sábado, 13 de dezembro de 2014

UBATUBA ’64 – Artesanato e folclore

Artesanato ubatubano. 
“Arte nativa Local: Sobradão da barra Promoção da Prefeitura Municipal Ubatuba. Litoral norte. São Paulo”. O cartaz de cores ousadas destacando o peixe ingênuo de Nahum, atrai o turista que passa. Entra pela soleira colonial do sobradão vetusto. Onde o artesanato ubatubano é representado por centenas de peças autênticas – de barro e ferro, madeira e xaxim, conchas e cipós. 
O turista, deslumbrado, vai comprando: um abajur de taquara, uma poltrona de raízes, uma sereia decorativa de guiarana, a cestinha de fibras coloridas... 
Ubatuba 64 é assim. Artesanato & pureza. Cultura popular. Folclore. 

Quem é 
Mineira de Uberaba, professora primária, já trabalhou no Consulado da França, foi Irmãzinha de Jesus do Pe. Foucauld (místico francês de cujas idéias herdou a espiritualidade missionária) no Rio de Janeiro, em São Paulo e Buenos Aires, trabalhou no Serviço Pró-Educação e Saúde de D. Virginia Lefèvre – eis Sarah de Brito, responsável pelo serviço do artesanato ubatubano criado pelo Prefeito Matarazzo. 
Verônica dos Santos e Bendita de Oliveira cuidam agora dos turistas. Sarah puxa o repórter para outra saleta, – passando por alcovas e dependências da Casa da Lavoura, nos fundos do casarão. Felix Guizard Filho, de chapéu de palha, desce a grande escadaria, para um passeio matinal. 
O quarto tem mil coisas típicas. Junto à mesa antiga, sentada em seu banquinho de ubá (uma das madeiras típicas do litoral norte) Sarah dispara. 

Fins 
Diz ela: – A finalidade do serviço do artesanato em Ubatuba é levantar, reviver e aperfeiçoar a técnica de cestaria e outras artes tradicionais da região, sempre dentro dos campos artesanal e folclórico, descobrindo e estimulando valores, e dando-lhes antes de tudo uma forma de vida estável.
Entram a doutora Alzira Helena e o plástico Geraldo de Barros. Este, com fábrica (também artesanal) em São Paulo, leva o artesanato ubatubano para vender na Capital. O jovem folclorista Pellegrini (Folc-Promoções) manda recado: quer o Artesanato na I ARTEP de água Branca. De Nova York, mesmo sentido, também chegou carta: 
Sarah retorna: 
E através desse serviço, estamos levantando aspectos educativos, históricos, sociológicos, etnográficos, étnicos, religiosos, psíquicos do caiçara do litoral, dando também oportunidade à Prefeitura para situá-lo em seu quadro de dificuldades materiais (escola, saúde, estradas, sementes, etc.), segundo nossos relatos verbais e escritos às autoridades. 

Artesãos
Sarah começou com o serviço em 1963, estimulada por “Ciccillo”, que ganhara a eleição para a municipalidade. Em suas primeiras andanças, localizou 13 artesãos, em geral dedicados outras atividades. Estimulou, sugeriu ganhou a confiança. Arranjou a “mina” do casarão (que, agora, burocratas de S. Paulo querem cancelar), contratou as auxiliares, pôs-se a missão missioneira, andando (a pé, cavalo, charrete, barco) pelas praias acima e sertão a dentro. 
Hoje, os artesãos são 90, registrados. Cerca de 40 vivem quase só disso e produzem continuamente. Destaques especiais: um escultor de madeira, um menino que faz barcos, uma velha (70 anos) que borda “labirinto”, cujas peças já são grandemente procuradas. Em fevereiro e março deste ano o Artesanato comprou deles 746 peças; em abril, 461; em maio, 466; em junho, 765. As vendas, de cujos resultados cada artesão fica com aproximadamente 80% (pois a finalidade do serviço não é dar lucros), tem atingido uma média mensal de Cr$ 250 mil. 
Até hoje, 105 famílias foram visitadas. Núcleos artesanais, sob a responsabilidade de um líder local, escolhido pelos próprios moradores locais, já estão funcionando nas praias e sertões do litoral norte de São Paulo, desde a praia de Fortaleza, a meio caminho entre Caraguatatuba e Ubatuba, até a praia Vermelha do Norte, Prumirim, Puruba e adiante, nos caminhos inóspitos de Parati no litoral fluminense. Ewaldo Dantas Ferreira, jornalista, se inflama: – A Sarah é a alma boa e o governo desses sertões. 

