sábado, 13 de agosto de 2016

TIPOS POPULARES


Poucos são os tipos populares de São Paulo. 

Ao contrário das cidades pacatas do interior, onde, no bucolismo provinciano. Logo se ressaltam as figuras esquisitas e exóticas, esta capital não apresenta sequer um número regular de pessoas excêntricas. 

A explicação para esse fato talvez tenha um caráter de “civilização”: tamanho é o espraiamento da cidade, tão grande é o seu bulício, tão absorvente é o seu ritmo de vida que, dentro dessa turbulência quase mecânica, os cidadãos são meros autômatos ambulantes, muito iguais, muito uniformes, muito semelhantes e, sobretudo, muito “cocacolizados”, nas próprias suas características de pessoas humanas. 

Mesmo assim se conhece, pelas adjacências do Triângulo, três ou quatro tipos bastante populares. Um deles, o mulato arrogante e hipernóstico, invariavelmente está na rua São Bento, onde faz propaganda de bugigangas várias: bonecos (“chumbeados) que “dansam”, fitas métricas de “cem centímetros”, o ”descascatório” para batatas, e mais umas bolas de ar “prô seu Joãozinho”... 

Não sei como vive esse homem. Louco, ou quase, quando algum freguês menos avisado se aproxima para comprar um dos produtos, ele esbraveja: “Vai’mbora, vai’mbora!”... Depois, espaventoso, continua sua diletante ocupação, sob os olhares de comiseração da turba açodada. (A fileira dois garotos engraxates “vai graxa, mestre?” é que se diverte com o cotruco, e, especialmente, com a verecundia rubra-escarlate do freguês agastadíssimo.)

Popularíssimo, também, é o “vovô” do Viaduto do Chá. Quem, nunca escutou o refrão monótono, candente e simpático “A nova Constituição”, “A lei do Inquilinato”...? Com sol ou chuva, eleição ou tempestade, lá está ele no Viaduto, apregoando sempre a nossa (quase velha) “Nova Constituição” e a sua (nem sempre respeitada) “Lei do Inquilinato”... 

Pobre e velho, absolutamente não aceita esmolas. Certa vez quebrou um braço. Mesmo assim compareceu ao “ponto” com sua pinha de porta-estandartizada de livros e folhetos. Só desta vez, quem assevera é o Chico Hellmeister, pediu ajuda. Então, num gesto amplo, suspendendo o braço incólume bem para o alto, e o apontando, depois, para o engessado, suplicava com sua voz entre “Largo” e “Disparato”: “Ajuda o vovô, ajuda o vovô”! 

Muito o tem por um coitado. Talvez lhes advenha essa opinião por causa da figura e indumentária grotescas do “vovô”: o chapéu sempre murchoso e desabado, os cabelos alvos em desalinho, emoldurando o pescoço, o terno (eterno) ridiculamente grande, presente, talvez, de gordo e demagógico candidato à deputado. Eu, porém, sou de outra opinião. Admiro-o muito. Sempre reparo na nobreza espontânea de seu orgulho, quando pronuncia estas palavras”A nova ortografia; quem não quer ler venha falar comigo”. E contou-me o agitadiço Edson Coelho, da revista “Carroussel”, já o ter visto, por várias vezes, esbravejar contra alguns moleques e brincalhões ostensivos, nos seguintes termos: “Vá trabalhar, vagabundo. Que está fazendo no Viaduto uma hora dessas?!” 

 O digno “vovô” do Viaduto é mesmo um monumento maior que trinta e três prédios Matarazzo juntos.

A IMPRENSA – Maio de 1950

CORREIOS E TELÉGRAFOS

Os Correios e Telégrafos de São Paulo são uma certidão exatíssima de como nossa terra é tratada por parte do Governo da União. Descaso deprimente afrontando todos os dias o brio do paulistano. Repartição burocrática dentro do dinamismo da cidade. Capítulo triste de uma história nefasta de ridicularizantes serviços. Oito letras do vergão de uma chibatada nas costas do paulista: Vergonha! Sim, é vergonhoso o Correio de São Paulo! Instalações acanhadas, cortiços em forma de salas, sujeira pelos corredores, mal distribuídas as secções...

Os avisos ao público são feitos á mão, ao correr da pena, no apanhar de um papel; meles, as caligrafias cansadas dos humildes funcionários rabiscam, em generalizada confusão, dizeres e indicações. “Cartas expressa” é o fel amargo que bebemos todos os dias. Na secção do “Registro” é preciso ter-se à mão o imenso fio de Teseu, para que não nos percamos pelas indicações de numerosas flexas, que indicam sempre seja aquele próximo guichê, o problemático e futuroso “Registro”... As cartas aéreas devem ser colocadas em caixão bárbaro de tão rude, rabiscado, pequeno, receioso no seu cantinho quase invisível. Luta-se na epopeia da conquista de meia grama de cola para o envelope; nervoso é o amontoado das pessoas, o pincel é demagogia, imundíssimo é o mármore e a cola... 

As cartas de porte simples o Correio, em legislação única no mundo, pode enviá-las ou não; quanto às expressas e registradas, essas o Monstro se compromete levá-las ao seu destinatário; mas se elas se extraviarem, queixe-se a quem? 

São freqüentes as discussões na secção dos telegramas: “Não há troco” – “Passei esse telegrama há dez dias...” – “Em Vila Carrão não entregamos” – “Só passamos em português” – “Além dos 2,50 são 4,80 a mais” – “Desculpe: o expediente já fechou...” Alias, o casarão não é notívago: já às dez horas da noite, em fato virgem nas grandes Capitais, Morfeu deita em berço esplêndido,para seu descansar burocrático, o conspícuo e solene Instituto... 

Certa vez, o fato é verídico, aconteceu a um cidadão aqui da Capital colocar carta no Correio endereçada a um morador À Rua Rio de Janeiro, poucas quadras adiante donde residia. Carta expressa e registrada. Demorando a resposta dirige-se o infeliz à Secção de Reclamações do Grande Polvo: fazem-no lá saber que sua carta fora, por engano,enviada ao Estado do Rio de Janeiro..“Mas é muito simples: o sr. enche este requerimento, paga os selos devidos, e manda-a buscar. Si ainda não vier? Ao, faz-se outro , amigo, dirigido então ao Delegado Regional...” Pobre terra! Que o menor dos males seja mesmo a morte, selada, registrada e expressa (apesar de tudo)! 

Os funcionários são poucos e estão ma alojados para tanto serviço: por isso as filas imensas e a má vontade de muitos. Às vezes as discussões ecoam pelas penumbras pelas penumbras (o termo é real), tornam-se ásperos os vocábulos. Entretanto, já no topo dos guichês, os cidadãos são prevenidos, pela maneira mais anti-psicológica possível, de que “Pelo artigo ... da Constituição Federal,será punido, com pena de ]reclusão ou multa , todo aquele que desrespeitar o funcionamento em serviço”... 

Para mim a culpa disso tudo é do Jeca Tatu. Sim, pobre casarão dos Correios, infelizes funcionários, sofredor povo paulista. Vós sois somente vítimas do apalermado Jeca Tatu, que se acocorou desde 1930, no Catete, embasbacado pela Guanabara belíssima, e que se chama Governo da União... 

A IMPRENSA – Outubro-Novembro de 1949

RUAS DE SÃO PAULO

As ruas de São Paulo são... as ruas de São Paulo.E com a licença do Acácio, os nomes de nossas ruas são... os nomes de nossas ruas... Rua da Taquara Branca, Francisca Biriba, em Santana; Amélia Perpétuo, num bairro, Rua Formosa, tão feia...; a Rua F... 

Tristezas na Rua Alegre, a Rua Direita, tão torta, o Triangulo de quatro lados, por que a Rua Biobedas? As trinta e duas ruas Francisco..., quarenta e sete Maria..., sessenta e seis Coronel..., Antonio... sessenta e um. Rua do Gado sem vacas, do Barulho muito quieta,falta o “h” na Baia, Palmeiras sem palestrinos... 

D.Pedro I – o traquinas – em praça grande é cultuado, num parque tem o seu nome, que bela é sua Avenida! D.Pedro II – tão digno – homem culto e de trabalho, monarca Mecenas do Império, ideais em seu governo, caráter reto e notável: humilde e estreita é sua rua, em São Caetano ela está, feia, tosca e mal traçada... 

São quatro as ruas dos vivos: Altino Arantes e Washington, a Presidente Carmona, e, no centro, a Wenceslau Braz. 

Os trocadilhos e Boso, sobre as ruas de São Paulo, são famosos e notórios: “Às vezes a Prefeitura, reforma tanto em Higienópolis, que o bairro fica Porcópolis... Mas, então, basta Ser... jipe, pra nunca mais se Pará, mesmo estando na A... lagoas...” Pediram-lhe um dia fizesse, um trocadilho bem rápido, sobre a Rua Avanhandava, m que estávamos passando: “Ah! vai andá vá!” 

Antonio de Alcântara Machado foi cronista realismo da Rua Caetano Pinto. Mas ainda estão lá as Carmelas, os Gaetaninho safados, os “carcamanos” robustos de seu “Braz, Bexiga e Barra Funda”. Dos sírios è a Vinte e Cinco de Março e os espanhóis “yo soy contra”, comerciam ferro velho ma Rua Piratininga... E os corretores de cambio, descascam seus “abacaxis” (e logo a gente os “divisa”) na velha Rua da Quitanda... Os tubarões têm a Florêncio, dos bancários é a Rua Quinze, e os “bonitos” e as “mepesca”, têm seus anzóis na Barão... 

A Rua Pequena? Tão grande... Das Violetas, sem violetas... Em seu calçamento mal posto, a Original é normal... Sossego e quietude se vê, perdoe o Parnaso a heresia, na Emílio de Menezes... 

Ruas, ruas de São Paulo! Incoerências sublimes... Mas me deixem em paz um dia, no cemitério tão calmo, na Rua da Consolação (agora sim).
 A IMPRENSA – Setembro de 1949

O DINAMISMO DA REGIÃO CENTRAL

Nenhum outro lugar de São Paulo espelha com maior exatidão e fidelidade o dinamismo de nossa Capital do que o trecho compreendido entre as Praças do Correio e Antonio Prado. Ali naquela ladeira – desembocadouro das ruas mais movimentadas da cidade – depreende-se pode-se dizer, toda essa inata quão admirável energia paulistana. 

