sexta-feira, 27 de maio de 2016

Ao vivo, LUIZ GONZAGA

Gonzagão, alto, forte e amorenado, vai andando gingadamente pela rua, nas imediações do hotel onde está hospedado, no tradicional bairro de Higienópolis, em São Paulo. Com seu jeito de nordestino “enluarado”, vistoso e garboso no costume tropical branco, de óculos escuros e carapinha já meio branca - pudera, ele já completou 72 anos - respondendo e acenando para os populares, com quem troca ditos e chistes engraçados, esse fabuloso e eterno Luiz Gonzaga, o Rei do baião do Brasil. O “Lua” só arrasta um pouco os pés, comprimidos em alpercatas simples, reclama de uma “gota” renitente - que o obriga a tomar remédios e injeções doídas, diariamente - e, quando vai chegando à farmácia da esquina, junto ao repórter, fala direto e com graça: 

- “Eita gota serena, filha duma peste, desse jeito não posso mais dançar o baião nos forrós do velho “Lua”... 

Na própria farmácia, o Gonzagão, entrando duro na injeção, vai dialogando seu dileto rude de nordestino, com a voz poderosa que Deus lhe deu, cantada e badalada até hoje - após 45 anos de carreira vitoriosa e ininterrupta - em todo o país: 

- “Sim, estou com 72 anos, mas me sinto um setentão forte e rijo... E acho que nunca decepcionei o meu público nacional... Já lancei mais de 48 LPs, sempre na mesma gravadora, fora os “remendados”... Sei que não sou um homem de cultura, mas, se fosse, acho que seria um Gandhi. 

- Qual a programação sua, para este ano? 

- “Shows, shows w mais shows... Acho que vou para a celebração dos 70 anos do Juazeiro, rezar para o meu Padim Cícero... 

Em muitos lugares do Nordeste, só canto em troca de comida, para os flagelados da seca... Êta, seca maldita, que fizemos nós nordestinos, para ter tanta seca, sentir tanta fome... Agora, dizem que Deus é brasileiro, não sei! 

- Mas o seu baião, a sua música, não é triste, é alegre... 

- Claro: como sertanejo, descendente de família humilde, criado na pobreza, faço um trabalho pelo meu povo, mas com moderação e sem pregação de miséria ou de violência de espécie alguma... Canto sim a lamúria e a tristeza do nordestino, mas à minha maneira... Canto o xote romântico e ensino há mais de 40 anos o brasileiro a dançar o baião... É isso aí, seu moço. 

- Qual a sua religião? 

- Já dizia o outro... e eu repito humildemente: todas as religiões conduzem a Deus. 

“Lua” acaba de tomar a injeção e ingere a pastilha salvadora, que o aliviará até a noite da “gota” arretada... À sua volta, populares comentam os fatos do dia.Ele conta que sua terra, Exu, PB, está em calma, após a intervenção federal que pediu - e o Governo atendeu, em 82. Lá ele tem “um sitiozinho, pra não esquecer o cheiro da vaca e do bode”. E sobre as Diretas Já, afirma com voz firme favorável, “de corpo e alma”. Todo o provo participa do movimento, e “eu sou povo”, diz. Mas no final, completa o “Lua”, deve dar o “consenso mesmo”, e um candidato como o vice-presidente, Aureliano Chaves, a seu ver, deve ser escolhido presidente.

Já na rua, agora andando mais desenvolto, reata o diálogo: 

- Quantos shows já fiz hoje? Mais que dez... Fiz um que gostei muito, em Manaus, em 1982, no 10º aniversário da Sharp... Êta gente boa, essa de vocês... O show atrasou um pouco... Mas depois compensou... E que fábrica bacana de boa gente vocês têm, xente! 

Quais os seus grandes parceiros? 

- Os imortais Humberto Teixeira, cearense, e o Zé-Dantas, pernambucano... Com o Humberto fiz a “Asa Branca”, que canto em todo o lugar e já foi chamado de Hino Nacional Brasileiro... Êta baião bom!... Agora, eu todo sanfona ou violão, gosto da sanfona desde os tempos de meu pai, o Velho Januário... Ele tocava sanfona-de-fole, foi meu inspirador, assim como o Zé Rieli, que acho que era de São Paulo e Armando Meirelles... A minha primeira sanfona era alemã, depois passei pra esta aqui... Do fole de 8 baixos, passei pra esta de 12...

- Onde esta essa primeira sanfona alemã? 

- Ah, meu filho, se perdeu no tempo, alguém pegou... Podia ficar para o Museu do Baião, que vão fazer na minha terra, Mas já se foi... 

O Gonzagão senta-se no divã da portaria do Hotel. Espera o representante da gravadora, com quem vai caitituarseu novo LP nas rádios. Aos 72 anos, ainda precisa caitituar?,pergunto. O “Lua” dá sonora gargalhada, enche com seu vozeirão - o timbre de voz inesquecível e cantante - o saguão do Eldorado: - É isso aí... Cachorro que não lambe o dono... 

- Quais são seus continuadores? 

