sábado, 13 de agosto de 2016

TIPOS POPULARES


Poucos são os tipos populares de São Paulo. 

Ao contrário das cidades pacatas do interior, onde, no bucolismo provinciano. Logo se ressaltam as figuras esquisitas e exóticas, esta capital não apresenta sequer um número regular de pessoas excêntricas. 

A explicação para esse fato talvez tenha um caráter de “civilização”: tamanho é o espraiamento da cidade, tão grande é o seu bulício, tão absorvente é o seu ritmo de vida que, dentro dessa turbulência quase mecânica, os cidadãos são meros autômatos ambulantes, muito iguais, muito uniformes, muito semelhantes e, sobretudo, muito “cocacolizados”, nas próprias suas características de pessoas humanas. 

Mesmo assim se conhece, pelas adjacências do Triângulo, três ou quatro tipos bastante populares. Um deles, o mulato arrogante e hipernóstico, invariavelmente está na rua São Bento, onde faz propaganda de bugigangas várias: bonecos (“chumbeados) que “dansam”, fitas métricas de “cem centímetros”, o ”descascatório” para batatas, e mais umas bolas de ar “prô seu Joãozinho”... 

Não sei como vive esse homem. Louco, ou quase, quando algum freguês menos avisado se aproxima para comprar um dos produtos, ele esbraveja: “Vai’mbora, vai’mbora!”... Depois, espaventoso, continua sua diletante ocupação, sob os olhares de comiseração da turba açodada. (A fileira dois garotos engraxates “vai graxa, mestre?” é que se diverte com o cotruco, e, especialmente, com a verecundia rubra-escarlate do freguês agastadíssimo.)

Popularíssimo, também, é o “vovô” do Viaduto do Chá. Quem, nunca escutou o refrão monótono, candente e simpático “A nova Constituição”, “A lei do Inquilinato”...? Com sol ou chuva, eleição ou tempestade, lá está ele no Viaduto, apregoando sempre a nossa (quase velha) “Nova Constituição” e a sua (nem sempre respeitada) “Lei do Inquilinato”... 

Pobre e velho, absolutamente não aceita esmolas. Certa vez quebrou um braço. Mesmo assim compareceu ao “ponto” com sua pinha de porta-estandartizada de livros e folhetos. Só desta vez, quem assevera é o Chico Hellmeister, pediu ajuda. Então, num gesto amplo, suspendendo o braço incólume bem para o alto, e o apontando, depois, para o engessado, suplicava com sua voz entre “Largo” e “Disparato”: “Ajuda o vovô, ajuda o vovô”! 

Muito o tem por um coitado. Talvez lhes advenha essa opinião por causa da figura e indumentária grotescas do “vovô”: o chapéu sempre murchoso e desabado, os cabelos alvos em desalinho, emoldurando o pescoço, o terno (eterno) ridiculamente grande, presente, talvez, de gordo e demagógico candidato à deputado. Eu, porém, sou de outra opinião. Admiro-o muito. Sempre reparo na nobreza espontânea de seu orgulho, quando pronuncia estas palavras”A nova ortografia; quem não quer ler venha falar comigo”. E contou-me o agitadiço Edson Coelho, da revista “Carroussel”, já o ter visto, por várias vezes, esbravejar contra alguns moleques e brincalhões ostensivos, nos seguintes termos: “Vá trabalhar, vagabundo. Que está fazendo no Viaduto uma hora dessas?!” 

 O digno “vovô” do Viaduto é mesmo um monumento maior que trinta e três prédios Matarazzo juntos.

A IMPRENSA – Maio de 1950

CORREIOS E TELÉGRAFOS

Os Correios e Telégrafos de São Paulo são uma certidão exatíssima de como nossa terra é tratada por parte do Governo da União. Descaso deprimente afrontando todos os dias o brio do paulistano. Repartição burocrática dentro do dinamismo da cidade. Capítulo triste de uma história nefasta de ridicularizantes serviços. Oito letras do vergão de uma chibatada nas costas do paulista: Vergonha! Sim, é vergonhoso o Correio de São Paulo! Instalações acanhadas, cortiços em forma de salas, sujeira pelos corredores, mal distribuídas as secções...

