quinta-feira, 20 de novembro de 2014

SCHAEFFER: A DESCONHECIDA ARTE RUPESTRE BRASILEIRA

Claudionor Chaves Itacaramby, prof Enrico Shaeffer e José Carlos Queiroz

Rupestre, adj. (Rupestre) - Arte rupestre significa, literalmente, arte realizada sobre penhascos ou rochedos. Em Arqueologia a arte rupestre compreende os baixos relevos, desenhos, pinturas nas cavernas. Corresponde ao paleolítico superior ou “idade da rena”. Posteriormente, estendem-se aos outros períodos da história da arte primitiva e foram executados belos exemplares em osso, marfim, bronze, etc. Regina M. Real, “Dicionário de Belas Artes”, Fundo de Cultura, Rio de Janeiro. 1962.

A pintura rupestre brasileira, que tem interessado pesquisadores esporádicos, e não, que seria de se desejar com poucas exceções, universidades e institutos oficiais, é de grande importância do ponto de vista artístico e antropológico, segundo os entendidos. É encontrada em quase todos os Estados do Brasil, em estado de semiabandono, e seu estudo em profundidade, em nível científico, urge de dia para dia. Outros movimentos e expressão maiores de nossa arte - como, por exemplo, a Missão Nassau e sua influência artística, o barroco, o Aleijadinho, a Missão Francesa e suas consequências, a Semana de 22 e os precursores do modernismo, o Grupo Santa Helena, as Bienais, etc. - tem sido exaustivamente analisados, gastando-se por anos e anos verbas e o talento de pesquisadores e críticos para enquadrar a importância de tal e qual dentro do quadro geral da arte brasileira. Mas, a respeito da nossa pintura rupestre, não fora o trabalho decidido e abnegado de alguns pioneiros, pouco se tem feito em nosso país. 

O Prof. Enrico Schaeffer, da Faculdade de Artes Plásticas da Fundação Armando Álvares Penteado e da Faculdade de Arquitetura Brás Cubas, de Mogi das Cruzes, berlinense naturalizado brasileiro, 69 anos, crítico de artes plásticas com livros publicados - aqui e no exterior - sobre História da Arte, é um desses abnegados pesquisadores da arte rupestre brasileira. Para tanto, com recursos próprios, viajando até rincões inóspitos, muitas vezes em precários meios de transporte, tem realizado numerosas investigações de campo, já documentadas, e que se constituem num razoável levantamento do assunto, embora em termos, ainda, de pesquisa particular. 

Esse material do prof. Schaeffer está acrescido de indicações eruditas do mestre - que se formou, aliás, nos idos de 1940: em História da Arte e Ciências Sociais em Berlin e Roma - pela correspondência e troca de informações que vem mantendo, ao longo de muitos anos, com outros pesquisadores, em outros pontos do país, também defensores do estudo e da preservação da pintura rupestre brasileira. O Prof. Enrico Schaeffer é de opinião que o estudo dessa pintura oferece um vasto campo a críticos de arte, sociólogos e antropólogos, embora não concorde em pleno com os dizeres do antropólogo francês Paul Rivet (revista “Manchete”, em 29.8.1970), fundador o Musée de l’Homme, em Paris, que afirmou valer mais “a pintura rupestre brasileira do que todas as obras de Aleijadinho”. Schaeffer acredita que nossa arte rupestre - ao nível e no estado em que foi encontrada até agora - é um dos capítulos importantíssimos da História da Arte Brasileira. 

SEMELHANÇA INEGÁVEL COM A PINTURA PRÉ-HISTÓRICA 


O professor Enrico Schaeffer é um estudioso da arte brasileira. Entre nós vem realizando pesquisas sobre a Missão Nassau (1637/1644), tema sobre o qual, a convite da Academia e Ciências e Letras de Maianza Na Alemanha fez conferencia perante 35 professores e cientistas estrangeiros e alemães. Suas pesquisas sobre a arte rupestre brasileira já vem de longos anos e exaustivas pesquisas. Por volta de 1962 esteve em Lagoa Santa, Minas Gerais e em Milagres, na Bahia. Em 1974 este vem Montalvania, também em Minas Gerais. Também realizou pesquisas na França, na região de Dordogne. 

Segundo o professor Schaeffer entre os mais ativos pesquisadores da nossa pintura rupestre no Brasil figuram o Pe. Alfredo Rohr, s.j., de Florianópolis, Oldemar Blasi, de Curitiba; Josaphat Pena, de Belo Horizonte; Cic Albernaz de Oliveira, de Goiás; Paulo Duarte, Luciana Palestrini e suas colaboradoras, de São Paulo; o prof. Claderon, da Bahia, entre outros. 

Para Schaeffer seria interessante que o governo federal através do MEC criasse um órgão para coordenar todos os estudos e proteger esse material precioso que, muitas vezes, se perde ou é destruído pela incompreensão de visitantes e pessoas desavisadas. 

Enrico Schaeffer agora cogita em publicar um livro sobre a pintura rupestre brasileira. Segundo consta o livro já estaria praticamente pronto. Para ele o topônimo rupestre é o mais indicado quando se trata de temas como os que são a matéria de sua principal pesquisa uma vez que a palavra deriva do latim “rupes - rochedo”. Grande parte desta arte se encontra em rochedos, especialmente nas cavernas, em vários pontos do Brasil. 

