quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

CHICO DA SILVA


No Ceará, glória e do primitivo Chico da Silva 
A Allan Fisher, amigo sincero dos primitivos do Brasil L.E.M.K.

 – Povo aqui reunido... Tenho muita honra em falar a vocês... Estejam todos unidos pela massa deste torrão do Pirambu... Em nome dos artistas do Ceará eu peço a união de todos, por um dia melhor de amanhã, e que todos nos acompanhem... 

Atarracado, testa ampla, tez morena de índio, baixo, óculos de turista, vistoso no seu costume de linho tropical, Chico da Silva está prendendo a atenção dos moradores de seu bairro com seu linguajar caboclo, seus achaques, seus adágios, seu fraseado encantatório cheio de verdades, de frustrações, de psicologias astuciosas e grandiosas. Ele é o convidado principal da noite do SECAI – Sociedade Esportiva e Cultural Arco-Íris, do Bairro onde mora, o Pirambu, um dos mais pobres de Fortaleza. O SECAI, um clube recreativo-social de 400 associados, promove exposições, bailes e coquetéis, acabou com as malfadadas “gafieiras” cheias de gatunos e marginais do Pirambu. Chico da Silva está de pé junto à mesa das autoridades. Seu jeito e sua fala de expressão bizarra e sertaneja prendem a atenção geral. O presidente da sociedade, Francisco Francinetti Vieira da Costa, e os demais dirigentes trocam sorrisos, contentes com o sucesso da veneta fácil do pintor – ele que já é respeitado, querido e quase um líder popular do Pirambu. 


Chico se curva ante a trovoada de aplausos, sua conferencia terminou. Ele sai pela Rua Pirambu, onde mora, passa pelo Largo do Santo. Ali estão o velho chafariz, a Farmácia Deus e Mar, a biblioteca da Prefeitura, o Círculo Operário, as casinhas enfileiradas, brancas, azuis, amarelas, vermelhas. Uns moleques, mais uns amigos chegados, como o sapateiro Raimundo Aguiar da Silva, formam um cortejo bizarro atrás de si. Chico cumprimenta a uns e a outros, acena familiarmente, é chamado de “Dr. Chico”, ri, alegre, com a bocarra de ouro, entra no bar do compadre, é a hora de tomar umas e outras (preferência: uísque). Uma dose só, que se sente meio gordo ultimamente, inchado. Quer verse perde um pouco a barriga, a zoeira doida. 

– Nasci no Acre, nas margens do Alto Tejo – começa a depor o famoso primitivo brasileiro – junto à fronteira do Peru, em 2 de maio de 1928... Meu pai era peruano, dono de barcos, e minha mãe cearense; no Amazonas tem um bocado de cearense, sabe por quê? O cearense sai daqui porque ele é disposto, forte e rijo, não podo passar fome... O cearense é cobiçado no Sul e no Norte, se ficar aqui os carcarás matam e comem ele. 

Chico não diz que o cearense tem uma atração mítica por santos e conselheiros, guerreiros e penitentes, cangaceiros e violeiros. Ali na rua de terra batida, impecável no linho alvo, os sapatos de pelica branca – presente do comandante Paiva da Polícia Marítima do Recife, cidade que visitou recentemente – Chico é um herói de ABC, puxa o álacre cortejo de vizinhos, amigos, ambulantes, garotos vadios. 

– Comecei a pintar a carvão e giz, rabiscando os muros das casinhas dos pescadores da Praia Formosa, junto do passeio público, e em 43 fui descoberto por Jean Pierre Chabloz, um francês consertador de piano, que vivia em Fortaleza... Ele gostou dos meus navios fantasmas, dos meus peixes, das minhas aves, que fazia com giz, carvão e barro queimado, dando cor com frutos e folhas... Ele me deu material e fiz uns desenhos a guache e depois mais 17 trabalhos, que foram expostos nos “Diários Associados”. O jornalista Manuelito Eduardo deu destaque no jornal... Chabloz levou esses trabalhos para o Rio e depois para a França. Lá peguei nome e renome em Paris... Uns ele vendeu, outros trouxe de volta, devem estar com ele... Fiz muita amizade com o francês, parece que ele casou umas 4 vezes, não o vi mais. Gosto dele, sou seu amigo até hoje. 
Dragões

– O que fazia na época? 
– Sou analfabeto, só aprendi a assinar meu nome. Deixei de pequeno o Acre, já fiz muita coisa na vida... Fui sapateiro, sei consertar sapato-tanque oi polar, fui tamanqueiro, mestre de oxigênio a carbureto, guarda de barco, escafandrista de tirar coisas do fundo do mar, consertador de guarda-chuva, um pouco de barbeiro, ajudante de marinheiro... e aí foi então que, em Salvador, conheci minha mulher, Maria Dalva da Silva, filha de uma baiana que vendia acarajé no Pelourinho; tive 12 filhos, 5 estão vivos e só a Chica da Silva pinta como eu... Agora, de muito tempo para cá, sou pintor e só pintor. 

– E a história de seus alunos que lhe dão quadros para assinar? 
– Gosto de ser ofendido, não gosto de ofender... O Chabloz é que começou com essa história e também algumas pessoas que me exploraram, ficaram com o dinheiro de meus quadros... Nunca mais terei “marchands-de-tableaux”, o último que arranjei ficou com 16 milhões dos quadros que vendi no Recife... Esses que falam que meus quadros estão caindo, que eu não sou o mesmo, que vivo bebendo e fazendo farra... Enquanto for vivo, tenho valor e se morrer, t erei valor dobrado... Isso não dá pé não, isso não tem bronca, não... Só reconheço como meus alunos, que fazem uma arte como a que pinto, minha filha Chica e meu assobrinhado Manuel, filho de Raimundo, esse sapateiro aqui do Pirambu. Os grandes mestres tiveram alunos e ensinaram, porque eu não haveria de ensinar também?... O que criei, crio sempre, faço o diabo, faço Deus, tenho competência e braço forte, não caí, não... Até morrendo, se não for de repente, faço um quadro na hora, de bichos e dragões, de cobras-d’água e pássaros do céu... Manuel é meu único aluno e eu o criei desde pequeno. Sua mãe quando morreu o confiou a mim. Só ensinei a ele o bom e o bonito... Manuel e a Chica são meus únicos alunos, os únicos que reconheço como meus seguidores. 

Amazônia feérica (1964)

– Os mundos fantásticos de bichos de suas pinturas são lembranças de sua infância? 

Chico se acalma um pouco, afinal, a autenticidade das telas atuais de Chico é muitas vezes contestada, Chabloz escreveu há 3 anos um duro artigo crítico, no Jornal do Brasil” – “Chico da Silva, ou a ingenuidade perdida”. De larga repercussão. Nos hotéis, em vários lugares de Fortaleza, telas atribuídas a Chico levando sua assinatura (F D SILVA, com o D invertido) e o conhecido carimbo do polegar, são vendidas a 50, 70, 80, 100 cruzeiros, atestando a vil exploração do pintor do Pirambu, cuja fama corre estes brasis e o mundo. Chico se senta numa pedra da praia, mexeu com um velho amigo, disse um dito galante para aquela moreninha. 

– Esses mundos que pinto não são recordações de quando eu era menino, não, isso se chama imaginação, ciências ocultas, astronomia... Quando era pequeno, não via nada disso, vivia nos rios, de cima pra baixo, com meu pai... Agora estou pintando pouco e vou mudar a minha pintura... Vou pintar flores, quadros florais, acompanhadas de bichos, flores, porém, selvagens, da Amazônia... A gente quando é primitivo tem que executar e criar o que sente... E eu sinto os bichos, as selvas, os mundos fantásticos, entrando da fase de outros mundos... O mundo hoje vive em lutas e guerras. Isso tudo vai acabar, vamos entrar numa fase lunática, depois virá uma fase celeste, os homens que foram à Luz, não foram para estudar, forma por eles mesmos, por suas imaginações e ciências, são primitivos como eu... Por isso estou sempre criando, sou sempre um primitivo. 

Chico da Silva anuncia que montará em breve sua galeria de arte, a Galeria Chico da Silva, onde só venderá quadros seus. Ele mesmo será seu próprio “marchand-de-tableaux”, palavra que fala com fascínio. Será numa casinha branca, rosa e azul, com terraço e alpendre, cheia de quartos. A nova rua é a Tenente Lisboa. A casa já está alugada e passa por reforma, conduzida por dois serventes que contratou. Chico paga bem, como em suas doidas corridas de táxi pela cidade, táxis grande que aluga. Ficam esperando, enquanto negocia suas telas, ou para nas esquinas para tomas “umas e outras” com os amigos. Se é noite, deixa a dentadura de outro em casa, tem medo de ficar alegre demais, ser roubado. Conta e ri, escancara a boca toda dourada, comprou a peça no Uruguai – diz – por 800 contos. 