Os avisos ao público são feitos á mão, ao correr da pena, no apanhar de um papel; meles, as caligrafias cansadas dos humildes funcionários rabiscam, em generalizada confusão, dizeres e indicações. “Cartas expressa” é o fel amargo que bebemos todos os dias. Na secção do “Registro” é preciso ter-se à mão o imenso fio de Teseu, para que não nos percamos pelas indicações de numerosas flexas, que indicam sempre seja aquele próximo guichê, o problemático e futuroso “Registro”... As cartas aéreas devem ser colocadas em caixão bárbaro de tão rude, rabiscado, pequeno, receioso no seu cantinho quase invisível. Luta-se na epopeia da conquista de meia grama de cola para o envelope; nervoso é o amontoado das pessoas, o pincel é demagogia, imundíssimo é o mármore e a cola... 

As cartas de porte simples o Correio, em legislação única no mundo, pode enviá-las ou não; quanto às expressas e registradas, essas o Monstro se compromete levá-las ao seu destinatário; mas se elas se extraviarem, queixe-se a quem? 

São freqüentes as discussões na secção dos telegramas: “Não há troco” – “Passei esse telegrama há dez dias...” – “Em Vila Carrão não entregamos” – “Só passamos em português” – “Além dos 2,50 são 4,80 a mais” – “Desculpe: o expediente já fechou...” Alias, o casarão não é notívago: já às dez horas da noite, em fato virgem nas grandes Capitais, Morfeu deita em berço esplêndido,para seu descansar burocrático, o conspícuo e solene Instituto... 

Certa vez, o fato é verídico, aconteceu a um cidadão aqui da Capital colocar carta no Correio endereçada a um morador À Rua Rio de Janeiro, poucas quadras adiante donde residia. Carta expressa e registrada. Demorando a resposta dirige-se o infeliz à Secção de Reclamações do Grande Polvo: fazem-no lá saber que sua carta fora, por engano,enviada ao Estado do Rio de Janeiro..“Mas é muito simples: o sr. enche este requerimento, paga os selos devidos, e manda-a buscar. Si ainda não vier? Ao, faz-se outro , amigo, dirigido então ao Delegado Regional...” Pobre terra! Que o menor dos males seja mesmo a morte, selada, registrada e expressa (apesar de tudo)! 

Os funcionários são poucos e estão ma alojados para tanto serviço: por isso as filas imensas e a má vontade de muitos. Às vezes as discussões ecoam pelas penumbras pelas penumbras (o termo é real), tornam-se ásperos os vocábulos. Entretanto, já no topo dos guichês, os cidadãos são prevenidos, pela maneira mais anti-psicológica possível, de que “Pelo artigo ... da Constituição Federal,será punido, com pena de ]reclusão ou multa , todo aquele que desrespeitar o funcionamento em serviço”... 

Para mim a culpa disso tudo é do Jeca Tatu. Sim, pobre casarão dos Correios, infelizes funcionários, sofredor povo paulista. Vós sois somente vítimas do apalermado Jeca Tatu, que se acocorou desde 1930, no Catete, embasbacado pela Guanabara belíssima, e que se chama Governo da União... 

A IMPRENSA – Outubro-Novembro de 1949

RUAS DE SÃO PAULO

As ruas de São Paulo são... as ruas de São Paulo.E com a licença do Acácio, os nomes de nossas ruas são... os nomes de nossas ruas... Rua da Taquara Branca, Francisca Biriba, em Santana; Amélia Perpétuo, num bairro, Rua Formosa, tão feia...; a Rua F... 

