do paulista bestificado diante do espanto telúrico, armorial e arquetípico dos artistas populares da Terra do Sol que despencam aqui a artesania maior de um povo guerreiro, andarilho sem sossego, “judeu” brasileiro, o sangue cruzado com o índio, o português e o branco, nômade, jagunço e vaqueiro, perseverante e hospitaleiro, ambicioso e fatalista, vivo, álacre e imaginativo, social e comunicativo, amigo da música, da dança, do jogo, do forró, dos esportes, das vaquejadas e das jangadas, da vida militar aquartelada, da cultura jurídica de mistura com a letrada, analfabeta ou altamente alfabetizada. 

Esses cabeças-chatas e suas inteligências maravilhosas, loquazes e capazes, lutadores contra o meio hostil e inóspito, o agreste sertão e a seca besta, as más administrações e o isolamento geo-econômico, fanáticos e penitentes, mulher rendeira, Iracema e Florinda Bolkan, dos evangelhos e dos sertões de Antonio Conselheiro, das loucas cavalgadas de Lampião, Antonio Silvino e Jesuíno Brilhante. Os cearenses, gente espartana e resistente, ameríndia e pastoril, esses filhos dum Nordeste sudenizado, raça original e varonil, povo do Brasil que a gente encontra no Paraguai, na Índia e na China e até na Arábia Saudita escondida sob turbantes e mantos turcos, homens, qualunques, bóias-frias, portuários, leoninos rotarianos, católicos/corintianos, umbandistas, repentistas e beletristas, jornalistas e literatos afamados... 

O Ceará que deságua popular e caudal, na Paulicéia Desvairada de Mário de Andrade, onde a gente paulista recebe seus irmãos terráqueos nordestinos, artistas do consciente e do inconsciente coletivos, com carinho de irmão, bem brasileiro. Vote!”

ARTES, MESTRES, AIATOLÁS.

Férias são férias, mas nada melhor a um jornalista em férias que anotar impressões/informações ao sabor do momento, em rabiscunhos espontâneos e veros, com os “olhos dever” como queria Camões. São desta viagem de janeiro, ao Norte/Nordeste ensolarado que revisito após dois anos, estas legendas e resumos do que vi, ouvi e colhi num roteiro que abrangeu capitais e cidades do Interior. De Recife a Manaus, a tarde brasileira é epicamente regional, figurativa, artesanal, folclórica, e até, às vezes, telúrica e armorial. Incorpora o drama sócio-econômico do norte/nordeste, acompanha a catarse da impressionante região – mais de 2/3 do Brasil – que deseja aparecer, viver e subsistir, e, ligar-se à arte o Sul de maneira fragmentada e pálida. Quando um artista de alto nível aparece, dotado de rara sensibilidade e criatividade, como Sérvulo Esmeraldo, por exemplo, no Ceará, repete o rumo de um Antônio Bandeira, vai viver em... Paris. Vão, pois, aqui, estes relatos de novas andanças por Manaus e Belém, São Luiz e Teresina, Juazeiro e Fortaleza, Caruaru e Recife, cidades onde há arte, uma boa arte, sem as aparências, como notava Pirandello, não se confundem às vezes com a realidade. 

Moacir Andrade, ecologista
 Escritor, professor, poeta, antropólogo – autor do monumental “Alguns aspectos da antropologia cultural da Amazônia” – jornalista e principalmente artista, Moacir Andrade vai andando pelas ruas movimentadas de Manaus, recém chegado da Europa, carreando seus cartazes contra a destruição da natureza: “Faça da água e da árvore, uma amiga e uma irmã”, trombeteia o pintor telúrico, consciente agora de seu papel de líder e defensor impetérrito da ecologia da Amazônia. “Defender a natureza é o principal dever, nesse momento, do artista brasileiro, e aqui estou eu, pois, lutando pela preservação de nossas palmeiras, de nossas matas, de nossas florestas, de nossos peixes, de nossos rios e de nosso rio-mar Amazonas”, diz Moacir Andrade. Moacir recebeu no ano passado, em sua casa, a visita do presidente Giscard d’Estaing da França, a quem ofereceu um quadro representando a mitologia e o santuário amazônico. Depois, embrenhou-se um batelão por rios, lagos, paranás, igarapés, furos e igapós, bradava aos céus e mares, a todos que quisessem ouvi-lo “Defender a natureza é dever de cada um de nós. Não faça de nossos rios e de nossas matas um futuro deserto. Penso no futuro da Amazônia, do Brasil, da humanidade. Dixit. 

Mestre Dezinho reparado
“Sem lenço nem documento, sem escola ou pistolão, mas com enxó, serrote e criação”, Mestre Dezinho esculpe silenciosamente em sua casa/ateliê da Rua Firmino Fires, 1610, bairro da Vermelha, Teresina, Piauí, obras em cedro amarelo e vermelho, artesão sem igual, a lembrar os mestres do Baixo Renascimento, segundo Fábio Magalhães. Toda a sua obra é vendida e disputada no sul do país, e seu marchand Ranulfo (do Recife) prepara individual de Dezinho, este ano em S. Paulo. Ex-santeiro de ex-votos em sua terra natal (Valença), ainda artesão popular mudou-se para a capital, para ser vigia noturno municipal na pracinha do Bairro da Vermelha. Nas horas de folga, era carpinteiro na igreja, para a qual fez um Cristo, e, a seguir, todas as obras da Igreja, que, assim, fica majestática e bela, maior atração turística de Teresina. Dezinho aborreceu-se, contudo, com o Padre Carvalho e o decorador Afrânio Castelo Branco, que deturparam obras suas, colocando argolões de ferros em seus anjos,cortando asas de santos, enfim descaracterizando sua criação original. Passando na cidade, Rebolo Gonsales visita a Igreja da Vermelha e a seguir, a casa de Dezinho, dá entrevistas e sua solidariedade a este, denunciando publicamente a mutilação dos trabalhos do mestre. Resultado: o Secretário da Cultura, Joaquim Alencar Bezerra, toma providências, arranja verbas, O Pe.Carvalho volta atrás, e as obras de Mestre Dezinho vão ser reformadas conforme orientação do Mestre, e a própria Igreja terá ajardinamento, obras, telhado novo, a arte esculpida e vivida de Mestre Dezinho restaurada e consagrada. Dezinho, artesão e escultor do Piauí e artista nacional, volta a seu mestrado sem igual. Dezinho procura Rebolo no Hotel, agradece a sua interferência e a deste jornalista, agora é outro. Dezinho. 

Eles são 300, 350...
Somadas as idades, os três somam quase 200 anos. Ariano Suassuna, em Água Forte, Gilberto Freire, no Recife, e Câmara Cascudo, em Natal, fazem de cada dia uma visão de futuro, na criação constante, múltipla, territorial, memorialista, heterogênea, antropológica, universal. Dos três mestres do estudo, da escrita, da análise, da etnografia e historiografia do nordeste, se pode dizer, como Mário de Andrade, que eles são 300, não, são trezentos e cinqüenta. Múltiplos, facetados, admiráveis em seu universo e sua humanidade, Acolhem com a simplicidade e a afetividade dos grandes. Ariano é um fino esteta, mais D. Quixote, fácil na prosa e divertido. “A arte armorial brasileira é aquela que tem como traço comum principal a ligação com o espírito mágico dos “folhetos” do romanceiro popular do nordeste (literatura de cordel), com a música de viola, rebeca e pífano que acompanha seus cantares, e com a xilogravura que ilustra suas capas, assim com o espírito e a forma das Artes e espetáculos populares com esse mesmo romance relacionados”.
Gilberto Freyre
Ele e seu grupo, no qual se destaca o jovem Antonio Carlos Nóbrega, do Quinteto Armorial, vêem, pesquisam e interpretam o armorial que existe no cinema, no teatro, na arquitetura, acreditam que a criação é mais importante que a teoria, e que se deve criar sempre, antes de definir. Curtem Gilvan Samico e gravadores e entalhadores populares. Gilberto Freyre não para , em Apipucos, vendo e recebendo, falando e conferenciando, ficando e viajando, sempre com os olhos sociológicos de “Casa Grande e Senzala”. Derrama seu arquipélago de assuntos sociais, políticos, culturais, em artigos cá para as Folhas e pinta suas manchas e aquarelas, para as quase tem público comprador certo. Vaso da comunicação e da interação da inteligência nacional,
Câmara Cascudo
Como Câmara Cascudo. Cascudo, na Junqueira Alves, é moto contínuo, historiador, folclorista, antropologista, sociólogo, ensaísta, jornalista, tradutor, comentador, cronista, romancista de costumes, epistológrafo. “Nenhum progresso extingue cultura nativa, tradicional, local. Alguma novidade prosodial, novos modelos, alterações morfológicas, mas a “inspiração” modeladora exprime características reconhecíveis. Exceto, naturalmente, nas mãos “geniais” dos que não possuem característica alguma, repetindo instintivamente o que vêem, na técnica irresponsável e fácil dos espelhos”. Essa conversa mole, diz, da técnica moderna acabar com o folclore é imagem infeliz e melancólica de André Malraux, aquém o belga Albert Marinus deu fulminante resposta, negando a balela de “la machine a tué le folklore”... Como em todas as criações do Espírito Humano, a Tradição de sua literatura oral e lúdica, conterá devotos e aproveitadores do esforço alheio, gente que investiga, analisa, conclui, e os “sabidinhos” que ensinam a ciência da natação sem tomar banho. Às vezes nem chegam a molhar-se. Ariano Suassuna, Gilberto Freyre e Câmara Cascudo. O guru armorial, o mestre da sociologia cultural, o papa do folclore e da etnografia nacional. Três aiatolás geniais e seus fanáticos adeptos. 