– Como pinta? 
– A qualquer hora, de manhã, à tarde, à noite... Pinto com a mão canhota e muito depressa... Parece que tenho uma máquina de costura dentro do meu braço... Não gosto de ninguém perto, quando pinto em casa, no quarto do fundo... Quando brinco, só brinco, quando pinto, só pinto, e acabo logo os quadros... Num dia faço um quadro... Uso guache ou nanquim, tintas e outras coisas, mas não digo mais não... A arte e a cultura são para quem pode... A pintura tem que ter muita técnica... Nem tenho conta quantos quadros pintei até hoje, o mundo está cheio de chicos-da-silva, acho que sou o pinto brasileiro que mais pinta, mais ainda que o Aldemir e o Bandeira... O Aldemir não chega a ¼ do que eu já fiz e o Bandeira, que aliás mora na França, também. 

– E o preço de seus quadros? 
– Aqui no Ceará não é o Sul, Fortaleza fica no norte do país, e o Norte é pobre e o Nordeste uma “mixaria”... E tudo está numa seca miserável como em 32... Vendo por 80, 60, 50 cruzeiros, tem gente que oferece isso... Querem rebaixar a Igreja do padre ao seminarista... Não dão valor à arte, não dão valor às coisas da terra... Pensam que o Ceará só tem animal na selva... Contudo, pinto sempre, para viver e para comer... Lá fora, meus quadros valem milhões, há pouco foi vendido um quadro meu nos Estados Unidos por 2 milhões de dólares.. E eu sei disso, pois já estive na França, na Tchecoslováquia, na Itália, em Portugal, nas Filipinas e na Alemanha. 

Chico da Silva está dolorido com suas próprias palavras, seu ressentimento transparece. São acusações, frustrações, são explorações, ele que “é bom demais”, segundo diz ali tomando o vento forte que sopra do mar esverdeado que banha Fortaleza na luminosa manhã domingueira. 

 – O Chico é bom demais, nunca explorou ninguém, o que é dele não é dele, é de quem precisa... Não tenho religião, minha religião é o amor... Minha maior satisfação é dar a quem não tem... E o que é que eu tenho?... Nada... Minha casa é alugada, tinha 3 casas em São Raimundo, o mar comeu... Agora dizem que tenho casa em Aracati, até vou lá ver isso... A casa onde moro há 20 anos está em balanço de ser minha, finalmente, pago 200 contos por mês... A Galeria vai custar mais 250... A vida é dura aqui no Ceará... E sempre fui roubado e explorado, aqui e no Sul, por galerias e “marchands”... Tem galerias ainda com quadros meus, mas vou acabar com isso... Agora só vendo direto, sozinho... Não me admiro dos outros, quero o que é meu... Não sou invejoso, não sou egoísta, não sou moralista também... Estou por fora de movimento e exposições, estou na minha pintura primitiva, abraço a todos e a tudo. 

Maria Dalva espera Chico à porta da casa, precisa de 20 cruzeiros para fazer galinha ensopada à noite. Chico gosta. Ela vai dizendo que o Chico é índio legítimo, caboclo peruano, não tem aperreio, não tem gênio, foi criado em família, é bom demais. Apenas, muitas vezes, explorado por falsos amigos e conselheiros. Ultimamente vem ajudando a gente pobre do Pirambu, o SECAI, gosta do povo, de falar. Acorda cedo, às 5 horas. Pinta, sai, almoça em casa, sai de novo, vai à televisão, aos jornais, ao Hotel Savanah, procura os turistas, vende quadros, almoça em casa, não, não come peixe, filho de pescador não gosta de peixe, gosta de feijão, arroz, farinha, jabá, uma galinha e, à noite, agora, prefere chá e bolacha, precisa comer menos, está engordando, ficando barrigudo, se toma umas caipirinhas é levado pelos amigos, diz que todos têm seus direitos... Mas como o Chico é bom em casa, para ela, os filhos. A roda à volta da casa é grande, a meninada do bairro festeja o pintor falante e triunfante. O auditório não é só infantil, os vizinhos estão ali, até um velho bistique que vende água de barril pára seus jumentos para ouvir Chico da Silva. 

– Não tenho medo da morte, quero deixar umas coisas para ficar, uns livros, quadros não deixo nada... Não sou católico nem apostólico, nem crente... Gosto dos homens porque meu pai me fez e gosto das mulheres porque minha mãe me teve... Mas quando morrer, acaba isso tudo... E a alma é para passarinho... Sinto alegria, sinto poesia, sinto música dentro de mim, às vezes sinto que sai uma música de dentro de mim... Então me sinto feliz da vida... Essa música, essa vida, muito lutei, nada roubei, o que me levaram, levaram... Sejam todos muito felizes. 22/10/72. 

A dura luta da arte cearense 

Afora Chico da Silva com suas grandezas e espantos, como vão as artes no Ceará, que perspectivas têm os artistas jovens? Hélio Rola, 36 anos, cearense de Fortaleza, premiado na Pré-Bienal do Nordeste com 5 trabalhos, premiado no XXI Salão Nacional de Arte Moderna (Rio) com 3 trabalhos, prestes a expor no Rio e em S. Paulo – grandes centros onde já tem crítica e público favorável, responde: 

– Vão mal, os jovens e os novos valores têm perspectivas muito pequenas, num meio de arte muito atrasado como o do Ceará... O nosso movimento de arte ainda está na casca do ovo, é incipiente, temos apenas 5 galerias, o mercado de arte é pequeno... Os que vivem de sua arte – e é o caso de Chico da Silva – vivem em pobreza e a agravante do Chico é que tem sido explorado sistematicamente por gente inescrupulosa... Os bons artistas daqui emigram como são os casos, por exemplo, de Aldemir, Bandeira, Inácio Rodrigues, e há pouco todo o grupo universitário, que faz teatro num bom nível, fixou-se no Rio de Janeiro. Nossa arte, aqui, é figurativa, as experiências abstratas são mal recebidas, ninguém então quer arriscar-se, e a gente da sociedade que compra quadros adquire amenas para decorar sua casa, ou compra de artistas do Sul, mesmo que inferiores, por ser mais chique, enfim, é uma sociedade muito atrasada para estimular a arte moderna em nossa terra... Temos alguns artistas bons, como o Zenon Barreto, o melhor deles, já conhecido no Sul, escultor e desenhista de t alento, temos Descartes Gadelha, Sergei Figueiredo e outros... Mas para se firmar no campo da arte, terão que sair do Ceará. Raros são os que, como Luiz Antônio Alencar, com sua notável galeria, nos estimulam. 

Rola prepara sua exposição, trabalha com guache, acrílico e óleo, faz um certo construtivismo, o ema são casarios repetidos impregnados de toques da paisagem típica do Nordeste. Já passou pelo figurativismo, está caindo na abstração poética das casinhas, que encantou os julgadores da Pré-Bienal nordestina, Olívio Tavares, Jaime Maurício e Goiabanich, críticos que vieram do Sul para julgar mais de 100 trabalhos expostos. Outro crítico carioca, Roberto Pontual, este4ve no Ceará, gostou dos quadros de Hélio Rola e arranjou-lhe duas mostras, uma no Grupo B, no Rio, com Tuneau e outros artistas, e uma coletiva em S. Paulo, na Colectio, no panorama da arte brasileira atual. 


WALTER LEWY

W. Lewy (1905-1995)
W. Lewy, botânico e cósmico, surrealista e obsessivo 

Comecei pintando influenciado pelo grupo alemão do realismo mágico, pelo realismo fantástico de minha terra, que nada tem a ver com a minha obra atual... Em 1939 comecei minha fase surrealista, a que permaneço fiel e imutável até hoje... Sempre gostei do fantástico e há muitas décadas leio quase que exclusivamente “Science fiction”, cuja temática de mundos interplanetários e seres imaginários evidentemente influenciam minha obra... Não sego que tenha recebido, nos inícios da minha carreira, influências de Dali, mas hoje, detesto-o, não o considero um bom pintor... O que pinto não se situa cá na Terra, mas no mundo dos novos planetas, deserto de homens, imaginário e cósmico... Considero-me um artista surrealista, no sentido estrito do termo, e abomino classificações como pintor “fantástico”, “mágico” ou da “nova figuração”. 

Pequeno, saudável, educado, paciente, ágil em seus sessenta e sete anos, cabelos longos sobre os ombros, óculos de grossas lentes, Walter Lewy está em seu ateliê, entre suas telas imaginárias de mundos silenciosos, junto à sua biblioteca de milhares de livros – exclusivamente ficção científica e botânica. Sempre gostou de plantas – suculentas e eufórbias. Sua coleção dessa espécie. Sua coleção dessa espécie rara, equivalente aos cactos da África, é talvez a maior e mais especializada do país. 

Composição surreal
Explorei-as bastante em minhas telas numa fase do meu surrealismo, já as comerciei, hoje, porém, cultivo-as exclusivamente por prazer, diz Lewy, tomando um cafezinho, preparado aparatosamente por Dirce, sua mulher. Ele não toma uísque. Nem cerveja, nem chope. É um alemão sem caneca, brinca o fotógrafo Jarbas Marcondes. 