As descobertas das pinturas no Piauí estimularam sensivelmente as pesquisas. Entre nós as primeiras referências da pintura rupestre constam desde os século XVII nos “Diálogos da Grandeza do Brasil”, de Antonio Fernandes Brandão (Brandônio); nas crônicas do jesuíta Pe. Simão de Vasconcellos e na obra monumental de Gaspar Barleu (1647). Isso sem falar de viajantes e cientistas dos séculos posteriores, como Martius e Spix, Van den Steinen, etc. 

Para Schaeffer as pinturas rupestres brasileiras encontram inegável semelhança com as encontradas na Espanha (Altamira) e na França (Departamento de Dardogne) apesar de que aquelas pinturas européias terem idade superior a 20 mil anos e as “nossas”, conforme os poucos testes de carbono 14 alcançam 2 mil anos, no máximo. Seriam necessários ainda inúmeros testes para investigar a idade, pois nem todas as pinturas foram feitas na mesma época, o que já mostra a primeira vista o fato, que às vezes no mesmo rochedo ou na mesma caverna uma pintura foi “pintada’ sobre uma anterior. 

O número destas pinturas na Bahia, segundo o prof. Calderon (Universidade da Bahia) somam mais de dez mil. No estado de Minas o número não deve ser diferente e, em alguns outros estados do Brasil existem muitas dessas pinturas o que exige muito trabalho e despesas para m trabalho de pesquisa verdadeiramente sério. 

“A respeito da já mencionada semelhança entre as pinturas pré-históricas na Europa, tivemos a oportunidade de discutir com o diretor do Museu do Vaticano, Prof. Deoclécio Redig de Campos, que nos disse que mostram uma grande unidade na linguagem formal de todos os homens no princípio de sua atividade artística. “Na pintura rupestre podemos encontrar diversos níveis de estilo, com a seguinte classificação: a) pinturas muito naturais; b) pinturas muito primitivas e, pinturas intermediárias. 

“A explicação consta provavelmente no ato de que todas as tribos brasileiras - e estes eram indiscutivelmente os artistas - possuíam as mesmas qualidades artísticas. Além disso, as pinturas se distinguem em “figurativas” e “simbólicas” e justamente nos “símbolos” encontramos outra grande semelhança com as pinturas da Europa. 

“Além de pinturas encontram-se embora um pouco mais raramente - gravações tanto de figuras de animais ou homens como de símbolos. 

“O material usado em geral era “ocre” para o amarelo, o “óxido de ferro” (Braum Eisenstein) para o vermelho, o carvão para o preto e certas areias para o branco, misturado com óleos animais ou vegetais e às vezes com água, urina, etc., servindo do dedo, de uma pena de ave ou de um galho para pintar. 

“Um dos capítulos mais discutidos sobre por que estas pinturas eram criadas ainda encontra muitas “opiniões” diferentes. Lund (1835), Kock-Grueneberg ou Ehrenreich acreditavam que o desejo de enfeitar dava origem a tais pinturas. Essa explicação hoje em dia não é mais sustentada, já pelo simples fato que em muitos casos essas pinturas se encontram em lugares de bem difícil alcance. 

“Leo Frobenius, que não estudou pintura rupestre brasileira, mas em outros países defende, como uma grande parte de importantes cientistas, a opinião, de que a “magia” causou essas pinturas. A esta escola pertence nomes como Obermaier, Lommel-Minic, Woelfel, Herbert Kuehn, Graciosi e outros. Enquanto isso, uma parte dos adeptos da “moderna escola francesa”, tais como Leroi-Gourhan e G. Charriere, autor do interessante livro “La signification dês representations erotiques das lês arts sauvage et pré-historiques” (1970)inclinam-se para uma interpretação freudiana. 

“E, finalmente o norte-americano Alexander Marshak, que estudou durante muito tempo os símbolos nas cavernas européias, chegou no seu livro “Roots of Civilization (1972) à conclusão de que tais símbolos em muitos casos encontram sua explicação num certo calendário pré-histórico. E nós podemos encontrar uma certa ponte pára esta tese lendo o respectivo capítulo do livro “Histoire de La Mission dês Capucins do Padre Claude D’Abbeville, publicado também no início do século XVII em Paris, no qual ele descreve o conhecimento, a influencia das estrelas obre o mar, etc., e os seus nomes, dados pelos índios. 

FOLHA DE SÃO PAULO ARTES VISUAIS 1º de fevereiro de 1976.

UM MARINHEIRO CHAMADO PANCETTI


Era uma vez um marinheiro... A história de Giuseppe Gianinni Pancetti poderia começar assim. Embora tenha nascido longe do mar, em Campinas, em 1904. Morreu, entretanto, junto dele – na Guanabara, em 1958. Por toda a vida, ele sempre percorreu o mar, embora também amasse as montanhas de Campos do Jordão. E na sua pintura aparecem por igual os montes e o litoral. 