Belém, Éden tropical
Antonio Lemos

Esteta, fino intelectual, poderoso político, o maranhense Antonio Lemos governou Belém do Pará de 1897 a 1911, deixando o corpo da capital replasmado por uma obra admirável de urbanista, com traçado moderno, largas avenidas arborizadas, plantio de mangueiras e seringueiras, num panorama de urbe majestosa que a bela Capital conserva até hoje. Santa Maria de Belém do Grão-Pará com suas praças cuidadosamente tratadas – as mais belas praças do País, como a Batista Campos, por exemplo, cheias de chafarizes, pontes e coretos – é ainda hoje um Éden tropical, as construções setecentistas, as igrejas barrocas, as residências solarengas, o Teatro da Paz, o Museu Goeldi, o Palácio do Governo, uma cidade ainda bem “fin de siècle”, quase art-nouveau, adorável e enfeitiçada. Impossível não encontrar-se em Belém sem sentir a cidade como um painel surrealista, desde o Ver-o-Peso até a praia do Mosquiteiro, da Basílica de Nazaré ao Cemitério da Soledade, os minaretes do mercado de Ferro, gente andando e cantando as músicas de Fafá de Belém, as mulheres dengosas e cheirosas com os afamados aromas de Belém,... Terra de artistas do primeiro time, nomes nacionais, como o do lendário Goeldi, Perci Deane, Quirino Campiofiorito, Waldemar da Costa, Waldir Sarubi e outros, muitos jovens pintores e hoje, cidade amazônica que devia ser tombada, conservada, colocada na redoma da História da epopéia da borracha e de um povo livre. 

Artistas e artesãos 
Antonio Bandeira
Os grandes artista do Ceará, que deixam/deixaram gravados seus nomes na arte brasileira contemporânea são, sem dúvida, Raimundo Cela – de que vimos notável exposição no Banco do Estado do Ceará – Antônio Bandeira, atualmente com obras de seu acervo exposta na Universidade Federal, Aldemir Martins, Chico da Silva, Mestre Noza, Andersom Medeiros, José Pinto – com suas esculturas de sucata na praça pública, José Tarcísio, Zenon e Sérvulo Esmeraldo, este, atualmente, o de maior cartaz, e vivendo em Paris. A arte cearense incorpora as linhas mestras da arte brasileira em geral, embora presa a muitos cânones figurativos. De Aldemir, passando férias na Prainha, em casa que adquiriu recentemente, se fala que se mantém fiel ao Ceará, mas todos, público e crítica, desejam maior participação sua no quadro local das artes visuais cearenses. Há ainda o fotógrafo Chico Albuquerque, um inovador, com anos de imaginosa produção em S. Paulo, e hoje retornando à terra natal, capaz de comover com suas fotos de flores e frutos, por exemplo.
Dos novos, destaques para um Hélio Rola e uma Adrianiza, ambos aprendendo com mestre Rebolo, em cada estada do artista em Fortaleza, uma Heloisa Joaçaba, um Jussieu, um Sergei, um Zé Fernandes, um Siqueira, um Félix, um Fidelis, um Sérgio Lima. Os museus têm uma atividade fragmentada, e merecerão, segundo se diz, total reformulação no governo Virgílio Távora. A Casa da Cultura, junto ao Mercado, está e, obras. As galerias são duas só, vivendo de impulsos de seus proprietários, Sinval e Ignês Fiúza. O meio não propicia um bom mercado de arte, apesar das fortunas das grandes famílias cearenses, sendo esse fato causador da contínua emigração dos jovens artistas da terra para o Rio, São Paulo e paris (exemplos: Bandeira, Aldemir, Sérvulo, José Tarcísio, e, agora, Aderson Medeiros). 
Em contraponto, o artesanato no Ceará ganha impulso, sob a dinâmica do líder Flávio Sampaio à frente da Associação Brasileira de Artesãos - seção Ceará, com mais de 4 mil artesãos registrados, em todo o Estado. Os artesãos vendem sua produção diretamente ao público, sob coordenação da Associação, eliminando-se o intermediário, vendem também nas mais famosas feiras livres do Estado (Cascavel, Sobral, Juazeiro, Fortaleza), ou ainda se reúnem na Praça Portugal, as sextas-feiras, em iniciativa das mais louváveis – não falando também o melhor da comida cearense: paçoca, baião de dois, feijão de corda, carne de sol, tapioca, cajuína e frutas. No Ceará, cada artesão que se destaca, ganha o sofisticado acréscimo, ao seu nome, de Mestre: Mestre Expedito (couros), Mestra Francisca (bordados), Mestre Frank (esculturas), Mestra Raimunda e Mestre Amaro (cerâmicas), Mestre Giovani (adornos), Mestre Maia (entalhes), Mestre João Batista de Sena, Mestre Ferreira do Ceará, Mestre Pinto... Eles estão por Fortaleza, na Barra do Ceará belíssima, no cais do porto, em Iracema, organizados, arteiros/artesãos, gente simples e que faz de sua habilidade artesanal pão e subsistência, folclore e sobrevivência, cultura espontânea da melhor, típica e arquetípica, autêntica e brasileira.     

Chico da Silva, adivinho
Chico da Silva voltou com força total aos seus dragões e bichos enfeitiçados, sob guarda de seu novo marchand – os outros eram “espertizes próprios”, segundo ele diz – Agostinho Ramires, cumpadre e contra-parente. De manhã pinta no ateliê do Pirambu, Fortaleza, e, após o almoço, volta para casa, no sofisticado bairro do Aldoeta, onde pinta outra vez, até o jantar. Pode tomar até 4 doses de licor por dia, e, à noite, na varanda da casa, recebe amigos e conhecidos, dedicando-se a um novo divertimento, que o alegra enormemente: descobrir acontecimentos, fatos, dores, pensamentos de cada pessoa à sua roda. Muitas vezes acerta, e isso torna feliz o índio ocreano de 57 anos, gordo e redondo, que foi até dado por morto há 2 anos pelos jornais do Sul. Ele faz poesia também, eis que é índio, poeta e brasileiro, quer ser pobre sempre, ama Deus “mas não gosta dos padres”, quer ser povo e massa, coração e amor. Chico da Silva está pintando com menos categoria que antes, – a velha maestria o tornou célebre e vencedor de Bienal em Veneza – mas ainda é sincero em sua parte primitiva e real. No seu ateliê do Pirambé, pinta ao lado da filha, Chica, e do filho, Roberto, que assinam com seus próprios prenomes cada quadro. Os quadros de Chico são levados por seu marchand a um cartório, que os reconhece oficialmente. Assim a obra de Chico da Silva – o artista falsificado milhares de vezes, muitas vezes por sua própria culpa, é agora de novo válida. Ele nos diz com a boca aberta de felicidade – sem os dentes de ouro, roubados numa noitada de bebedeiras – alto e bom som: “Já enriquei muita gente que não tem coração. Agora sou o Chico de novo que o mundo conhece. Minha pintura vem de Deus, do deus dos pássaros e dos bichos, dos rios e da natureza”.

A xilogravura nordestina 
É da melhor qualidade, e, sobre ela, já tem derramado boa literatura a Fundação Casa de Rui Barbosa (Rio), A Universidade Federal do Ceará (Fortaleza) e a Galeria Ranulpho (Recife), que editou há 2 anos um álbum da melhor qualidade, com biografia dos principais xilógrafos e reproduções de espelho de cada um deles. A xilo nordestina é usualmente utilizada para ilustrar os folhetos de cordel do Nordeste, são matrizes toscas, feitas a formão ou canivete, que esgravatam cascas de cajá, umburana, cedro, pinho e outras madeiras. Ligados intimamente aos poetas populares, muitas vezes, o próprio xilógrafo é autor dos versos, como Abraão Batista, de Juazeiro, e ainda poeta e folheteiro, como J. Borges em Bezerr, e Dila, em Caruaru, ambos em Pernambuco. José Costa Leite, vivendo em Condado, também em Pernambuco, é considerado o maior xilógrafo popular e um dos grandes poetas populares do Nordeste.
Mestre Noza
Além dos já citados, formam entre os grandes da xilogravura Mestre Noza, de Juazeiro; Jerônimo Soares e J. Barrosa, ambos vivendo em S. Paulo; Ciro Fernandes, Uiraúna, PE; Franklin Machado, ou Maxado Nordestino, Feira de Santana, Bahia, também vivendo em S. Paulo; Franklin Jorge, poeta, pintos, crítico de arte, Natal, RGN; José Stênio e Arlindo Marques da Silva (AMS), Juazeiro, CE; Marcelo Alves Soares (MA ou MS), Recife. Fazem todos uma arte bela e rude, suada e gravada, que já encantava Lourival Gomes Machado nos idos de 1950. Conversar com Dila, em Caruaru, é receber um banho de fantasias e da legítima inspiração e vibração do nordestino: ele acredita que o Pe. Cícero está vivo e que Lampião, também vivo, o persegue com seu bando. Dila esculpe a gilete em finos pedaços de borracha e, de certa forma, apesar da impressão de folhetos que faz na arcaica impressora que foi de seu avô, é um inovador da xilo regional. Em Caruaru, além da Casa de Cultura José Conde (direção de Luiza Maciel) e da afamada feira, é visita certa, na Artfolheto São José, Rua Guarany, 36, Riachão. Eleito pelo Instituto Joaquim Nabuco, como o melhor xilógrafo do Nordeste, diz-nos ele: – “Vejo com tristeza o desaparecimento da xilogravura, lançada entre os índios do Nordeste por missionários portugueses com atividade extra catequética. A xilo é mensagem social e transmite, através dos folhetos de cordel, nossos cultos, grandezas e misérias, as jóias da nossa alma e as agruras do nosso coração”. 