Principalmente à tardinha, uma sôfrega multidão superlota as calçadas, com as pessoas comprimindo-se entre si num afã quase pânico de andar mais depressa, de passarem umas à frente das outras; a agitação nessa hora é um misto de observar (às vezes, evitar) os sinais de trânsito ou de apanhar logo os bondes para os bairros. Por isso, toda aquela sofreguidão de andar mais depressa, de correr, de voar até, se isso possível fosse. Cada um tem um inadiável destino a cumprir. Até os mais calmos, sentindo-se envolvidos naquele turbilhão de pressa, também, se agigantam nos seus passos e então, adquiridos já dessa estranha “neurose dinâmica”, são outros mais a empurrar e correr. 

Os vendedores de bilhetes de loteria postando-se nos lugares-chaves da ladeira somente azucrinam a paciência dos pedestres com os febris “Hoje dá o macaco!” – “É o macaco para hoje” – “Olha o 18” – “É o último, o último”. Os pregões dos jornaleiros, por sua vez, se cruzam com os silvos estridentes das buzinas de carros neurastênicos e com os intermináveis apitos dos guardas de trânsito. 

Nos letreiros, os anúncios e reclames os mais variados cintilam em verdadeiras apoteoses de luzes e cores, desde este do “Homem que está passando 12 dias e 12noites se comer nem beber”, até aqueles dos fotógrafos que se propõe tirar e revelar “Fotografias em 5 minutos”. E as salsicharias, os bares e os cafés? Neles se pode observar, num mourejar contínuo, toda uma laboriosa e solícita hierarquia de empregado, dos esquálidos servidores dos cafés aos rotundos gerentes dos estabelecimentos. Sobretudo, há um restaurante tão mecanizado e rápido no seu sistema de servir que, nele, ao simples colocar de seus correspondentes valores, os pratos mais variados aparecem como por encanto. Em tudo há movimento, há agitação.

Em meio a tudo isso, as pessoas fazem-se notar por sua diversidade de tipos: junto às assanhadas mas humildes caixeirinhas ou às pálidas servidoras dos balcões, vão, todos circunspectos das suas regalias os “tubarões”, ou os senhores das sinecuras mais rendosas.Junto de um preocupado operário está um advogado aristocrata, perto do “oficce-boy”, o corretor. Naquele pedacinho de avenida, no entanto, às 18 horas, todas as castas, tradições e riquezas se nivelam, perante aquele ciclone da pressa e da preocupação. 

A ladeira São João é a Capital erguendo-se em seu dinamismo espetacular e formidável; e hoje ela bem representa, sem dúvida, essa insuperável fibra dos impolutos bandeirante de ontem. 

 A IMPRENSA – AGOSTO DE 1949

OS DONOS DAS RUAS

Os caminhões são bem os donos das ruas de nossa Capital. Barulhentos, acordam a cidade com o ruído dos motores e os guinchos de suas engrenagens. Resolutos, suplantam os carros menores fechando-os nas curvas, cortando-os nas retas,soberbos, na fortaleza do chassis e com a intrepidez de seus choferes. Impávidos, andam calmamente pelas ruas estreitas ou estorvam o transito mais organizado.

E ai! si o descuidado sinesíforo daquele humilde “Fiat” parou seu carro na frente de um deles: pode estar certo que ouvirá uma interminável hierarquia de desaforos, atirados à sua descendência, em altos brados, pelo motorista esbravejante do caminhão... 

Contudo, os dísticos dos seus pára-choques (a Diretoria de Transito, em portaria inoportuna, acaba de proibi-los, como si pudessem ser freados os sentimentos dos cidadãos) nos oferece um aspecto psicológico, pois fala neles a alma dos choferes, que não nos furtamos de exaltar. Existem mesmo alguns bastante valiosos. Uns, por exemplo, são orgulhosos, objetivos, imponentes: “Sai da frente” – “Leão das estradas” –“Tigre das areias” – “Come rampas” – “Ou vai ou racha” – “Nem te ligo”, etc. Outros são mais lânguidos, dolentes ou feminis. Decerto foram feitos por sentimentais choferes, platonicamente saudosos de suas namoradas... São exemplos: “Eu e você...” –“Bom dia, morena” – “Adeus ingrata” – “Saudades da lourinha”- “Mostra as pernas, mulata”, etc. 

Sobretudo, há um dístico que bem pode ser considerado como encarnação dessas duas espécies – do orgulho e do feminil – e cuja feitura felicíssima por certo lhe dá o mérito de ser o “!primus inter pares” desses lemas de caminhões. É ele, esse notável “Cuidado com meu beijo...” 

Certos dísticos em sua rude simplicidade, clamam por um protetor: “Deus nos guie” – “Vou com Deus”, ou são esperançosos de outras graças: “Vou com minha boa estrela”. Á respeito, conta-se o fato de um desastre entre dois caminhões no qual o chofer de um deles, ficando estraçalhado, perdeu a vida. Curiosas, as testemunhas deste trágico choque cuidaram de saber quais os dísticos dos caminhões sinistrados. O estarrecimento que tiveram ao lerem no para choque do caminhão cujo motorista morreu, um crente “Vou com Deus”, segui-se ao horror de verem, no ileso, um mordacíssimo “Já vai tarde”... 

Certos dísticos refletem bem a chamada filosofia popular. São pequenos ditos chistosos, alegres frases ou simples epítetos, usados na sua maioria pela gente pacata dos bairros. Temos os exemplos: “É por que é” – “Não faz hora comigo” – “Já vou tarde” – “Vai por mim que vai bem” – “O Biriba esteve aqui”, etc... Existem mesmo alguns cheios de exaltação, prenhes de patriotismo: “Isto é São Paulo” – “Viva o Brasil”.

Ainda bem que não apareceram dísticos relacionados com política. Porque si os seus dizeres apresentassem as ironias, advertências ou reprovações que merecem os nossos governantes e políticos (“Demagogo dos pampas” – “Que dê as promessas” – “Marmita... de ouro”, etc.), sua crua realidade, no entanto, mais refletiria essa triste situação de nosso país que a todos nós é dolorosa. 

A IMPRENSA – Junho-julho de 1949

ALFAIATES

Alfaiates... 

Não é fácil falar de alfaiates. 
Paradoxalmente, nunca acreditei que esse assunto desse mesmo muito pano para mangas. 
Com riscos, principalmente, de perder-se o fio da meada. 
O que, em se tratando de costureiros, poria a perder, também, tudo o que Marta fiou. 
E o que cronista confiou. 
Alfaiates... 
Levei mesmo algum tempo costurando alguns alinhavos que me permitissem o remate final. 
É verdade que para abordar certos fatos, tive que tecer algumas considerações, em várias linhas. 
Mas, isto, segundo os fregueses mensalistas destas crônicas, é resultado do feitio do meu terno e arrevesado modo de escrever. 
Sobretudo do meu terno. _ .

 – Alfaiates...
Existem, em São Paulo, de todos os tipos, para todos os gostos; existem os das classes mais favorecidas: os ternos impecáveis, os coletes ajanotados, os vincos das calças caindo com perfeição. Existem exímios para os “dons-juans” glostorados da Barão de Itapetininga; o terno-saco beirando os joelhos, exagerados os enchimentos dos ombros, e italianamente estreitas as calças, com bainhas e barras que abotoam os calcanhares. Existem os especialistas em ternos para os “Tarzan, filho de alfaiate”... Neste grupo, o nome já indica, talvez se possa incluir a alfaiataria “Adonis” da Líbero Badaró e a “Perita”, da rua São Bento. 

Há alguns alfaiates de nomes intrincados, acusando sua descendência: Bagdonas Alexander, Arruda Olavinho, Sierra Capuccio, Swaletz Boieiras, Credidio Credidio, Mordea M Rochwerger, S.Schivartche,Yokata Motimasa, Sanshowsky, Berco Chaim Rollnich e outros. E algumas alfaiatarias de compridos nomes: Alfaiataria Irmão de Paulo, Alresa – Alfaiates Reunidos Sociedade Anônima, etc. Mas, todos decerto, trabalham mais depressa que o alfaiate Cilento, da rua José Bonifácio. 

Na Vila Mariana existe um Bueno, Alfaiate. Na Espanha, dizem, era um mau costureiro. No Brasil, especialmente naquele bairro, tornou-se Bueno Alfaiate, Questão de trocadilhogia... 

Por sua vez, o bairro de Perdizes apresenta uma das mais importantes costureiras da capital. Mora à rua Cardoso de Almeida e chama-se Sofia. Sua freguesia é enorme e selecionada. Não faz outra coisa senão costurar. Na verdade, só fia. Apesar disso, não acumulou ainda grandes ganhos: só fia... Imagina-se que tal costureira nunca conseguiria escrever novelas; no máximo, editaria novelos. 

Três vezes alta! Uma costureira do bairro da Aclimação, chama-se dona Auta, é alta, e em altas costuras é especialista. 

Mas é mesmo cheia de percalços a vida dos alfaiates. As cobranças em prestações são comuns. Mais comuns ainda, no entanto, são certos “esquecimentos” dos prestamistas. Talvez por isso, a esse conjunto de fregueses, o nome de uma alfaiataria da Praça da Sé, (Grassi, Deves) é bastante psicológico. 

Certos “magazines” têm também sua alfaiataria própria. É o caso, por exemplo, de A Exposição, da Praça do Patriarca. Aliás, essa casa, recentemente numa de suas liquidações, colocou à entrada de sua secção de roupas, uma faixa enorme, onde se liam os dizeres: “Liquidação de fato”. Esse “fato”, aliás, foi comentadíssimo. Dizem que o trocadilho daquela faixa foi feito sem querer, inconscientemente. Neste caso, penso, seria um trocadilho de direito, não de fato... 

Mas nome interessante mesmo, para a sua profissão, é o do Sr. Catapano, que tem alfaiataria à Rua Líbero Badaró, perto da Rua José Bonifácio. Esse, decerto, passará a vida toda trabalhando a todo pano... Em compensação, quando morrer, poderá merecer um epitáfio mais ou menos assim: 
“Este alfaiate morreu 
E já faz bem quase um ano; 
Morreu de tanta costura, 
E ainda assim, 
Cata pano!” 

Mas deixemos de tesourar os alfaiates.

BALBURDIA ORTOGRÁFICA

Não queremos apontara aqui as causas coniventes com essa balburdia ortográfica que vai pela nossa Capital. Por isso, deixemos de lado a inércia dos governantes quanto a essa questão, e as incessantes, mas inócuas, regras dos gramáticos. Aqui somos cronistas, de críticos não nos vestimos. 

