segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

BRECHERET É BRASILEIRO

– Qual deve ser a atitude do artista, diante da guerra e dos problemas sociais? 
– Uma atitude nacionalista e humana.
Brecheret, respondendo ao Dom Casmurro, Rio, 1942. 


ARACY AMARAL, in Artes Plásticas na Semana de 22, Ed. Perspectiva, pg. 240, diz que Victor Brecheret nasceu em Farnese de Castro, província de Viterbo, Itália, a 22 de fevereiro de 1894. Ainda menino veio para o Brasil com sua irmã Ercília, graças à avó materna, aqui residente. Para a família (foi) sempre Vittorio, conseguiu, contudo a documentação de brasileiro nato graças a amizades influentes (sobretudo D. Veridiana Prado), passando a assinar-se Victor Brecheret. Na família, permaneceu um segredo tático a questão da nacionalidade italiana, enquanto o artista ainda em vida.

Luiz Fernando Gama Pelegrini, casado com a filha de Brecheret, Sandra, mostra a Certidão de Nascimento de Victor Brecheret e Paulina Nanni Brecheret, registrado a 14 de agosto de 1930, sendo declarante Hugo Nanni, e, testemunhas, Vicente Varcas e Antonio da Silva, proprietários e residentes no 20º Distrito do Jardim América. Registro no Livro A – 6, folha 248, n.º 834, Cartório do Registro Civil, Praça Bendito Calixto, 74, Pinheiros, com o clássico “O referido é verdade e dou fé”. O proprietário do Cartório refuta, se insurge e defende a lisura do assentamento e qualquer irregularidade de emissão de certidão. 

– Está tudo certo, claro, legal. Quem duvidar, interpor, protestar, acionar, terá de haver-se com o Código Penal, com a lei brasileira – diz, convicto, o advogado/genro Luiz Fernando Gama Pelegrini.

Sandra Brecheret Pelegrini, num depoimento sentido: – Papai veio do nada. O que fez foi sozinho, era um autodidata. Estudou no Liceu de Artes e Ofícios, aqui, e com o escultor Dazzi, na Itália. Construiu sua arte genial com grande esforço, retratado em muitas de suas obras, como, por exemplo, o épico “Monumento às Bandeiras”, realizado durante 34 anos, inaugurado incompleto segundo o projeto original, e pelo qual pouco ganhou, ao longo do tempo. Não foi ele apenas um marco na história da arte moderna, mais precisamente da Semana de 22, mas, também, sua obra, principalmente a estatuária das pedras, inspiradas na cultura indígena/marajoara, continua extremamente vanguardista e arrojada. Recentemente, Brecheret foi citado, em 37 linhas, no “Dicionaire des Peintres – Sculpteurs”, de E. Benezit, Nouvelle Edition, 1976, Librairie Grund, Paris, como um dos maiores escultores do mundo neste século. Foi um homem que conheceu a fome, durante a 1ª Guerra mundial. Falava pouco e observava muito, gostava da família, da chácara de Osasco, da casa de São Vicente, da fazenda de Cláudio Amaral, em Atibaia, onde fez uma capela com belíssimo afresco, certa vez restaurado por Rebolo. E, aqui, da chácara de João Moura, onde, agora, estamos levantando em sua homenagem, com esforço próprio, e sem qualquer colaboração oficial, o Museu Brecheret. É um pequeno culto familiar, mas sincero e merecido, que um doaremos à cidade de São Paulo. 

Claudino Amaral conheceu Brecheret “a vida toda”, desde que ele tinha ateliê na Oscar Freire, junto ao Centro Acadêmico da Faculdade de Medicina do Araçá, em anos idos. 

– Fui um amigo fraterno de Brecheret, como meus cunhados Tito e Hugo Ribeiro de Almeida, Segall, Rebolo, Silvio Penteado, Tarsila, Nonê, Rino Levi, Luiz Cintra do Prado, Menotti del Picchia, Portinari. Este sempre quis trocar um quadro com uma peça de Brecheret, mas nunca acertaram. O casamento de Brecheret com sua prima, Juranda, foi um grande acontecimento. Taciturno, quieto, com sua boina preta e seu grande coração, amava sua arte e sua família. Vinha com a mulher e filhos passar férias ou fins de semana em Atibaia, onde procurava descanso, paz, a solidão das árvores, o ar puro, o por do sol. Uma figura humana, um homem afetuoso com os seus e com os amigos, um artista admirável. A arte brasileira deve-lhe muito. 

Brecheret nasceu e viveu escultor. Ganhou dinheiro, mas, não tanto. Era seguro. Vendia suas obras, pelo preço que marcava, não fazia concessões. Foi padrinho de casamento de John e Regina Graz. Era cardíaco. Não se engajava em política, mas, opinava. Gostava de cantar cançonetas francesas, picantes. De uma boa pizza, queijos e vinhos. Detestava comer fora de casa. Adorava andar de navio – e dizia que, quando velho, desejava ser retratista de navio. Sua fiel companheira francesa, Simone Bordet, até hoje faz exposições e propaga sua arte na Europa. Ganhou a Legião de Honra do Governo da França. Vários prêmios aqui e no exterior. Inclusive Melhor Escultor Nacional, na 1ª Bienal de São Paulo. Seu filho Victor, engenheiro da CESP, diz que Brecheret gostava de navios, pesca e mar. Morreu a 22 de dezembro de 1955, guiando seu carro, entrando na garage de sua casa, com o Mercury. Tinha ido assistir, sozinho, a um filme de Gina Lolobrigida. A Lolô que, com Sofia Loren, era uma das paixões românticas de Victor Nanni Brecheret. 

O IANELLI DE VOLPI 
Volpi fez 83 anos e celebrou com 163 amigos – todo o ano, a turma dos eleitos aumenta – na Cantina Balila, no Brás, toda engalanada com bandeirinhas volpianas. Massas e chiantis contentaram a todos, sendo os discursos puxados por Domingos Giobbi, presidente da AAV – Associação dos Amigos de Volpi, e outros oradores inflamados. Volpi todos os anos ganha um quadro. E este ano queria ganhar uma obra de Ianelli. Eugênia foi comprar, mas o artista, gentilmente, ofereceu a obra abstrato-lírica. 

O difícil foi escolher qual a melhor. O próprio pintor fixou-se em três delas e pediu a opinião de Paulo Mendes de Almeida que optou por uma de tons azuis. Houve indecisão.. E todos acharam melhor que o próprio Volpi escolhesse, sem que ele desconfiasse que seu presente fosse aquele. Inventou-se uma história: Ianelli ia expor uma daquelas três telas no exterior e queriam a opinião do mestre. Volpi achou as três muito boas e disse: “Mande as três”. E nada ficou escolhido. Por fim decidiu-se pelo azul. Dias depois Volpi, quando fazia paciência e fumava seu cigarrinho de palha, recebeu em casa o presente. Ele olha e ri o velo riso franco e aberto: 
– Me enganaram... parece. Óstia! 

Folha de São Paulo, 1º de julho de 1979.

PAIM, A CRÍTICA À SEMANA DE 22

                                                                              Antônio Paim Vieira (SP, 1895), enxuto em seus 84 anos, a tez morena, emoldurara pelos brancos cabelos, alegre, disposto e falante, nos recebe em sua residência ateliê na Avenida Cidade Jardim, onde mora a uns 20 anos, desde que se mudou da Chácara do Capão na Rua Paim (assim chamada em homenagem à sua família). Ali vive o velho professor – da Faculdade de Bragança e da UNICAMP – a sua profissão de ceramista, gravador, paisagista, decorador, folclorista e intelectual. Descendente de ingleses (Paim) e portugueses (Vieira – da família do Padre, talvez), ai vivendo uma vida ativa e atuante, ainda gravando, ensinando, fazendo azulejos, queimando cerâmicas, escrevendo artigos, compondo os óleos populares e telúricos que Renot está interessado em expor, em breve. E, sobretudo, o “velho” Paim, gosta de reviver as memórias, desde a Semana de 22, de filosofar e de estrilar, com franqueza e rudeza. 