Às vezes e raramente bebe um “Pernod”. Dirce não esconde os belos traços de ex-modelo – brinca e provoca permanentemente “o meu alemão Walter Lewy”. Chegam do colégio estadual os dois filhos, Evelyn e Leslie. São morenos e simpáticos. Geraldo de 10 anos, filho adotivo, sob e desce as escadas, e uma espécie de secretário geral da casa do pintor. 

– Minha pintura atual continua com figuras, paisagens, minerais, pedras, planetas no espaço, sempre dentro do surrealismo... Sou considerado figurativo, mas não me enquadro na chamada nova figuração. Esta seria a retomada da pintura com expressão abstrata, cubista, etc., enquanto a pintura surrealista tem uma evolução constante e eu me considero dentro dessa pesquisa permanente e dessa evolução... Sou um teimoso que ainda acredita em tela, pincel e tinta... Acho o surrealismo uma das poucas escolas que realmente possibilitam uma verdadeira comunicação entre o pintor e o público.

Natureza morta com lagarto (1983)

Lewy levanta-se cedo, por volta das 6 horas. Toma um ralo café, não lê jornal. Começa a trabalhar cedo. Se ninguém o interrompe vai pintando até a hora do almoço. O ateliê fica no terceiro pavimento da casa, estrategicamente situada num lance alto do Morumbi, com excelente vista para os Jardins e Santo Amaro, adiante da Marginal. A luz entra forte pela janela, Lewy só pinta sob a luz do dia. Almoçou sobriamente dom Dirce e os filhos – ele e ela comem pouco. De quando em quando, num domingo, prepara ele próprio um prato preferido – repolho roxo, com vinho, açúcar e maçã. À tarde, volta logo ao trabalho, segue firme até às 6/7 horas. Nas segundas e terças, passa o dia numa escola de arte, tem mais de 100 alunos. Mas vai deixar o ensino da pintura, para dedicar-se exclusivamente à sua própria arte. Se vai à cidade é para pagar uma conta, essas coisas do cotidiano. Gosta de pintar tranquilamente, escutando rádio e pressentido os ventos, lá fora, do Morumbi, vendo passar o trem da Sorocabana, os gigantescos aviões que pousam em Congonhas.

Composição surreal

- Não tenho contrato com galerias, vendo minhas telas particularmente e, felizmente, tenho fregueses certos – entre outros, Adolfo Buck, Bernard Goldfard, Hermínio Lunardelli, que agora me encomendou um retrato... Os retratos que faço, produto fixar fielmente cada rosto e, depois, aí é que é o problema. Faço uma composição surrealista em cada obra, mas é estimulante encontrar soluções adequadas a cada caso... Quando pinto, faço um esboço de cada tela, antes, num caderno e, depois, passo os temas às telas de pano de algodão, que também prefiro preparar cuidadosamente... Uso tintas nacionais, da mesma marca, há 30 anos, e pincéis e espátulas também nossas... Por sorte tenho uma disciplina formidável no trabalho. 
Composição com linhas (1954)
À noite, deita-se pelas 11 horas, após absorver estórias de ficção, preferindo americanas ou inglesas, coisas fantásticas, assuntos da vida futura, o homem interplanetário. Música clássica, escuta sempre Mozart e Haydn e, moderna, prefere Stravinsky, Prokofieff e Carl Orff. Dorme tranquilamente, não tem visões em sonhos ou qualquer inspiração onírica. Diz que sua pintura vem exclusivamente da imaginação consciente, dirigida, treinada, adquirida, disciplinada da tarimba de criar. 

– A arte atual? A aventura toma conta de tudo, não se pode avaliar o valor real dos moços, dos novos movimentos... Sou contra os leilões e não tenho quadros em galerias. Tudo está dominado pelo comércio... Prefiro ficar de fora. Umas telas minhas que figuraram nos últimos leilões, foram decerto entregues por outras pessoas, não por mim... Os jovens estão influenciados pela onda “pop” e pelo gigantismo estéril das bienais, que, a meu ver, deturpam a pintura brasileira... Só se pode avaliar hoje os valores mais antigos, dos quais, acho, que o mais autenticamente brasileiro, continua a ser Teruz, que foi inclusive, o inspirador maior de Portinari... A gravura, tem algumas coisas excelentes. Destaco Otávio Araújo, Babinski, Mário Gruber, para não citar outros; no desenho, vários bons, sem citar nomes; o movimento primitivista progride; e essas novas tentativas, arte cinética e arteônica, não me tocam, são absolutamente dominadas pela técnica... A arte, sem criação da sensibilidade, sem o domínio exílio do metiê, pelo artista, a arte dominada pela máquina, não é arte. 

Sem título (1976)

Lewy volta a falar de seu surrealismo, das fases, dentro dessa tendência, que já passou: elétrica, das catedrais, vegetal, erótica, dos planetas cúbicos, a cósmica atual; mostra pelas paredes, telas e fases, mas não tem nenhum quadro anterior a 1958. Tudo foi vendido, na “dura” luta pela sobrevivência, sempre fiel a si mesmo. A casa, comprado do pintor Heinz Kuehne, é espaçosa e confortável, e decorada com móveis antigos, gamelas, santos de igrejas, polões, oratórios, tapetes de Regina Graz, cerâmica de Tatin, máscara de Guma, ex-votos da Ilha da Páscoa, esculturas de Sakai e Wlavianos, telas de Wesley Duke Lee, Fang, Doroty Bastos, Gilson Barbosa, Geraldo Rocha, todos eles, amigos de Dirce e Lewy. Ela agora interrompe, é preciso comprar uma agulha torta no Brooklin, para o remendo do sofá forrado de novo. Lewy vai sair de carro com a mulher, cordado. Ela brinca: esse Walter Lewy é formidável, dizem que como pintor é melhor ainda... 

Ele já está à soleira da porta rústica, sai dizendo que o futuro não o preocupa, o surrealismo ainda é um vasto campo a atacar. 

 – Quero continuar fiel à minha arte, uma arte consciente e de vanguarda. Faz a curva com o carro, desce uma rampa, mais adiante está à vista a casa de um grande amigo, o pintor Rebolo. 9/4/72.

Mulheres e luz (1973)

Um monstruoso mundo de solidão 
Para muitos surrealistas, é o caso de Walter Lewy, não se trata de contar os sonhos, mas de vaticinar realidades possíveis, cada vez mais próximas do homem, na sua tremenda aventura cósmica. É claro que a capacidade construtiva de alucinar-se, ao compor os mundos que escapam à nossa noção de realidade, é ilimitada num artista como ele... A sobriedade caracteriza o surrealismo de Walter Lewy. Pensa-se na incompatibilidade entre surrealismo e sobriedade; no entanto, o despojamento do insistente processo de metamorfose de seus quadros, naquela estratosfera silenciosa e fria, prova o contrário... A restauração de uma velha idéia do corpo, na imaginação do artista, é colocada marmoreamente na realidade do novo planeta, deserto de homens, no entanto palpitante de sua pré-história. Com espátula, pincel e pincel seco, estas naturezas vazias de sangue vão forjando matéria nebulosa, rarefeita e transpassada pelo esforço da projeção – como se o mundo sonhado por Walter Lewy, sem luxo nenhum, fosse a inevitável perspectiva de uma desumanização perigosa... Um monstruoso mundo de solidão, a partir das nossas próprias aparências. WALMIR AYALA – “Jornal do Brasil”.

Paisagem surreal

Walter Lewy é um dos artistas mais conscientes de sua arte... Os que não querem admitir que tenha havido uma arte de nosso tempo, com características próprias, história, teoria, prática e crítica, encontrarão no surrealismo de Walter Lewy, sem discussão possível, esse aspecto transformador da realidade, que essa corrente trouxe á tona. E estamos diante de um capítulo aberto do surrealismo... Walter Lewy é desses artistas que colheram a flor da aventura... A convicção com que persegue há tanto a composição surrealista chegou ao seu objetivo. Hoje, ele é um representante dessa tendência, o mais autorizado que possuímos o único que podemos emparelhar a um Tangui, a Miró... Lewy chegou a um complemento, a uma plenitude. Sua luta solitária e persistente durou muito tempo. Se ele não tivesse essa impressionante contextura de artista que tem, essa vontade de realizar-se, há muito teria desistido. GERALDO FERRAZ – “A Tribuna”.