Tristezas na Rua Alegre, a Rua Direita, tão torta, o Triangulo de quatro lados, por que a Rua Biobedas? As trinta e duas ruas Francisco..., quarenta e sete Maria..., sessenta e seis Coronel..., Antonio... sessenta e um. Rua do Gado sem vacas, do Barulho muito quieta,falta o “h” na Baia, Palmeiras sem palestrinos... 

D.Pedro I – o traquinas – em praça grande é cultuado, num parque tem o seu nome, que bela é sua Avenida! D.Pedro II – tão digno – homem culto e de trabalho, monarca Mecenas do Império, ideais em seu governo, caráter reto e notável: humilde e estreita é sua rua, em São Caetano ela está, feia, tosca e mal traçada... 

São quatro as ruas dos vivos: Altino Arantes e Washington, a Presidente Carmona, e, no centro, a Wenceslau Braz. 

Os trocadilhos e Boso, sobre as ruas de São Paulo, são famosos e notórios: “Às vezes a Prefeitura, reforma tanto em Higienópolis, que o bairro fica Porcópolis... Mas, então, basta Ser... jipe, pra nunca mais se Pará, mesmo estando na A... lagoas...” Pediram-lhe um dia fizesse, um trocadilho bem rápido, sobre a Rua Avanhandava, m que estávamos passando: “Ah! vai andá vá!” 

Antonio de Alcântara Machado foi cronista realismo da Rua Caetano Pinto. Mas ainda estão lá as Carmelas, os Gaetaninho safados, os “carcamanos” robustos de seu “Braz, Bexiga e Barra Funda”. Dos sírios è a Vinte e Cinco de Março e os espanhóis “yo soy contra”, comerciam ferro velho ma Rua Piratininga... E os corretores de cambio, descascam seus “abacaxis” (e logo a gente os “divisa”) na velha Rua da Quitanda... Os tubarões têm a Florêncio, dos bancários é a Rua Quinze, e os “bonitos” e as “mepesca”, têm seus anzóis na Barão... 

A Rua Pequena? Tão grande... Das Violetas, sem violetas... Em seu calçamento mal posto, a Original é normal... Sossego e quietude se vê, perdoe o Parnaso a heresia, na Emílio de Menezes... 

Ruas, ruas de São Paulo! Incoerências sublimes... Mas me deixem em paz um dia, no cemitério tão calmo, na Rua da Consolação (agora sim).
 A IMPRENSA – Setembro de 1949

O DINAMISMO DA REGIÃO CENTRAL

Nenhum outro lugar de São Paulo espelha com maior exatidão e fidelidade o dinamismo de nossa Capital do que o trecho compreendido entre as Praças do Correio e Antonio Prado. Ali naquela ladeira – desembocadouro das ruas mais movimentadas da cidade – depreende-se pode-se dizer, toda essa inata quão admirável energia paulistana. 

Principalmente à tardinha, uma sôfrega multidão superlota as calçadas, com as pessoas comprimindo-se entre si num afã quase pânico de andar mais depressa, de passarem umas à frente das outras; a agitação nessa hora é um misto de observar (às vezes, evitar) os sinais de trânsito ou de apanhar logo os bondes para os bairros. Por isso, toda aquela sofreguidão de andar mais depressa, de correr, de voar até, se isso possível fosse. Cada um tem um inadiável destino a cumprir. Até os mais calmos, sentindo-se envolvidos naquele turbilhão de pressa, também, se agigantam nos seus passos e então, adquiridos já dessa estranha “neurose dinâmica”, são outros mais a empurrar e correr. 

Os vendedores de bilhetes de loteria postando-se nos lugares-chaves da ladeira somente azucrinam a paciência dos pedestres com os febris “Hoje dá o macaco!” – “É o macaco para hoje” – “Olha o 18” – “É o último, o último”. Os pregões dos jornaleiros, por sua vez, se cruzam com os silvos estridentes das buzinas de carros neurastênicos e com os intermináveis apitos dos guardas de trânsito. 

