segunda-feira, 7 de outubro de 2024

SANTOS DUMONT, herói da Revolução de 32

1914, em Paris 

Apurado, elegante, esguio (nunca pesou mais de 54 quilos), Santos-Dumont, aquele que fazia mais uma das suas longas caminhadas a pé. De longe, qualquer um poderia reconhecê-lo: pelas calças arregaçadas em bainha, pelo chapelão panamá, e pelos colarinhos altos quão engomados, universalmente conhecidos, mais tarde, como “colarinhos Santos-Dumont”. Andava e pensava. Viera do Brasil há pouco, onde recebera homenagens excepcionais. Há oito anos, voara pela primeira vez no mundo, com o “mais pesado que o ar”. 

Era o mês de agosto de 1914.

Súbito, alguém lhe deu a notícia trágica: a França, sua amada França, fora invadida. E, pior: aviões estavam sendo usados contra a população civil! Seu invento virara arma de morte! 

Aquele dia, aquele brasileirinho franzino que em criança gostava de olhar o voo dos pássaros e de soltar papagaios coloridos de papel de seda, e que por isso inventara os aviões para que os homens voassem como os pássaros e como os papagaios, - naquele instante, Santos-Dumont começava a morrer. 

Viveria ainda até 1932. Até a revolução. 

Viagens e “A Encantada” 

Quis assim, de imediato, defender a França. Houve um incidente, contudo, em sua residência em Deauville. Sua moderna luneta para observações astronômicas foi pretexto para uma acusação grosseira. Que esta ao serviço do inimigo! O incidente magoou profundamente aquele homem já magoado. E voltou ao Brasil. 

Daqui, seguiu para os Estados Unidos, onde presidiu um Congresso Científico. Ficou presidente igualmente da “Federação Aeronáutica do Hemisfério Ocidental”. E fez, na sessão de enceramento vigoroso discurso. Tese: o avião devia somente ser empregado como instrumento de aproximação política, cultural e econômica entre os povos. 

A glória e as aclamações cresciam. Mas a mágoa, com as notícias da Europa, aumentava também. Em 1916, Chile. Conferência Pan-Americana de Aeronáutica. Sensibilizou-se com a recepção dos chilenos lotando as ruas para aclamá-lo. E voltou numa arriscada (na época) travessia pelos Andes. 

E ficou zanzando pelo Rio, Petrópolis e São Paulo. E no morro do Encantado, em Petrópolis, construiu sua casa original, “A Encantada”.

Teve, então, um pequeno período calmo. Recebia os amigos, escreveu um livro, fez invenções domésticas (como a mesa giratória de refeição). 

Mas a guerra estalava ainda na Europa. E os aviões, metralhando o povo. Tinha nessas horas de crise angústias e pseudo-culpa. 

Paris, novamente 

Da “A Encanada” foi para São Paulo. Num sítio entre Butantã e Osasco. Fez equitação, leu poesia, interessou-se pela pintura. Com 42 anos, tinha ainda ânsia de saber tudo. E não se fixava, esse homem contra a rotina. Subiu para Minas (era 1918) onde o governo lhe dava o sítio de Cabangu em que nascera. Virou agricultor. Mas deixa súbito o campo e corre toda a América. Quando vê, está em Paris novamente.

Mas Paris, segundo seu biógrafo e sobrinho (o eng. Henrique Dumont Vilares), aquele Paris de “après-guerre” já não é aquele dos tempos do “petit Santos”... Ficou na vila de seu amigo, o conde Sylvio Álvares Penteado. Mas logo alugou a casa de campo do marquês de Soriano. E em seguida voltou ao Rio. Depois, Petrópolis, Cabangu. E novamente Paris... 

E passeando a pé, e encadernando livros, em 1927, estava na Suíça. 

Apelo e invenções 

Amargurado sempre, Santos-Dumont dirige um apelo à Sociedade das Nações. Propunha a interdição do emprego de máquinas aéreas, dirigíveis ou aeroplanos “como armas de guerra”. Na sua cabeça, tantos anos depois, ainda se imprimiam as lembranças trágicas da guerra de 1914! Dizia inclusive com toda a modéstia: 

aqueles que como eu foram humildes pioneiros da conquista do ar, pensavam mais em criar novos meios de expansão pacífica dos povos do que em lhes fornecer novas armas”.

O apelo daquele cidadão vago ecoou singelamente entre aqueles burocratas oficiosos e moralistas. Eles entendiam a linguagem do imperialismo e a do ódio, não a do amor. Santos-Dumont, qual? 

Logo depois, contudo, Lindenberg atravessa o Atlântico. Santos-Dumont se alegra no seu retiro. E ainda: o Aeroclube de França convida-o para presidir a manifestação oficial ao aviador americano. Ele responde comovido e simples. Já a saúde lhe faltava então.

E dedica-se a novos inventos. Estuda o voo dos pássaros. Não lhe bastava a descoberta dos aeróstatos e dos aeroplanos. Queria dar corpo à ideia dos tempos de criança. A ideia do voo individual. Fez projetos. Projetou também helicópteros. E ainda ornitópteros, aparelho para o voo individual, com asas! E criou um tipo de esqui, com motor, para a subida de montanhas! 

Volta então a Paris, para construir os aparelhos de voo individuais. Mas a saúde se abala. A amargura cresce sempre.

Volta ao Brasil

Dois acidentes trágicos 3 de outubro de 1928. O Rio está em festa para receber Santos-Dumont. O “Cap. Arcona” entra barra adentro. Amigos ilustres sobem no hidroavião. (“Santos-Dumont”) para recebê-lo. O avião sobrevoa o navio e joga por paraquedas a mensagem do povo brasileiro. Súbito, numa manobra insólita, o avião precipita-se no mar e naufraga. Ninguém escapa. Santos-Dumont está quase morto. Abate-se totalmente. Não é mais o Santos-Dumont, aquele espectro que ajuda a procurar os mortos Que comparece de luto ao enterro dos amigos. Quase se isola totalmente num quarto de Copacabana. 

Assim deprimido, volta a Paris. Recebe uma condecoração r faz um discurso (tímido, só falou duas ou três vezes em público). Chega 1930. Novo golpe. Estala a revolução no Brasil. O dirigível inglês “R-101” cai num desastre. Santos Dumont se abala tragicamente. Segue para dois sanatórios (o dos Pireneus e o de Biarritz). Está no fim. 