Composição surreal - 1976

 As artes queiram ou não, acompanham sempre de perto a evolução cultural e econômica de um país e ninguém entre nós duvida que, hoje em, dia, o Brasil está surpreendendo o mundo pela sua imposição cada vez mais insistente como potência mundial. As manifestações artísticas brasileira, depois de consagradas pelas bienais de São Paulo e participação cada vez mais numerosa de artistas nacionais no exterior, estão também se impondo com vigor cada vez mais evidente. Entre as diversas manifestações plásticas, o surrealismo ocupa um lugar todo especial pela possibilidade de aceitação internacional que possui e, Walter Lewy, seu expoente máximo, é quem pode com garantias de pleno êxito, impor-se no âmbito artístico do mundo todo. O surrealismo, segundo a própria definição de seu criador, André Breton, é a expressão do funcionamento real do pensamento. E não há nada mais duradouro, desde que haja humanidade, do que o próprio pensamento. A sua mobilidade e capacidade de evasão, o fantástico e o sobrenatural, não diretamente captado pela atividade fiscalizadora da razão, é que pode encontrar plena representação entre os grandes surrealistas como Yves Tangui, René Magritte, Max Ernest e Walter Lewy. Não é sem razão que Walter Lewy foi convidado a representar o Brasil na VIII Bienal de São Paulo na parte de Surrealismo e Arte Fantástica e teve, na X Bienal, sala especial de “Surrealismo e Arte Fantástica no Brasil”. Há exatamente 35 anos que Walter Lewy está no Brasil. Sua obra sempre foi brilhante, sempre se impôs pela consistência de sua temática e pelo trabalho altamente imaginativo e criativo de seu autor. A técnica sempre perfeita, em todas as suas variações, deixava sempre o público embevecido, assim como aconteceu há pouco tempo no Paço das Artes e como certamente acontecerá agora nesta presente exposição. Em 1946, o saudoso Sérgio Milliet já dizia: Em Walter Lewy cada parte pessoal exterioriza-se menos na intenção simbólica do que na necessidade de expressar uma “música interior”. Esta “música” sempre presente na obra de Walter Lewy, pressentindo em graus variados por todos aqueles que vêem seus trabalhos, consiste em uma melodia ora suave, ora lasciva ou então volumosa e possante, representando sempre o momento estático de uma concepção fantástica que nos arrasta para um mundo cósmico de beleza e de paz, longe dos problemas e das contendas da vida diária. A vitalidade de que é impregnada toda a obra de Walter Lewy, aquela energia misteriosa que nos faz parar diante de seus quadros é o fruto direto do labor constante de um dos grandes esteios da pintura nacional. Esta exposição de Walter Lewy é mais um convite para contemplarmos as potencialidades de um mundo de realidades que somente nossos sonhos mais altivos, inquisidores e, por isso mesmo, não menos dinâmicos, conseguem abranger em sua totalidade. – JOS LUYTEN – Catálogo “Portal”, 7/1972.

WALTER LEWY, Odesloe, Alemanha, 1905. Pintor surrealista. Frequentou a Escola de Artes e Ofícios de Dortmund, formando-se em 1927. Um banco de Bad Lippspringe expôs, pela primeira vez, os trabalhos do jovem estudante de artes gráficas e pintura. Desenhista, artista publicitário e pintor, expos até 1932, quando a Câmara de Arte da Alemanha, dominada pelo nazismo, proibiu a participação dos judeus na vida artística alemã. Imigrou para o Brasil em 1937, deixando na Alemanha centenas de trabalhos, enviados depois para Rotterdam, onde se perderam, por ocasião de um bombardeio. Em São Paulo integra-se ao movimento modernista da pintura brasileira. Expos pela primeira vez em 1949, na Feira de Arte Moderna, de Quirino da Silva. Sua primeira individual foi no ateliê de Clóvis Graciano, em 1944. Diz a nota biográfica de “Artes nos Séculos” (Abril cultural, fascículo nº 38, supervisor prof. P. M. Bardi), que, desde o início, suas obras foram surrealistas, denotando a influência direta de Yves Tanguy, através das imagens de um mundo fantástico, povoado por paisagens melancólicas. É, porém, a partir de 1947 que adquire “uma concepção própria dentro do surrealismo, talvez devido ao contato com obras barrocas de Ouro Preto. Desde essa época dedica-se cada vez mais às paisagens, cujas formas fantásticas configuram curvas e meandros. Às vezes representa figuras humanas, dotando-as de grande expressividade através de estilização quase total. Nessa linha prossegue até hoje, criando obras consagradas através de inúmeras exposições”. Em São Paulo, participou das I, II, III, VI, VII e X Bienais e recebeu em 1965, o primeiro prêmio do Salão Paulista de Arte Moderna. Um grande êxito coroa suas mostras individuais, tanto em São Paulo, como no Rio, em Santos e Belo Horizonte. Seu renome estende-se ao Exterior, através de exposições realizadas em Tóquio, Paris, Chile e Estados Unidos. Desiste então de sua firma de paisagismo e deixa, de vez, a arte publicitária. Torna-se professor duma escola de arte (mais de 100 anos). Trilhando sempre o caminho da vanguarda, dedica-se obsessivamente à arte surrealista e ultimamente faz também retratos. Casado desde 1956 com a pintora primitiva e ex-modelo do Museu de Arte e de Di Cavalcanti, Dirce Pires. Dois filhos: Evelin (14 anos) e Leslie (12 anos). Mora no Real Parque Morumbi.

CARYBÉ

Caribé obá, cigano e baiano 

– Quanto ao presidente do Banco... diga a ele que não é possível eu vender os originais, quando eu bater a caçoleta que ele compre da Nancy ou dos meninos... Se ele quiser fazer folhinhas durante quatro anos, poderemos publicar o livro mais porreta do Brasil... Responda logo, receba um AU de peito, de rabo de arraia e uma meia-lua de compasso, seu velho amigo... a) Carybé. 

Hector Júlio Páride Bernabó está em S. Paulo. Este é um trecho de carta sua a uma migo paulista. Ele usa expressões populares a toda hora. Nasceu em Lanus, Província de Buenos Aires, em 1911. É cidadão mais brasileiro, baiano, “por decreto”, desde 1957. Teve infância passada em Roma, Gênova e o bairro de Bonsucesso, no Rio de janeiro, onde fez muitos amigos. Eles organizaram um conjunto que acompanhou Carmem Miranda até Buenos Aires – Caribé era pandeirista oficial da cantora. 

– Por que o nome Carybé? 

Ele aparenta menos idade do que tem, sessentão. Jovial e alegre, cabelos grisalhos, meio calvo, roupa esporte, é um belo papo. 

O ovo da ema (óleo sobre tela - 1976)
– Quando eu tinha dez anos era escoteiro no Ri e tinham todos nomes de peixe. Escolhi “Carybé”, piranha. E fiquei Carybé para sempre, nem atendo quando me chamam de Hector. 

Mas ele tem ainda outro nome, nem Hector nem Carybé, e que usa com orgulho: Obá Otum Onã Schocum, é um dos 12 ministros de Xangô, de um dos candomblés mais famosos da Bahia. Agora, expõe 27 monumentais painéis de madeira no Museu de Arte Moderna se S. Paulo focalizando esse tema único, os orixás dos candomblés. Por quê? 

– O painel é muito importante para mim. Gosto muito dele. Sinto que os candomblés, com todos seus rituais e tradições, estão acabando. Vão ficar do mesmo jeito que um que vi há dias no Ri, com uma sessão de trombones. Pode-se imaginar isso? Era um sambinha religioso, isso sim bacana, mas sem nada a ter a ver com o candomblé autêntico, com seu significado sociológico, sua tradição pura afro-brasileira. Na Bahia ainda se vê candomblé bom, ainda se come o caruru, que é a comida de Xangô, e o preferido de Iansã, nas ruas. Mas até isso vai acabar, o pessoal velho está morrendo e a tradição se acabando. Por isso fiz o mural. 

Cangaceiros

O mural é realmente monumental, e a seu lado, Diná Coelho, alma boa do MAM, desaparece. Tem corrente, armas e símbolos pendurados, de cada orixá. Carybé estudou cada santo, percorreu terreiros, conversou com obás e mães-de-santo, para torna-lo autêntico. Levou muitos deles, os mais desconfiados, ao seu ateliê em Brotas, para eu vissem o trabalho, não tivessem medo de informar sobre seus orixás bárbaros. 

– Seu dia é calmo? 
– Calmo é S. Paulo... Acordo pelas seis e meia, tomo café, faço religiosamente a barba, etecetera e tal. Vou pro ateliê e começo um trabalho duro, seja em madeira, têmpera, encáustica a fogo, cerâmica, concreto, óleo, ferro aplicado em concreto ou terracota. Não enjeito serviço nem refugo técnicas, como diz Rubem Braga. Lá pela 10 e meia, estou cansado, saio um pouco, brinco com o cachorro, vou até a esquina fazer umas compras inúteis... 

O ateliê de Caribé é amplo, uns 150 metros quadrados. Dentro os materiais diversos e as ferramentas apropriadas. Fora, o jardim bem verde, repleto de orixás esculpidos, entalhados, arte popular de todos os países do mundo por onde passa. Herdei de meu pai a mania de cigano, aparecendo dinheiro, viajo sempre. 

– Almoço o trivial, nada de especial. Volto ao trabalho, paro pelas cinco e meia, pois só trabalho à luz do sol. Então cochilo meia hora, tomo banho, saio pelas ruas de Salvador, volto, janto com Nancy, vou à casa dos amigos ou eles vêm à minha: Jorge Amado, Jenner, Camafeu de Oxossi, o Genaro que a má sorte levou... 