- O Gonzaguinha é meu herdeiro apenas familiar... Não é meu herdeiro musical... Canta mais intelectual, mais refinado, mais intimista, como dizem... Agora, o Dominguinhos, esse é... Esse eu formei mesmo, desde pequeno... E tem toda essa gente por aí, cantando e dançando o Nordeste são todos meus continuadores, o Zé Ramalho, o Alceu Valença, a Elba Ramalho, a Amelinha, êta ente boa! Arrastam multidão, esses meninos têm muita galhardia, são povo como eu, são “quentes”, não perdem o prumo nem o aprumo! 

- E os baianos, Caetano, Gil, Gal, Betânia, etc.? 

- Também gosto deles. Chegaram ao Centro- Sul e balançaram a roseira,como o Moraes Moreira... 

O Gonzagão dá outra gargalhada, assustando os hóspedes estrangeiros. Ele diz que quando está triste, dá uma dessas gargalhadas “pra refrescar”. Seu dia a dia, no Rio, vai falando, é descansar, com a mulher Helena, com quem mora na Ilha do Governador, e a filha Rosinha. Esta entende como quê de música popular, mas não canta. “No Rio, vivo numa boa”... diz

Gonzagão: Embaixador 


Em 1966, trabalhei na campanha de Carlos Lacerda, para Governador do Rio. Campanha vitoriosa, aliás. E coube-me certa vez procurar o Gonzagão, que fez, a pedido de Lacerda, um folheto de cordel para ativar a campanha lacerdista. Impressos 200 mil exemplares, o folheto era distribuído na Zona Norte do Rio, nos comícios, aos quais sempre comparecia o “Lua” com sua famosa sanfona. 

Que alegria, os nordestinos, os favelados, vibravam... Era o “Lua” tocar e sair, pro outro comício (eram feitos uns 15 por dia), e aí Lacerda chegava e falava. “Lua”, afora, mais de 20 anos depois se recorda e ri. “Tornei-me uma espécie de embaixador do Nordeste, no governo Lacerda na Guanabara”. 

E o Gonzagão vai contando que não deu sorte com Getúlio, nem com JK, um pouco só com Jânio. “Não gosto de política”, diz. “A minha política é cantar” 

 InforMAC - Órgão de Divulgação Interna das Empresas Machline Ano III - Nº 26 - Março 1984.

sexta-feira, 25 de março de 2016

O BONDE

O bonde nos põe em contato com quase todos os espécimes mais raros da heterogênea fauna humana. Essas raridades – justamente aquelas cujas maneiras e atitudes as tornam destacadas dos demais passageiros – é que procuraremos apontar aqui. 

Primeiramente, vejamos aqueles compreendidos entre os “figura difícil”. Estão nessa categoria, desde os pacatos cidadãos que se postam de tal jeito nas pontas dos bancos,cruzando tão investidoramente suas pernas, incomodando e perturbando assim os que vão nos estribos, até os ingênuos (ou muito espertos) cavalheiros que, lépidos, tomam nosso lugar no estribo, se damos passagem para uma pessoa descer ou subir. Esses abomináveis tipos são os “figurinha”... 

Depois, temos aqueles indefectíveis indivíduos que, a pretexto de qualquer incidente de menor monta – uma curta parada por um enterro, um comum desligar de eletricidade – aproveitam o ensejo para desfiarem por cima de nós toda a sua filosofia da vida, todo o seu pseudo-cabedal das engrenagens do mundo. Esses ao os tradicionais “chatos”.

E existem também uns distintos passageiros que por tudo querem mostrar-se afáveis e polidos, fazendo questão de dar o sinal de parada para as senhoras ajudando as crianças a subirem, avisando os “pingentes” de lugares para sentar; sobretudo, cuidando de cutucar o vizinho distraído da cobrança da passagem. Costumamos chamar a esses gentis-homens da cortesia de “paizinho da família”... 

Nos “camarões”, às sossegada e calmas senhoras que esperam o bonde parar depois tratarem de pagar e descer (não sem antes deixarem de berrar “Espera!”, ”Parado!”, “Parado!”), damos o epíteto de “Já vão tarde”... 

E esses rapazes que aproveitam o silêncio das paras dos bondes para começarem a dialogar alto em inglês ou para falarem de operações (!) medicinais que “realizaram” (“Aquele sopro cistólico bilateral esquerdo (sic) no 3º mediastino, com bisturi elétrico, foi fácil!”. “Eu, não, à maneira dos grandes cirurgiões, só opero com anestesia ráqui”)? Esses, logo reconhecidos doutores da mula russa, são os “cabotinos”... 

Os que se postam nos estribos estão sujeitos a uma estranha hierarquia. Primeiro, os “remediados”: são aqueles que se grudam nos balaústres, viajando relativamente bem.Depois, em segundo lugar, vem os da categoria dos “infelizes”: aqueles cujos corpos pendem num ângulo agudo dos estribos, estando seguros por um braço só; e, por último, estão todos os que se sobrepõem às duas primeiras categorias, os braços clamorosamente abertos, estendidos. Esses são os “crucificados”... 

 Aí estão os tipos de passageiros de bondes. Situe-se o leitor onde os julgar mais à vontade, mas, se a classificação o desagradou, não nos recrimine, mesmo porque em matéria de bonde, “Cortesia com cortesia não se paga” ... 