Antonio Prado Júnior chega, exilado. É seu amigo íntimo. Visita-o. Tem dó de seu estado lastimável. Escreve à família. O sobrinho Jorge Dumont Valares vai buscá-lo na Europa. 

Santos-Dumont volta então ao Brasil para “o fim de uma bela vida”. 

 Ao lado dos paulistas 

 Voltou e foi se recompondo. Ia cedo para a Hípica (sempre a procura do campo). Ou ao Paulistano. À noitinha, à redação do “Estado de São Paulo”. O sobrinho Jorge, os Rangel Pestana, Plínio Barreto. Aires Neto, Júlio Mesquita Filho e outros eram as companhias favoritas. 

Mas eis que estala 32. Num átimo, São Paulo se mobiliza. Homens, mulheres, crianças. A indústria e o comércio. Os homens de cor e os baianos. Isidoro queima. Klinger desce de mato Grosso. O governo se empenha na luta cívica. Os poetas, os escoteiros e os vagabundos. Começam os pingos de sangue. Santos-Dumont parte para o Guarujá. E surpreende o Brasil, dia 14 de julho, com seu “Apelo aos patrícios”. Pede aos seus conterrâneos que ajudem a São Paulo. No restabelecimento da ordem constitucional do país. Santos-Dumont se eleva: 

“... como um crente sincero em que os problemas as ordem política e econômica, que ora se abatem somente dentro da lei magna poderão ser removidos, de forma a conduzir a nossa pátria à superior finalidade dos seus altos destinos” “Viva o Brasil Unido”.

Eis como termina sua mensagem aos brasileiros, Alberto Santos-Dumont. O povo aplaude o ídolo. Já no dia seguinte os jornais estampam o agradecimento do governador Pedro de Toledo: 

A Santos-Dumont, o povo paulista, por seu governador, agradece as eloquentes palavras de apoio ao movimento constitucionalista, que hoje empolga o Estado e o país. Batemo-nos pelos princípios universais da liberdade e do direito, que aplauso nos poderia calar mais fundo ao coração do que a do nome universal do grande patrício?” 

Santos-Dumont recebeu alegre aquela mensagem no Guarujá. Tinha feito outra invenção, naqueles dias: uma catapulta para salvamento no mar. 

E seu civismo florescia no Brasil enlameado. Ao lado dos paulistas. 

Um avião que cai no mar 

Santos-Dumont, àquele dia, estava de camisa branca e calça preta. Agora, andava com trajos mais simples. Engordara (pouco) e tinha os cabelos alvos.

ERA dia 23 de julho. Há três dias fizera 59 anos. 

Súbito roncou no ar o barulho de aviões voando. Eram três. E Paulistas, porque tinham as cores da bandeira das treze listas gloriosas. Vinham levantar o bloqueio do porto de Santos, pelos navios legalistas da ditadura. Lisias Rodrigues, Mota Lima e Gomes Pinheiro, os pilotos, (fugiram do Rio para combater por São Paulo), faziam misérias nos pequenos “Curtiss-Falcow”, Era preciso bombardear os navios inimigos. Santos-Dumont assiste a batalha. 

De repente, o avião de Gomes Ribeiro explode ruidosamente no ar. À frente da cidade, no mar revolto, caem os pedaços do avião trágico e os corpos de Gomes Ribeiro e de seu amigo, o advogado Bittencourt. O mar traga num segundo o idealismo de ambos. 

À tarde, no Guarujá, um homem tem um gesto de desespero. É verdade que a esclerose já lhe avançava pelas veias. Mas o talho no pulso acelerou a queda daquele coração brasileiro. Que não queria ver a morte de seus irmãos através de seu invento. 

Morreu ante a dor universal. 

Morreu no Brasil dividido que procurara unir. 

Morreu em 32, com São Paulo, por isso é um herói também da revolução. 

O repórter agora não cita mais o seu nome. 

E o reverencia este ano, quando decorrem 50 anos de seu primeiro voo. E 24 da revolução que apoiou.

 E está alegre e feliz, porque escreveu sobre um homem idealista e bom, que amou a sua terra e aproximou os povos. 

TRIBUNA DA IMPRENSA 9 de julho de 1956.

PETRÓLEO POR TODOS OS LADOS E O GOVERNO CRUZA OS BRAÇOS

A riqueza brota do solo no um município paulista, mas se perde por incúria das autoridades - Exploração urgente do petróleo encontrado em Rio claro quase à flor da terra - Peregrinação ao Catete SOROCABA, 28 (Do enviado especial)

- “Rio Claro com petróleo por todos os lados, e perdido criminosamente pela incúria do governo” - eis, em síntese, a importante comunicação da bancada de industriais de Rio Claro, presente à VIII Convenção de Industriais, realizada nesta cidade. 
 A comunicação, transmitida ao plenário (300 industriais) pelos representantes rio-clarenses, Srs. Pimentel Jr., Manuel José Ferreira e Emílio Del Trati, impressionou a todos pela objetividade dos dados e abundância do material probatório. 

Decisão 
Após os debates (agitados), e pedido de informações do Sr. Antonio Devisate, presidente da Federação das Indústrias, entidade promotora da Convenção, ficou decidido pelos industriais, em nome da VIII Convenção: 

1º) - Os industriais, reunidos na VIII Convenção, telegrafarão ao governo federal e ao presidente da Petrobrás, “solicitando urgentes providências para a exploração do petróleo rio-clarense”. 

2º) A questão da exploração do petróleo rio-clarense, que interessa particularmente à toda indústria paulista, “será convenientemente estudada pela Federação das Indústrias, a fim de que possa a Petrobrás realizar urgentemente a exploração dessa imensa riqueza oferecida à Nação brasileira por Rio Claro”.