A realidade é que esta pobre terra de Piratininga, tão vaidosa de suas tradições, de suas grandezas, de sua responsabilidade perante os outros Estados, apresenta, aos visitantes, um contraste chocante no que concerne aos seus letreiros, cartazes, rótulos, inscrições, taboletas e anúncios. Neles se vê coisas incríveis! 

Uma confeitaria na Avenida São João, por exemplo,vende, há mais de três anos, “Doçes” (sim, com cedilha)... Outra, por sua vez, anuncia “Sorvetes de côcô” ... 

Na Rua Barão de Itapetininga existia, até há pouco tempo, uma loja que apresentava ‘Meias para senhoras de seda”... E os tradicionais “Aqui vendem-se casas”, “Aqui vendem-se relógios”? 

Certo bairro tem um “Butikin”... Outro, um “Gymnasio”... Aqui é de prever-sr a instrução das aos alunos... E os que estão matriculados nas suas “Aulas de Dactylographya”? 

Sobretudo há uma padaria tão revolucionária, que não se peja de apresentar em seus dizeres um incrível “Pannnificadora”, com três nn! Talvez é por que vendam ali pão de três tipos: amanhecido, embolorado e pão que o diabo amassou... 

Lá está, no Cemitério do Araçá, um espalhafatoso Aqui Jazz. E o infeliz morto não era nenhum regente de orquestra... 

Numa casa da Rua XV de Novembro, lê-se no letreiro: “Ótica Dental”? Entretanto, desconhece-se um capítulo Dental, na Ótica Física. E também um ramo Ótica, em Odontologia. Por que, então, “Ótica Dental”? Mas, suprema confusão, os produtos que se vendem em tão misteriosa casa parecem não ser dentais, nem óticos: outro letreiro, estabelece, ali, uma “Perfumaria”... 

Um comerciante das cercanias da Estação da Luz parece ter descoberto o mistério da própria existência, pois fabrica uma coisa que, antes de ser, já era! Si não acreditam, vejam o que ele faz: tem uma “Fábrica de Móveis Usados”... 

Ah! Si os paulistas fossem aquele personagem de Monteiro Lobato, que morreu vítima de uma má colocação de pronome... Na verdade, que não seriamos nós, si fossemos outros Aldrovandos Cantagalos? 
A IMPRENSA – Maio de 1949

PSICOLOGIA DO BONDE

Uma lástima, é o termo que mais se coaduna com a análise do serviço de bondes em São Paulo. A carência de carros e a sua impontualidade. Primeiro, e a falta de conforto e os deseducados cobradores, depois, são para o paulistano um suplício, suplício este que se torna calvário de cada dia, pois sem tomar seu cafezinho e o seu bonde diário os habitantes desta terra de Piratininga não ficam... 

Isso, falando materialmente. Na parte espiritual, o bonde é, antes de tudo, um veículo... de psicologia. Nele, os estudantes dessa ciência de Freud encontrariam um farto material para suas observações. Porque em nenhum outro lugar a alma humana fica tão devassada como nos bondes. Por quê? Complexos, recalques? Talvez. Psicologia das multidões? Quem sabe. Mas, deixemos falar os fatos que, mais que as palavras, eles evidenciam por si sós. 

Vejamos primeiramente o sentimento de curiosidade. Já repararam na curiosidade dos vizinhos quando estamos lendo alguma coisa? Já notaram o esforço que despendem procurando ver o que estamos vendo, observar o que estamos observando? Incrível o não podermos tirar o mínimo objeto possível dos bolsos sem que a atenção não os penha de sobreaviso para saber o que seja! 

Notório também se mostra o escárnio para com o vexame dos outros passageiros. Como gostaríamos de ver o próximo em má situação, sofrendo os impropérios dos condutores, rendendo-se aos seus insultos... O cinismo não passa despercebido também. Que comoção, que pena, que sofrimento vai pelo bonde se atropela um pobre gato caolho! No entanto, por um passageiro mutilado ou defeituoso, ninguém se compadece. E quanto de cinismo há na atitude de certas pessoas que, para subirem num banco, mostram-se todas corteses e bem educadas, mas, à saída, nem soltam um simples “Com licença”. 

Mas, é sobretudo pela exibição de si mesmas, pelo luxo de serem notadas, é que algumas pessoas querem, nos bondes, evidenciar mais sua arrogância, sua pretensa superioridade. Então, os homens tidos como os mais corteses tornam-se os mais mandões, questionando alto pelo troco, blasfemando por alguma parada nalgum cruzamento, soltando grossas baforadas de mal cheirosos charutos, nos vizinhos. Outras mulheres, por sua vez, - fazendo do bonde o confessionário do mundo – comentam questões íntimas e escabrosas o mais alto possível; e demoram para tirar o correspondente às passagens dado à enormidade de bolsas e de bolsinhas, das quais fazem alarde, que se abrem e se fecham com grande bulha. 

Bem que essa psicologia dos bondes nos entretém e consola. E só por isso não os temos por abomináveis. 
A Imprensa – Abril de 1949)

O DÉCIMO SEGUNDO CONGRESSO NACIONAL DE ESTUDANTES

SESSÃO INAUGURAL – OS TRABALHOS – A ELEIÇÃO – NOTAS 

 O décimo segundo congresso da União Nacional dos Estudantes foi realizado este ano em Salvador, Bahia, homenagem que a entidade mater dos acadêmicos brasileiros quis prestar á velha e tradicional cidade fundada por D. João III, exatamente há quatro séculos. Recebeu, portanto, a antiga Capital do Brasil, mais de quatrocentos universitários de todo o país, tendo as diversas delegações se acomodado em vários logradouros da cidade, especialmente reservados para esse fim. Para a maneira cortes e dedicada como foram tratados indistintamente uns e outros, muito contribuiu, sem dúvida, a costumeira hospitalidade da gente bahiana e, em particular, o desvelo solícito e amável dos diretores da União de Estudantes da Bahia, comandados por esse admirável anfitrião seu presidente que é Ewaldo Solano Martins. Aliás, por parte do governo da Bahia também receberam os congressistas todas as atenções, tendo mesmo o Sr. Ivis de Oliveira, oficial de gabinete do governador Otávio Mangabeira, posto à disposição dos visitantes todos os elementos necessários para que a sua estadia fosse a mais agradável possível. 

SESSÃO INAUGURAL 
O congresso foi inaugurado no dia 17 de julho, às 20 horas, no salão nobre da Faculdade de Medicina, em sessão solene presidida pelo acadêmico Ubaldo de Maio, presidente da U.N.E., tendo comparecido, além de representantes oficiais, o secretário da Educação da Bahia, prof. Anísio Teixeira que, em magnífica oração, saudando os congressistas, analisou, com atilado espírito crítico e inegável conhecimento do assunto, a situação atual dos estudantes brasileiros. Discursaram também representantes de todas as bancadas, tendo sido unânimes as palavras dos líderes em reafirmar seus sentimentos em relação às finalidades do congresso que seriam, sem dúvida, debater e analisar, dentro dos princípios democráticos, os problemas de interesse geral dos estudantes brasileiros. Por último ocupou a tribuna Waldir de Freitas Oliveira,da União de Estudantes da Bahiana que, em poema de sua autoria, de sincero cunho patriótico, saudou, um por um, todos os Estados da Federação. 

HOMENAGEM A CASTRO ALVES 
Grandiosa foi a homenagem que os congressistas prestaram, no dia da instalação do congresso á memória do grande poeta da terra de Rui Barbosa, Antonio de Castro Alves. Às 18horas, perante assistência das maiores, junto de sua estátua na Praça Castro Alves, saudaram o autor de “Espumas Flutuantes”, representes do Ceará, Minas Gerais, Distrito Federal, Paraná, etc.. Distingui-se, contudo, a oração vibrante do acadêmico Hugo Biochi, da bancada paulista. 

OS TRABALHOS NO PLENÁRIO 

Todas as sessões plenárias foram realizadas no salão nobre da Faculdade de Medicina, tendo sempre presidido os trabalhos, com absoluta justiça, Ubaldo de Maio, na ausência deste, Celso Medeiros, vice-presidente. 

De importância maior revela destacar as discussões em torno do projeto feito pelo Ministério da Educação denominado “Bases e Diretrizes do Ensino no Brasil”, ora numa das Câmaras altas. Foi relator das teses apresentadas em relação a esse projeto o acadêmico Costa Neto, do Distrito Federal. De maneira geral foram retificadas pelo Plenário as seguintes modificações: 
a) Para todos os universitários do país, freqüência livre nas aulas teóricas; 
b) Em todas as Universidades nacionais, concurso obrigatório para preenchimento de cátedra; 
c) No magistério superior, obrigatoriedade de concursos periódicos de professores; 
d) Rejeição do artigo que estabelece penas disciplinares a estudantes superiores. 

Ocupou também especialmente a atenção dos congressistas a situação do restaurante da U.N.E. que se encontrava fechado. Ao fim de acalorados debates foi decidido, em tese aprovada, a sua reabertura em caráter definitivo, continuando, porém aberto aos estudantes também o restaurante do Ministério da Educação. Foram aprovadas teses defendendo a construção de Casas do Estudante em todos os Estados, bem como seus respectivos restaurantes universitários. Em relação ao ensino superior noturno nas Universidades, foi aprovado, pro grande maioria, que o mesmo deve ser logo feito e regulamentado. 

BANCADA DE ECONOMIA 

Reuniu-se sempre a bancada de economia compostas de estudantes das Faculdades de Ciências Econômicas de todo o Brasil. Foi resolvido, de início, concretizar, para setembro, em Recife, o Congresso Nacional de Economistas. Presidiu a maioria das sessões desta bancada o acadêmico Arnaldo Lucas Cruz, de S. Paulo. Foram discutidas inúmeras teses, todas propondo emendas ao projeto encaminhado pelo Governo Federal à Câmara dos Deputados e desta ao Senado, propondo a regulamentação da profissão de economista. A tese global final, cujo relator foi o acadêmico Abreu Sampaio e que foi defendida em plenário pelo acadêmico Carlos Alberto de Souza Barros, ambos de São Paulo, constava de 43 itens e sugeria, em sua conclusão, a imediata aprovação do projeto referido. Destacaram-se nas reuniões desta bancada os acadêmicos do Distrito Federal, José Cal Gonzáles e Carlos Rezende. 

BANCADA DE ARQUITETURA 

Durante o congresso mantiveram-se os estudantes de Arquitetura em reunião permanente coma finalidade de reestruturar o seu órgão nacional: o Bureau de Arquitetura da União Nacional de Estudantes.Foram elaborados novos estatutos e tratou-se também da organização do II Congresso nacional de Arquitetura de Estudantes a ser realizado na mesma cidade do Salvador de 1º a 8 de outubro próximo. Decidiram ainda os congressistas de tal bancada adiarem as eleições do Bureau, ficando, porém, provisoriamente, na direção do mesmo acadêmico Slioma Selta, do Rio de Janeiro e como interventor Vicente Ferrão, da bancada paulista. 