Nos letreiros, os anúncios e reclames os mais variados cintilam em verdadeiras apoteoses de luzes e cores, desde este do “Homem que está passando 12 dias e 12noites se comer nem beber”, até aqueles dos fotógrafos que se propõe tirar e revelar “Fotografias em 5 minutos”. E as salsicharias, os bares e os cafés? Neles se pode observar, num mourejar contínuo, toda uma laboriosa e solícita hierarquia de empregado, dos esquálidos servidores dos cafés aos rotundos gerentes dos estabelecimentos. Sobretudo, há um restaurante tão mecanizado e rápido no seu sistema de servir que, nele, ao simples colocar de seus correspondentes valores, os pratos mais variados aparecem como por encanto. Em tudo há movimento, há agitação.

Em meio a tudo isso, as pessoas fazem-se notar por sua diversidade de tipos: junto às assanhadas mas humildes caixeirinhas ou às pálidas servidoras dos balcões, vão, todos circunspectos das suas regalias os “tubarões”, ou os senhores das sinecuras mais rendosas.Junto de um preocupado operário está um advogado aristocrata, perto do “oficce-boy”, o corretor. Naquele pedacinho de avenida, no entanto, às 18 horas, todas as castas, tradições e riquezas se nivelam, perante aquele ciclone da pressa e da preocupação. 

A ladeira São João é a Capital erguendo-se em seu dinamismo espetacular e formidável; e hoje ela bem representa, sem dúvida, essa insuperável fibra dos impolutos bandeirante de ontem. 

 A IMPRENSA – AGOSTO DE 1949

OS DONOS DAS RUAS

Os caminhões são bem os donos das ruas de nossa Capital. Barulhentos, acordam a cidade com o ruído dos motores e os guinchos de suas engrenagens. Resolutos, suplantam os carros menores fechando-os nas curvas, cortando-os nas retas,soberbos, na fortaleza do chassis e com a intrepidez de seus choferes. Impávidos, andam calmamente pelas ruas estreitas ou estorvam o transito mais organizado.

E ai! si o descuidado sinesíforo daquele humilde “Fiat” parou seu carro na frente de um deles: pode estar certo que ouvirá uma interminável hierarquia de desaforos, atirados à sua descendência, em altos brados, pelo motorista esbravejante do caminhão... 

Contudo, os dísticos dos seus pára-choques (a Diretoria de Transito, em portaria inoportuna, acaba de proibi-los, como si pudessem ser freados os sentimentos dos cidadãos) nos oferece um aspecto psicológico, pois fala neles a alma dos choferes, que não nos furtamos de exaltar. Existem mesmo alguns bastante valiosos. Uns, por exemplo, são orgulhosos, objetivos, imponentes: “Sai da frente” – “Leão das estradas” –“Tigre das areias” – “Come rampas” – “Ou vai ou racha” – “Nem te ligo”, etc. Outros são mais lânguidos, dolentes ou feminis. Decerto foram feitos por sentimentais choferes, platonicamente saudosos de suas namoradas... São exemplos: “Eu e você...” –“Bom dia, morena” – “Adeus ingrata” – “Saudades da lourinha”- “Mostra as pernas, mulata”, etc. 

Sobretudo, há um dístico que bem pode ser considerado como encarnação dessas duas espécies – do orgulho e do feminil – e cuja feitura felicíssima por certo lhe dá o mérito de ser o “!primus inter pares” desses lemas de caminhões. É ele, esse notável “Cuidado com meu beijo...” 

Certos dísticos em sua rude simplicidade, clamam por um protetor: “Deus nos guie” – “Vou com Deus”, ou são esperançosos de outras graças: “Vou com minha boa estrela”. Á respeito, conta-se o fato de um desastre entre dois caminhões no qual o chofer de um deles, ficando estraçalhado, perdeu a vida. Curiosas, as testemunhas deste trágico choque cuidaram de saber quais os dísticos dos caminhões sinistrados. O estarrecimento que tiveram ao lerem no para choque do caminhão cujo motorista morreu, um crente “Vou com Deus”, segui-se ao horror de verem, no ileso, um mordacíssimo “Já vai tarde”... 