 A IMPRENSA – Sábado, 5 de fevereiro de 1949

CRÔNICA DA CIDADE I

A Avenida São João 

A Avenida São João cresceu sempre juntamente com a capital. Refletiu, em todas as épocas. O progresso e o adiantamento de São Paulo. Não teve, na sua formação, o traçado científico das plantas dos engenheiros ou os benefícios das linhas arquitetônicas pré-estabelecidas. Tal como a cidade. Ambas – avenida e cidade – somente foram construídas conforme a grandeza e o desenvolvimento da terra bandeirante exigiam. Daí, a estreita ligação existente ainda hoje – guardadas, no entanto, as proporções – entre essa avenida de São Paulo e a terra de Piratininga. 

 A princípio, em 1810, a rua de São João era uma humilde via, estreita, quieta, de toscos e diáfanos lampiões à gás nas esquinas, o seu barro vermelho enodoando a alvura dos sapatinhos delicados das damas acetinados... Começava justamente ás margens do rio Anhangabaú, terminando pelas adjacências do Largo do Arouche. Pouco a pouco, desenvolve-se a cidade. Em 1906, com a canalização daquele lendário rio, foi anexada à Rua de São João, a famosa ladeira do Açu; uniam-se assim essas duas ruas fronteiriças que as águas do Anhangabaú separavam. 

A partir dessa época o seu crescimento foi vertiginoso. Aliás, somente acompanha o progresso notável da capital; e foram os mesmos senhores riquíssimos da lavoura que empolgaram a opinião pública com a ideia suntuosa da remodelação total – principalmente o alargamento – da Rua São João. Fizeram-se as desvalorizações. Delineou-se, finalmente – a atual avenida São João. A época era mesmo para grandes empreendimentos. A capital estava no ápice de sua evolução. A população crescera de 200.000 pessoas (1892) para 1.200.000 (1932). A avenida sentiu esse avassalar de progresso. Ergue-se, no seu inicio, a majestade sólida do Prédio Martineli, então a maior construção de cimento armado da América do Sul. De há muito, os seus ineficientes lampiões foram substituídos pela iluminação elétrica, a simetria dos paralelepípedos sobrepostos ao seu barro escorregadio. Sua extensão aumentou num ritmo acelerado até o bairro – passando por Santa Cecília e Campos Elíseos – da Barra Funda. A seu lado abrem-se bares, constroem-se pensões e hotéis. 

Depois, mais modernamente, a imponência aristocracia da capital exige cinemas suntuosos, confortáveis. E eles surgem, com suas cintilações perenes de luz. É o Broadway, o Art-Palácio, o Ritz, o Metro. Mais adiante, o chamariz feminil dos cabarés arrasta, na volúpia das suas bacanais, a mocidade boemia e notívaga. Após, aparecem as primeiras auto-escolas e as intermináveis casas de peças e acessórios para automóveis. E as oficinas de concertos realizando os serviços em plena avenida, nas calçadas, nessa desenfreada ganância de trabalhar depressa, de ganhar mais dinheiro. Mas, exata e derradeira coerência, não é essa, hoje em dia, a principal feição da nossa capital? 

“A Imprensa – Órgão Universitário dos Alunos da Primeira Escola de Jornalismo Fundada no Brasil” (São Paulo – Março de 1949 – Ano I – página 2). 


UM CAMINHO NATURAL

Os textos apresentados no índice LEK - JORNALISTA APRENDIZ, deste  blog, remontam à época de estudante universitário de Luiz Ernesto Kawall.

Aos que se interessem pela trajetória do jornalista, estes artigos já sinalizam o caminho que Kawall iria trilhar por mais de 60 anos de profissão.

Aqui foram  selecionados os textos publicados no jornal “A Imprensa", da Cásper Líbero, primeira escola de  jornalismo fundada no Brasil, do qual o próprio Luiz Ernesto foi um dos editores.

Arnaldo Chieus

Tonico e Tinoco, a dupla coração do Brasil

Com seu jeitão simples de caboclos do interior - são da região de São Manuel - João Salvador Perez, 67 anos, e José Perez, 64, vão deixando a Rádio e TV Bandeirantes, onde acabaram de gravar o “Brasil Caboclo”, programa pioneiro no rádio brasileiro, produzido pelo radialista sertanejo Tio Nassin, e que vai ao ar religiosamente de segunda a sábado das 5 às 5 e meia da manhã. Eles são os ilustres filhos de Salvador Perez, espanhol que chegou ao Brasil em 1892 e foi trabalhar na lavoura de Botucatu, e de Maria do Carmo, descendente de negros e bugres. Os irmãos Tonico e Tinoco são alegres, cumprimentam funcionários e amigos, tomam o cafezinho, sobraçam mais de 500 cartas chegadas nos últimos dias. Andam sempre juntos, e já vão pegar o carrão que os conduzirá ao bairro da Moóca, onde moram com as respectivas famílias. O nosso INFORMAC os apanha de surpresa. 

- Entrevista em hora destas, assim de manhã... Não tomamos nem café mais forte... Mas, senta aí, pode perguntar o que quiser... Não temos segredos.

A dupla coração do Brasil se acomoda, na salinha arrumada ali pelo estúdio. Estão há quase meio século cantando juntos. Foram e são felizes, segundo seus amigos. Já têm mais de 70 LPs lançados e fizeram, em todo território brasileiro, segundo seus cálculos, mais de 1500 shows, levando a música caipira e sertaneja ao sucesso e à glória. 