 Interessaram-se também os futuros arquitetos, além de problemas gerais, de seu interesse, pela preservação das obras de Oscar Niemayer feitas em Pampulha, as quais se encontram em estado de lastimável abandono, e, ainda, pela reorganização do curso de Arquitetura da Escola de Belas Artes da Bahia. Ambas estas teses foram apresentadas pelo acadêmico paulista Antonio Carlos Alves de Carvalho. 

JORNAIS UNIVERSITÁRIOS 

 A imprensa universitária junto ao Congresso deu prova de robusta vitalidade, pois circularam com farto noticiário acadêmico, distinguindo-se entre eles “O Prisma”, “Lábaro”, “A Verdade”, “Unidade”, “Presença”, “O Tonel”, “Fanal”, e o “União”, este da União Estadual do Estudantes de São Paulo. O jornal do Centro Acadêmico “Casper Líbero”, nosso A IMPRENSA, também foi distribuído com grande aceitação, sendo unânimes os congressistas de vários pontos do Brasil em se declarar impressionados não só com a qualidade selecionada de suas colaborações como, sobretudo, pelo excelente aspecto gráfico, em que é apresentado, o que o torna, sem dúvida, órgão universitário mais impresso do país. 

PASSEIOS REALIZADOS 

Aproveitando as horas em que não eram realizadas sessões plenárias os congressistas visitaram os pontos pitorescos de Salvador e, sobretudo, “o que há de mais belo na Bahia: as suas igrejas” (Manuel Bandeira): a velha Catedral da Sé, a antiqüíssima Conceição da Praia, a humilde da Palma e a majestosa Igreja de São Francisco, cujo barroco harmonioso e fulgurante da ornamentação deslumbrou os visitantes. Também, foram visitadas a ilha de Itaparica, a famosa praia de Itapoã (onde soubera os estudantes estar sendo filmado por companhia francesa uma adaptação moderna do poema de Santa Rita Durão, “Caramuru”) e o local denominado Candeias, onde impressionou a todas as imensas possibilidades petrolíferas do local. 

Durante a estadia dos congressistas na “Capital mais brasileira do Brasil”, foram-lhes oferecidos vários bailes, destacando-se neste particular as atitudes simpáticas dos presidentes da Associação Atlética Bahiana e do Iate Clube, dois dos clubes mais fidalgos e queridos da “Boa Terra” e que colocaram a disposição dos estudantes as sedes sociais e todas as instalações esportivas dos mesmos. E foi sempre o fabuloso jornalista Roschild Moreira quem ofereceu os ágapes de cozinha mais tipicamente bahiana. Foram assistidos vários candomblés e realizados inúmeros passeis nos pitorescos saveiros. O bar “Anjo Azul”, que na opinião do crítico Wilson Rocha “é talvez a mais séria instituição bahiana” também foi insistentemente procurado, tendo causado a todos favorável impressão. 

ELEIÇÕES 

Dia 25 foram realizadas as eleições a presidência e demais cargos da diretoria da U.N.E. relativos ao período 1949-50. Concorreram duas chapas, em pleito nitidamente democrático, saindo vencedora a denominada “Autonomia e Administração”, que estava assim constituída: 
Presidente: José Antonio Rogê Ferreira (S. Paulo); 
1º vice: Celso Medeiros (Distrito Federal); 
2º vice: Waldir Freitas Oliveira (Bahia) 
3º vice: Fausto G. da Mata Machado (Minas Gerais); 
4º vice: Renato Celidônio (Paraná); 
Secretário Geral: Raimundo Nonato Santana (Ceará); 
1º secretário: Grimaldi Ribeiro (Pernambuco); 
2º secretário: José Orsini Reis (Estado do Rio); 
3º secretário: Raimundo Ramalho (Distrito Federal); 
Tesoureiro: Jose Cal Gonzales (Distrito Federal). 

O novo presidente da U.N.E. que foi o último presidente do Centro Acadêmico “XI de Agosto” da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo e também da União Estadual dos Estudantes e atualmente cursando a Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de São Paulo, ao ser eleito, teve oportunidade de declarar: 

“Tenho planos de minha gestão bem coordenados e procurarei, mesmo a despeito das futuras dificuldades que naturalmente surgirão, pô-los em prática, embora sabendo que inúmeras barreiras serão colocadas frente a eles. Jamais capitularei e os pontos mais visados por mim são: a estruturação definitiva do ensino superior, a situação econômica do estudante brasileiro e a reabertura do restaurante da U.N.E., fechado pelo Ministério da Educação.” 

Por Luiz Ernesto Machado Kawall, 
Enviado especial de A IMPRENSA

CONSIDERAÇÕES A RESPEITO DA CARTA DE PERO VAZ DE CAMINHA

A carta de Pero Vaz de Caminha é considerada a certidão de batismo do Brasil. Não tem, esse relatório da viagem de Pedro Álvares Cabral, as especificações técnicas nem os rigorismos categóricos dos relatórios etnográficos ou histórico-culturais. Pero Vaz de Caminha, seu autor, escrivão da frota e da feitoria de Calicut, homem culto, formado em artes e medicina, era, sobretudo, fidalgo da Casa Real e o Mestre da Balança e da Moeda do Pôrto. Entretanto, sua célebre carta é vasada numa linguagem simples, natural, algumas vezes até, cheia dum prosaísmo que encanta e nos encoraja a percorrê-la através de suas 14 páginas “in-fólio”. 

As palavras de Caminha assumem um aspecto documental precioso, pois constituem o único relatório existente sobre a expedição de Cabral, desde que as outras cartas de que se tem notícia (de Sancho Tovar, do feitor, etc.), atreves dos tempos, se extraviaram. Não vamos aqui dissecar tal carta, posto que outros de mais cultura e mérito o tenham feito ou possam fazê-lo com maior magnificência. Mas queremos, na medida do possível, destacar, dum e doutro trecho, observações que, dentro de sua simplicidade primitiva, careçam, no entanto, dada a sua importância intrínseca, de uma análise mais profunda. 

Destacamos, logo de início, o dia em que está datada a carta: “Hoje, sexta-feira, 1º de Maio de 1500. Deste Porto Seguro de Vossa Ilha de Vera Cruz”. Essa afirmativa é significativa por orientar-nos a respeito da data do descobrimento do Brasil. A descoberta de nossa terra sempre foi celebrada a 3 de maio devido a uma tradição antiga de celebrar-se o natalício do Brasil messe dia, data em que a Igreja comemora o encontro da Santa Cruz. Procuraram explicar a mudança da data de 22 de abril para 3 de maio por causa da reforma do calendário gregoriano; mas, como bem diz Joaquim Silva (“História do Brasil’), “a reforma foi feita 82 anos depois e não poderia, portanto, ter efeito retroativo”. Tem, por isso, a carta de Vaz de Caminha já esse grande valor histórico, pois estabelece, definitivamente, a data exata de nosso descobrimento. 

Outra assertiva do escrivão merece também destaque especial. È quando ele afirma, depois da narração do desgarro da nau de Vasco de Ataíde, textualmente: “E assim seguimos nosso caminho, por esse mar de longo”... A esse “nosso caminho”, assim escrito com tanta autoridade, com tanta ênfase, poderíamos acrescentar: “nosso caminho... para o ocidente”... O que, sobretudo, se não quebras a causalidade do descobrimento, porque ela já está quebrada de há muito (asseguram até que os papagaios levados pelos portugueses para a Corte já falavam palavras de francês...), pelo menos, não a confirma; principalmente, porque, depois, a frase “por esse mar de longo”, como muito bem diz Malheiro Dias na “História da Colonização Portuguesa do Brasil”, significa: velejando ao ocidente, através do oceano Atlântico”. Se é de se notar essa falta de maiores esclarecimentos por parte de Caminha, talvez seja por que ele estivesse ainda influenciado pela “política de segredo” do monarca D. João III... 

Outras palavras de Caminha, quando ele descreve a terra, merecem reflexão: “Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo”. E “Com tudo, o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que será salvar esta gente”. 

É de se refletir profundamente sobre essas duas conclusões de Pero Vaz. “Dar-se á nela tudo”... “Salvar essa gente”... Hoje, passados quatrocentos e cinqüenta anos do nosso descobrimento, que somos? Financeiramente, politicamente, e o que é mais importante ainda, culturalmente, que somos? E que triste é a realidade! 

Somos, como já disse alguém, “o país a que amamos, mas por quem choramos”. Situado dentro dos meridianos excelentes de um clima bastante saudável – pois os rigores do inverno nem os calores mais intensos do verão nos atingem – estando colocado num ponto tão estratégico que fáceis se tornam suas comunicações com o exterior, e sendo dono de vastas extensões próprias para grandes culturas, somos hoje, uma pobre terra à que faltam, ainda, comunicações, transporte, produção agrícola, escolas, universidades! Tudo definha; só cresce uma ambição impetuosa para o poder e o dinheiro. Tudo fenece; só medram as inteligências medíocres que dominam os quadros poderosos da administração pública. 

Tudo são incertezas, egoísmo, comissões e “comessões”, funcionalismo. (Aliás, aqui, parece que sofremos de uma espécie de fatalismo histórico, pois o próprio Vaz de Caminha, no final de sua carta, pede, humildemente, ao monarca, que transfira para a Corte a Jorge de Osório, seu genro, que servia, na Ilha de São Tomé, como funcionário municipal...). Nada se faz com patriotismo, com perfeição, com desbravamento, excetuadas, talvez, as três vigas mestras de nossa “civilização”: o samba, o jogo do bicho e o futebol. O povo permanece ignorante, menos por sua culpa, ressalte-se, do que pela da inépcia dos governos dominantes. 

 E é notável que dentro de tanta mesquinhez as campanhas redentórias se façam sempre com um aspecto de grandiosidade relevante! São as “Campanhas de Educação de Adultos”, “Marcha para o Oeste”, “Campanha contra o analfabetismo”, etc., etc., tudo com um sentido grandioso do “Weltanschaung” germânico! Nesses casos, o governo é sempre o pedinte ao particular: sua verba é sagrada, é necessária para financiar os Institutos, as embaixadas luxuosas, os Legislativos brincalhões... 