Certos dísticos refletem bem a chamada filosofia popular. São pequenos ditos chistosos, alegres frases ou simples epítetos, usados na sua maioria pela gente pacata dos bairros. Temos os exemplos: “É por que é” – “Não faz hora comigo” – “Já vou tarde” – “Vai por mim que vai bem” – “O Biriba esteve aqui”, etc... Existem mesmo alguns cheios de exaltação, prenhes de patriotismo: “Isto é São Paulo” – “Viva o Brasil”.

Ainda bem que não apareceram dísticos relacionados com política. Porque si os seus dizeres apresentassem as ironias, advertências ou reprovações que merecem os nossos governantes e políticos (“Demagogo dos pampas” – “Que dê as promessas” – “Marmita... de ouro”, etc.), sua crua realidade, no entanto, mais refletiria essa triste situação de nosso país que a todos nós é dolorosa. 

A IMPRENSA – Junho-julho de 1949

ALFAIATES

Alfaiates... 

Não é fácil falar de alfaiates. 
Paradoxalmente, nunca acreditei que esse assunto desse mesmo muito pano para mangas. 
Com riscos, principalmente, de perder-se o fio da meada. 
O que, em se tratando de costureiros, poria a perder, também, tudo o que Marta fiou. 
E o que cronista confiou. 
Alfaiates... 
Levei mesmo algum tempo costurando alguns alinhavos que me permitissem o remate final. 
É verdade que para abordar certos fatos, tive que tecer algumas considerações, em várias linhas. 
Mas, isto, segundo os fregueses mensalistas destas crônicas, é resultado do feitio do meu terno e arrevesado modo de escrever. 
Sobretudo do meu terno. _ .

 – Alfaiates...
Existem, em São Paulo, de todos os tipos, para todos os gostos; existem os das classes mais favorecidas: os ternos impecáveis, os coletes ajanotados, os vincos das calças caindo com perfeição. Existem exímios para os “dons-juans” glostorados da Barão de Itapetininga; o terno-saco beirando os joelhos, exagerados os enchimentos dos ombros, e italianamente estreitas as calças, com bainhas e barras que abotoam os calcanhares. Existem os especialistas em ternos para os “Tarzan, filho de alfaiate”... Neste grupo, o nome já indica, talvez se possa incluir a alfaiataria “Adonis” da Líbero Badaró e a “Perita”, da rua São Bento. 

Há alguns alfaiates de nomes intrincados, acusando sua descendência: Bagdonas Alexander, Arruda Olavinho, Sierra Capuccio, Swaletz Boieiras, Credidio Credidio, Mordea M Rochwerger, S.Schivartche,Yokata Motimasa, Sanshowsky, Berco Chaim Rollnich e outros. E algumas alfaiatarias de compridos nomes: Alfaiataria Irmão de Paulo, Alresa – Alfaiates Reunidos Sociedade Anônima, etc. Mas, todos decerto, trabalham mais depressa que o alfaiate Cilento, da rua José Bonifácio. 

Na Vila Mariana existe um Bueno, Alfaiate. Na Espanha, dizem, era um mau costureiro. No Brasil, especialmente naquele bairro, tornou-se Bueno Alfaiate, Questão de trocadilhogia... 

Por sua vez, o bairro de Perdizes apresenta uma das mais importantes costureiras da capital. Mora à rua Cardoso de Almeida e chama-se Sofia. Sua freguesia é enorme e selecionada. Não faz outra coisa senão costurar. Na verdade, só fia. Apesar disso, não acumulou ainda grandes ganhos: só fia... Imagina-se que tal costureira nunca conseguiria escrever novelas; no máximo, editaria novelos. 

Três vezes alta! Uma costureira do bairro da Aclimação, chama-se dona Auta, é alta, e em altas costuras é especialista. 