– Vivemos, hoje, sob o signo do ódio... Por isto, tudo vai mal. Não há clima para as artes superiores... A vida é composta dos filhos de Caim, e, dos filhos de Abel... O remédio, acho, é enchermos o coração de tanta bondade, que transborde para as nos nossas obras, tornando-as apenas mensagens de poesia. 

– Qual sua participação na Semana de 22? 

– A bem da verdade, nunca, em minha vida artística, fiz parte de grupo algum. Em 22, já era professor de desenho, retratista, ilustrador e gravador. Ilustrei nessa época o “Fon Fon”, o “Paratodos” e “As Máscaras”, de Menotti e logo a seguir a revista “Ariel”. Na Semana, cooperei como co-autor dos trabalhos do Yan de Almeida Prado, alguns desenhos. Mas nunca fiz parte oficial daquela patota alegre, que fez a Semana com tanto ruído, esnobação e política. 

– Continua, pois, fiel à sua arte “inovadora” para aquela época e “independente”, como diz o prof. Bardi? 

– Sim, hoje, ontem, sempre, mais do que nunca. Os modernistas, por pura pose, aceitavam tudo, tinham a volúpia do moderno, nem que não fosse coisa boa... Zombavam dos humildes, não tinham um gesto de piedade... Eram grã-finos, ligados às doutrinas estrangeiras, defensores de uma arte importada, com exceções, e às vezes, cultores de um realismo triste e torpe... Eu, pelo menos, na época, como em toda minha vida e até hoje, continuo fiel à cultura espontânea do povo, à inspiração das manifestações populares, à fé e à tradição da gente sofrida e humilde que compõe a nossa população... Sempre representei o sentimento nativo, puro e folclórico do povo brasileiro, e nunca tive, nem tenho, razões para mudar ou para me arrepender disto. 

Paim vive com a mulher, Rita, e, nos fins de semana, recebe em casa a filha única Maria Merita e as netas. Sua atividade principal é a didática – o ensino, nas faculdades e na imprensa, e, como artista, a cerâmica sempre inspirada em motivos indígenas, a cerâmica e a pintura. A Secretaria Estadual de Cultura planeja, por indicação de Miroel Silveira, uma grande homenagem a paim, por seus quase 70 anos de arte. Decora ainda igrejas na capital e interior, sendo a mais conhecida obra sua realizada para a Igreja N. S. do Brasil – pinturas murais, cerâmicas, incluindo 6 altares com 8 metros de altura cada. Ele volta a 22: 

– Minha participação entre os participantes da renovação artística do Brasil pode explicar-se assim: nesse tempo, 1916, nós estávamos fortemente comprometidos com o academismo e o classicismo mitológico de importação. Bastava não aceitar esses moldes para definir uma posição apartada dessa escola, e, até, de certo modo adversa a ela. Os trabalhos apresentados, dessa época, dão testemunho disso. Já se manifestava, entre os novos valores das artes, uma insatisfação com o que existia e uma nítida tendência para a afirmação da brasilidade, apresentando temas nacionais no campo das artes plásticas, como já havia exemplos nas atividades literárias. A crítica que faço hoje à Semana de 22 é a mesma de sempre. 

– Qual é? 

–... A Semana causou-se certa frustração no que toca aos seus objetivos de afirmação de brasilidade que ela não satisfez. E em certos casos desserviu, metendo riso à estranheza do povo pelo que lhe apresentava com indisfarçável intenção de escândalo. Como que passando diploma de ignorantes a quem fora ali receber esclarecimento de promotores que, do assunto, estivessem talvez na mesma situação. O “snobismo” triunfava! Imaginem um médico que cai numa gargalhada, ao receber um coxo, que o procura para que o cure... O máximo que podemos creditar à Semana foi o de combater a rotina a que as artes se estavam submetendo, empobrecida de valores espirituais. Foi só. As artes passaram, então, a ser puras habilidades, sem nenhuma mensagem. 

– E atualmente, como vê a arte brasileira? 

Paim diz que atualmente a arte tupiniquim está em compasso de espera, pois a “Semana de 22 desacreditou o que havia, mesmo o que era bom, e não trouxe nada de valor, para colocar no lugar do que ficou vazio”... – “Já se passaram 50 anos. Se considerarmos os 50 anteriores a 22 poderemos neles incluir tudo o que de grande produzimos, nas várias manifestações das artes... Estamos tentando aclimatar ao nosso meio o modernismo de fora... em vez de pesquisa, predomina ainda a importação. É que pesquisa é trabalho duro. Desde 22 os modernistas gostam de passar por pessoas muito lidas nas publicações dos países estranhos.” 

Folha de São Paulo, 02 de setembro de 1979.

O MAM NÃO FECHA


O Museu de Arte Moderna de São Paulo está em crise financeira, mas, não será fechado, garante seu presidente Flávio Pinho de Almeida. A cultura brasileira não permitiria que o MAM paulista fechasse as portas – pelo seu passado, pela sua formação, pela sua história, pelo seu acervo, pela sua representatividade, pelas exposições, pelas retrospectivas, panoramas e trienais que promove e realiza. São Paulo pegaria em armas, isto é, em alguns milhares de cruzeiros, se a ameaça se concretizasse seriamente – e o MAM está salvo. 

Mas nem Flávio Pinho, nem muitos associados, como tanta gente que se preocupa com o destino do MAM, sabe que o Museu de Arte Moderna foi formado em 1947, por um grupo e pioneiros idealistas, contando com o apoio decidido de Nelson Rockfeller e Francisco Matarazzo Sobrinho, o “Ciccillo”. 

Francisco Luis Almeida Sales, em desses idealistas, depõe agora, pela primeira vez, sobre a formação histórica do MAM – ele toma guaraná imitando uísque, no barzinho novo, e pontifica em meio a roda certa e fraterna: 

-“Nos meados de 1947, “Ciccillo”, recém casado, viajou em lua-de-mel com Yolanda Penteado, para a Europa.. Estava precisamente em Roma, e, antes de viajar, tinha-nos dito que desejava abrir em São Paulo uma galeria de arte moderna... Não tínhamos, então, nenhuma nesta cidade, e as mostras de arte eram realizadas em livrarias que cediam eventual espaço. Chega a São Paulo Nelson Rockfeller, falando em fundar aqui um museu de arte-moderna, congênere do MAM de Nova York. Pusemo-nos a campo, e uma reunião foi realizada na Biblioteca Municipal, presentes Nelson e os interessados – intelectuais, jornalistas, críticos, artistas e empresários. Rockfeller exibiu obras que trouxera dos Estados Unidos e doava, naquele instante, ao futuro Museu de Arte Moderna paulista. Eram obras importantes, que se constituíam, desde logo, no núcleo fundador do primeiro acervo do Museu: 1 Picasso, 1 Chagall, 1 Braque, 1 Leger, entre várias outras obras famosas. 

-“Nessa reunião, toda ela realizada em ambiente de entusiasmo, aprovou-se a idéia de se formar uma comissão organizadora do nosso MAM, que acabou assim constituída: Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade Filho, Paulo Mendes de Almeida, Sérgio Milliet e Francisco Luis de Almeida Sales. Rockfeller, que falava espanhol, deu as explicações necessárias, e enfileirou no palco, os quadros que nos oferecia, o que nos deixava embasbacados... Coube a mim elaborar os estatutos do MAM de São Paulo,e, enquanto os redigia, dias depois, chega “Ciccillo” de volta da Europa, onde fizera contatos importantes. Houve então, imediatamente, a fusão entre a idéia de fundar uma moderna galeria de arte, e a criação do Museu de Arte Moderna, que já acontecia na realidade. Em conseqüência disso, nasceu o Museu de Arte Moderna, com “Ciccillo”, presidente da primeira diretoria, que se reunia, inicialmente, na sala da Metalúrgica Matarazzo, no Brás. “Ciccillo” criara, para sustentar o nível da organização, em seus primeiros passos, a Fundação Andréa Matarazzo, em homenagem a seu pai, irmão do poderoso conde Matarazzo. 