Pobre terra! A fauna mais daninha é eleita vereador, ou deputado, e então, nas Câmaras, eles dominam, porque os de boa vontade, os homens, são minoria... Como Pero Vaz de Caminha é terrivelmente real ainda hoje! Como ele, dentro desse anacronismo tristíssimo, é profundamente verdadeiro. “Dar-se-á nela tudo”... “Será salvar essa gente”... Mas se Caminha, há 450 anos, dirigia-se ao rei D. Manuel, a quem, hoje, dirigiremos esse apelo “salvar essa gente”? A quem se não a nós mesmos? E quem somos nós mesmos?

Luiz Ernesto Machado Kawall 
A IMPRENSA – Outubro/novembro de 1949

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Ao vivo, LUIZ GONZAGA

Gonzagão, alto, forte e amorenado, vai andando gingadamente pela rua, nas imediações do hotel onde está hospedado, no tradicional bairro de Higienópolis, em São Paulo. Com seu jeito de nordestino “enluarado”, vistoso e garboso no costume tropical branco, de óculos escuros e carapinha já meio branca - pudera, ele já completou 72 anos - respondendo e acenando para os populares, com quem troca ditos e chistes engraçados, esse fabuloso e eterno Luiz Gonzaga, o Rei do baião do Brasil. O “Lua” só arrasta um pouco os pés, comprimidos em alpercatas simples, reclama de uma “gota” renitente - que o obriga a tomar remédios e injeções doídas, diariamente - e, quando vai chegando à farmácia da esquina, junto ao repórter, fala direto e com graça: 

- “Eita gota serena, filha duma peste, desse jeito não posso mais dançar o baião nos forrós do velho “Lua”... 

Na própria farmácia, o Gonzagão, entrando duro na injeção, vai dialogando seu dileto rude de nordestino, com a voz poderosa que Deus lhe deu, cantada e badalada até hoje - após 45 anos de carreira vitoriosa e ininterrupta - em todo o país: 

- “Sim, estou com 72 anos, mas me sinto um setentão forte e rijo... E acho que nunca decepcionei o meu público nacional... Já lancei mais de 48 LPs, sempre na mesma gravadora, fora os “remendados”... Sei que não sou um homem de cultura, mas, se fosse, acho que seria um Gandhi. 

- Qual a programação sua, para este ano? 

- “Shows, shows w mais shows... Acho que vou para a celebração dos 70 anos do Juazeiro, rezar para o meu Padim Cícero... 

Em muitos lugares do Nordeste, só canto em troca de comida, para os flagelados da seca... Êta, seca maldita, que fizemos nós nordestinos, para ter tanta seca, sentir tanta fome... Agora, dizem que Deus é brasileiro, não sei! 

- Mas o seu baião, a sua música, não é triste, é alegre... 

- Claro: como sertanejo, descendente de família humilde, criado na pobreza, faço um trabalho pelo meu povo, mas com moderação e sem pregação de miséria ou de violência de espécie alguma... Canto sim a lamúria e a tristeza do nordestino, mas à minha maneira... Canto o xote romântico e ensino há mais de 40 anos o brasileiro a dançar o baião... É isso aí, seu moço. 

- Qual a sua religião? 

- Já dizia o outro... e eu repito humildemente: todas as religiões conduzem a Deus. 

“Lua” acaba de tomar a injeção e ingere a pastilha salvadora, que o aliviará até a noite da “gota” arretada... À sua volta, populares comentam os fatos do dia.Ele conta que sua terra, Exu, PB, está em calma, após a intervenção federal que pediu - e o Governo atendeu, em 82. Lá ele tem “um sitiozinho, pra não esquecer o cheiro da vaca e do bode”. E sobre as Diretas Já, afirma com voz firme favorável, “de corpo e alma”. Todo o provo participa do movimento, e “eu sou povo”, diz. Mas no final, completa o “Lua”, deve dar o “consenso mesmo”, e um candidato como o vice-presidente, Aureliano Chaves, a seu ver, deve ser escolhido presidente.

Já na rua, agora andando mais desenvolto, reata o diálogo: 

- Quantos shows já fiz hoje? Mais que dez... Fiz um que gostei muito, em Manaus, em 1982, no 10º aniversário da Sharp... Êta gente boa, essa de vocês... O show atrasou um pouco... Mas depois compensou... E que fábrica bacana de boa gente vocês têm, xente! 

Quais os seus grandes parceiros? 

- Os imortais Humberto Teixeira, cearense, e o Zé-Dantas, pernambucano... Com o Humberto fiz a “Asa Branca”, que canto em todo o lugar e já foi chamado de Hino Nacional Brasileiro... Êta baião bom!... Agora, eu todo sanfona ou violão, gosto da sanfona desde os tempos de meu pai, o Velho Januário... Ele tocava sanfona-de-fole, foi meu inspirador, assim como o Zé Rieli, que acho que era de São Paulo e Armando Meirelles... A minha primeira sanfona era alemã, depois passei pra esta aqui... Do fole de 8 baixos, passei pra esta de 12...

- Onde esta essa primeira sanfona alemã? 

- Ah, meu filho, se perdeu no tempo, alguém pegou... Podia ficar para o Museu do Baião, que vão fazer na minha terra, Mas já se foi... 

O Gonzagão senta-se no divã da portaria do Hotel. Espera o representante da gravadora, com quem vai caitituarseu novo LP nas rádios. Aos 72 anos, ainda precisa caitituar?,pergunto. O “Lua” dá sonora gargalhada, enche com seu vozeirão - o timbre de voz inesquecível e cantante - o saguão do Eldorado: - É isso aí... Cachorro que não lambe o dono... 

- Quais são seus continuadores? 

- O Gonzaguinha é meu herdeiro apenas familiar... Não é meu herdeiro musical... Canta mais intelectual, mais refinado, mais intimista, como dizem... Agora, o Dominguinhos, esse é... Esse eu formei mesmo, desde pequeno... E tem toda essa gente por aí, cantando e dançando o Nordeste são todos meus continuadores, o Zé Ramalho, o Alceu Valença, a Elba Ramalho, a Amelinha, êta ente boa! Arrastam multidão, esses meninos têm muita galhardia, são povo como eu, são “quentes”, não perdem o prumo nem o aprumo! 

- E os baianos, Caetano, Gil, Gal, Betânia, etc.? 

- Também gosto deles. Chegaram ao Centro- Sul e balançaram a roseira,como o Moraes Moreira... 

O Gonzagão dá outra gargalhada, assustando os hóspedes estrangeiros. Ele diz que quando está triste, dá uma dessas gargalhadas “pra refrescar”. Seu dia a dia, no Rio, vai falando, é descansar, com a mulher Helena, com quem mora na Ilha do Governador, e a filha Rosinha. Esta entende como quê de música popular, mas não canta. “No Rio, vivo numa boa”... diz

Gonzagão: Embaixador 


Em 1966, trabalhei na campanha de Carlos Lacerda, para Governador do Rio. Campanha vitoriosa, aliás. E coube-me certa vez procurar o Gonzagão, que fez, a pedido de Lacerda, um folheto de cordel para ativar a campanha lacerdista. Impressos 200 mil exemplares, o folheto era distribuído na Zona Norte do Rio, nos comícios, aos quais sempre comparecia o “Lua” com sua famosa sanfona. 

Que alegria, os nordestinos, os favelados, vibravam... Era o “Lua” tocar e sair, pro outro comício (eram feitos uns 15 por dia), e aí Lacerda chegava e falava. “Lua”, afora, mais de 20 anos depois se recorda e ri. “Tornei-me uma espécie de embaixador do Nordeste, no governo Lacerda na Guanabara”. 

E o Gonzagão vai contando que não deu sorte com Getúlio, nem com JK, um pouco só com Jânio. “Não gosto de política”, diz. “A minha política é cantar” 

 InforMAC - Órgão de Divulgação Interna das Empresas Machline Ano III - Nº 26 - Março 1984.

sexta-feira, 25 de março de 2016

O BONDE

O bonde nos põe em contato com quase todos os espécimes mais raros da heterogênea fauna humana. Essas raridades – justamente aquelas cujas maneiras e atitudes as tornam destacadas dos demais passageiros – é que procuraremos apontar aqui. 

Primeiramente, vejamos aqueles compreendidos entre os “figura difícil”. Estão nessa categoria, desde os pacatos cidadãos que se postam de tal jeito nas pontas dos bancos,cruzando tão investidoramente suas pernas, incomodando e perturbando assim os que vão nos estribos, até os ingênuos (ou muito espertos) cavalheiros que, lépidos, tomam nosso lugar no estribo, se damos passagem para uma pessoa descer ou subir. Esses abomináveis tipos são os “figurinha”... 

Depois, temos aqueles indefectíveis indivíduos que, a pretexto de qualquer incidente de menor monta – uma curta parada por um enterro, um comum desligar de eletricidade – aproveitam o ensejo para desfiarem por cima de nós toda a sua filosofia da vida, todo o seu pseudo-cabedal das engrenagens do mundo. Esses ao os tradicionais “chatos”.

E existem também uns distintos passageiros que por tudo querem mostrar-se afáveis e polidos, fazendo questão de dar o sinal de parada para as senhoras ajudando as crianças a subirem, avisando os “pingentes” de lugares para sentar; sobretudo, cuidando de cutucar o vizinho distraído da cobrança da passagem. Costumamos chamar a esses gentis-homens da cortesia de “paizinho da família”... 

Nos “camarões”, às sossegada e calmas senhoras que esperam o bonde parar depois tratarem de pagar e descer (não sem antes deixarem de berrar “Espera!”, ”Parado!”, “Parado!”), damos o epíteto de “Já vão tarde”... 

E esses rapazes que aproveitam o silêncio das paras dos bondes para começarem a dialogar alto em inglês ou para falarem de operações (!) medicinais que “realizaram” (“Aquele sopro cistólico bilateral esquerdo (sic) no 3º mediastino, com bisturi elétrico, foi fácil!”. “Eu, não, à maneira dos grandes cirurgiões, só opero com anestesia ráqui”)? Esses, logo reconhecidos doutores da mula russa, são os “cabotinos”... 

Os que se postam nos estribos estão sujeitos a uma estranha hierarquia. Primeiro, os “remediados”: são aqueles que se grudam nos balaústres, viajando relativamente bem.Depois, em segundo lugar, vem os da categoria dos “infelizes”: aqueles cujos corpos pendem num ângulo agudo dos estribos, estando seguros por um braço só; e, por último, estão todos os que se sobrepõem às duas primeiras categorias, os braços clamorosamente abertos, estendidos. Esses são os “crucificados”... 

