quinta-feira, 21 de maio de 2020

Geraldo Ferraz - um cultor da verdade e da liberdade

Um cultor da verdade e da liberdade: Geraldo Ferraz 

Foi-se do mundo dos vivos o nosso amigo, o nosso colega, o nosso companheiro de A TRIBUNA, Geraldo Ferraz, escritor e ensaísta, veterano do pós-modernismo de 22, desbravador e corajoso intelectual. Há três anos, no Palácio dos Campos Elíseos, ao receber um prêmio como o melhor crítico do ano, da ABCA, proferiu palavras estimulantes e instigantes sobre essa atividade, afirmando que a “crítica deve ser parcial, em favor da verdade”. Geraldo combatia a crítica dita imparcial, amorfa, sem raiz e sem espinha dorsal. Por isso, pela adoção desse primado da busca da verdade, GF tenha talvez se indisposto tanto, em seus 40 anos de atividades, com rodas e rodinhas literárias e artísticas.

Temido e respeitado, aberto e livre, Geraldo Ferraz continuará em nossa memória, inclusive como debatedor, lutador e trabalhador incansável, desde a juventude, quando, modesto gráfico, iniciou-se no jornalismo e nas letras. Mais que um pioneiro, um idealista, o brilhante e sarcasta Geraldo Ferraz, que conhecemos ao lado de Wega, em suas andanças em São Paulo, no seu refúgio do Guarujá, na Ilha Verde, onde morreu, deixa a esteira de seu pensamento por um socialismo utópico, e suas reflexões profundas do papel da arte na sociedade humana. Um cultor da cultura, um defensor da liberdade, eis, em suma, a fidelidade de Geraldo Ferraz a seu mundo, e, sobretudo, a si próprio. 

A QUALIDADE DO MUNDO DEPENDE DOS JOVENS 

Um dia após a morte de GF, a crítica Radhá Abramo publicou sentido texto na Folha de São Paulo, do qual destacamos estes trechos: 

“Há quarenta anos Geraldo Ferraz escreve sobre arte, estética e política. As décadas de 30 e 40 e os movimentos de renovação artística a partir dos anos 50 até os dias de hoje, merecem do escritor diversas análises que por serem tratadas em profundidade facultam ao leitor uma visão de mundo muito densa, contraditória, porém, autêntica. 

Fora os estudos das diversas tendências artísticas, desde o expressionismo até as atuais manifestações da arte, designada como realismo mágico, Geraldo Ferraz percebe na educação artística um meio pelo qual o homem pode libertar seus sentimentos, extravasar suas sensações. 

“Esse aspecto da obra do crítico possivelmente seja o mais importante entre todas as propostas defendidas com rigor de uma formação humanística ampla, que sempre fundamenta seu pensamento filosófico. Geraldo Ferraz aponta inúmeros problemas decorrentes da falta de educação artística do artista militante e Da sociedade humana em geral. Quanto ao primeiro, acredita que o desconhecimento das potencialidades sensoriais não desenvolvidas impedem o artista de processar sua linguagem com a fluidez latente, fazendo-o vítima exclusiva do aprendizado das técnicas. Este perigo possivelmente levaria o artista ao exercício meramente instrumental, obrigando-o ao virtuosismo,ao preciosismo técnico e ao academicismo, ou seja, à repetição de fórmulas estilísticas. O fazer artístico implica descontração e descomprometimento com a técnica, mas para que isto ocorra é preciso que o universo sensorial do artista esteja presente e que o instrumento de realização da obra de arte tenha um relacionamento afetivo, íntimo, pessoal com a mão que manipula. 

“A educação artística aplicada à infância e à adolescência facultaria, pensa Geraldo Ferraz, a emergência de sentimentos novos, harmoniosos “que precisamos preservar da barbárie e da extinção”. Para o crítico, portanto, a qualidade do mundo depende do aproveitamento dos recursos existentes nas crianças e jovens que ainda não foram deformados pelos modelos, sejam lá quais forem, que cerceiam e sufocam o que há de bom e belo e ainda não explorado na humanidade. Como Herbert Read, Geraldo Ferraz,encontra na arte um meio de transformação social que obriga o indivíduo a pensar em si próprio, nas suas emoções e sensações em, primeiro plano. A transformação, portanto, deve ser do homem para que em última instancia ele consiga realmente elaborar a transformação da sociedade.