Suas muitas viagens pelo mundo começaram aos 10 anos de idade, quando, filho de imigrantes italianos, foi para a Itália. Lá fez seus primeiros estudos, e voltou – alistando-se, no Rio de Janeiro, na Marinha de Guerra, como grumete. Serviu a Marinha de Guerra mais de 25 anos e só se transferiu para a reserva em 1946, como primeiro tenente. S

Sua fama de hábil pintor sempre foi reconhecida na Marinha. Era um artista e um trabalhador manual, em pintura, acatado. Foi nomeado primeiro instrutor do quadro de pintores criado na Marinha. Em 1932 foi publicado na “Folha Ilustrada”, antigo jornal carioca hoje fechado, o seu primeiro desenho. 

Em 1933 manteve os primeiros contatos com os meios artísticos cariocas. Trabalhou no Núcleo da Escola Nacional de Belas Artes do Rio de janeiro, com os artistas Dacosta, Aldo Malagoli, João José Rescala e outros. Participou, nesse mesmo ano, pela primeira vez, do Salão Nacional de Belas Artes, no qual viria mais tarde conquistar menção honrosa, em 1924; medalha de bronze, em 1936; medalha de prata, em 1939; e, na Divisão Moderna do certame os prêmios de Viagem ao Estrangeiro, em 1941, e de Viagem ao País, em 1948. participou também da Bienal de Veneza e de outras mostras internacionais. 

A crítica especializada o situa ao lado de Guignard, Volpi, Rebolo e Segall, na tradição dos nossos melhores paisagistas. O pintor Pancetti deixou junto aos quadros, ao longo dos 54 anos, cartas, escritos pessoais e outros depoimentos do homem Pancetti. Na carta ao amigo Conde é o pintor e o homem que se expõe abertamente, deixando-se ver por inteiro, como em suas paisagens. É Pancetti quem fala: 

“Amigo Condé: 

É a primeira carta do ano de 1950 que eu escrevo.. No relógio são duas horas e trinta minutos da madrugada deste meio século, e no meu apartamento uma desordem e tanto. Telas em desalinho pelas paredes e outras pelo chão, esparramadas. Uma cadeira tombada num canto sobre meu terno novo e livros abertos sobre a mesa e sobre a cama e que eu nunca acabo de ler. O soalho de meu quarto enorme está salpicado de pontas de cigarros, pincéis e manchas de tintas. Um tubo de amarelo esmagado e na sola de meu “Clark” esquerdo uma perfeita paisagem surrealista... 

Todo esse aspecto sombrio me lembra o convés do “Maria-Rosa”, após uma tempestade em pleno Mediterrâneo. Deve ter sido o efeito do vinho, bom vinho português, ao autor dessa desordem. Um auto-retrato com flor vermelha na boca me espia terrivelmente lá dum canto e eu mesmo tenho medo dele... 

Rompi o ano na modesta e pitoresca pensão onde moro, no bairro da Abissínia, com a família do hoteleiro, gente boa! 

Comemos, bebemos e rimos a valer. Na sede do “Abissínia F.C.” velho casarão de madeira aqui ao lado, continua um baile animado e o som da orquestra chega aos meus ouvidos neste instante. Meu pensamento é todo daquele que veio, aflito, na tarde de ontem, avisar-me que partirá para São Paulo às 7,40 da manhã de hoje. Na casa de uma irmã onde reside souberam da sua ventura, daí a viagem precipitada. Disse-me que era um fim de ano triste e o princípio de outro mais triste ainda. Tirou seu cordão de ouro do pescoço e beijou demoradamente a medalhinha, que é um coração, dizendo: “é lembrança da mamãe, guarde-o. Não me esqueça e acredite em mim”. 

Despediu-se, chorando, prometendo escrever-me logo e recomendando-me muito que não fosse ao seu embarque. 

O som estridente de um samba novo que a orquestra envia agora não interrompe meu pensamento angustiante, nem as lágrimas que escorrem pelas faces. Que venha depressa então a aurora, o sol radiante da primeira manhã do ano, oh Deus! 

À tarde, saudoso, direi ao mundo que minha amada partiu... 

Um grande abraço de seu velho amigo. (Campos do Jordão, 1-1-1950).

PAIM, A CRÍTICA À SEMANA DE 22


Antônio Paim Vieira (SP, 1895), enxuto em seus 84 anos, a tez morena, emoldurara pelos brancos cabelos, alegre, disposto e falante, nos recebe em sua residência ateliê na Avenida Cidade Jardim, onde mora a uns 20 anos, desde que se mudou da Chácara do Capão na Rua Paim (assim chamada em homenagem à sua família). Ali vive o velho professor – da Faculdade de Bragança e da UNICAMP – a sua profissão de ceramista, gravador, paisagista, decorador, folclorista e intelectual. Descendente de ingleses (Paim) e portugueses (Vieira – da família do Padre, talvez), ai vivendo uma vida ativa e atuante, ainda gravando, ensinando, fazendo azulejos, queimando cerâmicas, escrevendo artigos, compondo os óleos populares e telúricos que Renot está interessado em expor, em breve. E, sobretudo, o “velho” Paim, gosta de reviver as memórias, desde a Semana de 22, de filosofar e de estrilar, com franqueza e rudeza. 