Cultura Piauiense Dizer que o Piauí existe sim senhor, já é uma piada de mau gosto – e os piauienses respondem, com graça, que a gente deve visitar logo o Piauí, “antes que vire São Paulo”.O Piauí, como a antiga Oeiras, a personalíssima Parnaíba, e fantástica Sete Cidades, além de Teresina, calorosa e encalorada ente dois rios, atraindo turistas, está em franco progresso, não fora a ajuda escancarada que lhe dão seus dois filhos mais ilustres, ministros Reis Veloso e Petrônio Portela. Progride na defesa dos recursos naturais, do patrimônio histórico, no saneamento básico. No campo cultural, três pessoas comandam: Joaquim Alencar Bezerra, secretário da cultura (do clã dos Portella), cm ação objetiva e séria em favor das artes piauienses; Profª. Aldenora Vasconcellos mesquita, coordenadora de Assuntos Culturais da Universidade do Piauí; e prof. Noé Mendes de Oliveira, do Centro de Ciências Humanas e Letras da mesma Universidade. Noé, piauiense de cepa, é, além de professor de História, etnógrafo e folclorista, estendendo sua ação em todo do Estado, como principal colaborador do MEC – Funarte e outras entidades. Estudioso da problemática das Sete cidades de Pedra, a 170 km de Teresina, explica com entusiasmo sobre as formações rochosas gigantescas, as pedras esculpidas, os estranhos monumentos, as torres pitorescas, as muralhas fortificadas, as escarpas, cúpulas e castelos escondidos que compõe o fabuloso conjunto natural (citado por Van Daniken num de seus livros, como antigo lugar onde habitavam, 4 mil anos, os fenícios). Rebolo vai até as Sete cidades com o prof. Noé, sobe na Pedra da Tartaruga – e pra descer? Desce carregado, pelo solícito professor e por nós... A praia do Sal, perto de Parnaíba, é lugar de visitação e curtição, muitas cidades, o Mestre Dézinho, o famoso reisado, o tatu refogado, comido em jantar de pratos típicos, com os Noé e Maria Amélia... O Piauí que edita e dança, estuda e pesquisa, aparece e toma um lugar ao sol, entre os cumes lindeiros de maranhenses e cearenses. Pedro Mendes Ribeiro, professor e radialista, publica obra única dedicada aos poetas cantadores de todo o Nordeste: “Segredos do repente”. Ali se fica sabendo sobre os violeiros, as regras do verso e do repente, sílabas e acentuação, gêneros do repente, quadras e quadrões, ligeiras e sextilhas, gemedeiras e mourões, décimas e martelos, motes e galopes, toadas e gabinetes, a embolada, a parcela, o beira-mar mourão. O Piauí vive uma realidade de sensibilidades e afirmação sócio/econômica/histórica/cultural. Estado guerreiro agropastoril, de muita festa e folclore-ciência, bem regional, já computado na comunhão nacional. 

O Padim, Juazeiro 
Partindo de Fortaleza, os roteiros são muitos e variados, desde as conhecidas praias do norte Comocim (pesca da lagosta), Paracuru e Pecém, como as do leste, Morro Branco, Yrapestosa, Majorlância (garrafinhas de areia) e Canoa Quebrada. Em torno desta existe toda uma lenda e muito folclore, a coroar sua beleza natural incomum e as magníficas dunas que a envolve. Junto ao Piauí estão as grutas de Ubajara, misteriosas, que encantaram Cora e Aldemir e, mais ao meio do caminho, Sobral, qual uma Campinas nobre, “United States of Sobral”. Em Quixadá, de Raquel de Queiroz, as formações naturais rochosas surpreendem, como o Açude do Cedro (construído no século passado, por ordem de Pedro 2º), a serra do Estevão, com o Repouso das freiras de São José, e o duro e cruel sertão, com os carregadores d’água em seus jegues, até Orós. Este, terceiro açude do mundo, é navegável, nadável e curtível, numa bela surpresa da viagem. Aquirás e Aracati de D. Castorina são cidades históricas, na serra do Butireté, em Guaramiranga – a Suíça Brasileira – há verde, muito verde, e rosas em Maranguape está Chico Anísio com sua indústria rendosa, no Canindé o Frei Lucas cede, muito amável, votos e ex-votos aquém pedir. Acha que o culto de São Francisco é o maior do Nordeste, maior mesmo que o de Bom Jesus da Lapa, do Padre Cícero e do Senhor do Bonfim. Exageros nada franciscanos... Juazeiro, no vale verde do Cariri, disputa com Crato a preferência do visitante, e tudo ali se faz em torno da figura mitológica do Meu Padim Cíço. A estátua tem 28 metros de altura, menor apenas que a da Liberdade, em Nova York e a carioca do Cristo Redentor. As figuras da cidade devota são Mestra Noza, que nos recebe com o indefectível chapéu, gravando o cedro e a umburana com um velho canivete – ele é famoso não só no Nordeste, mas na França, onde sua produção tem público certo – e o farmacêutico e professor Abraão Batista, gravador e autor de folhetos de cordel. As filhas de José Bernardo da Silva, lutam para manter viva a arte e a folheteria do cordel, ajudadas pelo neto de José Bernardo, Stênio, também gravador. A feira de Juazeiro é tão grande como as de Caruaru, e de Feira de Santana, as maiores do Nordeste – vende de tudo e os bentinho, de orações, os terços de Pe. Cícero são chamariz e atração. O almanaque do Nordeste, de Vicente Vitorino de Melo, astrologia e cordel, anuncia o Juízo do ano de 79, em linguagem sertaneja franca e rude. Em Crato o médico Jefferson de Albuquerque e Souza dirige o Instituto Cultural do Cariri, promovendo as artes na região. Tem até um museuzinho da imagem e do som em sua casa, estrategicamente instalada entre Crato, Juazeiro e Barbalha. Ali perto, reboa a voz do Patativa do Assaré, o grande cantador do sertão cearense, peno agricultor, vive isolado,com sua voz e sua poesia derramada, trovador nordestino autêntico, “cante lá que eu canto cá”, versos e cantorias sertaneja telúrica sob o luar do sertão do Cariri. 

Folha de São Paulo, Domingo, 25 de fevereiro de 1979.

sábado, 6 de dezembro de 2014

O CINE MARAVILHOSO

Do imaginário popular do nordeste brasileiro - preponderando em PE, BH, RGN, CE - chaga-nos a literatura de cordel e a xilogravura que “acompanha, em sua vitalidade rude, a saga do romanceiro popular, que passa de mão em mão, de olhar em olhar, de comentário em comentário” (Pontual, 1970) preservando elementos genuínos das representações simbólicas e artes da experiência de vida dos homens do nordeste. O quadro das relações sociais e que se inserem essas manifestações, as condições concretas do universo em que se concretizam e são utilizadas, tem sido estudado, descrito e discutido por economistas, sociólogos, historiadores.

“A literatura de cordel, produzida por homens que analfabetos, de leitura escassa, ..., tem uma repercussão, na massa de leitores a que se destina, pobre gente descalça e maltrapilha, sertanejos rudes, de alpargatas e chapéu de couro, jamais igualada pela a outra literatura, a de colarinho e gravata” (Lessa, 1973). Ou é ainda Lessa que diz: “Os trovadores populares, que escrevem para gente simples, operários, soldados, artesãos e camponeses, incultos, para a massa mais inculta do Brasil...” (Lessa, 1973).

Jornal/divertimento do sertão e do nordeste, o cordel é um folheto pequeno, impresso em papel barato, na capa uma xilogravura ou clichê. O número de páginas varia entre 8 e16 páginas, sendo os de 24, 32, 48 e 64 conhecidos como romances. A literatura de cordel tem suas origens no cancioneiro ibérico trazido pelo colonizador, mas adquire no nordeste características próprias. Literatura oral, em tempos idos, de cantadores e desafios, de contos e cantos dos sertões, narrações de feitos e acontecimentos, em rimas e sextilhas, se fixa na tipografia e adquire o atual caráter no final do século XIX.

“Cordel se enraizou quando da queda dos princípios mais tradicionais, da decadência da organização rural... Folheto não representa a sociedade burguesa, mas está condicionado às transformações por ela introduzidas... permanece, entretanto o fechamento social e os valores da decadente sociedade agrária.” (Cortez).

Os folhetos são então vendidos nas feiras, são cantados nas feiras, espalhando-se por toda a região. E surgem também a folheterias, onde folhetos são impressos e vendidos. Literatura de cordel, em sua penetração está contida seu significado; 60, 80, 100 mil exemplares são vendidos de um mesmo folheto. Muitas vezes a autoria é encoberta pelo editor, vários editores, muitas versões de uma mesma estória ou uma estória de vários autores. Muitos procuram se resguardar colocando o acróstico precedendo os versos da última estrofe. Pois vivem disso, de serem poetas. “Claro que vivem mal. “Claro que vivem pobremente. Mas são de uma fidelidade quase absoluta à profissão, da qual se orgulham e que lhes assegura a popularidade e a glória. Porque ser poeta no sertão é realmente possuir uma situação que o povo admira, inveja e respeita.” (Lessa, 1973).

E os poetas contam ou recontam uma infinidade de estórias, estórias de heróis, anti-heróis, narrativas maravilhosas. “No imaginário popular, o extraordinário é mais alimentado que e o ordinário, isto é, as correntes de projeção dominam as correntes de identificação.” (Morin, 1963). Manifestações espontâneas elaboradas entre a tensão consciente e inconsciente numa ação integrada. Sua legitimidade encontra uma razão de ser na medida em que abre um canal de satisfação de necessidades simbólicas, em que expressa o pensamento coletivo moldando/moldado a memória popular. “Modo como é construído envolve um saber que leva em conta a reação e a avaliação das pessoas às quais o autor se dirige esse liga no emprego de sua arte. Contar um acontecido depende basicamente deque se faça de conformidade com as expectativas e concepções dos circundantes. Nesse plano traduz em composição verbal as concepções coletivas. ...Conta um acontecido que tem merecimento na concepção de todos”. (Martins, 1975).