“As idéias de Geraldo Ferraz, levantadas agora, nesse momento em que seu corpo pousa tranqüilo sob a terra de Santos que ele muito amou e a mais afetiva das homenagens porque elas revelam o espírito criador do homem presente, dando seu recado especial às crianças e aos jovens que ele soube em vida abrigar com ternura, com doces palavras, com pitos merecidos e polêmicas apaixonadas”.

A TRIBUNA Domingo, 30 de setembro de 1979.

sábado, 29 de julho de 2017

DIÁLOGO COM J.Q. EM "A GALERIA"


 JQ – O senhor que escreveu aquela noticia no “Painel” na Folha? 
LE – Eu não escrevi. Eu dei uma entrevista à Folha. 
JQ – Você é um mentiroso! 
LE – Não. Escutei aquilo do Carlos... 
JQ – Você é um mentiroso!!! 
LE – Mentiroso é o senhor! 
JQ – Aquilo é uma infâmia, me atinge!
LE – Eu informei no jornal o que o Carlos me disse. Que nunca mais queira saber de Jânio Quadros. Que o senhor era um traidor!
JQ – Isto é uma infâmia! 
LE – Na opinião do senhor... 
JQ – Isto não vai ficar assim! Eu tenho provas...
LE – Eu também tenho, Presidente! 
J.Q.  –... E eu vou esmagá-lo!!! 
LE – Pode fazer o que quiser, Presidente. Sou um jornalista modesto... 
JQ –... Eu vou esmagá-lo! 
LE – Pode fazer o que quiser. Não sou candidato a nada. 

Diálogo ocorrido em A Galeria, em 24.8.77 
Testemunhas: Paulo de Tarso dos Santos, Waldemar Szaniecki e outras pessoas. Houve avanços e recuos. Saí de A Galeria em seguida ao diálogo. Na rua, já na calçada, Szaniecki me seguiu e convidou-me a entrar de novo. Agradeci e disse que não o fazia, em homenagem a duas pessoas que muito prezava: Paulo de Tarso e ele, Waldemar. Tomei o carro e fui à casa do Flávio Pinho (aniv. Silvia), onde cheguei muito agitado. O bom ambiente, o bom vinho, as muitas conversas com amigos me acalmaram. 

A respeito dessa passagem e para bem melhor compreendê-la, escreveu Gabriel Kwak em “O Trevo e a Vassoura”:

Jânio Quadros queria que Carlos Lacerda, o homem que havia precipitado o seu gesto ingênuo de renúncia, escrevesse um manifesto de homens públicos com direitos políticos cassados. O espevitado ex-presidente fez essa proposta ao veterano jornalista Luiz Ernesto Kawall muito ligado a Lacerda, na missa de sétimo dia do empresário Ciccillo Matarazzo. 

Dias depois, Luiz Ernesto esteve com Lacerda no Rio de Janeiro, na Editora Nova Fronteira, de propriedade do ex-governador da Guanabara, e tocou no assunto. O Corvo cortou: 

– Esse é um traidor da pátria. Eu nunca mais quero falar com esse f.d.p.! 

Oito dias depois, Carlos Lacerda faleceu na Clínica São Vicente. Jânio, então, declarou à Folha de S. Paulo que o falecido tinha sido “o culpado da sua renúncia”. Luiz Ernesto contra-atacou, plantando na coluna “Painel” do mesmo jornal as declarações sobre Jânio que ouvira de Lacerda, dias antes.

Dias depois, Luiz Ernesto foi a um vernissage de Paulo de Tarso Santos em A Galeria, na Rua Haddock Lobo, nos Jardins, São Paulo. Lá encontrou Jânio Quadros, em companhia de Fernando Mauro Pires da Rocha e Roberto Cardoso Alves. Quando viu o jornalista, o ex-presidente teria perdido o fair play e saído em disparada em sua direção. Fora de si, chamou Luiz Ernesto às falas:

– Foi você que me chamou de traidor na “Folha”? 

– Eu não. Foi o Lacerda. 

Sacudindo o copo na direção de Luiz Ernesto. Jânio ameaçou: 

– Mentira! Vou esmagá-lo! 

Luiz Ernesto não se intimidou e ainda arremedou o homem da vassoura: 

– Esmagá-lo-ei primeiro, presidente. S

e não fosse a entrada em cena da “turma do deixa disso”, a noite acabaria em prejuízo para um dos dois galos de briga. Abreu Sodré, no entanto, queria que o episódio, verdadeira cena de ópera bufa, tivesse outro desfecho. O ex-governador disse a Luiz Ernesto: 

– Você devia ter da do um tapa nesse canalha.