Provas 
Falando em nome da bancada de industriais, o vereador Pimentel Júnior, que vem agitando o problema do petróleo em Rio Claro, fez uma longa comunicação, para desenvolver a história das pesquisas em petróleo na cidade (desde 1897). Na parte das provas da atual existência do petróleo na região, enumerou: 
1. Em qualquer escavação que se fizer em Rio Claro, numa profundidade variável de 30 a 200 metros, as amostras geológicas vêm impregnadas de cheiro de petróleo; 
2. Em todas as bancas de cal de Rio Claro, é comum o encontro de fósseis, comumente denominados “mãe do petróleo”, e indicativos da existência do “ouro negro”; 
3. O calcário rio-clarense exala pronunciado cheiro de petróleo e, quando é queimado, para a industrialização da cal, os fornos deixam escapar forte odor de querosene; 
4. Na fazenda “Lageado”, do Sr. Felício Viana, são encontrados indícios quase à flor da terra - pedras retiradas de um sopé de um barranco, ao serem quebradas, apresentam interiormente uma pasta oleosa e preta, com cheiro de petróleo. 
Para reforço da afirmativa, os industriais rio-clarenses levaram para a VIII Convenção pedaços de rochas da região, todos exalando pronunciado cheiro característico do óleo. O repórter pode ter vários pedaços de tais rochas em mãos. 
Além do mais, segundo a comunicação feita, o município de Rio Claro, já estudado anteriormente, foi classificado como “zona eminentemente petrolífera”. 

Reforço +
Para reforço de sua argumentação, a bancada de Rio Claro levou a plenário um relatório do geólogo norte-americano Chester Washburne, que esteve em Rio Claro em 1928, contratado pelo governo do Estado, para pesquisar petróleo. O Sr. Washburne assim se manifestou na parte final de seu trabalho:

“Rio Claro está situada em grande região petrolífera, de cerca de 1.200 quilômetros quadrados, abrangendo as bacias do Corumbataí e Araquá”. 

Washburne traçou ainda os possíveis anticlinais geológicos do devoniano, situada a 1.100 0u 1.550 metros de profundidade. 

Chester Washburne, segundo a comunicação feita, tinha autoridade para fazer uma afirmativa avançada dessas: na época (1928) era considerado o maior técnico de petróleo do mundo: seu relatório, de grande valor científico, foi publicado pela secretaria da Agricultura, em 1930. 

Pioneiros e pesquisas 
O vereador Pimentel Junior dá outras informações preciosas, na comunicação que faz ao plenário, em nome dos rio-clarenses. Esclarece que Rio claro é município pioneiro das pesquisas para a exploração de petróleo. Em 1897, o paulista Eugênio Ferreira de Camargo e o técnico belga Augusto Collon realizaram as primeiras pesquisas. 

Em 1906, João Quilici investiga as terras do distrito de Assistência, onde os vestígios de petróleo eram grandes. Com os técnicos ingleses Richard Coé e Alfredo Rheinfrank, Quilici faz novas perfurações, em 1908, utilizando uma perfuratriz rudimentar. O poço atinge 50 metros e os indícios são animadores. Os ingleses, a certa altura, suspendem o trabalho e seguem para a Inglaterra, levando vultoso material. Dizem que tentarão arranjar maquinaria melhor e capital. Nunca mais apareceram. 

O coronel José Calazans Negreiros, 1m 1917, intrigado pelo contínuo aparecimento de massa betuminosa entre as pedras de cal, reativa as pesquisas de Assistência. Consegue despertar a atenção de Elói chaves, secretário da Justiça, o qual entusiasma o conselheiro Antônio Prado e o presidente do Estado, Altino Arantes. É fundada a Cia. Paulista de Petróleo (capital, Cr$ 280 mil). O governo empresta uma soma. Quando a perfuração está nos 300 metros, colhendo excelente material, o capital se extingue e faltam novos recursos técnicos forçando o abandono do trabalho.

Em 1930, Martinho Levy efetuou pesquisas na sua fazenda “Pitanga”, com bons resultados. Entusiasmado, mandou construir nas oficinas da firma Bruno Meyer & Filhos uma torre de petróleo, de 25 metros de altura, a primeira torre de petróleo construída na América do Sul. 

Eduardo Guinle, em 1946, fundando a Sociedade Brasileira de sondagens pesquisou nas proximidades do “Haras de São José, de propriedade de Lineu de Paula Machado. Em 1950, ao perfurar-se o poço artesiano duma fábrica das Indústrias Matarazzo, foram constatados indícios positivos da existência de petróleo. O Conselho Nacional do Petróleo, já existente, não fez caso da descoberta. 

Em 1952, a “Refinaria de Petróleo União” fez estudos e levantamentos numa vasta região de Rio Claro, demarcando uma área de 10 mil hectares como provável campo petrolífero. Requereu ao governo federal autorização para explorar essa área. Teve o pedido também negado pelo conselho Nacional do Petróleo.

Segundo apuramos, Rio Claro está agitada com o problema do petróleo abandonado de suas terras. Jornalistas, vereadores, industriais estão unidos para levar adiante, agora, o que sempre tiveram em mente: explorar petróleo para o país. 

A campanha pelo petróleo de Rio Claro tem o apoio, inclusive, do deputado Ulisses Guimarães, presidente da Câmara Federal e rio-clarense de que se orgulha a cidade. 
Todas as classes sociais estão participando da campanha. Uma passeata monstro até o Rio (Catete e Petrobrás) está prevista. 

A comunicação da bancada de industriais de Rio Claro, nesta VIII Convenção, termina assim: 
“A exploração do petróleo de Rio Claro se tornará memorável na história da nacionalidade, para maior engrandecimento de São Paulo e pela glória e grandeza do Brasil.”

Presente à VIII Convenção, o diretor da Petrobrás, Sr. Manoel da Costa Santos impressionou-se com a comunicação firme e clara da delegação rioclaense. Prometeu trabalhar, junto a JK e cel. Janary Nunes, para que as pesquisas iniciais, pelo menos estas, se façam com urgência na região. 

TRIBUNA DA IMPRENSA 28 DE MAIO DE 1.956

CONTA SUA HISTÓRIA O HOMEM QUE VENDEU 180 NORDESTINOS

APÓS TANTAS AVENTURAS, TERMINOU CAINDO NO “CONTO DO PACO”, EM SÃO PAULO

- Não vendi ninguém! 

Assim categórico, à nossa frente, o cearense Francisco Pires Praciano, 31 anos, casado (4 filhos), com sitiozinho em Itapipoca, no norte do Ceará, contesta e desfia sua história. 