 Aí estão os tipos de passageiros de bondes. Situe-se o leitor onde os julgar mais à vontade, mas, se a classificação o desagradou, não nos recrimine, mesmo porque em matéria de bonde, “Cortesia com cortesia não se paga” ... 

 A IMPRENSA – Sábado, 5 de fevereiro de 1949

CRÔNICA DA CIDADE I

A Avenida São João 

A Avenida São João cresceu sempre juntamente com a capital. Refletiu, em todas as épocas. O progresso e o adiantamento de São Paulo. Não teve, na sua formação, o traçado científico das plantas dos engenheiros ou os benefícios das linhas arquitetônicas pré-estabelecidas. Tal como a cidade. Ambas – avenida e cidade – somente foram construídas conforme a grandeza e o desenvolvimento da terra bandeirante exigiam. Daí, a estreita ligação existente ainda hoje – guardadas, no entanto, as proporções – entre essa avenida de São Paulo e a terra de Piratininga. 

 A princípio, em 1810, a rua de São João era uma humilde via, estreita, quieta, de toscos e diáfanos lampiões à gás nas esquinas, o seu barro vermelho enodoando a alvura dos sapatinhos delicados das damas acetinados... Começava justamente ás margens do rio Anhangabaú, terminando pelas adjacências do Largo do Arouche. Pouco a pouco, desenvolve-se a cidade. Em 1906, com a canalização daquele lendário rio, foi anexada à Rua de São João, a famosa ladeira do Açu; uniam-se assim essas duas ruas fronteiriças que as águas do Anhangabaú separavam. 

A partir dessa época o seu crescimento foi vertiginoso. Aliás, somente acompanha o progresso notável da capital; e foram os mesmos senhores riquíssimos da lavoura que empolgaram a opinião pública com a ideia suntuosa da remodelação total – principalmente o alargamento – da Rua São João. Fizeram-se as desvalorizações. Delineou-se, finalmente – a atual avenida São João. A época era mesmo para grandes empreendimentos. A capital estava no ápice de sua evolução. A população crescera de 200.000 pessoas (1892) para 1.200.000 (1932). A avenida sentiu esse avassalar de progresso. Ergue-se, no seu inicio, a majestade sólida do Prédio Martineli, então a maior construção de cimento armado da América do Sul. De há muito, os seus ineficientes lampiões foram substituídos pela iluminação elétrica, a simetria dos paralelepípedos sobrepostos ao seu barro escorregadio. Sua extensão aumentou num ritmo acelerado até o bairro – passando por Santa Cecília e Campos Elíseos – da Barra Funda. A seu lado abrem-se bares, constroem-se pensões e hotéis. 

Depois, mais modernamente, a imponência aristocracia da capital exige cinemas suntuosos, confortáveis. E eles surgem, com suas cintilações perenes de luz. É o Broadway, o Art-Palácio, o Ritz, o Metro. Mais adiante, o chamariz feminil dos cabarés arrasta, na volúpia das suas bacanais, a mocidade boemia e notívaga. Após, aparecem as primeiras auto-escolas e as intermináveis casas de peças e acessórios para automóveis. E as oficinas de concertos realizando os serviços em plena avenida, nas calçadas, nessa desenfreada ganância de trabalhar depressa, de ganhar mais dinheiro. Mas, exata e derradeira coerência, não é essa, hoje em dia, a principal feição da nossa capital? 

“A Imprensa – Órgão Universitário dos Alunos da Primeira Escola de Jornalismo Fundada no Brasil” (São Paulo – Março de 1949 – Ano I – página 2). 


UM CAMINHO NATURAL

Os textos apresentados no índice LEK - JORNALISTA APRENDIZ, deste  blog, remontam à época de estudante universitário de Luiz Ernesto Kawall.

Aos que se interessem pela trajetória do jornalista, estes artigos já sinalizam o caminho que Kawall iria trilhar por mais de 60 anos de profissão.

Aqui foram  selecionados os textos publicados no jornal “A Imprensa", da Cásper Líbero, primeira escola de  jornalismo fundada no Brasil, do qual o próprio Luiz Ernesto foi um dos editores.

Arnaldo Chieus

Tonico e Tinoco, a dupla coração do Brasil

Com seu jeitão simples de caboclos do interior - são da região de São Manuel - João Salvador Perez, 67 anos, e José Perez, 64, vão deixando a Rádio e TV Bandeirantes, onde acabaram de gravar o “Brasil Caboclo”, programa pioneiro no rádio brasileiro, produzido pelo radialista sertanejo Tio Nassin, e que vai ao ar religiosamente de segunda a sábado das 5 às 5 e meia da manhã. Eles são os ilustres filhos de Salvador Perez, espanhol que chegou ao Brasil em 1892 e foi trabalhar na lavoura de Botucatu, e de Maria do Carmo, descendente de negros e bugres. Os irmãos Tonico e Tinoco são alegres, cumprimentam funcionários e amigos, tomam o cafezinho, sobraçam mais de 500 cartas chegadas nos últimos dias. Andam sempre juntos, e já vão pegar o carrão que os conduzirá ao bairro da Moóca, onde moram com as respectivas famílias. O nosso INFORMAC os apanha de surpresa. 

- Entrevista em hora destas, assim de manhã... Não tomamos nem café mais forte... Mas, senta aí, pode perguntar o que quiser... Não temos segredos.

A dupla coração do Brasil se acomoda, na salinha arrumada ali pelo estúdio. Estão há quase meio século cantando juntos. Foram e são felizes, segundo seus amigos. Já têm mais de 70 LPs lançados e fizeram, em todo território brasileiro, segundo seus cálculos, mais de 1500 shows, levando a música caipira e sertaneja ao sucesso e à glória. 

- É verdade que vocês estão ricos? 
- Qual nada. Dá pra viver. 

- E a história do avião, é verdade? - Não. Fizemos uma foto, junto a um avião, e foi aquela água... Mas não temos avião não! Até hoje, pra voar, a gente se benze... 

- Como vão indo os shows, atualmente, com o avanço dos forrós e dos roqueiros? 
- Otimamente. Nada nos atrapalha. Quando tocam nossas músicas, num salão de baile, ou num forró, é aquela alegria! E cada vez maior! 

- A que atribuem essa liderança e esse gosto popular? 
- A muitas coisas, seu moço. Nossas músicas escolhidas, nosso repertório, sempre alegre e romântico, cantando coisas do nosso homem da roça com simplicidade. Nós não nos fantasiamos, não usamos instrumentos eletrônicos, nada. Vivemos da nossa voz, das nossas criações, em parceria ou não, da nossa viola e da nossa sanfona “velha-de-guerra”. O resto, é viver com coragem e fé. 

Rádio e TV 
Além do programa diário na Rádio, que é transmitido a todo país, Tonico e Tinoco fazem também um programa diário na Bandeirantes AM (17 às 17,30) e todos os sábados se apresentam na TV bandeirantes, das 18 às 19 horas, quando cantam e apresentam outras duplas caipiras. Eles também concordam que a força do rádio e a penetração da televisão ajudam a manter seu nome e propagar suas músicas em todos os rincões. Nesse programa semanal da TV usam a indumentária simples, sem forçar o tipo. Contam com graça que a primeira vez que vieram a São Paulo, para um concurso da Rádio Difusora em 1942 - que venceram, derrotando mais de 50 duplas caipiras - foram tirar foto na Avenida São João. Depois que posaram e foto foi batida, o seu Léo disse: “Agora, podem trocar de roupa...” Mas acontece que o Tonico e Tinoco “estavam com a roupa do corpo, vestidos autenticamente como caipira do interior, com chapéu de palha, botas e tudo... 

- O que vocês acham do Sérgio Reis, do Boldrin, do Zé Bétio?... 
- Deixa isso prá lá, tem lugar pra todos... 

- Quais os gêneros em que fazem maior sucesso? 
- Todos, graças a Deus. Seja moda de viola, cururu, desafio, cateretê, catira, xote, rancheira, toada, vanerão (gaúcha), pagode, rasqueado, valsa, capoeira, guarânia, xamamé, arrasta pé, batidão (goiano), carimbo, côco, samba, embolada... Todos os gêneros da música popular brasileira. Acho que daí vem o nome de “dupla coração do Brasil”. 

- Vocês têm uma mensagem em suas músicas? 
- A nossa mensagem é curta e grossa. É a da simplicidade e da vida da roça. Das belezas do amor. Com nossa viola, não perdemos nossas origens. Quando cantamos nos shows, com outros artistas, “surramos” todos eles! Somos mais aplaudidos que todos! Nem todos têm a sorte de ser original. É assim no rádio, na TV, nos cinemas, já fizemos filmes. 

Conversas e a “paixão
Eles falam do empresário Elcio e da paixão que a música caipira desperta em todo o Brasil. Os shows duram 40 minutos. Sempre é bom deixar “um pouco de música pra cantar da próxima vez”, explicam. As mais pedidas, que já estão gravadas na alma e no cancioneiro popular, são “Luar do Sertão”, de Catulo da Paixão Cearense, “Tristeza do Jeca”, “Chico Mineiro”, “Cana Verde”, “Mamãe, mamãe”, “Baile na roça”, “Beijinho doce”, “Na beira da tuia” e muitas outras. 

Fora dos shows, gostam de conversas nas cidades aonde vão. Conversa de esquina mesmo, afinal, nasceram e cresceram em cidades do interior. Contam “causos” e recordações, usando e abusando de memória incrível. Aqui em São Paulo, levam vida caseira, ao lado das esposas Valdete (Tonico) e Nadir (Tinoco), dos filhos e netos. Aos domingos, se não viajam, visitam a mãe, d. Maria, 91 anos, mulher forte e decidida, que cuida da capelinha que fizeram em 1963 pra cumprir uma promessa. É a Capela N. S. Aparecida e fica na Vila Diva. A mãe é que toma conta do pequeno templo, onde Tonico e Tinoco muitas vezes rezam, como católicos que são. 

Tonico e Tinoco falam com entusiasmo do novo LP - “O Rei dos Boiadeiros” - e do livro “Da beira da tuia ao Teatro Municipal - TONICO e TINOCO”, que pode ser pedido diretamente pra eles, na Rádio Bandeirantes ou à Editora Ática, R. Barão de Iguape, 110, São Paulo. Nesse livro estão mais de 500 letras da dupla, com o mesmo jeitão ingênuo que é sua marca registrada e famosa: 

-É assim mesmo nossa vida. Sem novidades. Dede os tempos do Capitão Furtado, somos assim. Já cantamos até no Teatro Municipal. Mas não perdemos nosso filão. Nossa música caipira. Nascemos assim e somos doentes por ela. O caipira é o verdadeiro Brasil. Nós, nesta vida, só queremos cantar nossas boas músicas, fazer bons shows, bons programas, ter bons amigos, viver bem. 