– Algum “hobby”? 
– Nenhum especial, fora a arte popular, a minha Bahia, as baianas, um documentário gráfico do candomblé, pois acho que daqui a uns 50 anos ele desaparece e a religião brasileira vai ser uma misturança infernal, vai ter até austríaco pai-de-santo... Mas, voltando ao trabalho, faço desenho, escultura, gravura, mural, o que for. E não paro fácil, mesmo. Esse negócio de a gente ficar pensando, olhando, esperar o “clic” do Padre Vieira, não existe mais... O que existe é trabalho, treino, para a obra de arte sair. Para mim. Inspiração é o dia em que amanheço melhore as coisas saem comais facilidade. 
Festa do Pilão de Orixá

No dia da inauguração de seu mural dos 27 orixás, em Salvador, registra um jornal local, Hansen, Jenner, Jorge Amado, Mirabeau, Odorico Tavares, Calazans, Vivaldo Costa Lima, Genaro de Carvalho (ainda vivo), ficaram admirados com a obra espetacular. “Isto cai parar, um dia, num museu de arte europeu. Não é arte brasileira mais, é universal” (Costa Lima). “O melhor trabalho de Carybé, ele que tem horror à madeira” (Hansen). “Com este trabalho aparece meu maior concorrente” (Mário Cravo). Os banqueiros exultavam, os pais-de-santo também. Carybé brincava, ao lado de Nancy, sua mulher argentina, os filhos Ramiro, já pintor, mas puxando para o expressionismo, e Solange. Desta, tem uma neta, “uma das coisas boas que me aconteceram até hoje”. 

Em São Paulo, críticos, artistas, o presidente do MAM, Joaquim Bento Alves Lima, exultavam, na noite da exposição do mural, Opinião unânime: um trabalho excepcional, “a obra maior de Carybé”.

 – Por que nunca saiu do figurativo? 
– No figurativo, a meu ver, está a verdadeira arte, não admite enganações e experimentos frustrados. O Brasil é tão belo e ainda falta fixar tanta coisa do nosso país... E antes que a tecnologia despareça com muitas delas... 
– Por isso os baianos fazem uma arte puxada ao regional? – Não acredito em arte universal, o que existe exatamente é a verdadeira arte, a arte boa, autêntica, seja ela de um Cèzane, que nunca saiu de um estúdio, de um Van Gogh, cuja arte era ”ele”, de um Modigliani com suas mulheres, de um primitivo bom. O pintor que vale, fica, não é como os sapatos de plástico... 


– E as novas experiências? 
– Admito algumas. O Di Prete, por exemplo, faz uma arte interessante, à base de ruídos e luzes. Mas o Di Prete, “já era”. Não é um frustrado nem um inexperiente em arte. E Picasso. Aos 90 anos, continua cada vez mais Picasso, mais “ele”. 

Fala num amigo primitivo, um sapateiro. Muito noticiado, não alcançou um bom nível, contudo nem se torneou um bom pintor, resultado: perdeu até a profissão de sapateiro... Elogia a iniciativa de Iracema Ardit , de organizar o Museu dos “naifs”, aqui no Brasil. 

– Veja a arte baiana, como progrediu, como um todo. E lá estamos nós, os baianos de nascença e nós todos, eu, que nasci na Argentina, O Jenner, sergipano, o Hansen, alemão. A nossa inspiração, a nossa temática, desculpe o talento de cada um, venceu. A tapeçaria baiana, iniciada por Genaro, é a primeira do país e assim permanecerá por muitos anos, graças ao labor artesanal das tecelãs, ao colorido primoroso, à criação na base dos temas populares, folclóricos, regionais. O mesmo se pode dizer dos nossos gravadores, nossos entalhadores. Olinda e Salvador disputam o páreo dos melhores trabalhos no gênero, Zu Campos, Emanuel, tantos outros, s]ao gente de fibra, trabalham, pesquisam, fazem uma grande arte. 
Mulheres

 – E a arte brasileira em geral? 

Carybé, tão palrador, desconversa. Ele tem uma sala especial na próxima Bienal, vai expor uma pequena retrospectiva, com cerca de 20 obras, de 1938 até agora. Amanhã, abre sua mostra de óleos em “A Galeria”, de 5 a 8 mil cada quadro. Em S. Paulo, anda pelas ruas, observa umas e outras, ri das mulheres de meia furada... É um folgadão, um companheirão, um grande papo, segundo comentam alguns de seus amigos daqui, como Almeida Salles e Luiz Lopes Coelho. 

– Em 1972, paro uns meses, quero ficar um pouco de barriga prô ar. Vou dar uma de banqueiro por uns tempos. 

Seus irmãos são pintores e escultores. Começou a pintar no Rio, no ateliê de cerâmica do irmão, com 14 anos. Veio com oito para o Rio. De suas viagens, confessa sua fascinação pela arte mural mexicana, Orozco. 

– Eu quero ficar na minha casa, sossegado, trabalhando. Trabalhar, para mim, na Bahia, é viver. 29/9/71. 
Carybé com uma de suas obras

O mestre das sete portas 

Em 1938, há trinta anos, Carybé (Hector Bernabó) aportou na Bahia, vinha carregado de índios, sombreiros, tangos, aldeias andinas e, segundo o depoimento de Jenner Augusto, era elegantíssimo, trajava polainas, colete e paletó lascado atrás, noda audaciosa na época. Mesmo assim era um inquieto, em busca de sua pátria perdida, do chão de sua sensibilidade, de seu porto de abrigo, de seu lar. Onde a terra verdadeira desse cidadão brasileiro nascido em Buenos Aires, de pai italiano e mãe gaúcha, menino nas ruas da Itália, adolescente no Ri, jovem artista na argentina, aventureiro pela Bolívia e Peru, pelo Chaco, buscando e buscando-se? 
Eis que chega à Bahia, a seu sol, a seu mar, a seu azul mágico, a sua mistura, a seu chamego, a seu dengo, a seu mistério. Nos trinta anos decorridos desse momento solene do encontro do artista com seu chão, com sua pátria, com seu lar, Carybé plantou raízes tão fundas na terra baiana como nenhum cidadão aqui nascido e amamentado. 
Bebeu avidamente essa verdade e esse mistério, fez da Bahia carne de sua carne, sangue de seu sangue, porque a recriou cada dia e cada vez com maior conhecimento e amor incomparável... Agora são uma única realidade, a terra e o criador, a inspiração e a obra realizada: nesses trinta anos se fez não apenas o grande mestre baiano, mas o cidadão baiano per excelência. Sua obra nos engrandeceu, deu-nos maioridade artística. A Bahia, ao mesmo tempo, fez dele o grande mestre do desenho, da pintura, da escultura – o conjunto dos Orixás esculpidos em madeira para a agência de São Pedro do Banco da Bahia é uma das obras maiores da escultura brasileira. Ele é filho e pai da Bahia, dela nasce todas as manhãs e todas as manhãs ele a recria em toda sua beleza, em todo seu mistério, em toda sua verdade. Outro dia, uma jornalista lhe perguntou: 
– Onde o senhor nasceu, seu Carybé? 
– Nas Sete Portas, minha filha – respondeu. 
Nasceu ou renasceu, que importa? (JORGE AMADO, Coleção Plásticos da Bahia, Carybé, 1938 – Desenhos 1968) 

O muralista Carybé é um tremendo trabalhador braçal que não enjeita serviço nem refuta técnica. Tanto quanto sei, nunca fez nada em mármore ou bronze “tutto tondo”, para não botar banca de escultor. Isso não evitou que Pablo Neruda dissesse, a respeito desses orixás talhados em cedro (que felizmente puderam ser transportados até aqui, no Museu de São Paulo, lá da agência do Banco da Bahia da Avenida 7, de Salvador): “é uma grande escultura!”. Juntemos que é toda uma criação de iconografia de candomblé feita por alguém que vive por dentro de terreiros e pejis. Fotografias nem sempre satisfatórias servem para dar uma idéia dos painéis que realizou com as mais variadas técnicas: têmpera, encáustica a fogo, entalhe em madeira, concreto, óleo, ferro aplicado em concreto, cerâmica e terracota. Diga-se que ele ama as técnicas mistas, e no óleo do imenso painel do aeroporto Kennedy, de Nova Iorque, há aplicações de prata, ouro, cacos de espelho, mosaicos, botões, etc. Ele adora as cores vivas e as coisas brilhantes, como os pretos e os índios, e às vezes se castiga com o cinza austero do cimento, só para variar. O que não muda é o desenho do mestre. (RUBEM BRAGA, Arte Mural, Carybé no Museu de Arte Moderna, 1971).

MABE

Mabe, sucesso com telas e tacos 

– A arte é uma vibração humana. Quando pinto, procuro o outro. O Mabe que há dentro de mim. O Mabe preocupado com o mundo, a terra, a vida, o céu. Meus quadros são frutos do raciocínio, do amor que tenho pela arte, pela minha pintura. 