(O Trevo e a Vassoura - os destinos de Jânio Quadros e Adhemar de Barros - Ed. A Girafa, p. 178).

CARLOS LACERDA NÃO MORREU; IMPLODIU

CARLOS LACERDA NÃO MORREU; IMPLODIU 







O jornalista Luiz Ernesto Kawall trabalhou 14 anos com Carlos Lacerda e colaborou com ele até sua morte 


Conheci Carlos Lacerda em 1943, ou 1944, não me lembro bem, num congresso de Escritores realizado na Biblioteca Municipal, em S. Paulo. Ele sentou-se à mesa principal, junto à Sergio Milliet, Jorge Amado, Mário de Andrade e outros cobras da nossa cultura, que lutavam contra a ditadura e exigiam a abertura – naquele tempo! – democrática para país que ganhava a guerra com os aliados. 

Lacerda inflamava e, anos após, derrubado Getúlio, lá estava fustigando em sua coluna do “Correio da Manhã”, a Tribuna da Imprensa. Estudante de jornalismo, na Casper Líbero, em 47, 48, 49, comprava o “Correio”, que líamos na Escola da “A Gazeta”, nós os lacerdistas da época. Em 1949 Lacerda faz o próprio jornal, a intrépida Tribuna da Imprensa, e nós o entrevistamos duas vezes, para “A Imprensa”, o jornalzinho da Casper, acompanhando sua trajetória, e, mesmo, o escolhemos para paraninfo, na turma de 1951. Feitos os contatos, passou a pedir notícias a 3 ou 4 colegas, para ganharmos experiência, dizia ele, e, quando Cláudio Abramo, que chefiava a redação do jornal em S. Paulo, viajou à Europa, ficamos encarregados de coordenar o serviço editorial aqui, e fundamos logo, com a cooperação de Samuel Ribeiro, a Sucursal paulista do jornal, no Prédio Glória, Praça Ramos de Azevedo, 209, onde passaram, nos 14 anos que lá estive, tantos jornalistas, como Walter Zanini,Regina Helena, Fernando Lemnos, Miguel Batlouni, Aracy Amaral, Joaquim Dias, Elu Azevedo, Luiz Edgar de Andrade, Luis Fernando Mercadante, Redento Natale e tantos outros. 

Lacerda vinha do Rio com freqüência e nos dava as missões mais difíceis, como entrevistar Jânio então vereador, ou pegar o ministro Souza Lima demissionário, ou levantar os bastidores da briga Ademar/Garcez, e ainda o “quem é quem” de Ademar Ferreira da Silva ou “Ciccillo” Matarazzo. Mas, parece, nos desincumbimos bem do trabalho e a “Tribuna” seguia vitoriosa, apoiada por industriais amigo e os “lacerdistas” das agências de propaganda, como David Monteiro, Saulo Guimarães, Nilo Gambini, Ítalo Éboli, Emil Farhat e tantos outros de saudosa memória. Um dos trabalhos mais difíceis que tive péla frente foi provar que Samuel Wainer era bessarabiano, tinha vindo num navio ainda bebê com seus pais imigrantes. Em 24 horas fui a todos os cartórios de S. Paulo e ainda hoje não sei se a pesquisa foi positiva. Parece que Wainer veio com outro nome, ou não, se é brasileiro, que me perdoe, hoje! Os tempos de Jânio x Lacerda foram empolgantes e duros, pois um desconfiava do outro, e, muitas vezes – até depois da morte de Lacerda – paguei o pato. Jânio disse que Lacerda foi o causador de sua renúncia e eu protestei contra a inverdade. Carlos tinha me dito, 15 dias antes de morrer: “Nunca mais quero falar com esse traidor”. E Jânio não gostou. Numa galeria de arte, me contestou e quis, mesmo, me agredir. Deixa pra lá. 

Lacerda em S. Paulo procurava os amigos e amenidades. Uma boa companhia – e Roberto Sodré foi sempre seu melhor anfitrião entre nós – um uísque amigo, as madrugadas a dentro para as conversas – literatura, arte, política, viagens, pessoas, fatos, confidências, tudo servia à sua mente privilegiada e sua memória incrível. Culto até envergonhar a gente, era educado e fino, de mandar rosas à família hospedeira e beijar a mão das senhoras. Mas, bravo, era o diabo. Sua genialidade desmontava, e uma vez, acuado por José Gregori na Faculdade de Direito (a quem a “Tribuna” acusara de comunista injustamente), levantou-se, fez pose, e... pediu, humildemente, perdão ao estudante. A Faculdade veio abaixo, em aplausos! A maior figura de seu tempo, em nosso país, neste século. Superior a Ruy, comparável a Kubistcheck, ousou, empreendeu, cultivou o espírito, viveu entre o tangível e o imaginável. Não morreu, implodiu, por amor à cultura, à sua terra, à sua gente, ao Brasil.