– Vivemos, hoje, sob o signo do ódio... Por isto, tudo vai mal. Não há clima para as artes superiores... A vida é composta dos filhos de Caim, e, dos filhos de Abel... O remédio, acho, é enchermos o coração de tanta bondade, que transborde para as nos nossas obras, tornando-as apenas mensagens de poesia. 

– Qual sua participação na Semana de 22? 

– A bem da verdade, nunca, em minha vida artística, fiz parte de grupo algum. Em 22, já era professor de desenho, retratista, ilustrador e gravador. Ilustrei nessa época o “Fon Fon”, o “Paratodos” e “As Máscaras”, de Menotti e logo a seguir a revista “Ariel”. Na Semana, cooperei como co-autor dos trabalhos do Yan de Almeida Prado, alguns desenhos. Mas nunca fiz parte oficial daquela patota alegre, que fez a Semana com tanto ruído, esnobação e política. 

– Continua, pois, fiel à sua arte “inovadora” para aquela época e “independente”, como diz o prof. Bardi?

– Sim, hoje, ontem, sempre, mais do que nunca. Os modernistas, por pura pose, aceitavam tudo, tinham a volúpia do moderno, nem que não fosse coisa boa... Zombavam dos humildes, não tinham um gesto de piedade... Eram grã-finos, ligados às doutrinas estrangeiras, defensores de uma arte importada, com exceções, e às vezes, cultores de um realismo triste e torpe... Eu, pelo menos, na época, como em toda minha vida e até hoje, continuo fiel à cultura espontânea do povo, à inspiração das manifestações populares, à fé e à tradição da gente sofrida e humilde que compõe a nossa população... Sempre representei o sentimento nativo, puro e folclórico do povo brasileiro, e nunca tive, nem tenho, razões para mudar ou para me arrepender disto. 

Paim vive com a mulher, Rita, e, nos fins de semana, recebe em casa a filha única Maria Merita e as netas. Sua atividade principal é a didática – o ensino, nas faculdades e na imprensa, e, como artista, a cerâmica sempre inspirada em motivos indígenas, a cerâmica e a pintura. A Secretaria Estadual de Cultura planeja, por indicação de Miroel Silveira, uma grande homenagem a paim, por seus quase 70 anos de arte. Decora ainda igrejas na capital e interior, sendo a mais conhecida obra sua realizada para a Igreja N. S. do Brasil – pinturas murais, cerâmicas, incluindo 6 altares com 8 metros de altura cada. 

Ele volta a 22: 

– Minha participação entre os participantes da renovação artística do Brasil pode explicar-se assim: nesse tempo, 1916, nós estávamos fortemente comprometidos com o academismo e o classicismo mitológico de importação. Bastava não aceitar esses moldes para definir uma posição apartada dessa escola, e, até, de certo modo adversa a ela. Os trabalhos apresentados, dessa época, dão testemunho disso. Já se manifestava, entre os novos valores das artes, uma insatisfação com o que existia e uma nítida tendência para a afirmação da brasilidade, apresentando temas nacionais no campo das artes plásticas, como já havia exemplos nas atividades literárias. A crítica que faço hoje à Semana de 22 é a mesma de sempre. 

– Qual é? –... A Semana causou-se certa frustração no que toca aos seus objetivos de afirmação de brasilidade que ela não satisfez. E em certos casos desserviu, metendo riso à estranheza do povo pelo que lhe apresentava com indisfarçável intenção de escândalo. Como que passando diploma de ignorantes a quem fora ali receber esclarecimento de promotores que, do assunto, estivessem talvez na mesma situação. O “snobismo” triunfava! Imaginem um médico que cai numa gargalhada, ao receber um coxo, que o procura para que o cure... O máximo que podemos creditar à Semana foi o de combater a rotina a que as artes se estavam submetendo, empobrecida de valores espirituais. Foi só. As artes passaram, então, a ser puras habilidades, sem nenhuma mensagem. 

– E atualmente, como vê a arte brasileira? 

Paim diz que atualmente a arte tupiniquim está em compasso de espera, pois a “Semana de 22 desacreditou o que havia, mesmo o que era bom, e não trouxe nada de valor, para colocar no lugar do que ficou vazio”... – “Já se passaram 50 anos. Se considerarmos os 50 anteriores a 22 poderemos neles incluir tudo o que de grande produzimos, nas várias manifestações das artes... Estamos tentando aclimatar ao nosso meio o modernismo de fora... em vez de pesquisa, predomina ainda a importação. É que pesquisa é trabalho duro. Desde 22 os modernistas gostam de passar por pessoas muito lidas nas publicações dos países estranhos.” 

Folha de São Paulo, 02 de setembro de 1979.


sábado, 15 de novembro de 2014

REBOLO


Estive Na Bienal, sim, nesse grande acampamento das artes visuais de nossos dias... Mas não quero falar sobre o que vi, no dia seguinte amanhecia gripado, a maior gripe da minha vida... Do pescoço pra cima, fiquei atacado, a garanta dói, a vista direita está oscilando... Será que a Bienal me fez mal?... Não sei a exceção da retrospectiva de Kandinski, que me encheu os olhos e a sensibilidade, o resto... Não quero comentar... Só sei que estou espirrando até hoje. 