- É verdade que vocês estão ricos? 
- Qual nada. Dá pra viver. 

- E a história do avião, é verdade? - Não. Fizemos uma foto, junto a um avião, e foi aquela água... Mas não temos avião não! Até hoje, pra voar, a gente se benze... 

- Como vão indo os shows, atualmente, com o avanço dos forrós e dos roqueiros? 
- Otimamente. Nada nos atrapalha. Quando tocam nossas músicas, num salão de baile, ou num forró, é aquela alegria! E cada vez maior! 

- A que atribuem essa liderança e esse gosto popular? 
- A muitas coisas, seu moço. Nossas músicas escolhidas, nosso repertório, sempre alegre e romântico, cantando coisas do nosso homem da roça com simplicidade. Nós não nos fantasiamos, não usamos instrumentos eletrônicos, nada. Vivemos da nossa voz, das nossas criações, em parceria ou não, da nossa viola e da nossa sanfona “velha-de-guerra”. O resto, é viver com coragem e fé. 

Rádio e TV 
Além do programa diário na Rádio, que é transmitido a todo país, Tonico e Tinoco fazem também um programa diário na Bandeirantes AM (17 às 17,30) e todos os sábados se apresentam na TV bandeirantes, das 18 às 19 horas, quando cantam e apresentam outras duplas caipiras. Eles também concordam que a força do rádio e a penetração da televisão ajudam a manter seu nome e propagar suas músicas em todos os rincões. Nesse programa semanal da TV usam a indumentária simples, sem forçar o tipo. Contam com graça que a primeira vez que vieram a São Paulo, para um concurso da Rádio Difusora em 1942 - que venceram, derrotando mais de 50 duplas caipiras - foram tirar foto na Avenida São João. Depois que posaram e foto foi batida, o seu Léo disse: “Agora, podem trocar de roupa...” Mas acontece que o Tonico e Tinoco “estavam com a roupa do corpo, vestidos autenticamente como caipira do interior, com chapéu de palha, botas e tudo... 

- O que vocês acham do Sérgio Reis, do Boldrin, do Zé Bétio?... 
- Deixa isso prá lá, tem lugar pra todos... 

- Quais os gêneros em que fazem maior sucesso? 
- Todos, graças a Deus. Seja moda de viola, cururu, desafio, cateretê, catira, xote, rancheira, toada, vanerão (gaúcha), pagode, rasqueado, valsa, capoeira, guarânia, xamamé, arrasta pé, batidão (goiano), carimbo, côco, samba, embolada... Todos os gêneros da música popular brasileira. Acho que daí vem o nome de “dupla coração do Brasil”. 

- Vocês têm uma mensagem em suas músicas? 
- A nossa mensagem é curta e grossa. É a da simplicidade e da vida da roça. Das belezas do amor. Com nossa viola, não perdemos nossas origens. Quando cantamos nos shows, com outros artistas, “surramos” todos eles! Somos mais aplaudidos que todos! Nem todos têm a sorte de ser original. É assim no rádio, na TV, nos cinemas, já fizemos filmes. 

Conversas e a “paixão
Eles falam do empresário Elcio e da paixão que a música caipira desperta em todo o Brasil. Os shows duram 40 minutos. Sempre é bom deixar “um pouco de música pra cantar da próxima vez”, explicam. As mais pedidas, que já estão gravadas na alma e no cancioneiro popular, são “Luar do Sertão”, de Catulo da Paixão Cearense, “Tristeza do Jeca”, “Chico Mineiro”, “Cana Verde”, “Mamãe, mamãe”, “Baile na roça”, “Beijinho doce”, “Na beira da tuia” e muitas outras. 

Fora dos shows, gostam de conversas nas cidades aonde vão. Conversa de esquina mesmo, afinal, nasceram e cresceram em cidades do interior. Contam “causos” e recordações, usando e abusando de memória incrível. Aqui em São Paulo, levam vida caseira, ao lado das esposas Valdete (Tonico) e Nadir (Tinoco), dos filhos e netos. Aos domingos, se não viajam, visitam a mãe, d. Maria, 91 anos, mulher forte e decidida, que cuida da capelinha que fizeram em 1963 pra cumprir uma promessa. É a Capela N. S. Aparecida e fica na Vila Diva. A mãe é que toma conta do pequeno templo, onde Tonico e Tinoco muitas vezes rezam, como católicos que são. 

Tonico e Tinoco falam com entusiasmo do novo LP - “O Rei dos Boiadeiros” - e do livro “Da beira da tuia ao Teatro Municipal - TONICO e TINOCO”, que pode ser pedido diretamente pra eles, na Rádio Bandeirantes ou à Editora Ática, R. Barão de Iguape, 110, São Paulo. Nesse livro estão mais de 500 letras da dupla, com o mesmo jeitão ingênuo que é sua marca registrada e famosa: 

-É assim mesmo nossa vida. Sem novidades. Dede os tempos do Capitão Furtado, somos assim. Já cantamos até no Teatro Municipal. Mas não perdemos nosso filão. Nossa música caipira. Nascemos assim e somos doentes por ela. O caipira é o verdadeiro Brasil. Nós, nesta vida, só queremos cantar nossas boas músicas, fazer bons shows, bons programas, ter bons amigos, viver bem. 