ESPÍRITO DE LUZ NA TERRA

EM 1944 ele apareceu de grossos óculos no Congresso de Escritores na Biblioteca Municipal, que pedia democracia no Brasil da ditadura, e sentou-se à ponta de mesa onde estavam Torelly, os dois Andrade, Sérgio Milliet, Jorge Amado, tantos lotadores e democratas. Da torrinha, foi a primeira vez que vi entre nós. Morou nos anos 40 aqui, com seus amigos Aparecida e Paulo Mendes de Almeida, no Paraíso. Era glutão, trazia todas as noites – após o trabalho no Readers da Associação Comercial (com Gontijo de Carvalho) e na Rádio Gazeta, onde revelou... Cacilda Becker, teatralizando para o rádio peças famosas – queijos e pães italianos, que comia com Letícia, em longos serões pela noite. A essa época já agrupava amigos e empolgava nas conversas, gênio brasileiro. 

Em 47, lá estava o Carlos falando na Faculdade de Direito, as Arcadas lotadas, sobre a missão da imprensa. Um amigo nos apresentou e eu quis apanhar a palestra escrita para o jornal da Casper Líbero. Não deixou, com brusco gesto, afirmando que a Vozes editaria o seu texto – o que logo aconteceu. Em 50, formei-me naquela escola católica, ele foi paraninfo da nossa turma, e, desde então, trabalhei com Carlos, profissionalmente, sob o seu comando na Tribuna da Imprensa, até 1964 e, em pesquisas e outras ajudas diversas, até praticamente ele morrer, em 77, implodido com a situação nacional e sua própria condição de exilado no País. 

Nos longos exílios e dezenas e dezenas de viagens, nunca deixou de manter contato com a gente paulista, seus amigos, com a São Paulo que visitava frequentemente, que compreendia e conhecia como poucos, gostava e exaltava. Afirmou que a missão de São Paulo era liderar o progresso nacional – social, cultural, político, econômico, tecnológico. Assim achava, assim agia aqui.

Aqui em São Paulo encontrou sempre apoio a suas campanhas políticas e jornalísticas; em 65, sua candidatura à presidência foi lançada no saguão de A Gazeta, em plena Avenida Paulista. Do hotel, por fio direto, ouviu todos os discursos iniciais. Gostava como poucos de uma pizza no Brás, que uma vez freqüentou com Amoroso Lima, Gustavo Corção, Nascimento Brito, Queiroz Filho e Franco Montoro; depois passou a comer os churrascos na Zona Sul, os refinados jantares de seus amigos dos Jardins. Nunca vinha a São Paulo sem se hospedar, ou estar, ou saber deles, com Maria e Roberto Abreu Sodré – amigos que amou até a morte – fiéis amigos até hoje deserdados pela brutalidade de seu desaparecimento. Ia à Rua Augusta, descobria lojas, freqüentava nossos museus – e teve uma briga com o professor Bardi, por criticar o Museu de Arte –, livrarias, sebos, passarinheiros, floriculturas, literatos. Nos últimos anos, se entusiasmava com a pesquisa da “Bucha... E quando, no Itaim, descobriu o nome de seu pai num arquivo secreto dum bucheiro, deu três pulos, ficou pasmo e hirto: “Então era isso! Era por isso que quando prendiam meu pai ele telefonava para este almirante (cujo nome figurava ao lado do Maurício Lacerda, no documento) e meu pai era logo solto...!”. 

Era assim, Carlos, entusiasmado e entusiasta, fez um admirável livro, com Germano Zimmber, chacareiro que descobriu na ladeira ao lado do cemitério da Consolação, sobre nossas quaresmeiras, ninguém escreveu melhor que ele sobre o artista Octávio Araújo, que visitamos uma tarde, com os Grassmann, em Santo Amaro, curtiu Ademir, mas não gostava de Volpi, nem do se considerar Volpi o maior artista vivo nacional. Lia religiosamente o Estadão e respeitava, embora tantas vezes discordasse, do Capitão Julinho e de seus filhos. 