-“Logo, então, conseguimos uma sede provisória, no prédio dos Diários Associados, na Rua Sete de Abril, 230, 3º andar. Entrávamos pelos elevadores dos fundos, e o MAM possuía um mezanino, e, também, um bar – que foi sempre uma tradição inseparável do Museu – dirigido pelo Jimmy, um inglês de renome internacional, e em seguida pelo Artur, caipira-mineiro de Ariuoca, terra de Dantas Motta... O Museu de Arte de São Paulo, o do Chateaubriant e do Bardi, foi fundado simultaneamente, não sendo pois exato que, no tempo, um tenha sido fundado antes do outro. São, sim, irmãos em época de fundação, local inicial de instalação e até nas finalidades, e só mais tarde, com o correr dos anos, cada um adquiriu características, público, local, funcionamento e atividades próprias. 

-“A primeira exposição do nosso MAM foi de pintura abstrata internacional, organizada pelo belga Leon Degand, nosso primeiro Diretor, contratado por “Ciccillo” em Paris. O Museu de Arte Moderna de São Paulo começava, assim, sua marcha ascensional dentro da cultura brasileira e os episódios que vieram depois, a partir de 1961, com a doação de seu acervo por Yolanda e Matarazzo à Universidade de São Paulo, gerando a formação de um novo museu – o Museu de Arte Contemporânea/USP – abalaram, Mas não fizeram com que o MAM morresse. Criamos uma sociedade civil, comandada por Oscar Pedroso Horta e com a ajuda inestimável de seu irmão Pedroso d’Horta, e funcionávamos provisoriamente no edifício Itália, na esquina da Ipiranga com a São Luís, e, depois, no Conjunto Nacional da avenida Paulista. Em 1969, viemos para o Ibirapuera, sob uma das marquises, área doada para o MAM, pelo prefeito Faria Lima. O projeto atual do Museu é do arquiteto Giancarlo Palante, e o bar, foi desenhado por sois especialistas, como os saudosos Luis Coelho e Joaquim Bento Alves de Lima. 

-“Essa é, assim, um pouco – devendo ser enriquecida por outros depoimentos – da história verdadeira da formação do Museu de Arte Moderna de São Paulo, museu que não vai fechar, não, não fechará nunca, não, pois arte e a cultura brasileiras jamais poderiam sofrer tal vexame. Confiamos no atual presidente Flávio Pinho de Almeida, que, temos certeza, ganhará a batalha da conservação do Museu”. 

Folha de São Paulo, 6 de maio de 1979.

NOÊMIA

A tarde vem caindo, garoenta e Noêmia Mourão – a tímida menina de azul ou a bela feiticeira de preto? – vem chegando à “Cosme Velho”. É o vernissage de sua exposição de desenhos, óleos e tapeçarias inspiradas na arte plumária de nossos índios. Noêmia, chamada de “A Debrezinha” há alguns anos por Chateaubriand, continua achando que em arte ainda temos muito a aprender com nossos indígenas. 

– O livro que ilustrei, “Arte Plumária e Máscaras de Danças dos Índios Brasileiros”, saiu durante a Bienal, com financiamento dos amigos do Bradesco. Minhas tapeçarias, gênero a que me dedico ultimamente, são inspiradas nos adornos de 25 tribos indígenas, fontes inesgotáveis para um artista. 

– Você mudou também a sua temática, dos óleos e desenhos? 

 – Não, essa continua mais ou menos igual; rostos, flores, moças, a mesma suavidade de mocinha tímida na pintura, já citada por Geraldo Ferraz. 


– Tem trabalhado muito? 

– Sim e não; continuo contemplativa, preguiçosa, viajante, adorando ficar em casa com meus livros e discos. Só trabalho quando vem uma vontade férrea. 

– E Paris? 

– Continuo fiel a Paria, à família picassiana, da qual me honro de fazer parte, à inspiração temática de Marie Laurencin, suas cores suaves, delicadas, sensíveis, graciosas e leves. 

 – Sua cidade, Bragança, exerceu influência em sua arte? 

– Não, nunca, não sou uma interiorana e sim uma artista – sem desdouro – que buscou marcar a sensibilidade de sua arte nos anos que viveu em Paris e Nova Iorque. 

– E Di Cavalcanti, que influência teve em sua obra? 

– Enorme, como pintor e como homem. A partir do encontro com a minha vocação de artista, ele me orientou e me mostrou que o artista deve ser independente e verdadeiro, sem deixar a pesquisa e a criação autênticas. 

Noêmia gosta de falar de Di. Lê sua última entrevista aqui mesma “A Tribuna”. Esclarece melhor: 

– Como artista, Di é um pintor forte, colorido, brasileiro acima de tudo. Como figura humana é um companheirão, amigo fraterno, inteligentíssimo. E se posso fazer uma confidência, digo que talvez tenha sido eu a única mulher da vida dele e, mais ainda, conforme me têm dito alguns amigos: – Em todas as mulheres que tem tido, Di procura amar sempre uma Noêmia. 

– O que acha da arte de vanguarda? 

– Não cultivo os ismos. Prefiro ficar fiel à minha arte, sempre. A arte concretista, a arte de vanguarda, a arte “pop” ou “op”, a arte eletrônica, etc. e tal, tudo é muito interessante, mas como experiência. Não acredito que fique, a não ser em pequena escala. Tem valor experimental, apenas. Todas as vezes que inovei, feri a minha sensibilidade, busquei caminhos inautênticos e regredi. Só sendo fiel a mim mesma é que tive o reconhecimento da crítica e do público.

César Luís Pires de Mello, 42 anos, neto de Washington Luís, arquiteto (e com Artur Otávio de Camargo Pacheco, o proprietário da “Cosme Velho”), leva Noêmia à inauguração da Mostra “Panorama da Arte Atual Brasileira” (desenho e gravura) no Museu de Arte Moderna. Um crítico presente olha bem seus desenhos a nanquim e acha que ela é “uma herdeira de Renoir”. Ela sorri. Passam salgadinhos, reusa. Está de regime, só faz refeições maiores com suas amigas de sempre, Yolanda Penteado e Moussia Pinto Alves. Muitas vezes parte com elas para aloucadas viagens – Bahia, Minas e Parati. 

Delmiro Gonçalves aparece, diz que Noêmia capta em seus desenhos, em suas cerâmicas, em seus óleos e agora em sua tapeçaria, com “a agudeza de sua sensibilidade, todos os ritmos, as linhas e as cores suaves da vida”. 

Chega, sempre pontualmente atrasado, como de hábito, um dos bons amigos de Noêmia: Francisco Luís Almeida Salles. Chamado a opinar, relembra Vinicius de Moraes: 

– Vi Noêmia pela primeira vez em Paris, quando ela era quase menina. Distraída rabiscando um pedaço de papel. Apresentou de repente um retrato meu. Uma coisa tão rápida e tão espontânea, ao mesmo tempo com tanto caráter local. Olhei Noêmia, admirado: lá estava ela ausente, vagamente imparticipante, perfeitamente configurada no tipo exótico que tem de brasileiro e de oriental. Como se não fosse nada. 

Ela sorri, tímida, essa menina azul-gigante da nossa pintura. 

Noêmia, você está tão linda quanto sua exposição. 

Tão linda, diríamos nós, como a sinhazinha de “A Rosa da Rosa da Rosa”. Ou do quadro tão azul: “A Mulher de Um Dia”. 

Publicado originalmente no jornal "A Tribuna", de Santos, em 27/6/1971.


A CRÍTICA E O PERSONAGEM 
E esse orbe intimista de Noêmia é especialmente paulista e universal, decorrente de educação, meio, tradição, sortilégio e disponibilidade. JOSÉ GERALDO VIEIRA.

O refinamento artístico de Noêmia tem raízes profundas na tradição de nosso povo... ANTONIO BENTO
. 
A base da arte de Noêmia é mesmo o desenho. Atrás de todo quadro de Noêmia, sente-se vibrar a armadura do traço, assim como, sob sua elegante e aparente frouxeza, uma construção vigorosa, frutos tanto da vontade e de disposições deliberadamente entretidas como de dons naturais por parte da artista, ao mesmo tempo hábil e emotiva, que Noêmia è antes de tudo. ROBERTO ALVIM CORREA. 