Informac Órgão de Divulgação Interna das Empresas Machline Ano III - Nº 32
Setembro/outubro 1984.

José Mauro de Vasconcelos - O Homem Inquieto


Mania ambulatória”, diz Ledo Ivo, referindo-se ao nomadismo do escritor José Mauro de Vasconcelos, que é um homem inquieto, com capacidade de estar sempre se movendo, como se fosse instigado pela angústia ou pela inesgotável vontade de viver. Sua vida tem sido uma intensa movimentação, percorrendo o Brasil de Norte a Sul, desde os tempos da juventude; poucos escritores podem orgulhar-se, como José Mauro de Vasconcelos, de conhecer tanto não só as grandes e pequenas cidades do litoral e interior, como a selva bruta, onde ele pode contar dom amigos entre os Carajás ou os Índios do Xingu. 

Filosofia 
Embora às vezes um pouco arredio, José Mauro de Vasconcelos é agradável e cordial, tem vasto círculo de amizade e está galgando com seguras passadas os degraus da fama, sem que a celebridade seja o seu objetivo. Na verdade, não pensa quase nada na condição de escritor, que para ele é apenas uma decorrência. “O que importa é que eu escreva um livro, e não viva gozando dos privilégios de ser escritor”, diz o novelista. “E como eu escrevo um livro em curto prazo, não há razão para ficar pensado na qualidade do escritor o resto do tempo.” Essa é a filosofia do criador de romances tipicamente brasileiros. 

José Mauro de Vasconcelos não é um misantropo; seu desapego à vida social se deve principalmente ao desejo de não perder tempo com futilidades para empregá-lo em coisas mais úteis, como levar medicamentos para os seus amigos da selva. 

Se você perguntar o que elevai fazer no futuro, responderá que não tem planos. Toma a vida como ela vem vindo, sem ser fatalista. Sua aparência é a de um homem do campo, pela maneira com se veste, de camisa esporte (raramente é v visto de gravata). Jamais será um dos dez mais elegantes. 

Infância 
A inquietude e o nomadismo de José Mauro são produtos de uma educação indisciplinada, de um temperamento ardente e de um espírito ansioso de conhecer as coisas e as gentes. 

José Mauro de Vasconcelos tem nas veias sangue de Índia e português. Nasceu em Bangu, Rio de Janeiro, a 26 de fevereiro de 1920. Passou a infância em Natal, onde foi criado com muito sol e... água. Aos nove anos de idade aprendeu a nadar, e com prazer ele hoje rememora os dias de contentamento, quando se atirava às águas do Potengi, quase na boca do mar, a fim de treinar para as provas de grande distância. Com freqüência ia mar adentro protegido por uma canoa porque a barra de Natal está sempre infestada de tubarões. Ganhou vários campeonatos de natação e, como todo garoto, gostava de futebol e de trepar em árvores. 

Mas o esporte não constituía sua única preocupação. Depois do primário, aos 10 anos de idade já cursava o primeiro ano do curso ginasial, que terminou cinco anos mais tarde. Então, gostava dos romances de Graciliano Ramos, Paulo Setubal e José Lins do Rego. 

Bolsista na Espanha 
José Mauro, após o curso secundário, por seu espírito irrequieto, em vão fez várias tentativas de novos estudos. Principiou Medicina, Direito, Desenho e Filosofia. Sua última tentativa e malograda experiência foi em 1952, quando ganhou uma bolsa para estudar em Salamanca. Ficou três dias apenas na universidade. “Você acha que eu podia ficar uma hora inteira ouvindo chavões de literatura ou escrevendo composições sobre Cervantes?” - diz o incorrigível estudante. E acrescenta: “Tudo ali era muito chato”. De Salamanca, voltou a Madrid, onde ficou poucos dias, encerando o estágio-relâmpago de bolsista espanhol. Depois, foi fazer um giro pela Itália e França, por conta própria.

Trabalho e vaivém 
Depois do ginásio, os estudos de José Mauro como autodidata foram sempre feitos a base de trabalho. Seu primeiro emprego, dos dezesseis aos dezessete anos, foi o de treinador de peso-pluma; recebia 100 cruzeiros (velhos) por luta no Rio de Janeiro, pois aos quinze anos saíra de Natal para ganhar o mundo. No Estado do Rio, trabalhou numa fazenda em Mazomba, perto de Itaguaí, carregando banana. Depois, foi viver como pescador no litoral fluminense, onde não se demorou muito, partindo em seguida para o Recife. Ali, exerceu o cargo de professor primário nu m núcleo de pescadores. 

Da capital pernambucana, José Mauro saiu para começar incessante vaivém, de Norte a Sul, e vice-versa, permanecendo um pouco em cada lugar, para em seguida enveredar pelo sertão e viver entre os Índios. 


O Romancista 
Dotado de prodigiosa capacidade inata de contar histórias, possuindo fabulosa memória, candente imaginação e com uma volumosa experiência humana, José Mauro de Vasconcelos não quis ser escritor, foi obrigado a sê-lo. Os seus romances, como lavas de um vulcão, foram lançados para fora, porque dentro dele o “eu” estava transbordando de emoções. Ele tinha de escrever e de contar coisas. Sua fenomenal produção literária, iniciada aos 22 anos de idade, ainda não chegou ao meio caminho, porque ele está em plena ascensão, com inexauríveis reservas, que o levará a posição ainda mais elevada nas letras nacionais. 