Rebolo Gonzales, um dos habitantes pioneiros do Morumbi, recebe com fidalguia e simpatia, sua figura humana encanta e alegra qualquer ambiente. Está completando 71 anos, enxuto e firme. Custodiado pela família atenta e severa quanto a qualquer arroubo daqueles dos tempos gloriosos do Clubinho. Ainda há pouco, emocionou-se com um artigo de Walmir Ayala a seu respeito, o crítico do “Jornal do Brasil” fez uma linda apologia da arte rebiliana, ainda presa, ano a ano, à pincelada firme do mestre paisagista. Expondo regularmente desde o início da carreira há 40 anos, Rebolo acha que a obra de arte tem sua realização maior na possibilidade de servir de instrumento de comunicação de emoções às pessoas, o que ele procura através de uma pintura não cerebral e sim fundamentalmente emocional. 

- É verdade, a convite da direção paulista da “Manchete” fui à Festa da Paz, na “A Hebraica”, promovida pela Federação Israelita no Brasil. Já há décadas passadas, os artistas brasileiros assumiram posição firme ao lado da liberdade, contra as tiranias e as guerras... Em 1943, lembro-me bem, enviamos um valioso lote de telas para a Inglaterra, para venda em favor dos heróis da RAF... A Duquesa de Kent comprou essas obras e nós nos sentimos orgulhosos em luar contra o nazismo que então ameaçava o mundo... Nós continuamos essa luta pela liberdade, contra a guerra, até hoje, por isso estive agora naquela entidade, ao lado de autoridades, políticos e outros artistas, que assim também pensam. 

Depois do pleno êxito da retrospectiva realizada no Museu de Arte Moderna, em abril deste ano, Rebolo Gonzales vai inaugurar, no mês de novembro, duas importantes exposições, desta vez no Rio e em Brasília. A exposição retrospectiva em Brasília será inaugurada no dia 19 de novembro, na sala de exposições da Fundação Cultural do Distrito Federal (Av. W-3), permanecendo aberta à visitação pública até 9 de dezembro. 

Estarão expostos 100 óleos, além de um conjunto de aquarelas e desenhos, representado os 40 anos de atividade artística de Rebolo, com trabalhos datados de 1934 a 1973. As obras são de coleções particulares de São Paulo, Brasília e Rio, e algumas delas integram o acervo de Museus e entidades públicas e privadas. 

Na ocasião, será lançado em Brasília o livro “Rebolo” (2ª edição), reunindo uma série de textos sobre o artista, assinados pelos mais expressivos críticos e intelectuais atuantes nas últimas décadas (Sérgio Milliet, Mário de Andrade, Roger Bastide, Arnaldo pedroso Horta, Paulo Mendes de Almeida, Mário Schemberg, Delmiro Gonçalves, Jorge Amado e outros), além de depoimento de diversos artistas. O livro conta também com 40 obras reproduzidas, além de mais de 30 ilustrações, num total de 96 páginas. A Fundação Cultural do Distrito Federal editará um catálogo com apresentação de Walmir Ayala, textos críticos, currículo, depoimento do artista e relação de obras expostas. Lançará também um cartaz comemorativo com reprodução de obras de Rebolo. A retrospectiva terá cunho didático, o que será realçado com a inclusão de placas com textos críticos explicativos das fases e do sentido da obra reboliana. Não haverá obras à venda. A coordenação geral da mostra é do prof. Antonio Gonçalves de Oliveira, que prepara estudo sobre o artista. 

 - O Grupo Santa Helena, a meu ver, merece melhor estudo... Há uma tendência de nossos críticos de arte considerar o nosso Grupo, que tão grande importância teve na arte brasileira, como resultado de um agrupamento de artistas que desejavam fazer proselitismo, seja ele social, político, ideológico pictórico e coisas assim... Tudo errado. Nós nos reunimos por razões econômicas, de sobrevivência do dia-a-dia... Tínhamos profissões diversas e pintávamos nas horas livres e nos domingos e, quando vendíamos um quadro, era uma festa, tomávamos chope e outras coisas... Quem estudou bem o Grupo foi o Saudoso Sérgio Milliet, pena que depois dele não tivesse surgido um pesquisador e analista de seu porte intelectual para estudar a formação, a influência, a importância do Santa Helena na arte brasileira atual... Mas esse crítico, espero, ainda pode surgir, saído das nossas universidades, que já se vão voltando para os estudos de inspiração brasileira, em todos os setores. 

Na Galeria Intercontinental (Rua Maria Quitéria, 42, Ipanema), Rebolo inaugura no dia 12 de novembro, segunda-feira, às 21 horas, uma exposição de obras recentes. Na abertura da mostra será exibido curta-metragem inédito sobre o artista, com direção de Fernando Campos e texto de Walmir Ayala. Tal como em Brasília, no coquetel de abertura será lançado o livro “Rebolo”, contendo significativa documentação sobre o artista. Depois de 13 anos sem realizar mostras individuais no Rio, Rebolo estará expondo 22 trabalhos, incluindo algumas telas de pequeno formato, com preços variando de Cr$ 4.500,00 a Cr$ 20.000,00. Dias 13 e 14 de novembro, às 21 horas, a Galeria Intercontinental promoverá duas palestras com debates, apresentadas por Lisbeth Gonzales, sua filha, sobre os temas: “O Grupo Santa Helena e os Movimentos Artísticos da Década de 30” e “A Obra de Rebolo Gonzalez”, com projeção de slides e filme.