O mundo do imaginário, imagem, mito, magia imaginário/imaginante, o homem em sua relação ambígua e difusa com seu meio social consigo mesmo. Mito e magia complementam-se colonizando, ordenando, nascimento, trabalho, sentir, morte. “Intercomunicação entre o imaginário e o real, o lógico e o afetivo, o especulativo e o existencial, o inconsciente e o consciente, o sujeito e o objeto”. (Morin, 1975). Relatos do virtual e possível que acompanha o atual, isto é, singular, limitado, finito no tempo e espaço. O imaginário não só delineia o possível, mas cria mundos impossíveis e fantásticos (Morin, 1969).

Invocação e encadeamento no poema tecem tramas entre o real e o imaginário. “O mito utiliza-se de uma estrutura para produzir um objeto absoluto que ofereça o aspecto de um conjunto de acontecimentos (já que todo mito conta uma história) (Lévi-Strauss, 1970).

“A metáfora, o poder das alegorias, simples palavras e suas evocações poéticas mágicas - o sentido figurado é inalienável, as palavras se organizam em frases, as coisas em universo, os objetos se animam em valores de uso pluralismo coerente onde o significado temporal material é, sendo distinto e inadequado, reconciliado com o sentido, o significado fugaz que dinamiza a consciência, de redundância em redundância, de símbolo em símbolo (Durand, 1976). Polaridades divergentes, imagens antagônicas guardam sua individualidade própria, sua potencialidade antagonista e se ligam, no temo e no fio do encadeamento dos versos.

“Os mitos não são inventados, são experimentados. Mitos são revelações originais da psique pré-consciente, observações involuntárias sobre acontecimentos psíquicos inconscientes e têm um significado vital.” (Jung, CW 12).

Se, por um lado, produto espontâneo analógico, imediata e simultaneamente analítico e sintético, sendo capaz ao mesmo tempo de totalizar nas representações míticas os aspectos do real positivo em sua observação real, limitado quando apreende as forças invisíveis que governam a sociedade e os homens como um domínio de poderes superiores ao homem; por um lado, é a realidade social e histórica que fornece ao pensamento em esta selvagem seu conteúdo, o material a ser pensado (Godelier, 1971). 

Sem dúvida, são as condições concretas da relação que os homens mantém entre si e com a natureza que geram toda uma gama de emoções, sentimentos, visões de mundo e explicações que são percebidas e transformadas pelo pensamento de forma peculiar.

No nosso caso, a vida econômica e social de autores e leitores de cordel se dá em condições dos mínimos vitais e econômicos e sociais. Estão inseridos de maneira desprivilegiada numa formação social patriarcal, de alto equilíbrio sócio-econômico.

O centro do folheto gira em torno da emancipação do herói, de sua ascensão, mas permanece o rigor do patriarcalismo, a pouca abertura social do senhor.

Homens bons através de sentimento religioso se emancipam, assim como valentões e sabichões por meio de suas aventuras e isto sobre grandes monarcas e senhores, isto é, a sociedade agrária. O ápice do folheto é atingir o status do senhor rural. A travessia é uma verdadeira hierarquia de condições impostas. Refletir acerca da travessia do herói só em termos de transformação do herói em senhor todo poderoso é limitar seu real sentido. Também seria uma simplificação compreender a travessia apenas como total das mudanças sofridas pelo herói em busca de ascensão. O sentido da travessia está de acordo com a hierarquia de condições que a instrumentaliza. Para as mudanças solicitadas pelo herói (Cortez, 1964).

O que racionalizou para o cordel a escolha do cabra para ascender sobre o senhor, através de valentia ou retribuição, foi o cangaceirismo. Os cangaceiros são heróis, não a despeito do medo e horror que inspiram suas ações, mas de certa forma por causa delas. São meros desagravadores de ofensas do que vingadores e aplicadores da força; não são vistos como aplicadores da Justiça, e sim como homens que provam que até mesmo os fracos e pobres podem ser terríveis. O universo ético expresso nos poemas e folhetos contem os valores do “ladrão nobre”, tanto quanto os do monstro... Uns são lembrados, como o famoso Antonio Silvino, principalmente por suas boas ações, e outros, como Rio Preto, que se tornaram conhecidos por sua crueldade... num sentido amplo, a “alegria do Norte” ante sua morte talvez como mesura à moralidade formal mas registra também a explicação de um sertanejo de que a morte do cangaceiro se dera pelo fracasso da magia, pois só isso podia explicar sua derrota. Não obstante ser um herói, Lampião não era um herói bom, não são as características do “bom ladrão” que predominam no mito, independente da realidade. (Hobsbawm, 1975).

As figuras humanas do cordel realçam o herói que pode ser ao mesmo tempo o anti-herói. Outros exemplos são encontrados nos ciclos do “amarelinho”, fraco, doente, raquítico como o próprio sertanejo e que vence pela astúcia. No ciclo religioso destaca-se a figura do Padim Cícero, no ciclo da demonologia vemos o inferno associado à casa grande e satanás ao negro, e o herói muitas vezes conseguindo lograr o diabo. O cine-maravilhoso caracteriza-se como formador de associações e imagens por sua vez reflexos da vida do poeta popular (Cortez, 1964), mas ao mesmo tempo o imaginário começa na imagem-reflexo, que ele dota de um poder fantasma - a magia do sósia - e se dilata até aos sonhos mais loucos... Dá uma fisionomia não apenas aos nossos desejos, aspirações, nossas necessidades, mas também às nossas angústias e temores. Liberta, não apenas nossos sonhos de realização e felicidade, mas também nossos monstros interiores, que violam os tabus e a lei, trazem a destruição, a loucura ou o horror (Morin, 1969).

Além dos temas já mencionados, o herói, o anti-herói, o diabo, vários outros são tratados pela literatura de cordel, circunstâncias e fatores de relevo, fanatismos e figuras religiosas, o ciclo dos animais onde se destaca o ciclo do boi misterioso, pois os animais... “são pertinentes em relação à sociedade humana, ou porque a evoquem pela própria vida social (que os homens concebem como uma imitação da deles); ou porque, sem vida social própria, façam parte da nossa. Como os cães, o gado faz parte da sociedade humana; mas faz parte dela, se assim se pode dizer, “associalmente”, já que se situa no limite do objeto (Lévi Strauss, 1970). Há também os temas tradicionais que nos vieram do romance em forma de prosa ou poesia, como a de Lessa, a de Suassuna, a de Camara Benjamim e a de Cavalvanti Proença.

Desvirtuada ou não, atualmente pela penetração da cultura de massa, no cômputo final o que se torna patente é que a capacidade de manifestação autêntica excede concretamente as intenções as intenções do dirigismo cultural. Acusada por alguns de conservadora, reacionária, moralista; vista por muitos como crítica de costumes, sátira pública ou social, o que é importante é notarmos que é a expressão e realização das formas próprias de conhecer e expressar a vida. “O cordel muitas vezes significou uma literatura de resistência, um grito contra a opressão e a miséria. Basta ver que, em geral, o cordel torce contra o latifundiário. Há igualmente uma farta antologia de cantares e narrativas de tom erótico, picante, que circula clandestinamente, arrastando-se sorrateiramente no subsolo da moralidade vigente no sertão do Padim Ciço (Beltrão, Isto é, 1979)”.

E, sempre, é bom ficar ao que nos diz Lelia Frota (1976):
“A comum inclinação para olhar com condescendência ainda que apavoradora, a arte marginalizada, onde se inscreve a dos “primitivos”, deve, pois ser reexaminada por nós. Eles não se inserem num mundo à parte, rústico ou pitoresco, trágico ou socialmente reivindicador, sobre o qual nos inclinamos como espectadores interessados. Apenas exprimem, com valores próprios e uma linguagem de igual importância à nossa, uma realidade interna (e externa) comum a todos...”

I Bienal Latino-Americana de São Paulo/1972.

MITOS E MAGIA NO CORDEL BRASILEIRO

(o pensamento mítico-mágico do homem nordestino, através da oralidade popular) 

“O cordel é um repositório magnífico de mitos e magia que permitem, ao povo nordestino, momentos de alegria e evasão”. Raymond Cantel, Sorbonne, Paris, em carta ao autor/78. 

“Os mitos não são inventados, são experimentados. Muitos são revelações originais da psique-pré-consciente, observações involuntárias sobre acontecimentos psíquicos inconscientes... e tem um significado vital”. K. G. Jung, “O homem e seus símbolos”.