- Não negociei meus irmãos. Trouxe-os por caridade. Estavam todos morrendo de fome lá nos sertões da santa terra. 
Praciano é decidido, com uns ares de caboclo ingênuo. Está detido na polícia paulista. Motivo: averiguação (roubo de rádio, com o irmão). Mas nos interessa por isto: trouxe do Norte e vendeu aqui no Sul, 180 retirantes nordestinos. 

E disso nem a polícia de S. Paulo, nem a de Kubitschek, cuida. Água não pingou, descida para o sul.
Praciano é pequeno lavrador em Itapipoca. Cultiva arroz, milho, algodão, feijão e “alguma mandioca”. De quebrado, cuida de gado: tem 30 cabeças- das 100 e poucas, “o solão danado matou”. Nos seus alqueires trabalham 90 pessoas. Mas este ano, houve seca. 

- Dezoito meses não pingou. As culturas morreram todas. O gado virou esqueleto - e se foi também. 

Foi então que Praciano, com sua gente, decidiu descer para o Sul. “Tentar melhor sorte de Deus”. 

180 cabeças no grande alfa 

- Juntei minhas economias, aluguei um caminhão “Alfa” (Romeu), dos grandes e chamei o povo. 

Conta que queria trazer “100 cabeças”. Na hora do embarque subiram 180 pessoas, sendo 100 adultas e 80 crianças. 

- Contratei o caminhão por 200 contos. Na hora da partida, tinha gente sobrando: dava para dois caminhões. 

 A condição, para viajar: cada um se comprometia a dar a Praciano Cr$ 3.000,00, ficando a comida durante a viagem “por sua garantia”. 

VENDA (1ª) DO GADO HUMANO

O “Alfa” afinal veio descendo pelo Ceará, Bahia, Minas Gerais. 
- A essa altura, meu dinheiro (70 mil cruzeiros) acabou. Já viu miserável sem comida? É de matar. 

Aí estavam em Montes Claros. O fazendeiro do lugar, Antonio Versiani Ataíde, conta, veio ao encontro do bando: 

- Vamos dividir esse pessoal. Quem for do braço, vem para o meu trabalho! 

Foi então que o Praciano fez o primeiro negócio: vendei 61 “cabeças” por Cr$ 100 mil. 

O fazendeiro pagou Cr$ 86.600,00. O povo do lugar, condoído, deu mais Cr$ 13.400,00. O total foi Cr$ 100 mil - com recibo e tudo. 

MAIS GADO (HUMANO) MAIS DINHEIRO 

E a viagem continuou. Rumo: centro de Goiás. 

Em Rio Verde, nova parada e negociações com o fazendeiro João Macedo Garcia. Este, por Cr$ 35 mil - mais a promessa de dar uma fazenda a Praciano - ficou com os restantes nordestinos, em número de 119. 

Foi passado recibo também, “na legalidade de Deus”. 

E Praciano ficou de descer até S. Paulo, visitar um seu irmão aqui, retornar a Itapipoca, buscar a família e os “trens” - e juntar-se ao “seu povo” em Rio Verde, e ali, outra vez, começar a criação na fazendinha.

AZAR BATE EM S. PAULO - DENÚNCIA 

Em S. Paulo, contudo, o azar bateu no cearense decidido. Tinha sobrado - pago o chofer do caminhão: R$ 135 mil - para suas despesas de volta, com visita de permeio ao irmão, Dr$ 6 mil. Praciano não conhecia a capital, nem sua malandragem. Foi no conto do “paco”. Perdeu os Cr$ 6 mil - e deu queixa à Polícia. Na Polícia, inventou: tinha sido roubado em Cr$ 100 mil (“dinheiro grande, a Policia vai procurar”). A mentira o engalhou. Aparece o seu irmão, aqui radicado. Este é reconhecido por um investigador e acusado de roubo (antigo) dum rádio. 

Os dois irmãos vão parar no xadrez. Pior: Praciano, pressionado, conta a história verdadeira. Acusado agora de traficar brasileiros, sente vergonha e contesta - e continua preso. Num de seus bolsos, um documento impressionante: o fazendeiro do Rio Verde deseja comprar mais “50 trabalhadores do Norte”. Mas não quer “peso-moto”. (Praciano explica: “peso-morto” é a criançada doente...). 

Enfim, num canto de Delegacia, junto ao repórter, o cearense Francisco Pires Praciano confessa: 

- “Sou brasileiro e quis ajudar meus irmãos brasileiros. Ninguém nunca viu a miséria que vai no Norte. Governo por lá não aparece. Perdi agora meu dinheiro, estou agredido e preso em S. Paulo - e meu povo morrendo de fome em Itapipoca. 

E lamenta: 

- No Brasil, só não conhece a fome quem faz gosto dela! 

A CARTA 

É esta a carta de Tércio Campos Leão, fazendeiro em Rio Verde, encontrada nos bolsos de Praciano:

“Rio Verde, 16 de fevereiro de 1959. 
Sr. Francisco Pires Praciano 
Nesta. 
Tomei conhecimento de sua estada aqui e como o sr. reside no Ceará, onde tem inúmeros trabalhadores que querem vir para este município, quero fazer-lhe uma proposta para a vinda de 50 trabalhadores para a minha fazenda, nas condições: 
1.ª - As famílias ficarão residindo na fazenda com todos os seus membros e só poderão trabalhar noutro local, em outra propriedade, com o meu consentimento; 
2.ª - Darei lavoura para todos, sendo no primeiro ano, 1959, pequenas, visto ter interessados na minha fazenda; 
3.ª - Não admito uso de bebidas alcoólicas, imoderadamente, na fazenda, assim como armas e festas; 
4.ª - Pagarei a diária de Cr$ 60,00 (sessenta cruzeiros) livres de outras despesas necessárias; 
5.ª - O pessoal peso-morto deverá ser o menor possível; 
6.ª - Na chegada do pessoal em minha fazenda comprometo pagar até a quantia de Cr$ 100.000,00 (cem mil cruzeiros) a você, ficando o restante das despesas para a combinação na ocasião. 
Estas são as condições que exijo para que você traga os 50 trabalhadores, isto é, 50 braços úteis, entre mulheres e homens. Caso o senhor interesse, pode trazer o pessoal. Correndo por minha conta a responsabilidade do não cumprimento da obrigação ora feita, até o dia, digo, até os fins de abril próximo. 
Com os meus respeitos e consideração, cordialmente, Tércio Campos Leão. 