Achei interessante o comentário do Geraldo Ferraz sobre o “Panorama da Arte Brasileira”, promovido pelo Museu de Arte Moderna, uma formidável mostra de arte, retratando a arte no Brasil, hoje. Goste da comparação que fez da minha pintura com a de Pancetti, só que o artista mineiro gostava mais a marinha, e eu da paisagem... E é exato que as paisagens minhas que o Geraldo viu no “Panorama” não são propriamente com “colorido paulista”, pois, elas foram pintadas em Guarapari, Espírito Santo, nas últimas férias que tive... Se fizesse “cor paulista” pintando lá, aí seria desonesto, não é verdade?...Mas está claro que ele não sabia que as pinturas não eram paulistas, aqui do Morumbi, desta vez. 

Nascido em 1902, filho de imigrantes espanhóis, Rebolo foi jogador de futebol e pintor-decorador de residências, antes de começar a pintar, em 1934. Em meados da década de 30, autodidata, é um dos integrantes do Santa Helena, pintores de origem proletária, imigrantes ou deles descendentes, que se reuniam, como amigos e colegas pintores, em duas salas do Edifício Santa Helena, na Praça da Sé, hoje demolido. Nos anos seguintes, participa das exposições da Família Artística Paulista, o Salão de Maio e de uma série de mostras coletivas, fazendo sua primeira individual em 1943. No ano de 1945, junto com outros pintores funda o clube dos artistas e Amigo das Artes (“Clubinho”) e, anos depois, vai ser um dos diretores do jornal “Artes Plásticas” e um dos fundadores do Museu de Arte Moderna de São Paulo. Na década de 50, participa das primeiras Bienais de São Paulo, dela retirando-se depois de não concordar com alguns critérios que passaram a nortear a mostra. Resultado da luta dos artistas modernos, nas décadas anteriores, em 1951 dá-se a criação do Salão Nacional de Arte Moderna, onde Rebolo conquista em 1954 o “Prêmio Viagem ao Exterior”, considerado o principal prêmio em mostras de salões oficiais brasileiros. Nesta altura, Rebolo já tinha conquistado todos os prêmios dos principais Salões de Arte e partiu para a Europa, lá ficando durante dois anos, pintando em diversos países e freqüentando o ambiente artístico dos lugares por onde passava. Desse período (dois anos) resultou a chamada “Fase da Europa”, principalmente fachadas da Itália e paisagens da Áustria e da Alemanha. 

Em abril de 1973, o Museu de Arte Moderna de São Paulo realizou importante mostra retrospectiva da obra reboliana, reunindo 380 trabalhos, entre óleos, desenhos, aquarelas e gravuras, o que veio realçar o interesse em torno de sua obra. Neste mesmo ano, Rebolo foi escolhido por um júri de críticos e artistas para fazer os quadros que ilustrarão as grandes extrações da Loteria Federal, uma premiação da Caixa Econômica Federal destinada a formar um acervo dos principais artistas brasileiros. Em termos numéricos, Rebolo já fez quase 2.000 óleos, em 40 anos de carreira ininterrupta, além de cerca de 40 matrizes de gravuras (xilogravura, zincografia e litogravura), em tiragens de 20 e 50 exemplares, um número relativamente pequeno de guaches, aquarelas e monotipias e uma série de desenhos (especialmente com estudo da figura humana e como suporte para a pintura, depois que deixou de pintar “ao vivo, do natural). No passado, fez também alguns afrescos em prédios e residências. 

Tem obras em centenas de coleções particulares de São Paulo, Rio, Brasília, Porto Alegre, Belo Horizonte e outras cidades brasileiras. Óleos e Rebolo também integram o acervo de importantes museus, como o Museu de Arte Moderna de São Paulo, o Museu de Arte Contemporânea da USP, a Pinacoteca do Estado de S. Paulo, os Museus de Arte Moderna de Nova Iorque e Londres, o Museu Nacional de Belas Artes; consta igualmente do acervo do Senado Federal, da Caixa Econômica Federal e de várias organizações privadas. 

Sim, estou animado com minhas próximas exposições em Brasília, com promoção oficial, e no Rio de Janeiro, mostra coordenada por Walmir Ayala... A arte é para ser difundida e mostrada, e, afinal, como diz o Chacrinha, quem não se comunica, se estrumbica, mesmo que seja corintiano fanático, como eu... Só o que lamento é que os anos de hoje não sejam os de ontem, quando o artista passava fome e pintava por teimosia... Hoje, ele tem um mercado diante de si, onde agem marchas, galerias, leiloeiros, todos proporcionando facilidades para o artista para que ele possa fazer o que mais gosta e necessita: criar com liberdade.
  TRIBUNA DE SANTOS 4 de novembro de 1973.

O MÍSTICO RAIMUNDO OLIVEIRA



O maior pintor religioso moderno do Brasil suicidou-se no Natal de 1966. Agora, 10 anos depois, uma boa exposição de suas obras na Portal. 