Depois de “Banana Brava”, romance escrito em 1942, José Mauro produziu “Barro Blanco” (1945), “... Longe da Terra” (1949), “Vazante (1951), “Arara Vermelha” (1953), “Arraia de Fogo” (1955), “Rosinha, Minha Canoa” (1962), “Doidão” (1963), “O Garanhão das Praias” (1964), “Coração de Vidro (1964), “As Confissões de Frei Abóbora” (1966) e por último “O Meu Pé de Laranja Lima” (1968), livros que tiveram grande aceitação, todos eles elaborados à base de suas aventuras nas praias ou na selva. 

O autor desses belos romances tem método originalíssimo. De início, escolhe os cenários onde se movimentarão seus personagens. Transporta-se então para o local, onde realiza estudos minuciosos. Para escrever “Arara Vermelha”, percorreu cerca de 450 léguas no sertão bruto. 

Em seguida, José Mauro dá asa à sua fantasia e, na imaginação, constrói todo o romance, determinando até mesmo as frases da dialogação. Tem uma memória que, durante longo tempo, lhe permite lembrar-se dos mínimos detalhes do cenário estudado. 

“Quando a história está inteiramente feita na imaginação, revela o escritor, “é que começo a escrever. Só trabalho quando tenho a impressão de que o romance está saindo por todos os poros do corpo. Então vai tudo a jacto”. 

Com o seu sistema de ficar dormindo na pontaria até que o livro todo esteja “escrito” na imaginação, conta José Mauro que, ao por-se em ação, na fase material de bater à máquina, tanto faz escrever os capítulos, um após outro, como dar saltos; depois de pronto o primeiro, passa à conclusão do livro, sem antes ter elaborado o entrecho. “Isso, explica o escritor, “porque todos os capítulos estão já produzidos cerebralmente. Pouco importa escrever a seqüência, como alterar a ordem. No fim dá tudo certinho”. 

Cinema, TV e Livros 
José Mauro, atualmente autor exclusivo de Edições Melhoramentos, já tem publicado por elas os seguintes títulos: “Barro Blanco”, em 9ª edição; “Rosinha, Minha Canoa”, em 10ª edição; “Arara Vermelha”, em 5ª edição; “Arraia de Fogo”, em 4ª edição; “... Longe da Terra”, em 4ª edição; “O Meu Pé de Laranja Lima”, em 10ª edição; “Coração de Vidro”, em 6ª edição; “Doidão’, em 4ª edição; e “As Confissões de Frei Abóbora”, em 3ª edição. 

Ainda neste 1969, mais dois romances serão lançados: “Rua Descalça” e Palácio Japonês”. As reedições dos demais títulos estão previstas, também, para breve (“Banana Brava”, “Vazante”e “O Garanhão das Praias”). 

O fabuloso sucesso de “O Meu Pé de Laranja Lima”, valeu a José Mauro de Vasconcelos o Prêmio “Roquete Pinto - Especial” de 1968, maior prêmio da TV brasileira, pela primeira vez concedido no campo da literatura. 

Artista do cinema e da televisão, José Mauro de Vasconcelos já trabalhou em diversos filmes como “Carteira Modelo 19”, que lhe valei o Prêmio Saci como melhor ator coadjuvante, “Fronteiras do Inferno”, “Floradas na Serra”, “Canto do Mar”, do qual escreveu o roteiro, “Na Garganta do diabo”, obtendo o prêmio de melhor ator pela Prefeitura e culminando com “Mulheres e Milhões”, sendo laureado com o Saci como melhor ator do ano. Dos seus livros, “Vazante” e “Arara Vermelha” foram filmados. 

Estão sendo ultimados preparativos para as filmagens, por Herbert Richers, de “O Meu Pé de Laranja Lima”, película na qual José Mauro aparecerá interpretando o papel de Manuel Valadares, o “Portuga”.

Na televisão, desempenhou numerosos papéis, destacando-se o de Padre Damião. Como ator é também talentoso; suas sóbrias interpretações têm alcançado grande êxito.

Apesar do sucesso no cinema e TV, José Mauro não está satisfeito. Para ele, a melhor coisa do mundo é servir de enfermeiro para os índios. 

“Não vejo a hora de meter o peito no mato”, diz o escritor, que reside em São Paulo. Mas todo ano vai matar as saudades da selva.

quinta-feira, 24 de março de 2016

LYGIA FAGUNDES TELLES

Lygia: Esta é a sua história 


 A consagrada escritora brasileira tem um dia-a-dia cheio de atividades caseiras e intelectuais, e, aqui, contrasta passado e presente, depondo sobre sua vida.

 - Nasci em São Paulo, mas passei a infância em pequenas cidades do interior do Estado, onde meu pai foi promotor público ou juiz: Sertãozinho, Assis, Apiaí... Foi uma infância meio selvagem, livre. Com a figura principal de uma pajem preta, adolescente desbocada e sensual que me fazia confidências e contava histórias, centenas de histórias de lobisomem, almas-penadas, antiqüíssimos mortos que se levantavam chacoalhantes e lá vinham, com seu canto fanhoso até a nossa porta. Então eu tremia debaixo das cobertas (as histórias eram contadas durante a noite, no escuro) e chorava baixinho e tapava os ouvidos, mas deixando sempre uma fresta por onde se insinuava um fluxo implacável. O jogo era excitante: eu exigia mais, mais e fugia em pânico. O sofrimento agudo misturado ao prazer que se prolongava mais intenso, quando ficava sozinha e começava a reinventar tudo, novas personagens, novos enredos. 