Insere-se esta I Bienal Latino Americana, realizada no Brasil, em S. Paulo, no contexto da importância sócio-cultural crescente, da América Latina, em sua posição específica e histórica, entre o segundo e o terceiro mundos, e, ainda, dentro do “lamentável espetáculo de seu insucesso político-social”. Tristão de Ataíde, 78. Assim configurada a realidade latino-americana, entre vencedores e vencidos, poderosos e oprimidos, abastados e pobres assalariados, gente contente e gente carente, resultando tudo numa imagem externa de capitulação, e, interna, de imobilismo e sujeição, a massa popular permanece amalgamada, “anulado o homem verdadeiramente livre e humano”. Newton Carlos, 77. 
O povo brasileiro, tirante o índio, de cultura autóctone, é, no quadro sócio-econômico da América Latina, como seus irmãos colombianos, antilhanos e chilenos, um “povo novo”, de cultura transplantada de países da Europa e de nações africanas, de onde emergem as suas raízes culturais e antropológicas, segundo Darcy Ribeiro. Daí decorre, entre outras manifestações, o barroco e o candomblé, o academismo e o fetichismo, os inícios de uma arte advinda da Missão Francesa, o movimento de arte moderna, outras várias influências. , inclusive as Bienais, vindas de fora, embora carregando, esses movimentos e tendências, fortes doses de nacionalismo caboclo. Somos um país de ritos e de mitos, de realidades inventadas e de inventividades programadas, de imigrações de colônias e de migrações de raças, de acomodações e mestiçagens da Casa Grande & Senzala... A literatura nacional de cordel não foge a essa herança, ela se alicerça, desde o século XVIII, em suas origens européias, especificamente na França, Espanha e Portugal, iniciando-se no Nordeste nos ciclos do boi, do cavalo, da vida do campo. Raymond Cantel, 76. 
Assim, o cordel verde-amarelo é cultura transplantada, e reflete, com fidelidade e veracidade, a realidade do homem nordestino latino-americano, em sua dramática situação social, urbana e agro-pastorial, marginalizado e desintegrado, conforme reconhecem até relatórios oficiais. Integra-se no universo da gente sofrida do interior e do sertão, dos habitantes dos grandes centros que também desejam subsistir, em sua ânsia de acreditar e de viver, suportando uma realidade dura e heróica, mágica e fantasiosa, cheia de crendice e superstições. O folheto, popular seja ABC ou romance, armorial e arquetípico, é, pois, pão e subsistência, literatura de sobrevivência, jornal do sertão, feudal e circunstancial. Luiz Ernesto Kawall. É mítico e cosmogônico, divino e heróico. Luiz da Câmara Cascudo. É o coletivo gratificado e a subsistência garantida, a sensibilidade dedilhada e a vivência corporificada e eternizada do homem sertanejo, lenda, imagem e mito do nordestino legitimado e sacrificado. Paulo Dantas. 

Cordel, o cine-maravilhoso do Nordeste. 
A arte popular é a base para a elaboração de uma arte verdadeira nacional, diz Ariano Suassuna: “... então, todos os problemas do homem existem em todo o lugar. O que compete a nós é procurar a nossa realidade, como Cervantes procurou a realidade espanhola, como Tolstoi buscou a realidade russa”. O romanceiro popular nordestino, o da poesia improvisada e o da poesia tradicional, vale-se do folheto de cordel de forma continuada e temática, como faz o cantador e folheteiro Rodolfo Coelho Cavalcanti, da Bahia, presidente da Associação Brasileira dos Cantadores e Poetas de Cordel, autor de mais de mil títulos diferentes de folhetos. E, quando não, esse trovadoresco cantante e ambulante, cultura típica e espontânea, - e vem, aqui, a sua ligação com o folclore anônimo e a oralidade consciente, - compõe-se dentro de ciclos principais: o heróico, o satírico, o cômico, o picaresco, o do amor ; o religioso e o da moralidade; o do maravilhoso e o histórico e o circunstancial. E há ainda, de tempos em tempos,lembrando os tempos bíblicos os messiânicos. Carlos Alberto Azevedo. 

Em recente reportagem, a revista “Isto É”, mostrou que uma nova tendência, inspirada na licenciosidade do cinema e das revistas pornográficas, se fixa no cordel nordestino: o da licenciosidade. O notável Cuíca de Santo Amaro já vendia, no entanto, esse tipo de cordel nos anos 60, em Salvador. Liedo Maranhão divide a literatura de cordel em folhetos e romances, numa classificação popular, onde, bem se vê, estão inseridos temas de mitos e magia, tese e fulcro da I Bienal Latino-Americana: folhetos de eras de santidade, de conselhos, de corrupção de cachorrada e descaração, de profecias, de gracejos, de acontecimentos, de carestia, de exemplos, de discussão, de pelejas, de bravuras, de ABCs, de Padre Cícero, de António Silvino, de Getúlio, de Política, de safadeza e de propaganda. Uma classificação tão, ou, mais completa quanto às da Casa de Ruy Barbosa, no Rio, e do emérito colecionador, com mais de 8.000 títulos em folhetos, Orígenes Lessa.
No “Folhetim”, FSP, 77, dissemos, e cabe repetir aqui: 
“O cordel é, antes de tudo, e euclideanamente, um forte. Vive, revive, sobrevivente, transcendente... É o telúrico poético e o cantante sonoro da alma nordestina... É o sangue encardido da ignorância letrada e da inteligência aculturada... cultura popular autêntica, crua e fantástica, apolínea e renascentista, também simbolista, gerada na ponta dos canivetes e das giletes. O cordel sobrevive ao radinho de pilha ao progresso dos incentivos, e vence, aos domingos, a aldeia global, o avanço da televisão no agreste e no Cariri, a estrada asfaltada, a casimira sulina, o arame farpado que cerca, agora, a grota funda onde morreu Lampião justiceiro, o açude sudaneiro, a máquina de costura, o carnê e o facilitário bancário, os baús de felicidade e os pelézões... Resiste a tudo e a todos... E o cordel resiste porque não é pobreza nem riqueza, é presente e futuro, dor e mor, estória medieval e História universal, sagrada e profana. Jornal do sertão e inconsciente coletivo do nordestino, sai e se expressa nas vozes capituladas e gemedeiras improvisadas das grandes noitadas de doidas cantorias... Literatura popular e até cultura espontânea - como a filosofia dos ditos de caminhão, dos riscadores de milagres, dos xingos dos capitães de areia, dos jargões de futebol, dos ápodos das prisões, do morro e da favela. Anjo e diabo, messianismo e catequese, o cordel é menestrel, poesia e euforia, canto cantado e espanto encantado, dum provo sofrido e sobrevivido dançando sobre a pobreza limpa. Serve ao doido do sertão e ao neurótico da cidade grande, porque o cordel cura tudo, até dor de cotovelo, marido chifrudo, a vitória da Arena e a derrota do MDB. É a receita e mesinha, uso e costume, ruído e pandeiro, comunicação do gibão e interação do violão, da viola e do ganzá. Da rebeca do Armorial do Recife, feudal e genial, folclore áudio-escutado em circuito ao ar livre, nada fechado, liberto e democratizado, Deus e o Diabo de Glauber Rocha, sem as tiradas sofisticadas e genialidades destiladas rosianas/guimaroseanas.”

O cordel, com seus ritos e magia, é um tronco cultural do Brasil, arte e ciência, popular e real, fantasioso e artesanal, alicerce do povo, fundamentador e catalisador de desejos e vontades, alma de um homem transplantado, imigrado, misturado, aculturado, sudenizado, miscigenado, favelado, roceiro e jagunço, vaqueiro e sertanejo, poeta, soldado e capitão. É porissso mítico - mágico, e também intelectual e imaginário, citadino e agrário, regional e nacional. Está nas praças do povo, como queria Castro Alves, falando da liberdade, nas violas e nas zabumbas nos aglomerados santificados e chagados, como São Francisco do Canindé e Bom Jesus da Lapa nas folheteiras populares de Juazeiro, Campina Grande e Caruaru até em Itabuna do eminente Minelvino Francisco da Silva. Esses folhetos, com seus votos, ex-votos, têm ainda a autenticidade do grafismo popular, as xilogravuras brutas e primitivas dos mestres Noza, Abraão Batista, J. Borges, J. Barros, Palito, José da Costa Leite e do telúrico Dila. A própria ilustração do cordel revela a mitologia popular em toda a sua plenitude. Assim como as trovas são reminiscências dos menestréis dos séculos XIV e XV, as xilogravuras são equivalentes àquelas impressas toscamente pelos artistas populares da Idade Média. Jos Luyten. 
Lélia Frota, 76, em sua sábia advertência-verdade, in “Mitopoética de nove artistas brasileiros”, diz: “A comum inclinação para olhar com condescendência ainda que aprovadora, a arte marginalizada, onde se inscreve a dos “primitivos”, deve, pois, ser reexaminada por nós. Eles não se inserem num mundo à parte, rústico e pitoresco, trágico e socialmente reivindicador, sobre o qual nos inclinamos como expectadores interessados. Apenas exprimem, com valores próprios e uma linguagem de igual importância à nossa, uma realidade interna e externa comum a todos...” 

CORDEL 
Tema museográfico e estudo bibliográfico, lido e escrito, falado e discutido, no jornal, na escola de folclore, na cultura letrada, na sabença universitária, na antropologia brasileira. 
Arte, suor e vivência de nosso povo nordestino. 
Mitos e magia, na realidade latino-americana. 
Caldo cultural universal, que devemos ouvir, ler, discutir, curtir e defender. 

Luiz Ernesto M. Kawall São Paulo/BRASIL 
 I BIENAL LATINO-AMERICANA 1.978.