Vinícius de Moraes diz que os quadros de Noêmia nos transmitem uma sensação de leveza esvoaçante – está bem dito, isto, poeta. Os seus cinzas. Rosas e azuis são mitro gabados. Pintora de visão fresca e espontânea... ingenuidade... encanto... suavidade... poética... feminilidade... pureza. MOACYR WERNEK DE CASTRO

O forte da arte de Noêmia não é a força, mas precisadamente a delicadeza... Noêmia é a pintura da humanidade leve, feminina e ágil... Esse reencontro de Noêmia com o público de Soa Paulo, que sempre a admirou, ficará certamente gravado como um dos fatos culturais da vida da cidade. PAULO MENDES DE ALMEIDA
. 
Noêmia é a menina vestida de azul da pintura brasileira. LUIZ MARTINS

IRACEMA


– Não sou primitiva. Não temos primitivos. O primitivo em arte acabou. O mundo das informações, a era das comunicações, polui a arte primitiva autêntica. Hoje, até nossos índios do Amazonas estão atacados de civilização por todos os lados... O primitivo, pois, como um ser sensível, em estado de vocação natural pura, não existe mais. Pode haver, sim, primitivista ou “primitivos”, mas isso é outra questão. 

Pai calabrês, de origem humilde, paulistana do Brás, Iracema é hoje citada pelo crítico francês Anatol Jacovski entre os oito maiores pintores “naifs” do mundo. Suas exposições anuais na GAlerie Seraphine, de Paris, puxadas ao embaixador Lyra Tavares, presente o “grand monde” parisiense, são um sucesso de estação. No seu mundo de arte bruta, popular, ingênua, “naive”, primitivista da Vila Clementino, ao lado do marido jornalista, ela chama a atenção (em francês) de sua filha Clarina. Afaga seus cachorrinhos “Alexim” e “twist”, de ilustre estirpe, filho de um cachorro de Di Cavalcanti e de uma cadela de Maria Della Costa. 

– Primitivos autênticos foram, por exemplo, os pintores rupestres, que faziam arte pura nas cavernas, longe de quaisquer contatos com o mundo de fora. Já imaginou esses que se dizem primitivos, expositores nas ruas e nas praças, o mundo de registros que captam e assimilam, dos jornais e rádios, da televisão e dos cartazes, dos “happenings” urbanos? 

– Qual a característica da sua arte “naive”, ou, melhor, do pintor “naive”? 
– É a pintura pura. É a pintura interior da alma. É a pintura tropical ingênua, autêntica. O pintor “naif” não precisa ser servil, anedótico, drogado, trôpego, senil, para fazer a sua arte de sonhos e de fantasias, de recordações da infância, tocando muitas vezes o mágico e ao fantástico. 

Será por isso que Iracema “salta de flor em flor, de pássaro em pássaro, de lago em lago”, como a descreveu Murilo Mendes, ao apresenta-la numa exposição em Roma? O poeta se fascinava com os azuis, verdes e alaranjados de Iracema, “seus vermelhos inroubáveis”. Iracema nesse ponto define-se e à sua arte: 

– Pinto a natureza pura para fugir ao mundo ruim, para fugir à própria vida. Pinto por uma necessidade neurovegetativa. Se paro de pintar, sofro, destruo, não vivo. Sou de Aquário e, mais que tudo na vida, vivo apaixonadamente da minha arte. 

VOZ INTERIOR 
Ágil, vibrátil, irrequieta, impulsiva, nervosa, elétrica, Iracema é um pequeno computador que não pára. Para formar o Museu do Sol, Iracema alugou um barracão amplo, ao lado de sua casa. Ali estão permanentemente expostos os “naifs”, e há debates, vendas de telas e sua promoção, etc. Iracema é então, não apenas a princesa tropical dos “naifs”, mas sua embaixadora permanente e ativa. Ela se orgulha dessa aproximação com as “almas irmãs”, os “naifs”. 

Geraldo Ferraz é vizinho de Iracema no Guarujá e velho amigo dela e de Guy Arditi. 

Depõe: – Indiscutivelmente, hoje, é Iracema uma pintora qualificada num plano que ousarei chamar feérico – não ingênua, não primitiva, em meu entender, pois que aqui as qualificações citadas servem a quem gagueja. E Iracema possui uma linguagem própria, límpida, o que era de esperar, dados os seus inícios, que mais do que ninguém testemunhei. Essa pintura é feérica no que condiciona a inventividade de imaginação, de domínio pleno da ordenação do milagre, em seus canteiros floridos, em sua paisagem tocada pela graça, enxameada de borboletas e de aves.

Iracema: – Sou apenas uma artista, mas acho que o homem, nesta era tecnológica ameaçadora, deve unicamente crer em si mesmo, em seu interior... O que será de nós se no futuro até as folhas das árvores forem de matéria plástica?... Sou favorável aos hippies, não creio que nada bem comportado valha alguma coisa... Só a agressividade, o lirismo, a contestação não-violenta, tem sentido hoje em dia... Sou sempre fiel à única lei que acho inviolável: não demolir o próximo e isto vai desde não atirar cigarros da janela até recusar a vida pré-propaganda... Os pintores “naifs” não abrem nem encerram um ciclo novo: nós somos a própria permanência do homem diante do seu mundo e da natureza, uma recordação do Éden transposta para a cor e a forma. Os “naifs”, quer se perceba ou não, são personalidades sensitivas excepcionais, obcecadas por seu mundo não poluído interior, infantil, feérico, onírico, alucinante, povoado de magias poéticas e purezas inocentes. 





MUSEU DO SOL 
O seu majestoso Museu do Sol, projeto ousado – um museu de 400 metros quadrados que abriga arte “naive” daqui e de fora. É os segundo do mundo, no gênero, e corresponde ao museu francês de Laval. Ali está Iracema, reunida aos seus companheiros “naifs” brasileiros, às mestras Elisa da Silveira e Gruben, José Inácio (seu irmão), o cearense Chico da Silva, a carioca Elza de Souza, a Edelweiss, ao caboclo José Antonio da Silva e a Eudydice Bressane, “naif” ilustrativa. 

Iracema Ardit está realizando seu antigo sonho. Reuniu mais de 100 telas de primitivos e ingênuos, de sua coleção particular, no Museu do Sol, na Vila Clementino, em São Paulo. A coleção, informa, inclusive as telas de primitivos estrangeiros, não tem preço. As obras custaram cerca de Cr$ 60 mil, pagos com a arte de Iracema. Ela está agradecendo a ajuda que teve destacando – como colocou no catálogo colorido – os nomes de Michel Weber, Pedro Luiz Toledo Piza, Centro de Artes Novo Mundo e Zilda Vergueiro. 

– O nome Museu do Sol já diz tudo – sol, terra, luz, calor, primavera, cor, mas tem também um sentido simbólico: o de tirar os artistas primitivos da penumbra em que se encontram, quase desconhecidos do grande público... A arte primitiva é pouco conhecida e divulgada no Brasil, são raras as galerias que fazem exposições desses artistas populares... A própria Bienal cancelou há algum tempo a sala dos primitivos, enquanto os salões oficiais poucas vezes convidam os primitivos para mostrar suas obras... Aqui os primitivos que não fazem arte “decoração”, os que não imitam, os que não são meros borradores de tintas, terão a sua vez sempre... E os novos também, vamos abrir uma Sala das Descobertas, para incentivar e ajudar os novos valores. 

O Museu pode se transformar em instituto oficial, se o governo Estadual decidir encampá-lo. O Acervo ali colocado, o segundo do mundo, o primeiro da América Latina, pertence à arte e à cultura brasileira. “Nosso Museu do Sol só perde em número de obras, para o Museu de Laval, na França, terra de Henri Rousseau, mestre da arte primitivista”. Nesse museu estão cerca de30 telas de primitivos brasileiros, doados por ela, numa sana especial que se equipara à dos próprios primitivos franceses e europeus.