 Esta não é uma retrospectiva, que, esperamos, logo um Museu faça da obra de Raimundo Oliveira. É uma exposição, o quanto possível didática, sobre as várias fases da obra do artista baiana, tragicamente desaparecido há 10 anos. O sucesso de público e da crítica, que tem corrido de maneira crescente e eloqüente à nossa galeria, faz-nos supor que estávamos certos, ao promover esta homenagem a Raimundo Oliveira. 

Mario Gelleni é, com sua mulher Malvina Gelleni, proprietário da Galeria Portal, que expôs 35 obras, em diversas técnicas (óleos, lápis/cera, técnicas mistas, desenhos) das diferentes fases de Raimundo, em mostra que ainda repercute pela importância do artista. 

“Nós mostramos, em ordem cronológica, a evolução de Raimundo Oliveira. Profundamente angustiado, místico e sempre perturbado por visões e devoções, Raimundo reflete em seu trabalho a procura do âmago da natureza humana. Suplicantes, votivos, Cristo, a Ceia, anjos e santos, figuras místicas, impressionantes, são a tônica do seu trabalho. A Bíblia, como eterno manancial de inspiração, é para Raimundo, uma busca e encontro. 

Harry Laus, como Sara Campos e Benedito Peretto, foi amigo íntimo de Raimundo em São Paulo (Raimundo esteve em são Paulo em 1957, em 1958 e a partir de 1960 quase até sua morte, em janeiro de 1966, quando se suicidou num hotel de Salvador). O crítico carioca, que dirige um centro de artes em Florianópolis, veio da capital catarinense ver a mostra da Galeria Portal: 

“Acho Raimundo Oliveira um momento particular da pintura brasileira, porque não se pode encontrar nenhum outro equivalente, em termos de originalidade e temática. Veja vem, por exemplo: Portinari se liga a Picasso e aos muralistas mexicanos. Tarsila, a Leger e aos cubistas. Di, Picasso. E assim por diante... Raimundo, não. É extremamente pessoal. Pode, longinquamente, ter parentesco com a pintura egípcia. Por um detalhe apenas, o perfil de suas figuras. Até em seu expressionismo - e Raimundo foi um expressionista num certo sentido, e não, um primitivo ou primitivista, confusão que se faz até hoje - a sua cor não é expressionista no sentido alemão. A liberdade da cor em Raimundo é tão grande, que foge a esta classificação. Acima de tudo, Raimundo é um pintor. E um pintor brasileiro. A pintura brasileira tem, até a morte dele, dois grandes momentos: Volpi e Raimundo Oliveira”. 

Laus, que escreveu um livro sobre o pintor confirma que Raimundo julgava-se feio, Esse fato é confirmado pela amiga Sarah de Campos, que o conheceu em 1960 quando trabalhava na Galeria Astreia. “Raimundo julgava-se feio, chorava e bebia, era um relaxado em pessoa. Vestia-se com terno e gravata, sempre, nunca usou um maiô. Dava buque de flores a eventuais paixões e tinha profunda amizade, pelo menos, à própria Sarah de Campos, ao próprio Harry Laus, a Benedito Paretto e à marchand carioca Giovana Bonino (que tratava da venda de seus quadros. Excelente cozinheiro e quituteiro, Raimundo gostava de pintar ouvindo música, especialmente de Carmen Miranda. 

Laus acha que Raimundo teria pintado umas 400 obras, uma produção grande, mas não imensa, pois o artista morreu aos 36 anos. “Era Raimundo de formação profundamente religiosa, que, inclusive, causava conflitos entre a sua vida pessoal e o rigorismo de seus preceitos religiosos, excedido pelas liberdades de suas idéias, que o levaram ao suicídio trágico... Posso afirmar, contudo, que Raimundo se afirmou e se encontrou, em termos de arte, nos seus últimos 5 anos de vida. Antes, procurava e se debatia à procura da sua própria definição pessoal. Sua pintura não morre, fica patética e dramaticamente incorporada à arte brasileira. 

Charoux, Guersoni e vários outros artistas examinam na exposição as telas de Raimundo, que conheceram bem. Em 1958, Raimundo expôs na Galeria de Arte das Folhas, 10 desenhos a nanquim e guache, ao lado de Odriozola, Iolanda Mohalyi, José Antonio da Silva, Lisa Ficker e Moussia. 

Charoux depõe: 
“Conheci bastante Raimundo Oliveira. Era um sofredor. Era um jovem de alegrias e tristezas ininterruptas. A pintura dele, sempre, muito original e característica, nunca primitiva, embora muitas vezes ingênua e lírica. E, num certo sentido, dramática, humana, religiosa e conflitante. 

“Fiz com ele e outros exposição coletiva em Araraquara, creio que promovida pelo MAC-USP e fomo de ônibus até lá. Em Araraquara, se bem me lembro, a uma observação de Tomoshigue Kusuno, teve um desespero maior, chorou, desintegrou-se por completo. Isso prova a água sensibilidade, a profunda densidade de espírito de Raimundo, efetivamente ligado a fatos e pessoas. Era um bom amigo, uma boa pessoa, um bom pintor, eis tudo.” 