TRIBUNA DA IMPRENSA 3 de abril de 1959.

A POLIO PODE VIR AÍ

O cientista Afrânio do Amaral, diretor do famoso instituto, cria o “slogan” e dá importantes informações à TRIBUNA - Tremenda luta do Butantã contra a burocracia federal para fazer experiências da vacina. SÃO PAULO, 22 (Sucursal) 

- Falando a este jornal, o Sr. Afrânio do Amaral, diretor do Butantã, admitiu que o Instituto tem realizado uma série de experiências para o fabrico da vacina contra a poliomielite. 

Recusou-se a dar detalhes técnicos. Mas teve palavras duras contra a falta de ajuda do governo federal: - “Apenas uma coisa - diz ele - não nos foi possível conseguir: vencer a inércia das autoridades federais párea que nos ajudem a ganhar esta batalha.” 

O Sr. Afrânio do Amaral trabalhou, no Instituto, com Carlos Chagas e Vital Brasil. Há mais de vinte anos dirige o Butantã (afastado por Ademar, ganhou no Judiciário). Tem fama mundial como cientista.

Rhesus e “Cadillacs” 
No seu gabinete no Butantã, onde até livros são encadernados com pele de cobra, dá um exemplo sintomático: 
- “Os “Cadillacs” cuja importância não traz nenhuma utilidade ao país, continuam a chegar. Contudo, para conseguir a licença para a importação dos macacos “Rehsus”, o Butantã levou dez meses exatos”. Diz que foram dias agitados, de correria e papelório, no Banco do Brasil, SUMOC, Carteira Exterior, Ministério da Fazenda, Departamento de Caça e Pesca... etc. A licença, enfim, saiu há pouco. 

As experiências
As experiências para a vacina antipoliomielítica foram iniciadas há dois anos. Sofreram contratempos burocráticos (como o citado). E outros. Em maio de 1954, o Sr. Afrânio do Amaral pediu ao governo recursos para o envio de um técnico do Butantã aos Estados Unidos. Durante um ano o governo impediu a viagem. 
- “ Agora - diz - o Sr. Vallejo Freire está de volta, com dados preciosos sobre a vacina. Com seus novos trabalhos, o Butantã trata de aperfeiçoar as vias conducentes (técnica, etc.) ao preparo da vacina”. 
O Sr. Afrânio do Amaral não adianta qualquer outro detalhe sobre as pesquisas do Butantã, nesse setor.

A pólio no Brasil 
Passa, em seguida, a dar outras informações sobre a poliomielite. Cita importante trabalho brasileiro, na reunião de Genebra. Destaca estas três conclusões: 
a) Nos países atrasados é menor o perigo da poliomielite, cuja gravidade cresce a medida do progresso industrial; 
b) Nos lugares adiantados, as formas graves, paralisantes, costumam aparecer de preferência da adolescência em diante; 
c) Nos meios atrasados, as crianças, desde cedo em contato com a natureza, freqüentemente contraem a infecção, em geral sob o caráter frustro; 
Disso, conclui o diretor do Butantã: 
- “O problema da poliomielite, no Brasil, é variável. Pode ser grave em São Paulo, Rio, Porto Alegre, por exemplo. E não incidir no resto do país”. 

Salk e Lepine 
De uma certa maneira, o Sr. Afrânio do Amaral é um céptico quanto aos resultados das vacinas Salk e Lepine. Há vários fatores a considerar. Entre eles, enumera: 
a) Não se sabe ainda qual o heliótipo da vacina; 
b) Não são conhecidos os meios de tornar a vacina Salk isenta de perigo, pela sobrevivência de algum vírus no meio do material imunizante (já causou mortes em centenas de crianças); 
c) Ainda não se pode conhecer a duração da imunidade da vacina, nem o seu intervalo, nem outros pormenores importantes; 
d) Apenas se sabe que a vacina não pode ser aplicada em épocas de epidemia, pois pode agravar os casos incubados, mas os laboratórios não dispõem de recursos para saber quando há o perigo da incubação; 
e) O custo da produção da vacina é tão elevado que a grande maioria de países terá de recorrer às vacinas feitas em outros países e da possibilidade da não correspondência dos tipos de vírus. 

 - “Mas não há desânimo - diz o Dr. Afrânio. O assunto está em efervescência: os técnicos e cientistas ainda descobrirão o meio de controlar essa terrível moléstia”. 


A Vacina Ideal 
Diz o Sr. Afrânio do Amaral que tudo o que se fala sobre o preparo da vacina antipoliomielítica, com as técnicas atualmente admitidas, é precário. Diz que é estonteante o progresso científico, nesse particular. E informa: 
- “ Ainda agora recebi comunicação da Califórnia, de que o físico-químico A, Fraenkel Conrat, acaba de fazer a descoberta do século. Ele foi, aliás, meu colaborador do Butantã, quando assistia o prof. Karl Slotta, chefe da seção de Química e que isolou péla primeira vez no mundo o princípio ativo do veneno da cascavel. Pois o Dr. Conrat da OMS, de que é o representante, conseguiu combinar as duas porções ativas da pólio: a nuclear, de um tipo menos patogênico, com a porção envoltória, de outro tipo mais anti-higiênico (imunizante). Com essa combinação engenhosa, conseguiu ele uma vacina que, pelo menos do ponto de vista teórico, parece o ideal. Representa o requinte a que pode chegar um trabalho científico. 
O Sr. Afrânio do Amaral dá ainda outras informações (científicas). Fala do seu trabalho no Butantã, conhecido em todo o mundo. Há 42 anos é funcionário do Instituto - só saiu quando foi perseguido, na ditadura (37) e depois, com Ademar. 
Verdadeiro cientista, o Sr. Afrânio do Amaral, segundo testemunhos, já algumas vezes deixou-se picar por cobras venenosas, para conhecer os efeitos. Esteve perto da morte, duas vezes. 
Agora, o seu ideal é fazer a vacina contra a paralisia infantil no Butantã. Tudo depende do governo federal. Apenas o Butantã precisa de meios, para importar material e trocar técnicos com outros países onde as pesquisas estão adiantadas. 
Termina:
 - “Se vencermos a inércia das autoridades federais, e conseguirmos um entrosamento delas com as estaduais, a pátria ficará engrandecida com nosso trabalho”. 