– No Brasil, diz Jean Pierre Bouvet, conservador do Museu do Laval, a arte naive é bem menos cortada de suas raízes profundas do que na França, por exemplo. Nisso reside a sua riqueza e o interesse de uma concentração dessa espécie: as várias possibilidades que ela oferece à pesquisa do homem e ao sonho de vida. A arte ingênua (“naif”) encontra agora o seu lugar entre as várias tendências reconhecidas, mas isso não é o mais importante; o que conta é o seu reconhecimento e as possibilidades que lhe estão sendo oferecidas nos últimos tempos de se expressar plenamente, isto é, viver. No Museu do Sol, os pintores e os criadores de objetos descobrirão a riqueza do encontro e a expressão do que procuram ou oferecem de mais verdadeiro... “Pintura naive, pintura popular”, a arte naive não é a arte popular; suas motivações e sua função são bem diversas e outra a utilização. Mas é gerada desse tronco, utiliza frequentemente suas técnicas, seus temas e às vezes explora inconscientemente as suas nostalgias. É assim especialmente interessante que a arte popular esteja representada neste Museu, t anto no seu passado próximo ou remoto como nas suas manifestações presentes. Ela é o suporte humano da arte naive; sua ruptura, até é um exemplo dos contatos entre as civilizações e dos atritos entre os mundos históricos. O pintor é mais propenso do que qualquer um a entender a necessidade de um tal encontro de intenções e formas e mesmo a provoca-lo. Ele vive esses problemas de um outro modo do que com palavras. O trabalho pictórico de Iracema, com também seu sentido de amizade, só poia encaminhá-la a abrir as portas de sua casa as pintores... O Museu do Sol não é apenas a casa dos pintores. Ele é também, o museu de todos aqueles que sonham e entalham com um canivete ou tecem ou fazem do objeto um suporte de beleza a serviço da vida... Por vários aspectos, a nossa época parece sombria, a arte lhe traz por demais vezes a evidência de fracassos, pesquisa desesperada, ícones de derrotas. Precisa-se mais do que nunca de um Museu do Sol e sua criação evoca um gesto de fraternidade que o seu irmão primogênito, o Museu Henri Rousseau, de Laval, saúda com alegria. 

 ALGUMAS DEFINIÇÕES DE IRACEMA

PINTURA “NAIVE” – Quando o artesão se identifica à sua obra criando um estilo pessoal onde retrata seu mundo interior e infantil. Não se pode distinguir um pintor “naif” como se consulta a composição de um remédio. Primitivo, arte bruta, arte popular e folclórica, fica tudo dentro dos limites da pintura “naive”. O verdadeiro “naif” recusa o aprendizado, embora possa flertar com ele. A palavra “naif” não é consistente, não tem tradução, mais sorte teve a pintura cubista. Gosto mais das expressões “puros” e ”ingênuos” para os pintores “naifs”. 

PRIMITIVISTAS – São aqueles que sabem pintar, estudaram, sofrem as influências da comunicação humana, mas exploram um “modo de pintar”. PRIMÁRIOS – São aqueles que exploram temas que as crianças de 4 a 8 anos, com maior talento e sinceridade, fariam melhor.

ARTE BRUTA – É feita pelos “primitivos de rua”, que desejam agredir o público, criando um impacto visual, quando o impacto deveria ser emocional. FOLCLÓRICOS – São os pintores que se prendem ao folclore em termos didáticos, tornando-se um artista de caráter regional. 

PINTURA CAIPIRA – Pintura deturpada, maliciosa, nem devemos tomar conhecimento dela. 

PINTURA “NAIF” – Artista sensível, autêntico, ingênuo, puro, captador do mundo interior, infantil, mágico e fantástico. Os nossos primitivos verdadeiros, quer se perceba ou não, são personalidades sensitivas excepcionais, que expressam nas telas seu mundo interior não poluído, feérico, onírico, alucinante, suas recordações da infância, povoas de magias poéticas e de purezas inocentes... Falo, claro, dos ingênuos autêntico, com sua vocação natural pura, que fazem essa arte maravilhosa que inauguramos no Museu do sol, cheia de luz, calor, cores e, acima de tudo, de amor. 

Por Iracema 
A la orilla del Sena 
Pescadores cansados pescabam viejos peces 
Era otona em Paris 
Las hojas no sabian si quedarse en el árbol 
o caer delas aguas del rio fatigado. 
Varios siglos pesabam 
Sobre la Catedral e color de ceniza 
eran siglos terribles, 
sacos de piedra y sangre. 
La antigua catedral mostraba sua arrugas 
ya no tennia dientes, 
sus ojos pequenitos no miraban a nadie, 
no miraban al cielo.                                                                                                                                   Europa me pació aquel dia 
cansada em su beleza. 
Hasta que por la calle Bonaparte 
me assaltó la pintura de Iracema. 
Fué como presenciar los primeiros amores dela Tierra. 
Todo el bosque nupcial. 
El agua viva. 
La fraganciadel árbol dando gritos 
La furia verde de la primavera. 
Iracema ya, por menos tú no estas cansada 
Te amo. 

Pablo Neruda (a bordo do navio “Lumière”, dezembro de 1965) – Poesia inédita.

PENNACCHI

A preocupação principal da minha existência, hoje em dia, como da minha senhora, está em cumprir as leis de Deus, o nosso Grande Mestre... Educar os filhos, prepará-los para o mundo de hoje, cumprir a nossa missão na terra, ganhar a vida espiritual... Estudamos a vida dos santos, sempre comovedoras, somos muito religiosos... Só em Deus encontramos a nobreza, a bondade, a caridade que nos cerca e cuja busca nos torna felizes... Quanto à minha arte, continuo fazendo pintura e cerâmica, desenhos, afrescos, se há alguma encomenda... A Collectio quer organizar uma grande retrospectiva de toda a minha obra, desses 40 anos em que procurei retratar a gente simples e humilde do Brasil... Este país maravilhoso, grande, universal na extensão e na alma de seu povo simples, acolhedor, humano, comovente, poético... Interessa prosseguir, sim, e estou fazendo estes dias um presépio em terracota para d. Cecília Mesquita, mas, também, não posso deixar a casa, minha senhora , os filhos... E, sobretudo, a procura de Deus. 

Fúlvio Pennacchi acaba de chegar. Foi buscar uns filhos na escola. Está sem chofer agora, D. Philomena pediu. Ele a conheceu quando ensinava desenho no Dante Alighiere. A filha do conde Atillio Matarazzo, bela, alta, esquia, o atraiu pela serena beleza e nobreza dos sentimentos. Ela queria estudar desenho e acabou a senhora do pintor que chegara da Itália anos antes, disposto a ganhar a vida e tentar melhor sorte no Brasil. Aqui, talvez, pudesse evitar as brigas em família, que detestava, e defender suas ideias nacionalistas. Da união vieram os filhos Marcos, Francisca, Joana, Gabriela, Atílio, Paulo, Lucas e Maria Adélia. 25 anos o mais velho e a última com 6 anos. Todos estudam, Marcos faz administração de Empresas, trabalha também. “Todos têm talento, desenham com facilidade, mas não gostam de pintar”, diz Pennacchi com alguma amargura. Quanto à mulher, sua vocação acabou, “não tem tempo de nada, os filhos e a casa a ocupam o dia todo”... Pennacchi já guardou a Kombi, junto ao Volks alemão, seu preferido para as andanças do fim de semana, Embu e Itapecerica, “ver um pouco de verde, sair da sufocação de São Paulo”. Nas férias a família Pennacchi se desloca alacremente, todos, são as temporadas em São Sebastião, Guarujá, Serra Negra, ou Campos do Jordão. Pennacchi é cortês, fino, tem o ar um pouco cansado.

–... Hoje acordei às 6 horas, tomei um café reforçado, as crianças estavam com muito apetite também... Levei-as ao colégio, voltei, li os jornais, me interesso pela política internacional, os acontecimentos de maior importância... Contudo, de artes leio pouca coisa hoje em dia, o caos está tão grande que ninguém entende mais nada... De manhã ainda me ocupo das coisas da família, às vezes saio para acompanhar os negócios de meu sogro... O conde Atilio está com 83 anos, viaja muito, passa metade do ano na Europa, a gente tem que ver a administração dele também... Saio muito com minha senhora para fazer compras, levar os filhos de cá para lá... Nessas horas é que faço os croquis, no carro mesmo, sentado, esperando, tenho muita facilidade para o desenho... São milhares deles que tenho feito assim, sempre procuro retratar os pobres, os humildes, a gente do povo... A Philomena às vezes diz: – “Olha aquele ali, aquele é seu personagem”... 