Freqüentou a Louveira, sim, pela mão de um querido amigo, Alfredo Mesquita, como foi amigo sempre, desde o Rio, de Luiz Martins, de “Ciccillo” Matarazzo, de Orcar Segall, Carlão Mesquita, do padre Godinho, Afrânio de Oliveira, José Scarano, Carlos Alberto Aulicino, André Faria Pereira Filho, Antonio Pereira Lima, tantos outros. Curtia, enfim, a “paulistaniedade” com constância e o ardor criativo que foi a marca de sua vida. 

Cá estou, saudoso nestes 5 anos da morte do grande brasileiro, que ousou mais que seu amor por viver poderia suportar, para umas referências à sua ação de líder, de jornalista, de companheiro, de político, em São Paulo. São relatos simples, que talvez possam melhor fazer compreender o homem, a figura de Carlos, desassossegado, irreprimível e espirituoso, capaz de comunhão fraterna, levando sua brava palavra nas conferências e nos comícios, na televisão e nas pizzarias, nas alegres tertúlias literárias e noites de boemias circunstanciais, e onde mais se revelava com rara inteligência do que era dotado.

Era de ver Carlos – e quem não viu, não verá nunca mais, esse mestre de oratória, no Des Oiseaux ou nas Arcadas, defendendo o bom combate, ao lado de Mangabeira e Jânio (nos começos), ardendo de fé cívica nos sindicatos de Franca ou Santos, orador magnífico no Automóvel Club, na Sociedade Rural Brasileira, na Federação das Indústrias, na Tupi e na Excelsior, nas entrevistas no aeroporto ou no Hotel Jaraguá, nas históricas reuniões da UDN, nos comícios de rua e praças públicas, formidável, voz candente e sonora, arrebatado, o grande tribuno nacional deste século. Nas campanhas, era sempre o último e mais extenso orador, inflamando e denunciando, levando de roldão adversários, demolidor e irresistível, como Juarez, Juracy, Queiroz Filho, Paes de Barros, Herbert Levy, Almeida Jr., Tuma, Paulo de Tarso, Segall, Helio Mota, tantos outros, em gloriosas jornadas cívicas. Lacerda não dormia, não trazia paz, era a convulsão em marcha, arrebatador e criador, vida predestinada, a beleza da palavra na hora certa e exata, força da natureza, exemplo de vida. Jânio, Carvalho Pinto, Garcez, Ademar, meteu-se com todos e compôs-se com todos, conforme os azares da política paulista, que procurava converter ao tom nacional de seu discurso político. 

Na intimidade, é que conseguiu ainda mais prosélitos, ora indo às exposições de arte, de pássaros e de flores, ora percorrendo por longas horas dos jardins e cercanias, descobrindo o que a gente nunca sabia e não via, terminando a noite em restaurantes de que também ouvira falar, em lugares difíceis de chegar, mas onde sempre havia o melhor prato, o vinho mais especial, o rega-bofe mais requintado. Era um especialista em obras raras, discutia com Olinto Moura cada livro, capaz de falar de livros que comprava em Londres, Nova York e Paris, comparando edições e traduções, chegando a detalhes sobre cada autor, seu pensamento filosófico e ideológico, etc. e tal. (...) 

Para não cair no folclore, fiquemos por aqui. Tem o Carlos que se encantava com os desenhos de Grassmann, a doce presença de “Ciccillo”, a amizade de Bruno Giorgi, a confiança de Guilherme Kawall e Paulinho Carvalho, a confissão com o padre Calazans, as entrevistas ao Spera, Leporace e Maurício, Murilo Alves, a admiração que tinha pelo velho Julinho (respeito também, lia o Estadão com respeito e receio de discordar), o quibe com o David Maluf, com seus amigos de toda hora e os grã-finos também, colóquios com Cláudio Abramo, jornalistas, estudantes, jovens políticos, empresários e banqueiros, passarinheiros e floricultores, ia e vinha, vinha e ia o nosso Carlos, com seu sorriso e sua voz inconfundível, interrompendo a tudo e todos, porque sua presença transcendia, na rua ou no Museu de Arte, na tertúlia política e no bar, espírito de luz na terra. 