TRIBUNA DA IMPRENSA 
22 de março de 1956.

sexta-feira, 4 de outubro de 2024

CARVALHO PINTO revela os rumos de seu governo

O secretariado será técnico, mas não serão abstraídos os aspectos políticos
-Acha que Jânio merece o Catete
 S. PAULO, 13 (Sucursal) 

De camisa esporte e botas a meio cano, mais magro dois quilos, mas sempre “tremendamente simpático” como um adversário que o definiu durante a campanha, o professor Carvalho Pinto está à nossa frente, junto de Dª. Iolanda, sua mulher. 
Estamos em Itu, junto a Campinas, onde republicanos históricos, há 70 anos, proclamavam a República. Ali, na fazenda do Sr. Joaquim Campos Bicudo, o novo governador oferece um churrasco aos amigos e jornalistas. 
Carvalho Pinto, na fazenda, vive em ambiente muito seu - descende de família de fazendeiros como é. Posou andando a cavalo e tirando leite da gorda vaca holandesa. 
Só não aceitou botar vara no rio e pescar. 
- O Tietê tem pouco peixe, minha gente! 

As crianças 

- Professor, quero um distintivo do “pintinho”!
- Tome dois, um é para o seu pai. 
- Dois não quero, quero três. Meu pai é do Ademar, mas meus dois irmãozinhos são do senhor.
Carvalho Pinto conta e informa: as crianças foram os grandes cabos eleitorais de sua campanha. 
Isto e o “civismo das classes mais humildes” foram os dois fatos que mais o impressionaram durante toda a luta eleitoral. 

Campanha dura

- Foi dura a campanha? 
- Extenuante! 
- Parece bem disposto... 
- ... agora, mas perdi, eu que sou magro, dois quilos 
- Quantos dias a campanha? 
- Exatamente 85. 
- Discursos? 
- Fiz 680, fora os de porta de fábrica. 
- Média de cidades por dia? 
- Cinco, seis. Houve dias, contudo, que visitávamos 12. 
Alguém oferece um limão doce ao novo governador. Ele o descasca com habilidade e o oferece aos presentes. Mas ninguém aceita. Sorrindo: 
- Aproveitem, que, depois, só terei para oferecer os “abacaxis” do governo... 

Vitória sem surpresa 

Sentamos juntos à mesa lavrada, comprida e estreita. 
Carvalho Pinto, cercado de amigos, correligionários e jornalistas, faz declaração solene: 
1. A vitória não foi surpresa para ele; 
2. Recebe-a com emoção e humildade; 
3. Não lhe pertence, mas ao povo paulista; 
4. Elegendo-o, o povo repeliu a impostura, a demagogia, a deslavada mentira e a corrupção, “métodos ultrapassados em nossa política”; 
5. Não guarda quaisquer ressentimentos da campanha; 
6. Não tem vaidades pessoais, não alimenta ambições políticas e sente-se em liberdade, diz, para mobilizar todos os seus esforços em favor dos interesses do povo. 

Plataforma 

Indagado sobre sua plataforma de governo, responde: 
- Desenvolver as obras e serviços públicos da atual administração paulista, que constituem o mais espetacular programa de toda a história político-administrativa do Brasil. 
- Terá secretariado técnico ou político? 
- Dominantemente técnico, não se abstraindo, entretanto, os indispensáveis aspectos políticos que um governo como o meu, de natureza apartidária, mas de base pluripartidária, não pode desconhecer. 
- Como tratará a máquina administrativa e o funcionalismo? 
- Poucos homens públicos têm feito tanto para o funcionalismo quanto eu, desde os tempos da Prefeitura. Mas resumirei minha resposta assim: 1- dignificação da função pública; 2- descentralização administrativa; 3- racionalização da máquina funcional. 
- E as relações com o Governo Federal? 
- Serão as de um governo consciente dos direitos que S. Paulo deve reivindicar no seio da Federação brasileira, como os deveres do “nosso Estado, na promoção da prosperidade, do bem-estar, da justiça social e do desenvolvimento de todo o País. 

Traço humano 

Diz, a seguir, o prof. Carvalho Pinto que tratará a Prefeitura da Capital (Ademar) como as demais do interior, respeitará as forças políticas adversárias, terá preocupação especial com a educação primária e universitária e o “desenvolvimento de uma assistência técnica à agricultura mais adequada aos pequenos agricultores. 
Definindo-se à frente do Governo, diz: 
- O traço humano que marcou a minha política financeira na anterior gestão marcará, finalmente, a minha política administrativa à testa do Governo do Estado de S. Paulo. 

Oposição sobre Jânio 

Sugerimos a pergunta inevitável: 
- “Que acha da candidatura Jânio Quadros à presidência da república?” 
- “Jânio Quadros é a expressão mais alta de um movimento de recuperação moral e administrativo que alcança, com a minha eleição, mais uma vitória. É o homem que já demonstrou as suas qualidades, os seus atributos para a gestão da coisa pública e que nessas condições se encontra plenamente credenciado para aspirar e pleitear o posto dessa alta responsabilidade. 
- “Na verdade, entendo que chegou o momento em que São Paulo refeito, recuperado, unificado em torno dos ideais que nos mobilizaram nesta campanha, passe a exercer os seus deveres com mais amplitude, com mais intensidade, com mais profundidade no seio da federação brasileira”. 
Alguém insinua que, se eleito presidente da República, o Sr. Jânio Quadros, mais uma vez, escolherá o professor Carvalho Pinto para seu “mago das finanças”... 
Carvalho Pinto faz “blague” e termina de uma vez a entrevista: - “Há muito “mago” por aí.” 

 TRIBUNA DA IMPRENSA, 13 de outubro de 1.958.