Pennacchi está no ateliê, construído no único elevado (metro e pouco) da casa – sua mansão, onde mora desde 1942, no bairro nobre paulistano e é vizinho da família Scarpa. Casa térrea, ampla, arquitetura mediterrânea inspirada no colonial brasileiro, paredes de reboco vermelho sem pintura, com belas árvores circundantes, o pátio interno ajardinado, alto pé direito – uma casa de fazenda, projeto de Pennacchi. Acima do ateliê, a torre romana abriga a caixa d’água. Nas salas internas, pelos corredores, toda a arte pennacchiana, pinturas, afrescos, esculturas, cerâmicas. 

O ateliê, como todo bom ateliê que se preze, tem uma arrumação desorganizada. Só à noite, quando o movimento do dia acabar, Pennacchi vai dedicar-se à sua arte. 

– Almoço e janto com a senhora e os filhos e frequentemente também com minha sogra, mas sigo dia e noite o regime médico, tive uma úlcera em 1951 e não abuso de nada, principalmente do álcool, comida sem gordura, sem sal... Às vezes, numa comemoração, tomo um copo de vinho, um pouco de cerveja... E não fumo há 25 anos, é duro, mas levo essa vida simples assim... Gosto das viagens, ver a paisagem, respirar ar puro, ver o lado humano de nossa gente... O céu, a floresta, os mares brasileiros, os nossos pássaros, tudo isto aqui que o Brasil tem de maravilhoso e que não se encontra em nenhum país do mundo. 

Depois do almoço, um descanso, agora tratou dos pássaros do viveiro grande, são papagaios, rolinhas, saíras, o cardeal. O papagaio fala e imita a barulhada dos filhos. Philomena já manda um recado, o encanador chegou, são providências, contas a acertar. Diz que tem uns 20 desenhos guardados, telas de Bonadei, Rebolo, Volpi, Rossi Ozir, Graciano, esculturas de Del Debbio e Emendabile, peças espanholas e peruanas, imagens antigas de santos. Ele não poderia fazer uma casa assim só com sua pintura, o sogro deu o terreno e ajudou. “acho que esta casa nem o Portinari, nem o Di Cavalcanti poderiam construir, talvez só o Picasso”... Pennacchi ri, dois filhos entram, ele diz que “a mocidade de hoje é como as artes plásticas, está cheia de surpresas, a gente não combina muito...” Gosta sempre de falar dos amigos pintores, do pessoal do Santa Helena, dos antigos e alegres rapazes proletários, hoje senhores respeitáveis e pintores de fama – como ele, e alguns infelizmente falecidos, como o Zanini. 

– ...O Bonadei e o Volpi não gostam de colocar figuras em seus quadros, são dois grandes pintores... Mas eu adoro figuras, principalmente se retratam homens do campo, nossos caboclos, essa gente simples e ingênua, eles movimentam cada tela, acho mesmo que o lado humano é básico na arte... Eu me considero um pintor que atinge a vida humilde que vejo lá fora e rodeia as cidades... Detesto os grã-finos, quando os retrato humoristicamente... Nesse ponto me aproximo dos primitivos, tudo que é humano e pitoresco me interessa... Procuro assim fazer uma arte ingênua e pura, sempre me interessou o primitivismo... E sempre também na linha dos estudos que fiz na Itália, o renascentismo... Aqui no Brasil atingi uma linha própria, fazendo estudos e pesquisando a realidade, aplicando meus conhecimentos plásticos à visão da realidade... O Rebolo tem grande sensibilidade na cor... Tem também o Di, com seu enorme talento, o Guignard, o Pancetti, o Graciano, todos grandes pintores, todos... Quanto aos novos, não lido com eles, não digo nada. 

Fábio Porchat entra; um belo ragazzo, cineasta de talento, já pediu a Gabriela em casamento. Irá fazer um documentário sobre a vida de Pennacchi. 

 Pennacchi diz não concordar com a Bienal, ela é feita com esnobismo e extravagancia, apresentando muitas loucuras, “nesse caso, prefiro as do Juqueri...”. 


 Acha que as bienais não atingem o povo, precisam ser reformuladas, no fundo e forma. Quanto às novas formas de arte, arteônica, arte cinética e outras, “não as compreendo, é como ler árabe”. Mesmo fazendo mil bandeirinhas repetidas, Volpi exprime alguma coisa, pelo menos a cor admirável, acrescenta Pennacchi. 

Ele, quando chegou ao Brasil, era futurista, “mas não havia trabalho para os jovens pintores de então”. Sua grande chance veio quando o padre Millini, do Dante Alighieri o convidou para decorar (e ajudar no projeto) da Igreja N. Sra. da Paz. Vem daí a fama de Pennacchi, painéis e murais, pinturas, afrescos, cerâmicas, encomendas, o estímulo de Emendabile, Ungaretti, Bardi, Osório César, Sérgio Milliet, “Ciccillo” Matarazzo, Cásper Líbero, Botti, Piccollo, Del Debbio... Hoje faz pequenas telas, não aguentaria fisicamente fazer uma obra tão magistral como aquela da igreja... Nem o tempo sobra, à roda dos filhos, da mulher nobre, da casa espetacular, da administração do sogro, das viagens e das leituras, os estudos sobre arte sacra. 

Os quadrinhos são fendidos bem, na “Cosme Velho”, com as grandes molduras douradas – santos e caiçaras, caboclos e procissões, mercados e caipiras, os detalhes e a dimensão humana e religiosa de Fúlvio Pennacchi. Vai até o portão antigo, nas bandeiras coloniais bate um sol de fim de tarde, o toscano Pennacchi se despede afável, o sotaque não perdeu, a voz é rouquenha, quase gutural. Tem o olhar fixo, sua figura é ascética. Ali à roda, as grandes mansões, o artista vai todo domingo com sua família naquela igrejinha, São José, ali perto.

OS RAPAZES PROLETÁRIOS 
... Assinale-se, de passagem, que Mário de Andrade se refere à Família Artística Paulista. Não obstante, o que tem em mira, evidentemente, são os rapazes do Santa Helena, pois eles são os únicos proletários entre os pintores daquela associação. E não psicologicamente, mas proletários “no duro”. Efetivamente Volpi, Rebolo e Zanini eram pintores de parede; Bonadei, bordador; Rizzotti, torneiro e fresador; Manuel Martins, aprendiz de ourives; Pennacchi, dono de um açougue, distribuía carne aos fregueses, escanchado numa motocicleta fajuta; Rosa também teria um ofício manual; e Graciano, embora em 1934 já tivesse uma posição tipicamente pequeno burguesa, como fiscal de imposto de consumo, iniciara sua vida como ajudante de ferreiro, picando carvão para a forja, passando mais tarde a ferroviário, cujo serviço era pintar estações, porteiras, tabuletas e marcos de quilometragem da Estrada de Ferro Sorocabana. Todos em condições econômicas bastante modesta, portanto, dessa posição social onde se enfrentam às duras penas do trabalho braçal. – Paulo Mendes de Almeida (Álbum do Grupo Santa Helena) ... 