Texto de LUIZ ERNESTO KAWALL, extraído do artigo “LACERDA A EMOÇÃO DA VIDA, 5 ANOS DEPOIS”, publicado na OESP, em 21.maio.1982)

CARLOS LACERDA, JÂNIO QUADROS E A RENÚNCIA

CARLOS LACERDA, JÂNIO QUADROS E A RENÚNCIA 

Leio nos jornais que, morto Carlos Lacerda, Jânio Quadros lhe atribuiu à causa principal de sua renúncia, “Quis evitar o derramamento de sangue”, diz JQ, além de outras afirmações desse teor. 

Quero prestar um pequeno depoimento pessoal, que vocês ajuizarão. 

Em recente acontecimento social, nesta Capital, Jânio me disse que desejava falar com o Carlos. Quando ele viesse a S. Paulo, que fizesse o favor de telefonar a ele. Deu-me até o telefone de sua casa. 

No Rio, há 15 dias, onde fui a serviço profissional, procurei, como sempre, Carlos Lacerda na Nova Fronteira. Levei algumas fotos antigas de S. Paulo, para um álbum que ele pretendia publicar ao final deste ano (cedidas pelo MIS e Serviço do Patrimônio da Prefeitura, além de pesquisas de D. Maria Morais Barros). 

Após vários assuntos, dei o recado de Jânio. E o Carlos, de forma textual: 

– Errar todos erramos, Luiz Ernesto. Eu principalmente errei e tenho errado muito. Mas trair é outra coisa. E Jânio Quadros traiu, é um traidor, Nunca mais quero ter conversa com ele. 

Não posso, nessa hora, ficar silencioso antes a frase e o fato, que julgo o definitivo juízo de Lacerda sobre Jânio Quadros frente à História. 

É que lhe desejava transmitir, nesta hora, em que o Brasil perde seu maior vulto neste século, acordando emoções e consciências há tanto adormecidas. Luiz Ernesto Kawall SP – 24.5.77

A História da “Bucha”: O livro que Carlos Lacerda não escreveu (por Gabriel Kwak)

A História da “Bucha”: O livro que Carlos Lacerda não escreveu
(por Gabriel Kwak) 

A família Mesquita, do jornal O Estado de S. Paulo, encomendou a Carlos Lacerda, que estava proscrito da vida pública, amargando a cassação dos seus direitos políticos pelo regime militar, um ensaio biográfico sobre os irmãos Júlio de Mesquita Filho e Francisco Mesquita. O ex-governador da Guanabara foi ajudado nas pesquisas por Luiz Ernesto Kawall e Luiz Roberto de Souza Queiros, que recebiam, para isso, um ordenado do Estadão. 

Em dada altura, Luiz Ernesto descobriu uma pessoa que poderia dar acesso às atas da Burchenschaft, uma sociedade secreta e filantrópica que existia no âmbito da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, fundada em 1831 pelo alemão Julius Frank (1808/1841) para socorrer estudantes pobres. Frank era professor de Geografia e História do Curso Anexo das Arcadas, autor de um livro didático intitulado Resumo da História Universal (1839) e, por ser protestante, foi enterrado no pátio interno da própria faculdade de Direito (onde seus restos mortais se encontram até hoje).

Bursch quer dizer camarada e schaft significa confraria. Os estudiosos da Bucha sabem bem da influência que a Bucha exerceu nos destinos políticos do Brasil. Basta examinar os nomes de alguns renomados bucheiros. Consta que nada menos que Rui Barbosa, Barão do Rio Branco, Prudente de Morais, Campos Sales, Rodrigues Alves, Washington Luís, Pedro Lessa e Paulo Nogueira Filho pertenceram às fileiras da entidade, que se assemelhava muito à maçonaria. Confrarias semelhantes, também difusora das idéias liberais, existiam na Faculdade de Medicina e na Escola Politécnica. 

Lacerda ficou radiante com a novidade. Não pensava em outra coisa. Deu-se então o esperado encontro entre o guardião do livro das atas das reuniões da “Bucha” e a dupla Lacerda e Luiz Ernesto. 

“O Lacerda foi folheando e encontrou o nome do amigo do pai dele, [o político], Maurício de Lacerda, na reunião de bucheiros. Aí ele deu um soco na mesa e falou”: “Tá vendo por isso quando meu pai quando era preso, ele ligava para esse nome que vocês estão vendo e meu pai era solto no dia seguinte”. Ele ficou emocionado. “O pai dele era um revolucionário de esquerda”, comenta LEK. 