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

CABOCLO COM ALMA DE BANDEIRANTE

CABOCLO COM ALMA DE BANDEIRANTE DÁ AULA DE HISTÓRIA EM SOROCABA 

Doente e retirado, é um dos grandes folcloristas do Brasil - Cônego e tem sangue de alemão - Uma história com Pedro Calmon
SOROCABA, 25 

- Pedro Calmon apareceu nesta cidade para fazer uma conferência de História. Pegou seu palavreado barroco e estourou no meio do auditório frágil. Depois, quis conhecer a cidade: - “Você não tem um historiador, aqui? Me apresentem um, que seja o melhor da cidade! O grupo luzidio se entreolhou. Logo essa, agora! O maior historiador da cidade era um padre. E não seria fraqueza, apresentar logo um padre simples, ao grande Pedro Calmon? Mas a apresentação se fez. O padre pôs-se a falar. E mostrar a cidade, no carro repleto. Sabia tudo: a história da cidade, seus ciclos econômicos, a genealogia da sua gente. Pedro Calmon guardou até o barroco. E, no aeroporto, de volta dizia: - “Pois olhem. A melhor coisa que me aconteceu nesta cidade, é ter conhecido esse grande historiador, o padre Luiz Castanho de Almeida”! Só que Pedro Calmon errou duas vezes: o padre era cônego, a primeira: e não era apenas um grande historiador, mas um pesquisador notável de folclore, a segunda. Vamos a ele. 


CABOCLO, BANDEIRANTE E... ALEMÃO 
Mora com a mãe numa casinha simples. A saleta, onde aparece, é cercada de livros de história por todos os lados. E de bom folclore. História e folclore são as duas coordenadas da vida do cônego Luiz Castanho de Almeida. - “Sou um caboclo, mas tenho raça de bandeirante” - diz ele, quase gordo, de batina batida pelo uso. Atrás dos óculos frágeis. E melhora: - “Mas tenho um pouquinho de sangue alemão, também”. O cônego Castanho (seu nome popular) nasceu em Guareí, São Paulo. Data: 6 e novembro de 1904. Em 1927, ordenou-se me Sorocaba. Foi pároco e professor em Guareí, Itararé e Sorocaba. Ele enxerga mal e está quase surdo. A esclerose dos nervos põe bambas as suas pernas. Os males começaram em conjunto, há uns vinte anos. Por isso, forçado ao repouso obrigatório, dedicou-se à história e ao folclore. Na história, a de Sorocaba. No folclore, ao infantil. Durante todo esse tempo, teve uma só secretária, enfermeira e animadora. Dona Ana Cândida Rolim. Sua mãe. 

OBRAS E MATERIAL COLHIDO 
Trabalhando assim, picado e pacientemente, o cônego Luiz Castanho de Almeida conseguiu reunir uma imensa obra. Sua “História de Sorocaba” é o livro oficial da cidade. José Olympio há alguns anos, editou com sucesso o seu livro “A História da Revolução Liberal de 1842”. Outros artigos de história (centenas) estão em jornais da cidade (especialmente na “Folha Popular”) e da Capital. Ou na revista “Vozes” (de Petrópolis). E, ainda, na Revista do Arquivo Municipal de São Paulo (Prefeitura). Tem 3 livros de folclore: “50 contos populares”, “Contos Populares do Planalto” e “Contos do Povo Brasileiro”. Ao todo, já recolheu cerca de 300 contos da literatura popular. Isso sem contar milhares de mitos, fábulas, advinhas, provérbios, sabedoria tradicional e anônima. Seus artigos no “O estado de São Paulo”, com o nome literário de Aloísio de Almeida, atingiram mais de três centenas. A obra histórica tem elogios, inclusive, de Taunay. Sobre o material de folclore, ele mesmo diz: - “Meu orgulho é ter tido boas referências, para meus trabalhos, de Luiz da Câmara Cascudo, o nosso “chefão” do folclore brasileiro. Entre o material colhido, destaca também: centenas de receitas de curandeirismo e histórias populares da Ilha da Madeira (tiradas de um paroquiano, português da ilha). Tudo que publicou, até hoje, era inédito. O

 CÔNEGO, COMO COLHE FOLCLORE 
-“Criança gosta de padre - diz ele - e disso me aproveitei para colher os contos, parlendas e advinhas infantis de meus livros”. Explica mais: - “Chegava a duelar com a criançada, aqui na minha Rua Rui Barbosa, para conseguir sempre mais novidades”. Muitas professoras (principalmente uma irmã) ajudaram. Benedito Ribeiro, um caboclo de Piracicaba (região de bom folclore), de uns 70 anos, chegou a ir durante muito tempo à sua casa, toda quinta-feira, para contar “coisas” do tempo antigo. Foi uma das melhores “fontes” do cônego Castanho. - “Tudo o que colho é inédito, tem sabor regional, e é publicado inclusive com os erros originais” - esclarece. Hoje, cada vez mais doente, tem enorme dificuldade na pesquisa. A mãe, contudo, ajuda sempre. - “Infelizmente, também nossas boas tradições vão se acabando, com essa onda dum falso progresso material” - diz ele. E se recorda, com saudade, dos seus antigos tempos de vigário. Quando, a seu pedido, a caboclada cantava a Salve Rainha. Toda em “caipira”, chorosa e em dois coros. E a Ave Maria também, a mesma (cantada) dos tempos dos jesuítas.

CONVERSA (AINDA) DE FOLCLORE
No campo do folclore religioso o cônego Castanho estudou os cancioneiros religiosos e os benditos antigos. - “Estes eram ensinados por Anchieta aos gentios, por mnemônica - grava. Diz que as festas religiosas atuais têm coisas autênticas “que devem ser conversadas”. A República, com a onda positivista inicial, estragou muito o folclore religioso. Lembra o cônego que, até 1889, o Exército cantava cantigas populares, rezava benditos e devoções. O soldado tinha a sua oração da noite, coletiva. Com a proibição, tais orações populares cultuadas pelos soldados foram sendo esquecidas. O cônego define folclore segundo a linha tradicional: é a ciência das tradições populares, no meio civilizado, compreendendo também literatura tradicional e etnografia popular. - “O folclore é utilíssimo no ensino dos bons costumes e boas tradições de um povo” - diz. Destaca, entre outros folcloristas brasileiros de valor, Luiz da Câmara Cascudo (o mestre), Renato Almeida, Théo Brandão, Oneida Alvarenga, Florestan Fernandes, Alceu Maynard Araújo, Renato Teixeira e o grupo de Santa Catarina. É favorável aos métodos (“fáceis”) de pesquisa moderna (gravações, etc.). Há três centenas de metros de sua casa, vimos uma estátua na praça grande, era o “Monumento ao Tropeiro”. Homenagem da cidade aos tropeiros bandeirantes, que fizeram de Sorocaba, no século passado, o grande centro de tropas e boiadas (ciclo do muar) do Estado. Victor Cioffi de Luca, sorocabano honorário, ao nosso lado explica: - “O monumento, único no Brasil a homenagear um tipo regional, é iniciativa do cônego Castanho”. O monumento tem história e tem folclore. Ao mesmo tempo. Claro. 