Informac Órgão de Divulgação Interna das Empresas Machline Ano III - Nº 32
Setembro/outubro 1984.

José Mauro de Vasconcelos - O Homem Inquieto


Mania ambulatória”, diz Ledo Ivo, referindo-se ao nomadismo do escritor José Mauro de Vasconcelos, que é um homem inquieto, com capacidade de estar sempre se movendo, como se fosse instigado pela angústia ou pela inesgotável vontade de viver. Sua vida tem sido uma intensa movimentação, percorrendo o Brasil de Norte a Sul, desde os tempos da juventude; poucos escritores podem orgulhar-se, como José Mauro de Vasconcelos, de conhecer tanto não só as grandes e pequenas cidades do litoral e interior, como a selva bruta, onde ele pode contar dom amigos entre os Carajás ou os Índios do Xingu. 

Filosofia 
Embora às vezes um pouco arredio, José Mauro de Vasconcelos é agradável e cordial, tem vasto círculo de amizade e está galgando com seguras passadas os degraus da fama, sem que a celebridade seja o seu objetivo. Na verdade, não pensa quase nada na condição de escritor, que para ele é apenas uma decorrência. “O que importa é que eu escreva um livro, e não viva gozando dos privilégios de ser escritor”, diz o novelista. “E como eu escrevo um livro em curto prazo, não há razão para ficar pensado na qualidade do escritor o resto do tempo.” Essa é a filosofia do criador de romances tipicamente brasileiros. 

José Mauro de Vasconcelos não é um misantropo; seu desapego à vida social se deve principalmente ao desejo de não perder tempo com futilidades para empregá-lo em coisas mais úteis, como levar medicamentos para os seus amigos da selva. 

Se você perguntar o que elevai fazer no futuro, responderá que não tem planos. Toma a vida como ela vem vindo, sem ser fatalista. Sua aparência é a de um homem do campo, pela maneira com se veste, de camisa esporte (raramente é v visto de gravata). Jamais será um dos dez mais elegantes. 

Infância 
A inquietude e o nomadismo de José Mauro são produtos de uma educação indisciplinada, de um temperamento ardente e de um espírito ansioso de conhecer as coisas e as gentes. 

José Mauro de Vasconcelos tem nas veias sangue de Índia e português. Nasceu em Bangu, Rio de Janeiro, a 26 de fevereiro de 1920. Passou a infância em Natal, onde foi criado com muito sol e... água. Aos nove anos de idade aprendeu a nadar, e com prazer ele hoje rememora os dias de contentamento, quando se atirava às águas do Potengi, quase na boca do mar, a fim de treinar para as provas de grande distância. Com freqüência ia mar adentro protegido por uma canoa porque a barra de Natal está sempre infestada de tubarões. Ganhou vários campeonatos de natação e, como todo garoto, gostava de futebol e de trepar em árvores. 

Mas o esporte não constituía sua única preocupação. Depois do primário, aos 10 anos de idade já cursava o primeiro ano do curso ginasial, que terminou cinco anos mais tarde. Então, gostava dos romances de Graciliano Ramos, Paulo Setubal e José Lins do Rego. 

Bolsista na Espanha 
José Mauro, após o curso secundário, por seu espírito irrequieto, em vão fez várias tentativas de novos estudos. Principiou Medicina, Direito, Desenho e Filosofia. Sua última tentativa e malograda experiência foi em 1952, quando ganhou uma bolsa para estudar em Salamanca. Ficou três dias apenas na universidade. “Você acha que eu podia ficar uma hora inteira ouvindo chavões de literatura ou escrevendo composições sobre Cervantes?” - diz o incorrigível estudante. E acrescenta: “Tudo ali era muito chato”. De Salamanca, voltou a Madrid, onde ficou poucos dias, encerando o estágio-relâmpago de bolsista espanhol. Depois, foi fazer um giro pela Itália e França, por conta própria.

Trabalho e vaivém 
Depois do ginásio, os estudos de José Mauro como autodidata foram sempre feitos a base de trabalho. Seu primeiro emprego, dos dezesseis aos dezessete anos, foi o de treinador de peso-pluma; recebia 100 cruzeiros (velhos) por luta no Rio de Janeiro, pois aos quinze anos saíra de Natal para ganhar o mundo. No Estado do Rio, trabalhou numa fazenda em Mazomba, perto de Itaguaí, carregando banana. Depois, foi viver como pescador no litoral fluminense, onde não se demorou muito, partindo em seguida para o Recife. Ali, exerceu o cargo de professor primário nu m núcleo de pescadores. 

Da capital pernambucana, José Mauro saiu para começar incessante vaivém, de Norte a Sul, e vice-versa, permanecendo um pouco em cada lugar, para em seguida enveredar pelo sertão e viver entre os Índios. 


O Romancista 
Dotado de prodigiosa capacidade inata de contar histórias, possuindo fabulosa memória, candente imaginação e com uma volumosa experiência humana, José Mauro de Vasconcelos não quis ser escritor, foi obrigado a sê-lo. Os seus romances, como lavas de um vulcão, foram lançados para fora, porque dentro dele o “eu” estava transbordando de emoções. Ele tinha de escrever e de contar coisas. Sua fenomenal produção literária, iniciada aos 22 anos de idade, ainda não chegou ao meio caminho, porque ele está em plena ascensão, com inexauríveis reservas, que o levará a posição ainda mais elevada nas letras nacionais. 

Depois de “Banana Brava”, romance escrito em 1942, José Mauro produziu “Barro Blanco” (1945), “... Longe da Terra” (1949), “Vazante (1951), “Arara Vermelha” (1953), “Arraia de Fogo” (1955), “Rosinha, Minha Canoa” (1962), “Doidão” (1963), “O Garanhão das Praias” (1964), “Coração de Vidro (1964), “As Confissões de Frei Abóbora” (1966) e por último “O Meu Pé de Laranja Lima” (1968), livros que tiveram grande aceitação, todos eles elaborados à base de suas aventuras nas praias ou na selva. 

O autor desses belos romances tem método originalíssimo. De início, escolhe os cenários onde se movimentarão seus personagens. Transporta-se então para o local, onde realiza estudos minuciosos. Para escrever “Arara Vermelha”, percorreu cerca de 450 léguas no sertão bruto. 

Em seguida, José Mauro dá asa à sua fantasia e, na imaginação, constrói todo o romance, determinando até mesmo as frases da dialogação. Tem uma memória que, durante longo tempo, lhe permite lembrar-se dos mínimos detalhes do cenário estudado. 

“Quando a história está inteiramente feita na imaginação, revela o escritor, “é que começo a escrever. Só trabalho quando tenho a impressão de que o romance está saindo por todos os poros do corpo. Então vai tudo a jacto”. 

Com o seu sistema de ficar dormindo na pontaria até que o livro todo esteja “escrito” na imaginação, conta José Mauro que, ao por-se em ação, na fase material de bater à máquina, tanto faz escrever os capítulos, um após outro, como dar saltos; depois de pronto o primeiro, passa à conclusão do livro, sem antes ter elaborado o entrecho. “Isso, explica o escritor, “porque todos os capítulos estão já produzidos cerebralmente. Pouco importa escrever a seqüência, como alterar a ordem. No fim dá tudo certinho”. 

Cinema, TV e Livros 
José Mauro, atualmente autor exclusivo de Edições Melhoramentos, já tem publicado por elas os seguintes títulos: “Barro Blanco”, em 9ª edição; “Rosinha, Minha Canoa”, em 10ª edição; “Arara Vermelha”, em 5ª edição; “Arraia de Fogo”, em 4ª edição; “... Longe da Terra”, em 4ª edição; “O Meu Pé de Laranja Lima”, em 10ª edição; “Coração de Vidro”, em 6ª edição; “Doidão’, em 4ª edição; e “As Confissões de Frei Abóbora”, em 3ª edição. 

Ainda neste 1969, mais dois romances serão lançados: “Rua Descalça” e Palácio Japonês”. As reedições dos demais títulos estão previstas, também, para breve (“Banana Brava”, “Vazante”e “O Garanhão das Praias”). 

O fabuloso sucesso de “O Meu Pé de Laranja Lima”, valeu a José Mauro de Vasconcelos o Prêmio “Roquete Pinto - Especial” de 1968, maior prêmio da TV brasileira, pela primeira vez concedido no campo da literatura. 

Artista do cinema e da televisão, José Mauro de Vasconcelos já trabalhou em diversos filmes como “Carteira Modelo 19”, que lhe valei o Prêmio Saci como melhor ator coadjuvante, “Fronteiras do Inferno”, “Floradas na Serra”, “Canto do Mar”, do qual escreveu o roteiro, “Na Garganta do diabo”, obtendo o prêmio de melhor ator pela Prefeitura e culminando com “Mulheres e Milhões”, sendo laureado com o Saci como melhor ator do ano. Dos seus livros, “Vazante” e “Arara Vermelha” foram filmados. 

Estão sendo ultimados preparativos para as filmagens, por Herbert Richers, de “O Meu Pé de Laranja Lima”, película na qual José Mauro aparecerá interpretando o papel de Manuel Valadares, o “Portuga”.

Na televisão, desempenhou numerosos papéis, destacando-se o de Padre Damião. Como ator é também talentoso; suas sóbrias interpretações têm alcançado grande êxito.

Apesar do sucesso no cinema e TV, José Mauro não está satisfeito. Para ele, a melhor coisa do mundo é servir de enfermeiro para os índios. 

“Não vejo a hora de meter o peito no mato”, diz o escritor, que reside em São Paulo. Mas todo ano vai matar as saudades da selva.

quinta-feira, 24 de março de 2016

LYGIA FAGUNDES TELLES

Lygia: Esta é a sua história 


 A consagrada escritora brasileira tem um dia-a-dia cheio de atividades caseiras e intelectuais, e, aqui, contrasta passado e presente, depondo sobre sua vida.