Aos 47 anos, cara de índio, cara de japonês, cabelos grandes, Mabe fala sem indecisões. Sentado numa poltrona de couro, numa das três grandes salas de seu ateliê no Jabaquara, mostra álbuns, totós e recortes. É extremamente organizado e leva a sério sua arte p- um dos poucos pintores brasileiros com valor comercial lá fora. Termina atualmente oito grandes telas para a XI Bienal de São Paulo. Sabe que vai criar polêmica, pois está passando do abstrato – que o deixou famoso - para um retorno gradual ao figurativo. 

No cafezal (óleo sobre tela - 1956)
– Não é bem figurativo o que faço atualmente. Primeiro era caligráfico. Depois passei para uma composição abstrata, forte. Agora estou introduzindo figuras, dentro dessas composições. Algo mágico, algo meio fantástico. Talvez passe ao surrealismo, se sentir assim, algum dia. 

Ele acordou às 10 horas, comeu ovos quentes, pão com manteiga, café e salada. Deu uma rápida olhada pelos jornais só nos assuntos de arte. Atendeu o procurador-secretário, Francisco Yutaka Sanematzu. Na noite anterior – como em todas – foi dormir tarde. 

– Gosto de sair com os amigos, tomar uísque, bater papo até altas horas. Vivo uma vida intensa, quero chegar aos 90 anos pintando, assim como Picasso... 

De manhã, Mabe não pintou. Desceu para o jardim, brincou com o cachorro, andou para o parque japonês, deu de comer às carpas e tilápias do grande lago que mandou construir ao fundo de sua casa. Umas tacadas de golfe, que aprende agora, no amplo gramado. 
óleo sobre tela
Depois, sentou-se defronte às suas telas, analisando cores, espaços e formas. Mabe é um perfeccionista, desmancha telas já pintadas, pinta outra vez, até gostar. 

– Na pintura existe o bom e o ruim. O bom pode ser figurativo ou abstrato, O significado interessa pouco. A forma, a cor, a razão, o jeito, o raciocínio de cada tela é que é importante. Os ruins se apagam, ficam os bons – Da Vinci, Miguelângelo, Botticelli, Chagall... 

Mabe gosta de “almoço à brasileira” – rabada ou dobradinha, aos sábados feijoada. Cerveja, sempre. E após cada refeição, um pouco de arroz branco japonês e picles. Descansa 30 minutos. À tarde, até às 5 horas, dedica-se a pintar. Depois, sai cm os amigos, frequenta galerias, “é a hora do descanso, de tomar contato com a vida, do uísque revitalizador”. O companheiro inseparável é o pintor Wakabaiashi. E também Fukushima, Nomura, Suchimoto – todos artistas nipo-brasileiros de sucesso. Os sábados e domingos dedica à família e não sai de casa. Joga o “mahjong” (espécie de dominó japonês) com a mulher e os amigos chegados – mais de 20 – que vão à sua casa. Vê pouco televisão – só noticiários. 
Abstrato - óleo sobre tela (1977)

– Estou achando a arte brasileira meio confusa, como a de todo mundo, aliás. Não gosto dessa art-objeto, da arte cinética, da arteônica e coisas assim. Pintura é, antes de tudo, raciocínio, composição, paciência, forma, cor, luz. 

– E as bienais? 
– É bom continuar, para a gente ver o festival de arte que vai no mundo. 

– As galerias? 
– Gente boa, necessária. 

– Os leilões de arte? 
– Não gosto, muito dirigidos. 

– Os jovens... 
–... Precisam primeiro ver, aprender, viver, para depois começar a fazer arte. 

Mabe recorda os tempos no interior de S. Paulo, quando tinha 22 anos e trabalhava na lavoura – comprou umas tintas a óleo, livros de arte e começou a pintar. Com tábuas, fez um ateliê em pleno cafezal. 

 – Tenho energia, tenho amor pela vida, minha luta é para aperfeiçoar a arte que faço. 

Manabu Mabe, filho de Soichi e Haru Mabe, nasceu em setembro de 1924, em Kamamoto, Japão. Imigrou para o Brasil em 1934 pelo “Plata Maru”, naturalizando-se cidadão brasileiro. Pintor profissional. Faz também esculturas em bronze e desenhos para tapeçaria. É paisagista amador. Um dos maiores colecionadores do país de peças incaicas e astecas, pelas quais tem verdadeira paixão. 

Natureza morta

 – Ao chegar do Japão, fixei-me no interior do Estado, em Lins, Birigui e Guararapes, trabalhando como colono durante muitos anos em fazendas de café. Meus primeiros quadros datam dos meados de 40. Vindo para a Capital fui morar no Jabaquara, onde comprei uma pequena casa que, hoje, grandemente ampliada, é minha residência e também meu ateliê. Era ajudante de tintureiro. Tingia e pintava gravatas, que vendia aos amigos e em algumas lojas da cidade. Autodidata, admirando muito o pintor japonês Takaoka, radicado em S. Paulo. Iniciei-me na pintura figurativa, e logo passei à abstrata. 

Mabe fez uma carreira fulminante a partir de 1959, quando ganhou os maiores prêmios das Bienais de S. Paulo, de Paris e de Córdoba. O “Time” de fevereiro desse ano projetou-o mundialmente com uma reportagem de página inteira. Geraldo Ferraz e outros críticos nacionais, o crítico italiano Giuseppe Marchiori e o francês Georges Boudaille escreveram então detalhadamente sobre sua arte. 

– O meu ateliê à Rua Canjeranas, 33, é visitado por “marchands” internacionais e compradores daqui, como Adolfo Block, Juracy Magalhães, Aluísio Faria, Haidée Lee, Gilberto Chateaubriand, Roberto Campos, Carlos Lacerda, Abreu Sodré e outros. Adquiri em 1966 os terrenos vizinhos, reformei e ampliei a casa, fiz um jardim tropical oriental, nos fundos. Em 1969 recebi o prefeito Faria Lima e mais de 100 convidados especiais, inaugurando a casa-ateliê modernizada. 

Do ano de suas premiações internacionais, até aqui, tem feito exposições em vários países, não só nas Américas, como na Europa e na Ásia. Abriu seu ateliê em Nova Iorque, na Waaden Street, 22, passando 3 a 4 meses por ano nos Estados Unidos. Temcontartos permanentes com uma galeria do Rio de Janeiro, uma de Nova Iorque e uma de Paris. Em S. Paulo, vende diretamente ou através da “Documenta”, “Cosme Velho”, ou “Astréia”. Participou de várias bienais e realizou mostras individuais em Londres, Mineápolis, Tóquio, Dallas, Washington e Paris. Vários museus importantes do mundo tem obras suas, e, no Brasil, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, Museu de Arte Moderna da Bahia e Museu de Arte de Porto Alegre. Pintou mais de 1.000 telas até hoje. 

– Prêmios que conquistei: Grande Medalha de Ouro do Salão Paulista de Belas-Artes; Prêmio Leirner de Arte Contemporânea; Prêmio Braun na Primeira Bienal de Jovens de Paris; Melhor Pintor Nacinal da V Bienal de S. Paulo; Premio Fiat da XXX Bienal de Veneza; Primeiro Premio da I Bienal Americana de Arte de Córdoba; Premio Aquisição do Dallas Museum of Fine Arts, Dallas – EUA. 

Casado com Yoshino Mabe tem três filhos – Ken e Joh, gêmeos, de 19 anos, e Yugo, de 16 anos. Os três estudam e se preparam para a universidade. Os gêmeos pintam bem. Mabe os estimula, empresta suas tintas e telas. 

– Meus “hobbies”? Filmagens, com minhas maquinas alemã e japonesa: temas viagens, aspectos populares de feiras, cidades, etc. 

Manabu Mabe vai saindo para o São Francisco Golfe Clube, levado pelo Sr. Aoki, gerente do Banco Tozan. Em quinze dias surpreendeu a todos, com “drives” espetaculares, de200, 300 metros. Um manejo exímio do taco. Ele que jogou antes Basebol e lutou caratê, acha atualmente o golfe genial. Está convidando os amigos Grassman, Aldemir Martins e Di Prete para esse esporte. 15/8/71. 

A VOLTA À FIGURA 

Ao desabrochar para a arte abstrata informal... em torno de 1957, Mabe o fez apoiado nas próprias reservas poéticas e revelando que tomara raízes no Brasil sem desenraizar-se do país de origem, identificando-se à atitude dos artistas japoneses que renovaram suas tradições no diálogo com a arte europeia deste século. Os títulos de seus quadros ajudam a dar acesso a este pintor que interpenetra incessantemente interioridade psicológica e exterioridade física e que encontra um simbolismo intuitivo em suas manchas de cor para traduzir emoções e fenômenos transitórios, diluíveis, mas retomados sem intermitências pelo espírito. – WALTER ZANINI, crítico de artes plásticas em 1966, sobre a pintura de Manabu Mabe. 

Há cerca de catorze anos, apontávamos Manabu Mabe como o acontecimento-revelação da pintura brasileira, na coluna que então mantínhamos no “Correio da Manhã”. E somente em 1960 pudemos mostrar o seu extraordinário talento ao público carioca, no Museu de Arte Moderna. O que aconteceu com fabulosa trajetória de Mabe, inclusive no plano internacional, é do conhecimento geral: tornou-se um dos mais representativos pintores brasileiros ou nipo-brasileiros; e num sentido mais amplo, do estímulo criador que o Brasil oferece aos valores que o escolhem como pátria adotiva. 