Lygia Fagundes Telles - assim mesmo: com y no nome e dois LL no sobrenome - paulistana da Rua Barão de Tatuí, descendente de navegante português, membro da Academia Paulista de Letras, considerada uma das maiores escritoras do país de todos os tempos, acaba de tomar o seu café da manhã bem frugal (suco de laranja, café com leite, torradas). Ainda não começou sua ginástica diária - sueca e francesa - e já desfia sua estória ao INFORMAC. 

- Tamanho sucesso dessa contadora de histórias começou a atrair mais gente, agora não eram só crianças que vinha, se amontoar na escada de pedra do nosso quintal logo depois do jantar, em meio da cachorrada, tínhamos muitos cachorros. Na noite em que minha pajem não apareceu (tinha fugido com Heleno, trapezista do circo) resolvi num impulso de audácia substituí-la, tomar seu lugar: foi quando descobri que sentia menos medo falando, que era mais excitante contar do que ouvir porque enquanto falava, transferia todo o horror para o outro. Com o próximo ficava a minha insegurança e a minha dúvida, a minha ousadia e o meu medo, mas não era mesmo extraordinário isso? Pensei e me senti aliviada. Esvaída (como se todo o meu sangue tivesse escorrido nas minhas palavras) mas poderosa. Independente. 

Ela pára um pouco, toma fôlego. Escuta a rádio Jovem Pan, para se inteirar das notícias, em especial as econômicas, é um hábito. Lê também religiosamente o “Estado” e a “Folha” e só a tarde lerá o JB e O Globo. Começa pelas primeiras páginas, vê como anda a política e o humor dos políticos, passa pela geral, esportes e dêem-se na parte cultural. “Gosto de começar o dia-a-dia bem informada”, diz, e logo retoma o fio de sua vida. 

- Datam dessa idade de ouro os primeiros escritos assim que comecei a escrever, isso depois do aprendizado coma sopa de letrinhas, um macarrãozinho com todo o abecedário, era um brinquedo novo alinhar as letras nas bordas do prato fundo. Muito difícil, me lembro, encontrar o Y do meu nome, ia ver o prato dos outros, era enxotada. Então recorria ao caldeirão onde as letras se amontoavam lá no fundo, fervendo borbulhantes. Meu pai era um homem meio desligado, sonhador. Gostava de beber e de jogar: Durval de Azevedo Fagundes. Minha mãe, Maria do Rosário - o apelido era Zasita - tocava piano (Chopin) e cantava. Me lembro que era risonha, comunicativa mas vendo hoje seus retratos, descubro em sua fisionomia tamanha tristeza, ela era triste? Fazia doce de goiaba nos grandes tachos de cobre e a expressão que hoje uso para designar as mulheres daquele tempo - mulher-goiaba - tem sua origem na imagem da minha mãe mexendo, mexendo aquele doce. 

São cerca de 10 horas e Lygia se apronta, desce o elevador, sai para a rua. É a hora da caminhada matutina, anda a pé todos os dias, hoje está indo ao Clube, pois p dia está bom e o sol já saiu. Vai nadar e exercitar os músculos, ela que, nas rodas intelectuais é conhecida não só pela elegância, mas pela disposição e saúde. Mas, não queremos interromper sua meada: 

- Não tinha sequer idéia do que era o feminismo. Mas era uma feminista inconsciente quando me estimulou a escrever um livro, eu ainda estava no ginásio, era uma menina-moça com certos planos, tímida, mas com ousadias por dentro: “É uma profissão de homem, ela disse. Mas se você escolheu, por que não?” Revelou-me, sim, uma feminista nesse e em outros estímulos em seguida, quando eu quis entrar na Escola superior de Educação Física, uma escola que era só de homens. Pouca roupa. Muita liberdade nos campos de esporte, misturados aos jovens numa camaradagem que não estava nos usos e costumes de nossa rígida formação dentro dos moldes lusitanos. Ela aprovou essa idéia como também achou muito bom que logo em seguida eu fosse estudar Direito na mesma faculdade de meu pai, a Academia do Largo de S. Francisco. “Também é profissão de homem, ela observou. E homem não gosta de ver mulher no ramo dele, não sei se isso vai ajudar no casamento. mas você está somando profissões, pode trabalhar no que bem entender e isso é importante para uma moça pobre”. 