O CORDEL VIVE E REVIVE, RESISTENTE

O cordel é, antes de tudo, e euclideanamente, um forte. Vive, revive, sobrevivente, transcendente. No recente “Primeiro Encontro Nacional dos Poetas de Literatura de Cordel”, em Salvador, reunindo violeiros, repentistas, poetas populares e estudiosos foi dito e redito que não existem entidades e associações particulares ou oficiais, de âmbito regional ou estadual, que ajudem o cordel, que pode morrer. O cordel é o telúrico poético e o cantante sonoro da alma nordestina. Jornal do sertão, cultura popular e literatura de sobrevivência. 
O cordel, esse INPS da miséria gratificada na pancada da viola ensolarada e enluarada. No Encontro o objetivo dos cordelistas foi alcançado: aprovação dos estatutos da “Ordem Brasileira dos Poetas da Literatura de Cordel”, dirigida pelo poeta baiano Rodolfo Coelho Cavalcanti - que celebrou 30 anos de atividades de cancioneiro popular - e chamar a atenção nacional para a crítica situação do poeta popular brasileiro. 
O cordel vive, revive, sobrevive, persistente e emergente, pois. É o inconsciente coletivo sertanejo à espera de um Jung caboclo para que o interprete e o eleve ao status da sociologia universitária e da antropológica cultural. Veio de Portugal e da Espanha, foi e é vendido cavalgando um barbante - daí o seu nome cordel - e sua presença no Brasil é fenômeno extraordinário, desde que entre nós introduzido no século passado pela Livraria Garnier e pela tradição oral. 
O cordel é o sangue encardido da ignorância letrada e da inteligência espontânea do nordestino à espera deque os críticos, sociólogos e antropólogos aprofundem na sua sobrevivência arquetípica de um povo vivido e sofrido. Nos seus 80/90 anos de vivência e sobrevivência já produziu milhares de poesias, Abcs e pelejas populares, outros tantos folhetos, tão plenos de cantos e espantos, veio diluviano de criação, populário e vocabulário, temente e penitente do nosso sertão. 
Paulo Dantas, sertanejo curtido que o asfalto paulista não consome, acha que o cordel é a procura coletiva e ancestral de um deus-Deus, que o cabra sertanejo retado da peste procura nos rastros de uma cobra nas pedras, mandacarus e xiquexiques do Bom Jesus da Lapa chagada, na cabeça de um frade decepada no chão lúdico de Canudos, e que morrem, cobra e cabeça, na gemedeira sincopada e alegre da viola: ai, ai, ui, ui, ai, ai, ui, ui. 
O cordel, pois, sejam as histórias famosas como “A Donzela Teodora”, “A Imperatriz Porcina”, “A Chegada de Lampião ao Inferno”, “O Príncipe do Barro Branco e a Princesa do Vai não Torna”, “História do Pavão Misterioso”, “até os atuais “Bebê Diabo apareceu em São Paulo”, “A Vida do Planeta Marte e os Discos Voadores”, “A Morte do Doutor Juscelino e a sua Chegada no Céu”, “O Sapo que desgraça o Corinthians”, “A Moça que Mordeu o Travesseiro pensando ser Roberto Carlos”, “O Trágico Romance de Doca e Ângela Diniz”, e milhares de outros cantores, vive, revive e sobrevive. 
No Pelourinho recauchutado, nas calçadas da Sé tumultuada, nos altos do Elevador Lacerda, onde o imortal Cuíca de Santo Amaro vendia sua produção folhetinesca e rocambolesca, qual um Jorge Amado do populário nacional. Está, pois, presente em Salvador, com a Associação Nacional dos Trovadores de Rodolfo Coelho Cavalcanti e tem até jornal, o “Brasil Poético”, órgão trovadoresco “a serviço dos trovadores populares e da cultura brasileira”. 
Junto ao busto na praça recém inaugurada “Catulo da Paixão Cearense”, outro dos cardeais nacionais da canção e da viola agalopada do nordeste. O cordel está no ativo Grêmio Brasileiro de Trovadores, de Clodoaldo Rodrigues, mas que não tem catalogação dos folhetos, nem biblioteca organizada, nem arquivo de xilogravuras à falta de um museu sempre pretendido, mas nunca alcançado, de literatura de cordel. Enquanto o Museu não vem - ou o Museu da Cultura Popular, em Brasília, Rio ou São Paulo, defendido no último congresso de Cultura, respectivamente, por Maria Luiza Carrazzone, Clarival Valadares e por este jornalista - o cordel vai se perdendo e se consumindo e virando folclores de subsistência. 
Rodolfo ainda trabalha febrilmente, escreve, imprime, edita e vende seus próprios folhetos, alma danada e penada, poeta popular e estafeta, secretário de ferro e defensor do cordel, com sua maleta cheia de contos medievais, estórias de louvação, versos do encantado, pelejas e abcs a difundir os folhetos em sua rede de todo o Brasil. 
O cordel vive e sobrevive, pois, apesar da falta de apoio oficial, nas folhetarias e agentes do todo o Nordeste, Recife, Olinda Juazeiro do Norte, Maceió, Belém, Natal, Teresina e Fortaleza. Nas grandes feiras do sertão, Feira de Santana, Campina Grande, Nazaré das Farinhas e Caruaru. Na “Literatura de Cordel, de José Bernardo da Silva, na Juazeiro do Ceará, onde o Padre Cícero, principalmente depois que virou estátua mais alta que o Cristo Redentor, continua benzedor e milagreiro verde-amarelo, devoção do sertão como o beato Antonio Conselheiro, o santo de Canudos. O cordel está nas folheterias e nas praças públicas do povo, como queria Castro Alves. Está na “A voz da poesia nordestina”, de José da Costa Leite, em Condado (PE), e na editora popular de Dila, em Caruaru, com suas prensas toscas de tipos e impressão manual a imprimir a manivela muda o sujo gráfico-poético da xilogravura imaginária, santeira e encarnada do artesão nordestino. 
Dila é poeta e gravador popular, impressor e delirante vocacional, intelectual e cantador. Não acredita na morte de Lampião e do Conselheiro; e suas visões - impressas em seus folhetos - são líricas e coloridas como as de um Fra Angélico florentino. Dila e J. Borges, Costa Leite, Mestre Noza (Inocêncio da Costa Nick, famoso antes na França que no Brasil), João Barros, Jerônimo Soares, Gilvan Somico, Newton Cavalcanti, Sérvulo Esmeraldo, Iaponi - estes quatro últimos saindo da gravura popular para a obra de arte mais erudita - são entre outros os maiores nomes da xilogravura nordestina. 
Alguns foram editados recentemente pela Galeria Ranulpho do Recife e retratados por estudo do crítico Roberto Pontual. Mas a xilogravura popular do cordel está abandonada e sem dono, os tacos se perdendo em meio às máquinas de impressão manual, lembrando os tempos medievais, quando as prensas tinham pé e toque. A universidade do Ceará guarda algumas centenas de tacos, e é só, eles se perdem nas lojas, folheterias, barracos, impressoras, tipografias do nordeste, cultura popular autêntica, apolínea e renascentista, crua e fantástica, gerada na ponta dos canivetes e das giletes. Num país de pouca memória, aí se vai uma poderosa e maravilhosa fonte de inspiração, do artesanato e da cultura popular emergente e transcendente. 
O cordel, pois, sobrevive, ao radinho de pinha e ao progresso dos incentivos; e vence, aos domingos, a aldeia global, ao avanço da máquina poderosa da televisão no agreste, à estrada asfaltada, à casemira sulina, ao arame farpado que cerca,agora, a grota funda onde morreu Lampião e o açude sudeneiro, à máquina de costura, ao carnê, ao facilitário bancário e aos baús da felicidade ou não. Ele resiste a tudo e todos, esse jornal do sertão transmitido de pai a filho, de geração a geração, essa literatura popular fonte e inspiração de um Ariano Suassuna, de um Guimarães Rosa, de um Cavalcante Proença, mestre cuiabano, rei e escritor, crítico nacionalista, que morreu general reformado, numa festa, com um copo na mão, e cujo filho, Ivan, segue sua trilha e já nos deu pela Imago uma “Ideologia do Cordel”, capaz de competir na editoração do cordel, com a Global Editora, a Vozes, a ECA-USPO, o patriarca Câmara Cascudo, a Fundação Casa de Ruy Barbosa e o Instituto Joaquim Nabuco. O cordel que vai de dois cruzeiros de mão em mão, rondó e redondilha, forró e cantoria, martela agalopado, repente, ABC, trova, disputa e muita peleja, que nisso o cego Aderaldo, o Fonseca, o Bandeira, o Limeira, o Formiga, o Ragaciano, o Dalmo, o Leonardo Mota, o Leandro Gomes de Barros foram, entre outros, imbatíveis. O cordel sobrevive até na São Paulo cruel e cosmopolita, nas andanças do Maxado Nordestino pelo Metrô e Rua Augusta, no Bar dos Repentistas do Brás, na estante da Livraria Brasiliense, entrincheirado nas cantorias de fim de semana na Praça da República, em Osasco, no ABC e nalgumas vilas dos confins palmerianos, que a Capital é a maior população nordestina do Brasil, depois do Nordeste. 
Eta cordel vivente e sobrevivente, endemoniado e de corpo fechado, capaz de vender 100, 150, 200 mil exemplares, com seus tremas da atualidade, histórias de Deus e do Diabo, mulher e cachaça - sempre com uma linha tradicionalista moralista, segundo os estudos do heróico e do messiânico da ideologia e da religiosidade de Luiz Santa Cruz, Luiz Beltrão, Sal Biderman, Renato Carneiro Campos, Raymond Cantel, Mark J. Curran, Alice Mitika Koshiyama, Mario Souto Maior e o incrível Orígenes Lessa, que deixou o feijão e os sonhos para juntar a maior coleção (cerca de 5 mil folhetos) de cordel catalogado do Brasil. O cordel que sobrevive nas coleções particulares e no teatro que às vezes - e, quantas vezes, formal e sem espontaneidade - se cordeliza no Rio e em S. Paulo. 
O cordel de João José da Silva, Manoel Caboclo da Silva, Manoel Camilo dos Santos, Abrão Batista, Jose Martins Atayde (e filhos), José Soares, Severino Milanês, Manuel de Almeida Filho, Minelvino Francisco da Silva, Erotildes Miranda dos Santos, José Pacheco, Aleixo Leite da Silva, Dadinho e Caboclinho, dupla de violeiros baianos, homenageados no “I Encontro Nacional de Poetas da Literatura de Cordel”, de Salvador. 
São os autores e cantadores - e há que se distinguir do autor da poesia, poeta popular, do cantador ou trovador ou repentista - de muito “best-seller” do sertão, com suas histórias e seus ciclos da utopia, do marido logrado, do demônio ativado, dos bichos que falam, do erótico e da obscenidade, dos exemplos ou maldições, do heroico ou fantástico, do amor e bravura, do cômico satírico, segundo classificação de Carlos Alberto Azevedo. 
O cordel vive, sobrevive, resiste e persiste, sim, apesar do imperialismo do cordel feito em S. Paulo, mais recheado e de capa envernizada, vendido mais barato nas feiras do Nordeste. O cordel resiste porque não é pobreza nem riqueza, mas é presente e futuro, dor e amor, estória medieval e História universal sagrada e profano. Jornal do sertão e inconsciente coletivo do nordestino, que sai e se expressa nas vozes capituladas e gemedeiras improvisadas. Literatura popular e até cultura espontânea - como a filosofia dos ditos de caminhão, dos riscadores de milagres, dos xingos, dos capitães de areia, dos jargões do futebol, das prisões, do morro e da favela. Anjo e diabo, messianismo e catequese, o cordel é menestrel, poesia e cantoria, gente carente, canto cantado e espanto encantado, provo sofrido e sobrevivido dançando sobre a pobreza limpa. 
O cordel é cantiga de cego e de catacego, que desconhece as durezas da madureza, os acidentes do trabalho, o talão da Loteria, o telex, a mala direta, o marketing, e, o telefone, e mais importante, Borges e sua biblioteca de Alexandria. O cordel jamais pode ser ambíguo, pois é valente e polivalente, clássico e trágico, tem o umbigo caído no chão e virado poeira coletiva no tempo e no espaço. Serve ao doido do sertão e ao neurótico da cidade grande, porque o cordel cura tudo, até dor de cotovelo, marido chifrudo, a vitória da Arena e a derrota do MDB. 
É receita e mesinha, uso e costume, ruído e pandeiro, comunicação do gibão e interação do violão, folclore áudio-escutado em circuito ao ar livre, nada fechado, liberto e democratizado. Deus e o Diabo, sem as ambiguidades e as genialidades rosianas’guimaroseanas. 
FOLHETIM, Folha de São Paulo, 20 de março de 1977.