Mas é mesmo cheia de percalços a vida dos alfaiates. As cobranças em prestações são comuns. Mais comuns ainda, no entanto, são certos “esquecimentos” dos prestamistas. Talvez por isso, a esse conjunto de fregueses, o nome de uma alfaiataria da Praça da Sé, (Grassi, Deves) é bastante psicológico. 

Certos “magazines” têm também sua alfaiataria própria. É o caso, por exemplo, de A Exposição, da Praça do Patriarca. Aliás, essa casa, recentemente numa de suas liquidações, colocou à entrada de sua secção de roupas, uma faixa enorme, onde se liam os dizeres: “Liquidação de fato”. Esse “fato”, aliás, foi comentadíssimo. Dizem que o trocadilho daquela faixa foi feito sem querer, inconscientemente. Neste caso, penso, seria um trocadilho de direito, não de fato... 

Mas nome interessante mesmo, para a sua profissão, é o do Sr. Catapano, que tem alfaiataria à Rua Líbero Badaró, perto da Rua José Bonifácio. Esse, decerto, passará a vida toda trabalhando a todo pano... Em compensação, quando morrer, poderá merecer um epitáfio mais ou menos assim: 
“Este alfaiate morreu 
E já faz bem quase um ano; 
Morreu de tanta costura, 
E ainda assim, 
Cata pano!” 

Mas deixemos de tesourar os alfaiates.

BALBURDIA ORTOGRÁFICA

Não queremos apontara aqui as causas coniventes com essa balburdia ortográfica que vai pela nossa Capital. Por isso, deixemos de lado a inércia dos governantes quanto a essa questão, e as incessantes, mas inócuas, regras dos gramáticos. Aqui somos cronistas, de críticos não nos vestimos. 

A realidade é que esta pobre terra de Piratininga, tão vaidosa de suas tradições, de suas grandezas, de sua responsabilidade perante os outros Estados, apresenta, aos visitantes, um contraste chocante no que concerne aos seus letreiros, cartazes, rótulos, inscrições, taboletas e anúncios. Neles se vê coisas incríveis! 

Uma confeitaria na Avenida São João, por exemplo,vende, há mais de três anos, “Doçes” (sim, com cedilha)... Outra, por sua vez, anuncia “Sorvetes de côcô” ... 

Na Rua Barão de Itapetininga existia, até há pouco tempo, uma loja que apresentava ‘Meias para senhoras de seda”... E os tradicionais “Aqui vendem-se casas”, “Aqui vendem-se relógios”? 

Certo bairro tem um “Butikin”... Outro, um “Gymnasio”... Aqui é de prever-sr a instrução das aos alunos... E os que estão matriculados nas suas “Aulas de Dactylographya”? 

Sobretudo há uma padaria tão revolucionária, que não se peja de apresentar em seus dizeres um incrível “Pannnificadora”, com três nn! Talvez é por que vendam ali pão de três tipos: amanhecido, embolorado e pão que o diabo amassou... 

Lá está, no Cemitério do Araçá, um espalhafatoso Aqui Jazz. E o infeliz morto não era nenhum regente de orquestra... 

Numa casa da Rua XV de Novembro, lê-se no letreiro: “Ótica Dental”? Entretanto, desconhece-se um capítulo Dental, na Ótica Física. E também um ramo Ótica, em Odontologia. Por que, então, “Ótica Dental”? Mas, suprema confusão, os produtos que se vendem em tão misteriosa casa parecem não ser dentais, nem óticos: outro letreiro, estabelece, ali, uma “Perfumaria”... 

Um comerciante das cercanias da Estação da Luz parece ter descoberto o mistério da própria existência, pois fabrica uma coisa que, antes de ser, já era! Si não acreditam, vejam o que ele faz: tem uma “Fábrica de Móveis Usados”... 

Ah! Si os paulistas fossem aquele personagem de Monteiro Lobato, que morreu vítima de uma má colocação de pronome... Na verdade, que não seriamos nós, si fossemos outros Aldrovandos Cantagalos? 
A IMPRENSA – Maio de 1949