Regresso ao apartamento simples, bem arrumado, funcional. É hora do almoço. Hoje, dia da entrevista, tem arroz integral, carne leve, verduras e frutas. Aboliu as massas e o açúcar. Tem um afago especial pelo seu gatinho angorá. A empregada é solicitada e prepara tudo com carinho. Ela raramente aceita convites, prefere a sua quietude, propício à atividade de escritora e intelectual ativa. Telefonemas, atende, resolve. Lê um pouco seus livros “volantes” (sempre à disposição, em rodízio, em vários lugares do apartamento). Os de agora são de Drummond (poesias), Loyola Brandão e Nélida Pinon (romances), e o “Fausto” de Goethe. Confessa sua fé religiosa e mística, gosta das Santas Terezinhas, a do Menino Jesus e Tereza d’Ávila. Já colecionou folhas de árvores, de vários lugares do mundo, que coloca dentro de seus livros prediletos. Coleciona cartões postais, gosta especialmente dos de “Anunciação”, de Michelangelo e os de Giotto. Acredita firmemente nas três virtudes teológicas, as mais importantes, segundo diz, “em toda a roda do tempo do mundo”: fé, esperança e caridade. O seu depoimento prossegue: 

-Estávamos pobres, meu pai tinha jogado quase tudo na roleta, ele jogava nos números. Dele herdei essa vocação, eu jogo nas palavras. Perdi? Ganhei? Não importa, o importante é a emoção, o risco. A felicidade de exercer o ofício pela paixão, como queria Stendhal. Os dois cursos eu completei aqui em São Paulo, onde resido até hoje. Dois casamentos. Um filho, Goffredo Telles Neto, cineasta. O segundo casamento foi com Paulo Emílio Salles Gomes, crítico, ensaísta e professor de cinema. Pouco antes de morrer publicou um livro de ficções, originalíssimo, verdadeira ruptura na arte de escrever. Foi o fundador da Cinemateca Brasileira, criada nos mesmos moldes da Cinemathéque Française, em Paris, na qual ele trabalhou muitos anos com Henri Langlois. Hoje sou presidente dessa cinemateca que possui o maior acervo de filmes brasileiros - a memória do Brasil através da imagem. Sou do Signo de Áries (19 de abril), domicílio do planeta Marte. A cor do signo é o vermelho, mas aposto igualmente no verde: minha bandeira - se tivesse uma - seria metade verde, metade vermelha. Esperança e paixão não destituída de cólera. Vocação, sim, acredito em vocação, sortilégio e magia que os puxa pelos cabelos e nos empurra nesta direção e não naquela, uma fatalidade?Penso às vezes que não escolhi, mas que fui escolhida: nem sabia o que significava vocação, mas de forma instintiva já estava assumindo o meu ofício. 

Lygia Fagundes Telles começa a trabalhar “o seu ofício”, após o almoço. São dezenas e dezenas de carta a responder. Telefonemas a dar (ela preside com eficiência total a Cinemateca Brasileira). A Nova Fronteira quer editar novos livros seus. Atende também a outros escritores o pessoal da União Brasileira de Escritores. Está sempre com um novo texto a fazer, escreve (bem) à máquina, sempre foi assim, nunca esquece que foi advogada militante e Advogada do Estado. A TV Globo quer saber se tem outro romance para televisar. As 5 da tarde - é uma quarta-feira - apronta-se, sai lépida e bonita, para a sessão (e o chá) da Academia Paulista de Letras, como imortal que é. Às 8 da noite, a imortal Lygia, como uma mortal comum, retorna ao seu apartamento, à sua intimidade, à sua criação sensível e humana, aos mistérios e á sua esperança, marcas mais profundas dessa mulher de fama e consagração nacional, mas a um tempo tão feminina e simples. Antes de dormir, a última leitura, de um de seus livros “volantes”, para se apaziguar, a Bíblia, de que não se separa nunca. As 10 e pouco, 11 da noite, se tanto, dorme o sono justo das criaturas que tem fé, raça e coragem. É assim que o INFORMAC viu, nessa quarta-feira, dia 22 de agosto, essa mulher, escritora e gente, Lygia Fagundes Teles. . 

 Frases/Conceitos 

Escrever - Escrever, escrever, escrever sempre. Bérgson dizia: Nunca sabemos até que ponto vamos atingir, se não nos pusermos imediatamente a caminho. Eu escrevo aos poucos, a idéia vai amadurecendo. Quando sinto que chegou a hora, sento e escrevo. Pode ser à tarde. Muitas vezes à noite, quando está tudo silencioso, e as pessoas apaziguadas. 

Livros & obra - Sou uma andeja que sabe o que está procurando: a palavra exata para dar expressão a uma idéia. Meus livros são meus filhos também: alguns, coitados. Rejeitados, mas outros bastante minados. O último está sempre no meu colo. E minha obra, toda, é um livro só. 

Casar - O Homem é tão necessariamente louco que não ser louco representaria uma outra forma de loucura, escreveu Pascal... Dos sintomas básicos da neurose, quase ninguém escapa... Selecionei, em minha lista, as neuroses mais comuns: a necessidade neurótica de agradar os outros, necessidade neurótica de poder, necessidade neurótica de realização pessoal, necessidade neurótica de despertar piedade, necessidade neurótica de um parceiro que se encarregue de sua vida - ô Deus! - mas desta última necessidade só escapam mesmo os santos. E algumas feministas mais radicais. 

O Amor - Na vocação para a vida está incluído o amor, inútil disfarçar, amamos a vida. E lutamos por ela, dentro e fora de nós mesmos. Principalmente fora, que é preciso um peito de ferro para enfrentar essa luta na qual entra não só o fervor, mas uma certa dose de fervor e cólera... O amor é mais importante do que a glória. 

Fonte original: 
InforMAC - Órgão de Divulgação Interna das Empresas Machline Ano III - Nº 31 - Agosto 1984.