 Nesta visita a São Paulo, visitamos o ateliê de Mabe, recordando o jovem operário de Lins, que em suas folgas, estudava nos livros e revistas ao seu alcance; e pintava disciplinadamente o que ensinavam os grandes pintores europeus, contendo o seu temperamento, as suas origens e a sua força criadora. Era um bom pintor-figurativo algo castrado, como muitos outros brasileiros da época. 
Abstrato vermelho (óleo sobre trela - 1978)

Até 1957, quando as comportas da disciplina foram rompidas e o pintor explodiu num gestual caligráfico, desenvolvido e másculo, coerente com as suas origens orientais e o abstracionismo dominante. Uma pintura de composição livre e até insólita, estrutura dinâmica, violência gestual, a laca industrial, variações sobre o vermelho, o preto, o branco e o amarelo. Depois, refinou-se: passou a usar óleo-cera, inclinou-se para as formas livres, quase tachistas, buscando expressar a emotividade total e acidental, numa reação à caligrafia de efeitos poéticos (tokonoma). E chegou o nosso grande Mabe a uma pintura mais elaborada e pensada, a um cromatismo mais refinado e sutil com transparências e empaste – na verdade, um mestre do “impasto”, um grande pintor que pode provar por muitos anos sua capacidade de transcender o problema da exaustão de um estilo. Agora, nesta visita de junho-71, Mabe mostrou-nos uma semifiguração, consequência de uma nostalgia permanente da figura, que ele realmente nunca abandonou, em telas que nunca expos, ao longo de sua fulgurante carreira. Sem reeleição brusca da linha e características pictóricas da produção anterior – as grandes superfícies, o espaço, a matéria rica, o impaste, as transparências, as cores, a pincelada mesmo – Mabe transforma as suas formas em figuras humanas, em animais, em símbolos cósmicos, delineando volumetricamente algumas atitudes e situações expressivas das reações e condicionamentos dois homens e dos animais. Consegue manter as suas qualidades plásticas no lirismo com que une abstração e figuração. O novo Mabe pede uma percepção mais atenta, uma reflexão mais profunda sobre o virtuosismo e a sinceridade da sua proposta ambivalente. O compromisso com a figura é tênue – não fixa detalhes anatômicos definitivos ou claros, mas consegue criar um nítido clima figurativo, dando às suas formas o contorno humano e animal. E o faz enfocando aspectos bastante comprometidos com o erotismo, a religiosidade, o cósmico, a família, o protesto ou o pungente. O mundo continua bom e poético para Manabu Mabe, que não exalta nem avilta ou degrada a figura, tratando-a simplesmente como ela o é, de fato, em várias situações...O bom e o belo se sua arte partem, sem perda, para objetivos nobres e de certa maneira utópicos. Mantidas as qualidades plásticas e pictóricas da sua pintura, parece-nos ao atual Manabu Mabe, entre a identificação e a não identificação da figura humana, interessa mais o valor que se lhe atribui. – JAYME MAURÍCIO, crítico de artes plásticas, em 1971, após uma visita recente ao “atelier” de Mabe no Jabaquara. 
Sem título  (óleo  - 1989)

Manbu Mabe, de acordo com o currículo distribuído com o convite da presente exposição, dedicar-se-ia “à pintura abstrata”, teve, entretanto, até há pouco, uma fase erótico-figurativa, inclusive com exposição realizada em São Paulo, que aliás o mesmo currículo não registra; significaria isso que o artista retornou ao abstracionismo, com a intenção de nele permanecer? Premiado na Bienal de Jovens de Paris, na Bienal de São Paulo, na Bienal de Veneza e na Bienal de Córdoba, Mabe, depois de seu sucesso em São Paulo,, projetou-se internacionalmente, conquistando boa posição no mercado de arte norte-americano. Na presente exposição, as pinturas, que são de tamanho modesto, funcionam como “cartões”, para as tapeçarias em que foram ampliadas. Na galeria, não souberam informar o nome do tapeceiro que asexecutou, sendo-nos dito apenas que haviam sido feitas na oficina de um cunhado do artista. O detalhe importa, porque a pintura desta série ganharam enormemente ao serem transpostas para outro material. As cores são fortes e nítidas, e os jogos de cor conduzidos com sabedoria. A espessura dos grãos de tecido dá relevo e dignidade ao trabalho, e como se trata de realizações diretamente endereçadas à decoração, as pequenas pinturas a óleo, colocadas aol ado, e que serviram como ponto de partida para os tecelões, não lucram com a comparação. Inclusive pela liberdade com que se fez a passagem da tela para o tapete, este tornou-se bem mais rico e convincente que aquela; em que medida o própria Mabe terá orientado essa passagem, ou dela participado? Como se trata de trabalho especializado, o habitual é que o pintor forneça apenas o cartão a ser transportado, não interferindo na execução. Há, por exemplo, uma grande peça, em amarelo-branco-e-preto, que é impressionante, cheia de vida em seus grãos gordos, e outra vermelho-branco-e-preto, também belamente ornamental. – ARNALDO PEDROSO d’HORTA em “O Estado de São Paulo, outubro de1972, comentando a mostra de Manabu Mabe.

REBOLO

Rebolo Gonsales, irreverente, vitorioso, mestre paisagista 

– Será que eles vão me pagar “jeton”? 
Francisco Rebolo Gonsales desliga o telefone, faz a pergunta: O dia está muito frio e cinzento para ir á cidade. “Eles são o governo” – “eles” que tragam o livro de atas para assiná-lo. Na noite anterior, fez parte da Comissão Julgadora do Salão Paulista de Belas-Artes. Desde que ganhou um prêmio destacado no Salão, faz parte do júri de premiação. Mas naquele tempo, “só havia o Salão para concorrer”, explica. Hoje o artista tem à sua disposição galerias de arte, museus e arte moderna, os leilões, a Bienal. 

– Bons tempos aqueles, de muita miséria, mas até que era bem divertido – diz Rebolo, com um ar maroto e jovial. Resolvido. Não sai, hoje, de sua ampla e bela casa do Morumbi. Fica escutando rádio e pintando. – A gatinha já tonou leite? 
Auto retrato

Alegre, vivo, irrequieto, ágil nos 68 anos, Rebolo logo bagunça todo o ambiente. A mulher, Lisbeth, afilha de 25 anos, Susi, estudante de pós-graduação de antropologia cultural, o genro Antonio Gonçalves, professor universitário, especialista em Sociologia do Trabalho e agora também conhecedor do mercadão de artes, todos têm um fascínio incontido por aquele homenzinho baixo, atarracado, sempre dedicado à sua arte-maior de pintor consagrado. Agora, ele está bravo com o Corinthians: 

 – Não sei o que deu no timão. Um time que tem Rivelino e outros campeões mundiais, não poderia perder assim do Botafogo! 
Rebolo jogou futebol – e bem. Foi titular do Corinthians – Campeão do Centenário em 22 – e de outros times; chegou à equipe “B” da seleção paulista. Sempre na ponta-direita e sempre com o apelido de “Formiguinha”. Hoje, aos sábados e domingos, em casa, não perde irradiações (rádio e TV) de futebol. Sizi diz com muita graça que o pai liga rádios pela casa pela casa inteira, anda de um lado a outro, não perde um lance. De vez em quando, o filho de espanhóis que nunca perdeu o sotaque caseiro da infância, se enfeza, solta um linguajar típico da Andaluzia. 

Rebolo já pintou de manhã pequenas telas, “para que os amigos que não tenham um milhão possam comprar”. Fez umas águas-fortes, a técnica muito própria, misturando ponta-seca e aquarela. Quem o levou à gravura foi seu amigo Marcelo Grassman. Como Volpi, o saudoso Mário Zanini e o Nóbrega, já fez muitos murais. Desenhos, muito poucos. Calcula que hoje tenha pintado uns 4 mil óleos. Os temas? Confessa: 

– Sou pintor de origem modesta. Nunca me considerei um vanguardista, mas, moderno, sim. Um impressionista avançado, com namoros pelo expressionismo, digamos. E sempre me considerei fiel à minha linguagem, à minha temática – paisagens suburbanas, aglomerados urbanos, casinhas e suas hortas, naturezas mortas. Tudo em S. Paulo que vai desaparecendo, pela volúpia e ganância imobiliária. 
Cena de jogo num bar  (1938)

Pintou toda a manhã desde as 7 horas, quando acordou e tomou apenas um cafezinho simples, com duas fatias de pão. Almoçou bem pouco – carnes e verduras, regime imposto pelo médico de suas coronárias, que já nadaram na delas. Ele não pode tomar cerveja, nem “caipirinhas” – mas o Clóvis Graciano, dileto amigo e compadre-duplo (padrinho de Suzi, batizado e casamento), sai muitas vezes do sério. No Clubinho, do qual foi fundador e presidente, no barzinho do MAM, com Almeida Salles e Delmiro Gonçalves, e em outras ocasiões furtivas, não rejeita um bom uísque. Torna-se então extraordinariamente loquaz, abre debates e discussões sobre arte & futebol, ciência & cultura. Política detesta. 