Os murais de Fúlvio Pennacchi inspirados no florentino da pré-renascença, são as verdades do Senhor: o Juízo Final, a Natividade da Virgem, o Cristo Crucificado, a Ceia de Emaús, o da Anunciação, o de São Borromeu, de São José, de Santa Catarina de Sena, de Santo Antonio, de São Francisco de Assis e outros. São cenas impressionantes, fixadas nos muros interiores da igreja, não só pela grandiosidade das figuras pintadas, mas ainda pelo caráter um tanto primitivo do desenho. – Leonardo Arroyo (Igrejas de São Paulo) 

...Lembra-me Pennacchi o Paul Claudel da “Annonce Faite a Marie”, mas um Claudel do qual se arrancassem as ousadias verticais, um Claudel sem falhas... sem evasões. – Sérgio Milliet (“Pintores e Pinturas”) 

... Mas voltemos ao Pennacchi atual. Observando seus quadros notamos que estes enfatizam dois importantes fatos dentro de sua obra, o primeiro refere-se à intensa utilização de cores novas e, segundo, observa-se a sua total integração aos motivos brasileiros, conseguindo dessa forma retratar nossas cenas campestres transmitindo tudo o que há de poético e bucólico na vida dos humildes do campo. Ao contrário do inicio de sua carreira, Pennacchi transformou-se num miniaturista, apresentando obras de igual beleza, brilhantismo e mesma elegância nos movimentos, demonstrando sua versatilidade na execução de pequenas grandes obras com a mesma qualidade. Nesses quadros observa-se também uma visível influência da cerâmica, influência benéfica que não altera o caráter sério da composição, mas a apresenta de uma forma mais viva e decorativa... A produção artística de Pennacchi continua até os nossos dias com a mesma força inicial, apesar de diferente na forma, cores e conjunto, e apresenta a mesma qualidade vital e a mesma distinção, mostrando através dela um artista que evoluiu e absorveu tudo que seu meio ambiente forneceu. – Valério Pennacchi (“Comentários” – 1972).

Fúlvio Pennacchi e sua obra Fúlvio Pennacchi nasceu em 27 de dezembro de 1905, na aldeia de Villa Collemandina – Garfagnana (Toscana), de uma antiga casa descendente de nobre estirpe dos senhores dela Penna di Perugia. De uma família tradicionalmente ligada às profissões legais e às artes. Lembramos entre tantos nomes, o de Piermaria Pennacchi, famoso pintor da Escola Veneziana, de quem ainda existem importantes obras datadas de 1520. 

Fúlvio Pennacchi passou a infância em sua aldeia natal e, em 1923 terminando os estudos secundários em Castelnuovo (Garfagnana) e Pisa, dedicou-se ao desenho e à pintura entrando para as academias reais de pintura de Lucca e Florença, licenciando-se em 1927. Entre seus mestres figura o pintor e gravador Pio Semeghini. São dessa época os seus primeiros quadros que retratam o milenar e pitoresco Vale da Garfagnana, bem como os “frisos” decorativos que ainda podem ser vistos nas principais casas da região. Juntamente com irmãos e alguns parentes, Fúlvio Pennacchi transferiu-se para o Brasil, aqui chegando em julho de 1929, começando em seguida o seu trabalho artístico. Nessa época conheceu o escultor Antelo del Debbio com quem começou a trabalhar, chegando a colaborar efetivamente para a apresentação de um projeto em homenagem a Ramos de Azevedo. 

Pennacchi, na crise de 1930 foi levado aos mais variados ramos de trabalho, como decorações florais, publicidade e arte funerária, não muito apreciada naquela época. Nesse difícil período (1930–32), Pennacchi criou os dramáticos quadros com “Cenas da Vida de São Francisco”, que emocionaram o então já conhecido escultor Galileo Emendabile, sendo por ele convidado a trabalhar em seu ateliê. Colaborou em projetos funerários e nos monumentos dedicados aos “Mortos da Revolução de 32” e posteriormente no de Caxias. 

Fúlvio Pennacchi passou pelos anos de 33, 34 e 35 estudando e pintando muito nas técnicas do óleo, aquarela e guache, tendo como temas preferidos as grandes composições murais, paisagens e naturezas mortas. Nessa época, integrando-se ao Grupo Santa Helena exercitou estudos a partir do modelo vivo, adquirindo certa plasticidade apesar de ainda conservar forte influência da arquitetura e da escultura. Nos últimos meses de 1935, Pennacchi participou pela primeira vez de uma mostra de arte coletiva, no Palácio das Arcadas, onde vendeu ao crítico Sérgio Milliet o quadro “Enterrar os Mortos”. Em 1935, Pennacchi tomou parte no Salão Paulista de Belas Artes, quando a comissão encarregada pelo governo municipal adquiriu sua “Fuga para o Egito”. Em 1936, pela sua participação no Salão Nacional de Arte do Rio de Janeiro e no Salão de Belas Artes de São Paulo foram-lhe conferidas as “Grandes Medalhas de Prata”. Nesse período começou a lecionar desenho no “Colégio Dante Alighieri”, atividade que manteve até 1940. Concomitantemente iniciou a decoração de casas particulares, edifícios públicos e igrejas, datando dessa época os murais nas residências de Nicolau Filizola, Antonio Pellegrino e Ciro Ramenzoni. Ainda em 1937, Pennacchi idealizou, projetou e fez construir na fazenda de Agostinho Prada, uma capela adornada com pinturas murais a óleo, retratando a vida da Virgem, via sacra em “terracota”, altar de madeira, vitrais e esculturas. 

Em 1941, começou a tomar forma definida a homenagem que a colônia italiana queria prestar à terra brasileira. Era a Igreja de Nossa Senhora da Paz. Esta é, sem dúvida, a obra em que Pennacchi faz sentir toda a sua técnica e toda a extensão de sua arte. Juntamente com o Engenheiro Pettini, concebeu o projeto arquitetônico, executou murais “afrescos” na igreja e no convento, a Via-Sacra em cerâmica maiolicada e dirigiu desde o início os trabalhos arquitetônicos. 

Em 1952, na Exposição de Arte Moderna foi agraciado com a Pequena Medalha de Ouro. “Em virtude do aparecimento de uma anarquia destrutiva nas artes plásticas”, segundo suas próprias palavras, Pennacchi afastou-se das exposições oficiais e do meio artístico em geral. Reapareceu em 1964, tendo feito em 1973 uma grande exposição retrospectiva de sua obra no Museu de Arte de São Paulo.

DI CAVALCANTI


Bom papo. Bom copo. Fecundo. Irreverente, Demolidor. Sensual. Amigão. Boêmio. Lírico. Urbano. Incansável. Divertido. Florentino. Nostálgico. Generoso. Perfeito carioca. Brasileiríssimo. Carioca com vivência paulista. Universalista. O maior pintor de sua época. Artista sempre jovem. Precursor e comandante da Semana de 22. Mestre de nossa arte moderna. 

Pedro Manoel Gismondi, Paulo Mendes de Almeida, Roberto Alvim Correia, Menotti del Picchia, Luiz Martins, Francisco Luiz Barbosa, Oswald de Andrade, Walter Zanini já disseram, com maestria, o que pensam dele. É inútil acrescentar palavras ao quadro emiliano tão bem traçado.

Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque Melo, 74 anos, 50 de pintura, mil quilômetros de mulatas, pôs uma boina preta, pegou um taxi ali no Ca d’Oro, tocou para o Ibirapuera. Menos gordo, menos esférico, roliço sempre. Di vem chegando com seu ar jovial e seu jeitão de imperador romano ao Museu de Arte Moderna.

Diná Lopes Coelho dá os últimos retoques à grande mostra de 483 peças (telas, desenhos, tapeçarias, joias) – 50 Anos de Arte – Di Cavalcanti. 

– Você se lembra, Diná? Esta exposição nasceu num jantar em sua casa, no ano passado, entre dois vinhos e a simpatia do nosso Luiz Lopes Coelho... Vai ser realizada na minha São Paulo que adoro, onde estudei, vivi, sofri e amei... Mas evidentemente farei tudo para leva-la depois ao Rio de Janeiro, onde nasci, passei minha mocidade, vivo hoje e que amo tanto. 

Joaquim Bento Alves de Lima Neto, esportivo, recém-chegado da fazenda, intervém: 

– Di, esta é a maior realização da atual fase do Museu de Arte Moderna, desde que para cá viemos em 19969, em prédio cedido pelo saudoso prefeito Faria Lima. Para a sua exposição, contamos com o patrocínio do Conselho Estadual de Cultura, da nossa mais alta entidade de crédito, o Banco do Brasil, dezenas de firmas particulares, entidades culturais e os colecionadores de suas obras. Com esta mostra formidável, iniciamos no Brasil as comemorações da Semana de Arte Moderna de 22 que teve em você, Di Cavalcanti, um de seus entusiastas precursores e sem dúvida o maior comandante.