LITERATURA DE CORDEL: O JORNAL DO SERTÃO



Notas para o Prof. Rossini Tavares de Lima e seus alunos do Curso de Folclore da Associação Brasileira de Folclore, ministrado no Museu de Artes e Técnicas Populares, SP. 

1. Origens
A literatura oral é mantida e movimentada pela tradição. Ela tem chamado a atenção de estudiosos em todas as partes do mundo. O termo foi criado pelo Frances Paul Sébillot, ao início do século. 
Duas fontes contínuas mantêm a literatura oral, segundo Câmara Cascudo. Uma exclusivamente oral, que se propaga na estória, no canto popular e tradicional, nas danças cantadas, danças de divertimento coletivo, ronda e jogos infantis, cantigas de embalar, nas estrofes das velhas xácaras e romances portugueses, nas músicas anônimas, nos aboios, anedotas, adivinhações, lendas, etc. 
A outra fonte é a reimpressão dos antigos livrinhos, vindos da a Espanha e de Portugal e que são convergências de motivos literários dos séculos XIII, XIV, XV e XVI. Essa literatura popular impressa foi chamada pelos franceses de “colportage” e estudada, em Portugal, por figuras do porte intelectual de Carolina Michaelis de Vasconcellos e Teófilo Braga. Na Alemanha, em 1912, Richard Benz publicou estudo de 5 tomos sobre o tema. 
Ainda hoje se discute se a literatura impressa popular saiu do povo ou foi incluída, pela leitura, na oralidade anônima. Neste campo, ela resulta muitas vezes de uma sobrevivência popular anônima, preservada pela tradição oral e impressa, e, por isso, pode ser também folclórica. Romances, estórias e ABC populares não influenciados por círculos eruditos ou instituições, são, assim, remanescentes legítimos da cultura popular. E podem, pois, ser estudados dentro da conceituação geral do fato folclórico, segundo a definição de Rossini Tavares de Lima. 
Alceu Maynard Araujo diz que a literatura de cordel é a literatura do povo para o povo. 

2. No Brasil 
Pelas notícias que se têm em nosso país, os folhetos de literatura popular impressa (cordel) aparecem em fim do século passado, Contavam histórias medievais e lendas européias. Depois vieram as histórias de cangaço, do misticismo religioso, de amor e de bichos e de profecias. Hoje, o cordel nordestino é um repositório desses itens e dos fatos da atualidade. A nossa literatura de cordel vem sendo estudada desde o início do século, como contribuição que ela representa para a história social, econômica, etnográfica, sociológica e folclórica do povo brasileiro. Leonardo Motta e Gustavo Barroso, não esquecendo Luís da Câmara Cascudo, são seus principais pesquisadores, Nos nossos dias os melhores estudos pertencem as Thiers Martins Moreira, Américo Lacombe, Eugênio Gomes e M. Cavalcanti Proença, este principalmente, da Casa de Ruy Barbosa, do Rio de Janeiro; Ariano Suassuna, Ewandro Rabelo e Vital Fernandes, no Recife; Antonio Martins Filho, em Fortaleza; Théo Brandão, em Maceió, Rodolfo Coelho Cavalcanti, presidente da Associação Nacional de Cantadores e Trovadores, em Jequié; Eurícledes Formiga, em S. Paulo; e Sol Biderman, professor norte-americano, bolsista da Fundação Rockfeller, e Raymond Contel, em Paris. O melhor e mais completo estudo, compreendendo aspectos fundamentais do romanceiro brasileiro, é de M. Cavalcanti Proença e Orígenes Lessa, este o maior colecionador de folhetos de cordel do país. Ambos, com seus colaboradores, elaboraram um trabalho intitulado “Literatura Popular em Verso”, em dois tomos, editado pela Casa de Ruy Barbosa, do Rio de Janeiro. O trovador Rodolfo Coelho Cavalcanti, a quem se deve a realização de dois congressos de cantadores e trovadores, dirige da Bahia o jornal “O Trovador”, recolhendo de longa data achegas do nosso cordel. A literatura popular impressa tem servido de inspiração para escritores consagrados e eruditos. Dois exemplos: Jorge Amado, em cujos livros abundam citações do nosso romanceiro e, Ariano Suassuna, cuja peça mais famosa, “Auto da Compadecida”, é inspirada numa gesta popular. Isso para não citar Euclides, Amadeu Amaral, Afonso Arinos e, mais modernamente, Guimarães Rosa, que tantas vezes usaram as fontes populares orais e impressas para seus escritos. 

3. Generalidades 
O nosso romanceiro popular está contido em folhetos rústicos, impressos em papel de jornal e de embrulho, com capas em xilogravura ou de zincografia, estas reproduzindo geralmente clichês de cinema ou desenhos ingênuos. As estrofes são sextilhas (6 versos) ou martelo-agalopado (10 versos). Nos ABC cada estrofe é iniciada por uma letra do alfabeto, de A a Z. 
São encontrados nas feiras do Nordeste e nas “folheterias”, principalmente na cidade de Salvador, Recife, Juazeiro, Maceió, Belém, Caruaru e São Luiz. Os preços dos folhetos variam, atualmente, de 200 cruzeiros novos a 700 cruzeiros novos cada.
Muitas vezes o próprio poeta é o editor e o vendedor dos folhetos. Poetas percorrem o nordeste, raliando cantorias, e vendendo sua produção. Em muitas feiras já são anunciados por alto-falantes e microfones portáteis. Formam conjuntos, com viola e ganzá, e às vezes bumbo, para acompanhá-los. Há que distinguir, contudo, dos verdadeiros poetas populares, dos meros cantadores caça-níqueis e dos deturpadores semi-eruditos da música sertaneja, principalmente usando o microfone das rádios das grandes capitais. 
As tiragens dos folhetos variam. Afirma-se que o folheto “Peleja entre Cego Aderaldo e Só Pretinho do Tucum” teve uma tiragem, domada, de 500 mil exemplares. Orígenes Lessa diz que no nordeste até analfabeto lê folhetos (pois aprendem de cor as estórias, nos forrós e cantorias). 
Uma arte admirável da literatura de cordel, tão boa quanto a própria, é a gravura em madeira (xilogravura) dos folhetos, principalmente mais antigos. Revelou grandes artífices da gravura popular brasileira. Feita em canivete, gilete ou ponta de facão, permanece como arte ingênua. Muitas têm identidade com a gravura medieval, e, mesmo japonesa, segundo estudo do Museu de Arte Federal da Universidade do Ceará. Inclusive pelas cercaduras trabalhadas. Um estudo do assunto é de Aldemir Martins. 