Os capítulos sobre a trajetória de Julinho e Chiquinho Mesquita não avançaram. Carlos Lacerda se interessava mesmo em desvendar os mistérios da sociedade secreta, cuja história ainda está por ser contada, à espera de um pesquisador que lhe escreva uma anatomia. Lacerda não escondeu de José Maria Homem de Montes, um dos homens de confiança dos Mesquitas, que a Bucha acabou dominando sua curiosidade intelectual. No livro Depoimento, resultante de 34 horas de conversas gravadas como jornalista do Jornal da Tarde, assinalou: “É impossível escrever a história da República sem escrever a história da Bucha, como é impossível escrever a história da Independência sem escrever a história da Maçonaria”. Ainda segundo Lacerda, o próprio Julinho tinha sido um bucheiro. 

Em tempo: documentos e material de pesquisa sobre a “Bucha” que estavam com Lacerda e Kawall estão agora em poder do arquivo do Estadão. Até hoje as atas da organização são um assunto proibido. O teor desses registros jamais foi revelado. Luiz Ernesto Kawall, no entanto, chegou lá com a cooperação de Luiz Carlos S. Queiroz e incentivado por Ruy Mesquita e seu filho Ruizito Mesquita! As atas falam agora por si, com o texto incisivo do jornalista que levou 30 anos para desvendar segredos da bucha. 
Gabriel Kwak (publicado originalmente na revista Imprensa).

Para saber mais sobre a Bucha e Julius Frank, consultar

A Bucha, a Maçonaria e o Espírito Liberal, de Brasil Bandecchi (1982. Editora Parma)

A Sombra de Júlio Frank, de Afonso Schimidt (1950, Clube do Livro) O Conselheiro Antonio Joaquim Ribas e Júlio Frank, de João Gualberto de Oliveira, Revista da Ordem dos Advogados do Brasil (maio/junho 1960) 

Memórias de Júlio Frank, de Antonio Augusto Machado deCampos Neto (Revista da Faculdade de Direito – USP, volume 98 – 2003)

Museu das Arcadas, Painel Júlio Ave Wahakara

30 anos depois Atas da Bucha 
(por Luiz Ernesto Machado Kawall) 

O texto do colega Kwak, da revista Imprensa, não conta alguns fatos que aconteceram durante o trabalho com Carlos Lacerda, e depois da sua morte – sempre a respeito da Bucha. Vão, pois, por ordem de sequencia, se bem me lembro: 

1. Quem nos levou à casa de seu avô, Dr. Levy de Azevedo Sodré, para ver as atas da Bucha, foi seu neto, Levysito, da roda lacerdista em S. Paulo; era um apartamento nos jardins; os dois Levys, avô e neto, morreram, como também Lacerda, ficando, pois, a pesquisa interrompida; 

2. O repórter do Estado, Luiz Roberto de Souza Queiroz houvera feito várias reportagens sobre a Bucha, que mandávamos para Carlos Lacerda, no Rio, a nos depois – isso já é quase recente – me telefonou para um encontro em casa de Ruy Mesquita Filho (Ruysito) no Morumbi. 

3. Ruysito falou que, com tempo disponível no jornal, vinha se dedicando a editar livros e à procura de textos originais; perguntava sobrea pesquisa da Bucha, iniciada por Lacerda, freada pela sua morte, feita por mim, Luiz Ernesto Kawall e Luiz Roberto Souza Queiroz. Disse que o trabalho ficara em ponto morto, pois o Dr. Levy de Azevedo Sodré morrera, bem como seus filhos Levy Sodré Filho, Antonio Augusto Sodré e Manuel Azevedo Sodré, como já assinalado, e o neto Levysito também. Certa ocasião eu falara com o filho mais velho (Levy Sodré Filho), que guardara uns documentos de seu pai em chácara do Embu, onde vivia; foi peremptório ao dizer que tais documentos não seriam mostrados a ninguém – o pai proibira – e mesmo, num baú, tomaram chuva e estariam imprestáveis; 

4. Foi aí que entrou em cena um novo Sodré, Ruy Azevedo Sodré, antigo associado do Pinheiros, a que, num encontro casual, relatei a saga da Bucha, de 30 anos; ele me disse para telefonar à tia Eunice, remanescente da clã dos Sodré, em seus 90 anos... Ela “sabia tudo da família”... “dos vivos e dos mortos”... Etc., etc., etc.. Localizei-a e da simpática tia fui direcionado às irmãs Fernanda e Ivone Sodré Neves, já da terceira geração dos Sodrés; sim, elas e o empresário Carlos Neves, sabiam dos documentos secretos da Bucha, até então, sem destino na família; iriam, os novos e jovens Sodré, reunir-se e decidir se me atenderiam, para eu levar, via Souza Queiroz e Ruysito Mesquita, ao Estadão; os Sodrés hesitavam, pensavam em entregar à direção da Faculdade de Medicina, onde o avô fora expoente e professor e de onde vinham os bucheiros secretos citados dos 2 livros de atas.