 - Nasci em São Paulo, mas passei a infância em pequenas cidades do interior do Estado, onde meu pai foi promotor público ou juiz: Sertãozinho, Assis, Apiaí... Foi uma infância meio selvagem, livre. Com a figura principal de uma pajem preta, adolescente desbocada e sensual que me fazia confidências e contava histórias, centenas de histórias de lobisomem, almas-penadas, antiqüíssimos mortos que se levantavam chacoalhantes e lá vinham, com seu canto fanhoso até a nossa porta. Então eu tremia debaixo das cobertas (as histórias eram contadas durante a noite, no escuro) e chorava baixinho e tapava os ouvidos, mas deixando sempre uma fresta por onde se insinuava um fluxo implacável. O jogo era excitante: eu exigia mais, mais e fugia em pânico. O sofrimento agudo misturado ao prazer que se prolongava mais intenso, quando ficava sozinha e começava a reinventar tudo, novas personagens, novos enredos. 

Lygia Fagundes Telles - assim mesmo: com y no nome e dois LL no sobrenome - paulistana da Rua Barão de Tatuí, descendente de navegante português, membro da Academia Paulista de Letras, considerada uma das maiores escritoras do país de todos os tempos, acaba de tomar o seu café da manhã bem frugal (suco de laranja, café com leite, torradas). Ainda não começou sua ginástica diária - sueca e francesa - e já desfia sua estória ao INFORMAC. 

- Tamanho sucesso dessa contadora de histórias começou a atrair mais gente, agora não eram só crianças que vinha, se amontoar na escada de pedra do nosso quintal logo depois do jantar, em meio da cachorrada, tínhamos muitos cachorros. Na noite em que minha pajem não apareceu (tinha fugido com Heleno, trapezista do circo) resolvi num impulso de audácia substituí-la, tomar seu lugar: foi quando descobri que sentia menos medo falando, que era mais excitante contar do que ouvir porque enquanto falava, transferia todo o horror para o outro. Com o próximo ficava a minha insegurança e a minha dúvida, a minha ousadia e o meu medo, mas não era mesmo extraordinário isso? Pensei e me senti aliviada. Esvaída (como se todo o meu sangue tivesse escorrido nas minhas palavras) mas poderosa. Independente. 

Ela pára um pouco, toma fôlego. Escuta a rádio Jovem Pan, para se inteirar das notícias, em especial as econômicas, é um hábito. Lê também religiosamente o “Estado” e a “Folha” e só a tarde lerá o JB e O Globo. Começa pelas primeiras páginas, vê como anda a política e o humor dos políticos, passa pela geral, esportes e dêem-se na parte cultural. “Gosto de começar o dia-a-dia bem informada”, diz, e logo retoma o fio de sua vida. 

- Datam dessa idade de ouro os primeiros escritos assim que comecei a escrever, isso depois do aprendizado coma sopa de letrinhas, um macarrãozinho com todo o abecedário, era um brinquedo novo alinhar as letras nas bordas do prato fundo. Muito difícil, me lembro, encontrar o Y do meu nome, ia ver o prato dos outros, era enxotada. Então recorria ao caldeirão onde as letras se amontoavam lá no fundo, fervendo borbulhantes. Meu pai era um homem meio desligado, sonhador. Gostava de beber e de jogar: Durval de Azevedo Fagundes. Minha mãe, Maria do Rosário - o apelido era Zasita - tocava piano (Chopin) e cantava. Me lembro que era risonha, comunicativa mas vendo hoje seus retratos, descubro em sua fisionomia tamanha tristeza, ela era triste? Fazia doce de goiaba nos grandes tachos de cobre e a expressão que hoje uso para designar as mulheres daquele tempo - mulher-goiaba - tem sua origem na imagem da minha mãe mexendo, mexendo aquele doce. 

São cerca de 10 horas e Lygia se apronta, desce o elevador, sai para a rua. É a hora da caminhada matutina, anda a pé todos os dias, hoje está indo ao Clube, pois p dia está bom e o sol já saiu. Vai nadar e exercitar os músculos, ela que, nas rodas intelectuais é conhecida não só pela elegância, mas pela disposição e saúde. Mas, não queremos interromper sua meada: 

- Não tinha sequer idéia do que era o feminismo. Mas era uma feminista inconsciente quando me estimulou a escrever um livro, eu ainda estava no ginásio, era uma menina-moça com certos planos, tímida, mas com ousadias por dentro: “É uma profissão de homem, ela disse. Mas se você escolheu, por que não?” Revelou-me, sim, uma feminista nesse e em outros estímulos em seguida, quando eu quis entrar na Escola superior de Educação Física, uma escola que era só de homens. Pouca roupa. Muita liberdade nos campos de esporte, misturados aos jovens numa camaradagem que não estava nos usos e costumes de nossa rígida formação dentro dos moldes lusitanos. Ela aprovou essa idéia como também achou muito bom que logo em seguida eu fosse estudar Direito na mesma faculdade de meu pai, a Academia do Largo de S. Francisco. “Também é profissão de homem, ela observou. E homem não gosta de ver mulher no ramo dele, não sei se isso vai ajudar no casamento. mas você está somando profissões, pode trabalhar no que bem entender e isso é importante para uma moça pobre”. 

Regresso ao apartamento simples, bem arrumado, funcional. É hora do almoço. Hoje, dia da entrevista, tem arroz integral, carne leve, verduras e frutas. Aboliu as massas e o açúcar. Tem um afago especial pelo seu gatinho angorá. A empregada é solicitada e prepara tudo com carinho. Ela raramente aceita convites, prefere a sua quietude, propício à atividade de escritora e intelectual ativa. Telefonemas, atende, resolve. Lê um pouco seus livros “volantes” (sempre à disposição, em rodízio, em vários lugares do apartamento). Os de agora são de Drummond (poesias), Loyola Brandão e Nélida Pinon (romances), e o “Fausto” de Goethe. Confessa sua fé religiosa e mística, gosta das Santas Terezinhas, a do Menino Jesus e Tereza d’Ávila. Já colecionou folhas de árvores, de vários lugares do mundo, que coloca dentro de seus livros prediletos. Coleciona cartões postais, gosta especialmente dos de “Anunciação”, de Michelangelo e os de Giotto. Acredita firmemente nas três virtudes teológicas, as mais importantes, segundo diz, “em toda a roda do tempo do mundo”: fé, esperança e caridade. O seu depoimento prossegue: 

-Estávamos pobres, meu pai tinha jogado quase tudo na roleta, ele jogava nos números. Dele herdei essa vocação, eu jogo nas palavras. Perdi? Ganhei? Não importa, o importante é a emoção, o risco. A felicidade de exercer o ofício pela paixão, como queria Stendhal. Os dois cursos eu completei aqui em São Paulo, onde resido até hoje. Dois casamentos. Um filho, Goffredo Telles Neto, cineasta. O segundo casamento foi com Paulo Emílio Salles Gomes, crítico, ensaísta e professor de cinema. Pouco antes de morrer publicou um livro de ficções, originalíssimo, verdadeira ruptura na arte de escrever. Foi o fundador da Cinemateca Brasileira, criada nos mesmos moldes da Cinemathéque Française, em Paris, na qual ele trabalhou muitos anos com Henri Langlois. Hoje sou presidente dessa cinemateca que possui o maior acervo de filmes brasileiros - a memória do Brasil através da imagem. Sou do Signo de Áries (19 de abril), domicílio do planeta Marte. A cor do signo é o vermelho, mas aposto igualmente no verde: minha bandeira - se tivesse uma - seria metade verde, metade vermelha. Esperança e paixão não destituída de cólera. Vocação, sim, acredito em vocação, sortilégio e magia que os puxa pelos cabelos e nos empurra nesta direção e não naquela, uma fatalidade?Penso às vezes que não escolhi, mas que fui escolhida: nem sabia o que significava vocação, mas de forma instintiva já estava assumindo o meu ofício. 

Lygia Fagundes Telles começa a trabalhar “o seu ofício”, após o almoço. São dezenas e dezenas de carta a responder. Telefonemas a dar (ela preside com eficiência total a Cinemateca Brasileira). A Nova Fronteira quer editar novos livros seus. Atende também a outros escritores o pessoal da União Brasileira de Escritores. Está sempre com um novo texto a fazer, escreve (bem) à máquina, sempre foi assim, nunca esquece que foi advogada militante e Advogada do Estado. A TV Globo quer saber se tem outro romance para televisar. As 5 da tarde - é uma quarta-feira - apronta-se, sai lépida e bonita, para a sessão (e o chá) da Academia Paulista de Letras, como imortal que é. Às 8 da noite, a imortal Lygia, como uma mortal comum, retorna ao seu apartamento, à sua intimidade, à sua criação sensível e humana, aos mistérios e á sua esperança, marcas mais profundas dessa mulher de fama e consagração nacional, mas a um tempo tão feminina e simples. Antes de dormir, a última leitura, de um de seus livros “volantes”, para se apaziguar, a Bíblia, de que não se separa nunca. As 10 e pouco, 11 da noite, se tanto, dorme o sono justo das criaturas que tem fé, raça e coragem. É assim que o INFORMAC viu, nessa quarta-feira, dia 22 de agosto, essa mulher, escritora e gente, Lygia Fagundes Teles. . 

 Frases/Conceitos 

Escrever - Escrever, escrever, escrever sempre. Bérgson dizia: Nunca sabemos até que ponto vamos atingir, se não nos pusermos imediatamente a caminho. Eu escrevo aos poucos, a idéia vai amadurecendo. Quando sinto que chegou a hora, sento e escrevo. Pode ser à tarde. Muitas vezes à noite, quando está tudo silencioso, e as pessoas apaziguadas. 

Livros & obra - Sou uma andeja que sabe o que está procurando: a palavra exata para dar expressão a uma idéia. Meus livros são meus filhos também: alguns, coitados. Rejeitados, mas outros bastante minados. O último está sempre no meu colo. E minha obra, toda, é um livro só. 

Casar - O Homem é tão necessariamente louco que não ser louco representaria uma outra forma de loucura, escreveu Pascal... Dos sintomas básicos da neurose, quase ninguém escapa... Selecionei, em minha lista, as neuroses mais comuns: a necessidade neurótica de agradar os outros, necessidade neurótica de poder, necessidade neurótica de realização pessoal, necessidade neurótica de despertar piedade, necessidade neurótica de um parceiro que se encarregue de sua vida - ô Deus! - mas desta última necessidade só escapam mesmo os santos. E algumas feministas mais radicais. 

O Amor - Na vocação para a vida está incluído o amor, inútil disfarçar, amamos a vida. E lutamos por ela, dentro e fora de nós mesmos. Principalmente fora, que é preciso um peito de ferro para enfrentar essa luta na qual entra não só o fervor, mas uma certa dose de fervor e cólera... O amor é mais importante do que a glória. 

Fonte original: 
InforMAC - Órgão de Divulgação Interna das Empresas Machline Ano III - Nº 31 - Agosto 1984.