TRIBUNA DA IMPRENSA 28 de maio de 1956.

Incidente com Falconière nas festas do 9 de julho

Estava “sobrando” entre os veteranos de 1932

 Um grupo de senhoras se insurgiu contra a presença do general nas solenidades cívicas- 400 veteranos desfilaram no Ibirapuera 

SÚBITO, no meio da solenidade cívica, o grupo de senhoras, lideradas pela Sra. Suzana Fonseca, se insurgiu ruidosamente. Ela mesma dizia: 
- “Não pode! Não pode participar desta solenidade quem ajudou a traição do 11 de novembro!” 
A custo, a ordem se refez. E o general Falconière, a personagem citada, não percebeu o incidente. Que valeu para mostrar a coragem cívica da mulher paulista. 
O Monumento-mausoléu dos heróis de 32 foi inaugurado com grande pompa. 

JÂNIO CRESCEU
Jânio estava de capote londrino, óculos caídos e cabelos rigorosamente penteados. A mulher de preto, branco e vermelho (milhares de mulheres, ontem, vestiram assim em São Paulo) chegou-se perto dele e disse: -“Salve Dr. Jânio! Salve o grande governador de São Paulo. O senhor cresceu, Dr. Jânio, depois do 11 de novembro!” Nome da senhora: dona Suzana Fonseca. 

O CORNETEIRO 
Elias dos Santos Oliveira veio com sua corneta usada na Revolução. Ainda com ela marcou a solenidade cm os mais belos toques de 32, onde lutou no primeiro batalhão. Seu filho, de 12 anos, tem o mesmo jeito. E a mesma vibração: - “Meu pai lutou em 32. Eu lutarei também, se agora fizesse outro!”. Maria Jose Cunha lutou em 32, como voluntária. É mulata e agora já passa dos cinqüenta. No desfile de ontem, puxou a fila dos veteranos (quase 400) pelo Ibirapuera, no meio do povo. Carregando a velha e encardida bandeira paulista, usada nos campos de luta. - “Sou a Maria José, mas todo mundo me conhece como a soldada. E é soldada mesmo o que quero ser até hoje! - diz ela, provocada. Manteve um garbo impecável, até o fim da parada. 

NETO DE ISIDORO 
Para carregar a urna mortuária do generalíssimo Isidoro, seu avô, chegou, das Agulhas Negras, o cadete Isidoro Dias Lopes Neto. É o cadete 625, da Academia Militar. Para que viesse, os veteranos mobilizaram céus e terras. Depois da solenidade, ele agradecia comovido aos veteranos. E juntos, o neto e os veteranos, todos recordavam a figura do grande gaúcho, que fez as revoluções de 1893, 1922, 1924 e 1932. Que ocupou São Paulo em 1924 para devolver intactos, meses depois, os 96 mil contos da Caixa Econômica que ficara sob sua guarda. Que rejeitou certa vez o presente de uma casa, que os paulistas lhe ofereceram. E que morreu enfermo e na maior miséria. O neto de Isidoro se tiver esse sangue, promete. É o que se dizia. 

FALA 33 
Guilherme de Almeida, o poeta, rezava a sua oração dos mortos. Único orador. Derramava-se sobre a epopeia de 32. O povo escutava quieto e em posição de sentido. Mas a menininha de 10 anos não conseguiu furar a parece de curiosos. E recostou-se atrás do grupo com a cabeça colada às costas da mãe. De repente lembrou-se da cena caseira: - ” Mamãe, mamãe, fala trinta e três, trinta e três, trinta e três...” 

UM QUINGUERLHOFER
Em São Paulo, soldado que usa muita medalha é apelidado de quinguelhofer (corruptela do nome de um general conhecido, ganhador de mais de 200 medalhas). Pois na festa dos veteranos, havia um quinguelhoffer. Era o capitão do exército francês, Frederic Sttatmuller. Seu peito reluzia ao sol. 
Veio para São Paulo com a missão francesa de 1906. Aqui ficou. Aqui trabalhou (instrutor da cavalaria da Força Pública). Aqui viu o 32. Aqui continua para o que der e vier.

RUFADOS 
Os tambores rufavam cada vez que um dos cinco heróis transportados ao Ibirapuera chegava no cortejo especial, para ser depositado no gigantesco Monumento. Trinta e dois segundos cada vez. Foi assim com o “generalíssimo”. Com os cabos José Benedito Salinas e Fernão de Morais Salles. Com o estudante Cesar Pena Ramos (indicado pelo C. A. XI de Agosto). E com o sargento Álvaro dos Santos Matos. 

UM REPORTER FALTOU 

No fim de tudo Mércio Prudente Correa e alguns veteranos se recostavam a um canto. Já não se ouviam as marchas militares nem as salvas de canhão, eloquentes. Eles falavam baixo e tinham expressões marcadas. Falavam do repórter que fizera sua última reportagem com eles. Do repórter de 17 anos que assistiria comovido àqueles festejos (seu pai, já falecido, José Bueno de Oliveira Azevedo, fora dos grandes da revolução). Do jovem presidente dos estudantes secundários de São Paulo, que carregaria a urna do estudante morto de 32. Batia o sol forte do meio dia naquelas caras marcadas dos veteranos de 32. Mas se via que o vazio ali, entre eles, era do reportes Clovis Bueno de Azevedo. Por quem, de manhã, eles fizeram um minuto de silêncio. O silêncio que se presta a um dos seus. 

TRIBUNA DA IMPRENSA