5. Após um empo de novas conversas e até consultas a advogados, a família atual dos remanescentes dos Levy de Azevedo Sodré autorizou simpaticamente a publicação das atas, para conhecimento do público interessado e historiadores, o que se faz no Estado, agora, de forma inédita. O repórter observa que nas atas se vê o caráter filantrópico da Bucha nos anos 20/30, sua constituição heterogênea – as atas são da Bucha da Medicina, mas dela faziam parte, entre outros, Armando de Salles Oliveira, José Carlos de Macedo Soares, Vergílio Steidel, Júlio de Mesquita Filho, José Guilherme Whithaker e tantos outros. A sociedade secreta lutava por ideias de justiça e liberdade, seguindo Julius Johan Julius Gottfried Ludwuig Frank. Mas isso é para os exegetas sociais da nossa história.

“A CASA DE MEU AVÔ”


Entre as obras literárias de Carlos Lacerda, escritor, destaco o livro “A Casa do Meu Avô”, biográfico, em que o jornalistas e político retrata sua infância, em Vassouras (RJ), ao lado de seu avô Sebastião Lacerda. É considerada a obra prima literária de Carlos Lacerda. O trecho que abaixo reproduzo, extraído das páginas 124/125, é simpático e primoroso. L.E.K.

 “[...] Entro no quarto, que não era só meu. Era também da Babá. Não me lembro dos meus sonhos propriamente ditos e sim dos que não levavam esse nome, e independiam da cama e do sono. Esses eram recorrentes e monótonos, havia sempre uma perseguição, uma tentativa de me livrar sem conseguir, uma voz que não saía, uma voz que não se consumava, uma espécie de prisão sem grades – e uns imensos espaços vazios, que eu percorri em velocidades vertiginosas, ou ao contrário, passo a passo, macio e demoroso. Creio que havia uma componente narcísica, como diria hoje, nos meus sonhos. Mas recentemente um entendido, duplamente, porque além de psicólogo de nascença é um narciso ele próprio, disse-me que o mito tem sido muito mal interpretado. Ao contrário do que se pensa, Narciso não morreu por se apaixonar por sua própria imagem. Apaixonou-se por uma ima imagem que ele julgou não ser a sua. Morreu de tristeza por não ter a imagem que viu e pretendia ter por sua. Desgostoso consigo mesmo, cobiçando imagem alheia que era a sua sem que ele soubesse, eis a interpretação correta do meu amigo psicólogo a quem não falta fantasia. Recolho nesse pequeno quarto de tábuas apodrecidas os escombros dos meus sonhos na casa do meu Avô. Esparsas lembranças, imagens repetidas, símbolos reiteradamente afirmados, o pequeno vulto perdido num desperdício de espaços pequenos, a percorrer o mundo descalvado – essa tristeza que cobria tudo, que só se desfazia quando chegavam os guerreiros e bandidos, então era preciso libertar a princesa aprisionada no galho maior da mais alta mangueira, e surtos de fogo jorravam da terra, entre eles se esgueirava ao vulto flexível do moço que corria a redimi-la, que era eu transportando-a no alazão que eu, o meu outro eu alado e volátil, carregava num tropel sobre folhas e nuvens, rompia a noite e caminhava na alvorada, suave palor nascente na mata, ainda hoje sinto o cheiro de ervas pisadas, folhas mastigadas pelo caminho, tenho numa orelha a cicatriz do espinheiro que a marcou para sempre numa disparada do cavalo, esta sim, verdadeira, quando, mais tarde, depois duma cachaçada num armazém remoto, do lugar chamado Massambará, montei bêbado para voltar sem saber o que fazia nem para onde ia. Neste casto quarto de menino que apenas adivinhava os arrepios da carne e o que ela lhe reservava, meus sonhos eram precedidos do lento caminhar de uma aranha na cal da parede, da lâmpada solta que pendia apenas amparada por um protetor de louça todo em bicos, debaixo do qual a lâmpada luzia com seus filamentos em riste, formando um desenho que a custo fitava, antes de adormecer.

trecho extraído do livro "A Casa do meu avô" - Pensamentos, Palavras e Obras. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1977.