– A arte brasileira atual? Tem coisas autênticas, mas um certo vale-tudo a prejudica. Dentro do grupo vanguardista, alguma coisa é interessante, até no campo das colagens... Os primitivos eu os adoro, mas os primários... Que Deus e todos os diabos nos livrem deles. Agora, o que está regredindo, mesmo, é a pintura dita acadêmica... Querem fazer coisa avançada e o que produzem é um falso moderno, de muito mau gosto. 

Tudo que Rebolo fez até hoje, diz, foi com esmero, capricho, consciência, a paciência da arte bem executada, do labor melhormente concluído. Começou como pintor de paredes, com o irmão, nos lados do Cambuci, passou para a pintura interior de igrejas – Santa Cecília, Santa Ifigênia, como aprendiz, e um convento da Avenida Nazaré, este com Volpi. Depois veio o tempo da firma de decorações, até há poucos anos, e sua pintura “sutil, consciente, instintiva, pura, lírica, caprichosa, ciosa, regionalista, impressionista” – segundo seus melhores críticos e maiores estimuladores Luiz Martins, Walter Zanini, Luiz Horta, Quirino, Paulo Mendes de Almeida, Mário de Andrade, Geraldo Ferraz, Tarsila, Carlos Lacerda ,Di Cavalcanti, Antônio Bento, Sérgio Milliet, Osório César, José Geraldo Vieira e outros. Fecha um dos olhos, num trejeito habitual. Toma um cafezinho sem açúcar. Está de roupa esporte moderna. Já fumou hoje oito cigarros marca “LM” ou “Hilton”. Elogia o Museu da Calçada da Collectio, e conta uma historieta muito engraçada. Um “marchand” Esperto, quando da demolição recente do Edifício Santa Helena, onde tinha atelier, sala nº 32, com Pennacchi e Humberto Rosa, foi lá arranjar a plaqueta da sala de Rebolo. O mestre de obras informou que “um senhor magro e careca” já as levara todas. 

– Aposto que foi o José Paulo, o diretor da Collectio. Aliás, vamos tirar o chapéu para ele, revolucionou o mercado de arte, fez as galerias darem o devido aos pintores, faz leilões, organiza mostras, promove e vende os artistas. 

– Rebolo, você é feliz? 
– Muito, nunca esperei tanto da vida, não só no campo material, como principalmente no espiritual. Fiz-me pintor conhecido e respeitado pelos colegas e grandes críticos – aqui e na Europa. Vendo facilmente minhas pinturas. Moro admiravelmente neste Morumbi que vi nascer, e onde tive uma chácara. Tenho uma família que gamo. E principalmente, pinto, pinto, pinto, ouvindo a passarada das matas aqui em volta cantando. 

Rebolo Gonsales está satisfeito, sim. Em 73, conta, o Museu de Arte Moderna por iniciativa “dessa grande amiga e pastora Dina Lopes Coelho”, exporá a retrospectiva da arte reboliana. Este ano, ele ainda espera viajar, Bahia, o Sul, não como turista, mas para “fixar paisagens e pintá-las sempre”. Ele atende um último telefonema e critica uma inauguração recente, as pessoas “ficaram de costas para os quadros do pintor, uma desconsideração, uma balbúrdia”. 

Pega sua “Variant”, último tipo e vai levar repórter e fotógrafo ate o ponto distante de taxi. Há vinte anos, recorda-se, fazia o mesmo com Sérgio Milliet, Arnaldo Pedroso d’Horta, Claudino Amaral, Volpi, Bonadei e outros amigos que o visitavam no matos (então) do Morumbi. Mas só que a condução era outra – sua motocicleta “Galatéa”, de tão saudosa memória... 

– Bons tempos aqueles, de muita miséria, mas bem divertidos... Outro dia encontrei a Didi, nossa modelo bem branquinha do Santa Helena, não a reconheci, estava gorda e barriguda... Os tempos passaram, – diz um tom de melancolia, o Paco do Caribê, o Formiguinha se Sérgio Milliet, o Rebolinho do barzinho do MAM e do Pepe’s, o Rebolo Gonsales da primeira linha da arte brasileira de nossos dias, realizado, feliz, vencedor. 17/10/71 

Um artista do futuro 
Rebolo é, incontestavelmente, uma das figuras exponenciais do Santa Helena. Talvez a mais difícil de ser compreendida por uma visão intelectualista, como a que predominou até há pouco nos meios artísticos de vanguarda mas que já está basicamente superada. Por isso, ele é um artista do futuro. 

A arte em uma importância prospectiva fundamental. Ela nos ajuda a descobrir o que começa a ser necessidade premente para a humanidade, em cada etapa nova da sua evolução. Hoje temos necessidade de uma aproximação nova com a Natureza. São muitos os caminhos deste encontro. Talvez o mais fundamental seja o da vivência poética espontânea das coisas mais simples. Pode parecer simplório, mas é o que leva às coisas mais básicas e, portanto, mais altas. Toda a obra de Rebolo gira em torno desse encontro do Homem com a Natureza, na vivência e fruição espontânea das coisas simples da vida e do mundo. A sua admirável intuição poética lhe revela a vibração vital sútil da Natureza, o seu tempo-verdade, tão diferente do tempo-robot. Por isso, a sua arte é mais mágica do que as variadas pesquisas psicodélicas dos dias que correm, apesar da sua grande significação como mundo ocidental, e mesmo como experiências de um novo caminho para romper a robotização. 
Rebolo 

A pintura de Rebolo me fascinou sempre, porque sentia nela uma verdade profunda, que não encontrava em outras obras de maior impacto. Depois, percebi que tinha uma relação essencial com o tempo, semelhante a que sentira na grande pintura chinesa da época Sung, o apogeu da pintura do Extremo Oriente. Gradualmente, fui compreendendo que toda obra de arte plástica era na realidade um espaço temporalizado, dando uma vivência da duração da intuição de Bergson, a quintessência da vida. 

 Devemos a Rebolo uma variedade impressionante de apreensões artísticas do tempo-vida, nas suas melhores paisagens, naturezas-mortas (ou melhor, vivas) e nos seus retratos e figuras humanas. A significação dessas obras irá sendo compreendida cada vez melhor, na medida em que for desaparecendo a idéia superficial deque a obra de arte é essencialmente uma estrutura formal, em vez de um instrumento de comunicação de verdades fundamentais para a existência humana. MÁRIO SCHENBERG, para o catálogo da retrospectiva de Rebolo, no Museu de Arte Moderna de SP. 
óleo sobre tela (1956)
Francisco Rebolo Gonsales está completando 70 anos neste ano de 1972, as homenagens são muitas, partem da Câmara Municipal que lhe conferiu a Medalha Anchieta, do Museu de Arte Moderna, do Centro de Artes Novo Mundo, da AAMAM, do Clubinho dos Artistas, de “A Galeria”, da Galeria “Seta”,, da Galeria “Azulão”, do Senado Federal, dos colegas pintores, dos companheiros do Grupo Santa Helena. Entre tantos coquetéis e honrarias, o Rebolinho está feliz, na sua casa do Morumbi, ao lado de d. Lisbeth (a grande companheira de tantos anos de lutas), de Susi e do Antônio Gonçalves, de Norma e Armando, Maria e Nelson. Suas opiniões são seguras, não fora ele, durante tantos anos, além do mestre pintor, um líder nato de sua classe. 
Arte brasileira – está em ascensão, com algumas quedas inevitáveis; 
Leilões de arte – muito bons, chegam até t arde demais; 
Bienais – ponto de partida do grande movimento dasartes, hoje em dia; 
Anti-arte – é um desastre, por ser insensível que o povo gosta e quer; 
Valores atuais – aprecia vários, Stockinger, Volpi, Pennacchi e centenas de outros, que não para de enumerar; e coma maioria deles mantém a maior camaradagem (Graciano, Bonadei, W. Lewy, Grassmann); 
Santa Helena – tinham aqueles pintores um ideal conjunto de ação e uma filosofia de vida e, nas artes, tentaram – e com sucesso – atrair para o movimento artístico os literatos de 22; 
Clubinho e Sindicato dos Artistas – Desempenham papel relevante no movimento de arte em nossa terra, aglutinando artistas, desencadeando propostas novas, abrindo caminhos para os movimentos que viriam a seguir, inclusive as Bienais etc. Num tempo de guerra contra o nazi-fascismo, tinham também uma posição de luta da democracia, ao lado do povo; 
Família Artística Paulista – “La même Chose” que a resposta anterior (o Rebolinho ri, franze toda a testa, num gesto típico); Paz – Fui atleta, fui pintor de parede, sou artista, vivi muito e lutei bastante, a vida me ensinou muita coisa, a melhor das quais é que vale a pena lutar, por princípios, pela paz, pela fraternidade, pela justiça, por um amanhã melhor.