Peças 
Toda de preto, dizendo que Silveira Sampaio e Caio de Alcântara Machado estão muito interessados no artesanato ubatubano, entra D. Ded Bourbonais (da Artene), agora se radicando em Ubatuba. Sarah descreve: – O artesanato daqui se limitava aos cestos do Perequê, trabalhos em conchas, algumas peças de madeira, chapéu de timbopeva do Sertão da Quina, vassouras e trabalhos simples em madeira. Hoje temos a “cestaria” utilitária e decorativa (samburás, tipitis, cestas em geral, balaios, peneiras, abajures, jogos americanos, floreiras, corbéies); peças “em madeira”, também utilitárias e decorativas (gamelas, pilões, gaiolas, miniaturas, figuras, pássaros, castiçais, oratórios); e trabalhos e, “outros materiais”, como xaxim (vasos, floreiras), taboa (redes), embira de bananeira (esteiras e chapéus) e conchas. As fibras mais utilizadas na cestaria são cipó de timbopeva, taquarussú, taquara penima, brejaúva, tiririca, palha da costeira, imbé. Madeiras: caxeta, guairana, urucurana. Para trabalhar ou entalhar a madeira os instrumentos mais utilizados são o enxó-goiva, o “alegre” (pedaço de arco revirado na ponta) ou o canivete-da-roça. Na cestaria, para bitolar as fibras, é usado o mesmo canivete roceiro. O serviço tem comprado outras ferramentas (como formões, etc.) para incrementar outros tipos de artesanato. 

Religião 
Sarah observa que ainda não pode estudar sobre as origens da arte artesanal em Ubatuba. Um entendido andou por lá e falou em cestaria chinesa. Em influencias africanas. Na arte indígena que restou dos tempos do Cunhambebe. Nos modismos franceses vindos com os Jean’s, Marigny’s, Vigneron’s e outros. Que fazer? Em Ubatuba, alguém comenta, infelizmente, ainda não apareceu uma D. Lúcia Figueira de Melo Falkenburg, para fundar seu Instituto Histórico... 
Lembra nomes de pessoas que a tem ajudado (fora as citadas): Ivo Zanini, Frei Benevenuto, Pascoal Famá, Manoel Esteves da Cunha Júnior, Wladimir Piza, Henrique Nicolini. Ilca Bruner, Karl Oncken, as cônegas (da ALA) de Santo Agostinho, alguns vereadores e pessoas da cidade e de São Paulo. Fala na primeira Escola Artesanal que vai surgir, no Sertão do Mato Dentro... Fala, fala, fala. Fala, fala, fala. Artesanato & folclore. Autenticidade e pureza. Simplicidade e ajuda mútua. Religiosidade. Sarah em sua casa primitiva da praia do Tenório ouve a Missa Luba, gravada em estilo congolês. Não parece mais inspirada em Cascudo, Rossini ou Maynard. Essa moça que largou a família e riquezas mundanas é “tocada” pelos seus mestres, segue os caminhos do Cristo pela mão do padre de Foucauld e Santa Tereza d’Ávila. 

 Quando Artesanato é folclore 
 O artesanato espontâneo, como toda a cultura popular, é folclore, diz Rossini Tavares de Lima num de seus livros. Alceu Maynard Araújo afirma estar, sobretudo no meio rural a arte popular ou folclórica mais autentica. Mestre Câmara Cascudo não quer um folclore pinturesco, anedótico, caricatural, pseudo-típico, industrializado. Há de ter finalidades sociais, senão etnográficas e antropológicas. A convite do diretor deste jornal este repórter estudioso amador desses assuntos, relata a experiência do Artesanato de Ubatuba, cujos resultados ultrapassam atualmente as fronteiras de S. Paulo e do Brasil. Para isso o jornalista ouviu em várias ocasiões Sarah de Brito, responsável pelo Serviço do Artesanato impulsionado pelo Prefeito Matarazzo. Encarando o artesanato não dirigido como fato folclórico, não se preocupou por ora com a figura dos artesãos, seus nomes e vivências. O anonimato no caso está determinando a pureza do artesanato de Ubatuba. O artesanato folclórico de Ubatuba – onde o isolamento centenário da cidade teve isto de bom: preservou suas tradições, sua arte popular, seu folclore, admiráveis. 
O ATLÂNTICO - 1964.

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