4. O jornal do sertão 
A revista “Veja” disse bem. O CORDEL É O JORNAL DO SERTÃO. Hoje, dia 20 de novembro de 1969, deve estar sendo rodado, numa das capitais folclóricas do nordeste, um folheto popular sobre o mil-gol de Pelé no Maracanã. Em nossa coleção temos 5 folhetos diferentes sobre o feito dos astronautas pisando a Lua.
Os folhetos em grande tiragem e as cores no sul; a penetração do rádio e da TV e do radinho de pilha; o progresso que atinge o nordeste, com o plástico esmagando a borracha; o mocassino derrubando o couro; o arame farpado substituindo a cerca de mourão; a energia elétrica, a estrada, o jipe, o computador... Tudo isso atingem o mercado do folheto do cordel, que fenece dia a dia. Em muitas cidades já, antes focos de cantadores e violeiros, e Meca dos vendedores de folhetos, é difícil encontrá-los. Hoje são muito mais vendidos os folhetos impressos cá em S. Paulo, na Editora Prelúdio, que compra os direitos autorais dos poetas sertanejos, muitas vezes por ninharias. O poeta-garimpeiro Antonio Teodoro dos Santos, já veio morar em S. Paulo, contratado pela editora. Cuíca de Santo Amaro, que retratava “o escândalo do dia”, morreu em Salvador e não deixou substituto. 
“O trovador popular 
É um repórter ambulante 
Que escreve para o povo 
Toda hora e todo instante 
O que vai acontecendo 
E deste modo vai vivendo 
O Rodolfo Cavalcanti”. 
Luiz Ernesto Kawall

TOZZI: DO POP AO CONCEITUAL


Cláudio Tozzi é paulista de 1944. Arquiteto formado pela FAU-USP, nunca exerceu a arquitetura. Na verdade a FAU foi para Tozzi um trampolim para se projetar no mundo das artes, aliás, uma verdadeira escola de arte, onde a linguagem visual foi o seu grande interesse. 
Nos seus 30 anos, Cláudio Tozzi é um tímido. Porém, objetivo no que pretende. Arrojado na sua arte. Avançado no seu tempo. Fala pouco mas trabalha muito,ininterruptamente,produzindo considerável volume de obras, geradas por uma criatividade singular, fértil e ampla. 
Visivelmente influenciado pelo “pop” norte-americano, Tozzi evoluiu para o conceitual. Faz arte séria sem concessões, sabendo de antemão que seu trabalho é de aceitação difícil pela superação do tempo, de venda problemática pelo “diferente”. O que produz foge dos cânones convencionados de arte. Estabelecidos e arraigados durante séculos. 
Tozzi é um trator que abre uma transamazônica na selva dos tabus e preconceitos, procurando mostrar que, à sombra das grandes árvores, dos velhos troncos que derruba, há uma terra fértil e inexplorada, escondida pelas copas que apenas são vistas, escondendo tudo o mais por baixo. 
Claudio Tozzi - disse Cesar Giobbi - foi até agora o mais pop dos artistas brasileiros, mostrando uma surpreendente evolução em sua obra - “seus trabalhos passaram a ser conceituais, embora muitos deles ainda conservem algumas características de pop-art”. 
Perguntamos a Cláudio Tozzi qual foi a importância da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo em sua obra. A resposta foi clara e objetiva: “A pintura sempre foi para mim a manifestação mais extemporânea da linguagem. Fiz o curso de arquitetura com interesse específico pela comunicação visual, que, dentro da faculdade, proporcionou um desenvolvimento mais amplo da linguagem visual e mais especificamente da pintura. Considero também o espaço um fato comum à arquitetura e à pintura, pois exige uma ligação bastante estreita entre ambas, se pensarmos que se preocupam com o tratamento do espaço. Uma cuidando do espaço físico onde vive o homem, e, outra cuidando do espaço visual onde o homem se projeta”. 
- Então a tela é o limite da arte? 
“É claro - completa Tozzi - não devemos restringir a pintura à dimensão física da tela, pois a pintura pode usar como suporte, a cidade, a edificação, o objeto, o corpo, a mente ou mesmo a película de cinema”.
- E qual, então, a grande preocupação da sua arte? 
“No meu trabalho sempre existiu uma preocupação com a comunicação da imagem, ligada às contradições do cotidiano da cidade, das classes sociais, das pessoas, dos mitos, dos heróis, enfim, de todo o repertório de comunicação de massas. E nada mais espontâneo do que utilizar um tratamento visual análogo aos usados nos meios de comunicação para desmistificar ou inverter a mensagem neles contidas”.
“Então a arte não deve se limitar às quatro paredes do atelier precisa ir para a rua, não esperar que o público venha a ela, mas ela ir a ele?” Tozzi concorda que tal linguagem não deveria estar restrita ao papel ou tela do ateliê, mas, aos grandes painéis em praças ou espaços da cidade, que seriam preenchidos por tratamentos visuais adequados, tornando a cidade mais agradável, pelo menos aos olhos. 
“Assim, fala Tozzi, na minha pintura surgem temas populares, onde o processo de trabalho é bastante semelhante ao de um jornalista que pesquisa dados e codifica a mensagem final”. 
- Cronologicamente, como se desenvolveu a sua pintura? “Em 1965 e 66 realizei uma série de trabalhos tendo como tema a guerra do Vietnã. Nesses trabalhos eram usados como técnica, colagem de figuras apropriadas de revistas e jornais, fixadas no suporte com poliuretano, massas sintéticas, com palavras gravadas em relevo, objetos colados e tintas acrílicas sobre madeira. 
“Em 1967 fiz a série “bandido da luz vermelha”, seqüenciada de trabalhos com a mesma linguagem da história em quadrinhos (Tifany Yones) onde a narração do personagem era definida pelo texto. A mudança de escala do micro-quadro da história em quadrinho para a ampliação da pintura no suporte causava um impacto, reforçando a objetividade da comunicação. Parte dessa série tinha uma lâmpada com luz vermelha presa ao suporte, que acendia e apagava intermitentemente. 
“A fase de 1968 caracterizou-se pela preocupação com sentimentos, aspirações e vibrações coletivas”. 
Tozzi se refere à série “multidões”, painéis de grandes dimensões medindo de 2 a 6 metros, apenas em branco e preto. “Pintura - esclarece o artista - que reduzia a figura à sua forma mais simples à semelhança do alto-contraste em fotografia e aproximando o mais possível da escala natural do homem, de tal forma, que o aspecto se funde com a imagem da tela”. Os tremas desta série de Cláudio Tozzi foram os festivais de música popular, as passeatas estudantis, as torcidas de futebol, as multidões em geral. 
Em 1969 Tozzi adotou o astronauta como tema e explorou o assunto de todos os ângulos. “O tratamento gráfico dos quadros reflete a lentidão e leveza com que o homem andava na Lua. A técnica usada foi o epóxi, duco e esmaltes sintéticos aplicados com compressor e pincel sobre madeira. Fiz uma coleção de quase tudo publicado em jornais is revistas e no ateliê trabalhei as imagens, elaborando a série formada de astronautas em viagem, se alimentando, detalhes da Lua, foguetes”. 
“O ano de 1970 foi bastante variado”. Claudio Tozzi resume sua obra neste período: “trabalhos da série futebol, série de bichos (zebras, leões, cachorros e vacas) e a série de homens fugindo de si mesmos”. 
A fase dos parafusos talvez tenha sido a fase mais marcante do artista, pelo tempo que demorou - dois anos, de 1971 a 1972 - e pela leveza e graça intrínsecas, escondidas para os menos avisados, pela frieza da peça enfocada. O parafuso por si só pouco diz à primeira vista. Mas sua rosca, suas voltas são passos de dança. Esta série de Tozzi é uma verdadeira coreografia ante os olhos do espectador. Um aspecto que entra em choque com o que o próprio artista propôs: “o parafuso representa a torção, a pressão que o homem sofre na sociedade contemporânea”. De outro lado Tozzi concorda ao dizer que quando trabalha com efeitos de luz, sombra, retículas e cores, um objeto de uso técnico, como o parafuso, pode se transformar num elemento de grande força visual. 
Cláudio Tozzi em 1973, fez uma exposição onde apresentou suas telas mostrando multidões e caixas de acrílico onde colocou terra, grama seca, algodão com manchas de cor, que exprimem o conceito da obra. Giobbi na época disse que o artista redimiu a Bienal, mostra internacional que acontecia ao mesmo tempo em que a exposição de Tozzi, “Para os que estiveram decepcionados com o que viram na Bienal no pavilhão do Brasil, é importante ir à Galeria Ralph Camargo e ver a excelente exposição de Cláudio Tozzi - disse Giobbi: “Ele faz a gente acreditar na força e qualidade da arte brasileira”. “Meus trabalhos atuais, em fase de pesquisa, alguns expostos no Salão Paulista de Arte Contemporânea deste ano, são a série “dissociação de cores”. Parte de um conceito - a cor pura e sua dissociação. A cor é registrada em forma geométrica e sua dissociação, até se tornar pigmento, em pequenos pontos que se misturam e se superpõem. A estrutura do quadro - finaliza Tozzi - é em geral geométrica, situando numa área a cor pura, sequência de quadrados coloridos e noutra a sua dissociação. Pontos e tramas que lembram a retícula aberta do out-door, Conclui. 
 Folha de São Paulo - Artes Visuais 5 de janeiro de 1975. 

COR/PIGMENTO/LUZ 
Após ganhar o prêmio Cidade de Jundiaí, no IV Encontro Jundiaiense de Arte, Claudio Tozzi inaugurou individual rotulada de cor/pigmento/luz, com 25 pinturas em tinta acrílica e óleo sobre tela, datadas de 1974 e 1975. 
“Os trabalhos expostos nesta mostra - disse Tozzi - são o conceito de cor pura e sua dissociação. A cor apresenta-se na natureza em forma de luz (energia) e de pigmento (matéria), sendo a cor natural um sistema de energia e/ou matéria. E todo sistema possui sua linguagem - afirma Tozzi - que, para atingir a comunicação, se transforma em perceptivo visual Esse processo transforma o conceito em mensagem visual e cromático: cor/pigmento/luz. 
“Na pintura a mensagem é colocada de uma forma bastante didática: as cores em seu estado natural são apresentadas em sequência de quadrados, onde cada quadrado é uma cor. Noutra área do quadro, após a transformação das cores, que em geral é figurada por um triângulo colorido, a cor surge através de superposição de pequenos pontos que resultam em novas cores por transferência e variação de tons da mesma cor. A cor novamente se transforma em matéria e algumas áreas do quadro são pigmentos puros, a cor/matéria saindo diretamente do tubo e colocada em relevo sobre a tela”. 
Como classificar a fase atual de Cláudio Tozzi? Não seria apenas abstrato, concreto, geométrico. Apresentando sempre trabalhos de vanguarda a cada nova mostra o impressionismo, o cubismo e o concretismo estão ali. Inclusive o figurativo velado que sugere planos de construção, plantas e cortes de uma obra quase irreal.