Além de Diná Coelho, os outros organizadores da mostra são Arnaldo Pedroso d’Horta, Artur Otávio Camargo Pacheco, Luiz Arrobas Martins e Paulo Mendes de Almeida. O catálogo é editado por Aleksander Landau, tem 48 reproduções a cores de obras de Di, a introdução é de Luís Martins e as legendas de Paulo Mendes de Almeida. A orelha é de Menotti del Picchia. 

Di sorri, pede para o MAM telegrafar ao governador Chagas Freitas, que virá à inauguração. Vai ver se a tapeçaria “As Múmias” encomendada por JK e cedida agora perlo presidente Médici, está bem colocada à entrada. Di está sereno e loquaz, ágil e inquieto. Majestoso e irreverente, papa e mestre, falando, falando, falando. 

É Paulo Mendes de Almeida, na tripla qualidade de crítico, pesquisador e amigo de Di, quem observa com precisão: 

– Di Cavalcanti é o pintor da vida essencialmente urbana, lidimamente carioca, da gente pobre, que sofrente, mas festiva, da grande cidade. No espírito, no que essa obra respira, e nos comunica, é qualquer coisa como a prosa de Marques Rebelo; a música de Villa-Lobos; ou a versão popular, mas igualmente legítima e importante disso mesmo – o samba de Noel Rosa, os chorinhos de Nazaré e Pixinguinha. Qualquer coisa, enfim, da vida mesmo. Da vida de um pintor e da sua “Cidade Maravilhosa, cheia de encantos mil”. 

Com sua voz sonora e firme, Di Cavalcanti sentado no bar do Ca d’Oro, onde se hospedou, conta reminiscências inéditas a uma jovem pesquisadora do Museu da Imagem e do Som, do Conselho Estadual de Cultura: certa vez em São Paulo seu amigo Oswald de Andrade, que já se retornara conhecido pelos escritos modernistas e atitudes exóticas, levou-o de carro até os arredores da cidade; chegando a um asilo, guardado por zelosas freiras, Oswald saltou o muro para ver lá dentro uma das mais lindas internas mocinhas, por quem se apaixonara doidamente... Conta que seu apelido simplificado vem do nome de uma prima, Didi. Nasceu na casa de José do Patrocínio. Conheceu Bilac, Raimundo Correia, João do Rio, Gilberto Amado, Virgílio de Melo Franco, Jaime Ovalle, Paulo Bittencourt, Assis Chateaubriant, Tristão de Atayde, Manoel Bandeira, Vinícius de Morais, todos os grandes vultos brasileiros dos últimos cinquenta anos.

– Fiz o primário, cursei o Exército, se tivesse continuado seria hoje marechal aposentado. Mas o tempo da farda foi bom, guardei do Exército os exemplos de disciplina, virilidade, força física, que tenho até hoje. Era o Rio imperial e carioca. Mas no Rio, hoje, falta uma coisa – o carioquismo do carioca. O Rio está se provincializando.

Considera-se, por isso, ainda, um homem que em toda vida gostou do pitoresco e de captar com acuidade cada fato da vida. Viveu em Paris, onde era repórter do “Correio da Manhã”. Lá conheceu os maiores pintores e escritores da capital do mundo. 

 Luiz Martins, referindo-se a influências em sua obra, destaca: 

– O que há em Di Cavalcanti de intrinsicamente brasileiro, ou melhor particularizando, de carioca, leva-o a uma interpretação pessoal, a uma espécie de tradução para o mulato das mulheres clássicas e um pouco olímpicas de Picasso, dando-lhes um frêmito, uma malícia e uma indolência que elas não tinham. 

Foi arquivista do “Estado de São Paulo”, marcador de dormentes da Mogiana. Correspondente de imprensa em Paris. Cronista do cotidiano na “Última Hora”. Já escreveu dois livros: “Viagem da Minha Vida” (1955) e “Reminiscências Líricas de um Perfeito Carioca” (1964). Caricaturista exímio e pintor. 

– Por que a mulata é um dos temas preferidos de Di? Ele ri gostosamente e fica sério:

– A mulata, para mim, é um símbolo do Brasil. Ela não é preta nem branca. Nem rica nem pobre. Gosta de dança, gosta de música, gosta de futebol, como o nosso povo. Imagino ela deitada em cama pobre como imagino o país deitado em berço esplêndido. A mulata é o feminino e o Brasil é um dos países mais femininos do mundo. Não temos o machismo do México, O Brasil gira em torno das mulheres. A política brasileira, de todos os tempos, é das coisas mais femininas deste país. 

Todos os nossos poetas cantaram a mulata brasileira. Menos Carlos Drummond de Andrade. Di explica:

– O Drummond não poderia mesmo exaltar a nossa mulata. Ele é hirsuto e sisudo como todo mineiro. E Minas não faz parte do Brasil. Nada mais antibrasileiro do que Minas Gerais. 

Revista a mulata, fala das mulheres:

– Tive várias mulheres, algumas mulatas, claro. Minha primeira mulher é muito amiga minha até hoje, como as outras. Não sou a favor do divórcio, sou a favor do amor livre, por tudo e por todos. Sou um homem que ama os amigos e as mulheres. Não sou homem de abandonar ninguém, muito menos uma mulher. Sou pelo amor total. Tenho até hoje um grande amor pelas pessoas que amei. 

Di recebe a visita de Menotti del Picchia e rememora fatos da Semana de Arte Moderna. O poeta do Juca Mulato diz que Getúlio Vargas reconheceu que a revolução de 30 proveio dos ideais libertários (também) dos modernistas de 22. 

Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque Melo não quer falar de política. Nem da revista “Marcha”, que fez ao tempo da ditadura, com Caio Prado Júnior e Carlos Lacerda. Di diz que participou das “lutas populares”. Considera-se um homem livre. 

 – O mais forte é minha consciência de homem, porque eu, como homem livre, tenho de lutar para que as pessoas que amo sejam livres. Nunca pude, nem posso concordar que a liberdade seja tolhida. E isso eu acho até hoje, que o artista deve criar para a arte e com a arte a mesma grandeza que se deve criara para o homem. O homem nasce disposto a ganhar uma só coisa na vida, e esta coisa é a liberdade. Não digo isso como homem político, eu não sou um homem político. Sou um artista.


Em agradecimento ao prêmio Moinho Santista de 1972, Di Cavalcanti, com sua simplicidade, disse: 

– Foi para mim surpreendente o prêmio que estou recebendo. Sempre acredito que cumpro uma obrigação. Cumpro e cumpri, realizando a minha arte. Sinto-me um escravo do destino e o destino para mim é a dedicação ao trabalho simples e espontâneo. Minha obra de arte é meu trabalho. É meu ofício sem nenhuma preocupação de glória. E quando recebo um prêmio surpreendo-me. É que eu sou no fundo, um pessimista. A exuberância do que realizo, apesar de aparente claridade, esconde-se em sombras profundas criadas pelas desilusões da vida, mas não estou aqui para explicar meu temperamento e muito me faz feliz centralizar esta festa.

Esta festa é mais uma festa que recebo em São Paulo, neste meu São Paulo que me deu independência, que me ensinou a falar como homem livre, a amar, a lutar pelas ideias. São para onde vim estudas letras jurídicas que foram logo trocadas pelas poesias românticas e as pinceladas violentas de um expressionista convincente. 

Hoje tenho 75 anos brasileiros e me considero um ancião quente, um ancião tropical, um ancião vivo, como é viva a grande empresa industrial que dá a seus conterrâneos um prêmio que compensa os esforços de nossa cultura. O mundo hoje está vivendo um momento “sui generis” onde ao lado da força utilitária e opressiva se expande um novo humorismo que forçosamente encontrará a recompensa para os que acreditam na inteligência.

Esta festa aumenta minhas obrigações. 
Não só me glorifica. 
Glorifica as Artes que, no Brasil formam o patrimônio universal da beleza.