Nós, que conhecemos Raimundo desde sua primeira aparição em S. Paulo, em 1957 - fizemos um texto sobre os artistas baianos que expunham no MAN para a “Tribuna da Imprensa”. Raimundo gostou, procurou-nos para levar um quadro de presente, que não aceitamos, fato que não afetou nossa amizade com o místico baiano, vida em fora - lamentamos que, na Portal não estivesse o amigo fraterno e confidente inseparável de Raimundo em suas andanças pela Paulicéia, Benedito Lacorte Paretto. O colecionador, amigo certo e incentivador de Raimundo, com quem fizemos, ajudados pela sua filha Tutu e o genro Draja, em 1971, uma exposição de obras do pintor baiano, com renda total revertida para o Museu de Arte de Socorro, terra natal de Paretto, e onde ele padece, há já alguns anos, cruel derrame. Ao se abrir a mostra, em nossa residência, falaram sobre Raimundo, recordando aspectos de sua vida e obra, sua professora baiana Mariacélia Calmon e Genaro de Carvalho. Este terminou suas palavras aos prantos. Todas as obras (cerca de 30) foram vendidas à Collectio, que iniciava suas atividades em S. Paulo - José Paulo Domingues, pouco conhecido até então, compareceu pouco antes da exposição se abrir e rematou as obras por Cr$ 32 mil. A renda reverteu para o Museu de Socorro, iniciado por Paretto. O Paretto que, depondo para Flávio Aquino, da Manchete, disse de Raimundo Oliveira: 

“O drama de Raimundo começou com a fama e a procura de seus trabalhos. Com a fama seus trabalhos eram disputados. Ele passou a atormentar-se, julgando perder a religiosidade que fazia questão de imprimir à sua obra. Certo dia, sem nada contar aos amigos, toma um ônibus e vai para Salvador, onde se mata. 

Seu amigo Jorge Amado então escreveu: “São Francisco de Assis anda por aí, veio conhecer a região de Feira de Santana, chegou no ônibus da madrugada e está na feira do gado conversando com um boi velho que é quase puro osso e pele, após ter consolado uns jumentos sequiosos... Pois era Raimundo Oliveira, filho da terra, desde menino um vago, sem jeito para o trabalho, a não ser para riscar papel, e isso é trabalho que se considere. Tinha ido embora fazia tempo, dele não havia notícia. Aparecia agora de repente e em torno de sua grande cabeça pairava uma atmosfera mágica, como se o cercasse a luz da madrugada... Era um homem e um anjo em conflito, o cativeiro e a liberdade, o numeroso e o solitário, eras, Raimundo, a santidade e o pecado., tuas correntes te pesavam demais e a arrancaste no quarto de hotel, retiraste da mala de viagem tuas asas de anjo e foste sentar na mão de Deus, de teu Deus particular e exclusivo”. FOLHA DE SÃO PAULO 10 de outubro de 1976

GRUBER, O GRANDE SEDUTOR


O intelectual e crítico de artes plásticas Francisco Luis Almeida Salles, presente á exposição de Mário Gruber, no Escritório de Artes Renato Magalhães Gouveia, diz lembrar-se “de Gruber, com Aldemir e Grassmann, convivendo jovens, com a gente mais velha, naquele itinerário noturno que nos levava, da Sete de Abril do Barzinho à Rego Freitas, do Clubinho”. 

“Eram os anos 40 – prossegue Almeida Salles – e Gruber tentava a gravura. Dele tenho um exemplar, das suas primeiras experiências. Estava, ainda, com a sua arte em elaboração, mas havia nos seus olhos uma iluminação, que, juro por Deus, percebi”. 

“E eles se revelavam na fidelidade a um projeto que os animava e que os diferenciava”. 

“Estão aí, Grassmann, na gravura, Aldemir, no desenho e Gruber, na pintura, e vendo-os hoje, eu os vinculo àquele sôfrego e nascente impulso que eu, amigo, testemunhei.” 

“Mas sobre Gruber, quero denunciar, como um policial, esse fabuloso itinerário do seu crime: o de roubar, de súbito, sem que percebêssemos, na rotina, linhas, cores e volumes, bases da pintura nascente, para criar um mundo próprio e diferenciado, nascido de uma longa e obstinada elaboração. 

Almeida Salles fala especificamente das telas de Gruber, continuando: 

“E, de repente, percebemos meninos planetários equilibrando, na mais ousada das composições, bolas e balões coloridos tisnados de sombras e luz; entidades sacerdotais carregando mantos com restos velados e enigmáticos; bonecas de louça pura, mortas na vitrine do tempo; árvores mais transcendentes do que a da perda do Éden; mãos devolvendo a pulsação do corpo, no êxtase da vida e defendendo-o das influências aziagas; bonecos alfinetados e fantasiados e o espaço aberto aos meninos vertiginosos no azul e n vermelho do fogo do amor. E ainda nos abandonando, sem explicação, no labirinto da medusa”. 

E conclui o crítico: “Diante de Gruber, grande sedutor, reconhecemos que, além do nosso mundo, conquistamos pelo seu fascínio, outro mundo, tão ou mais preocupante que o nosso”. 

DUAS MÃOS PODEROSAS 

Na atual situação cultural que atravessa o país, são poucos os artistas que apresentam uma obra com tanto vigor e complexidade como Mário Gruber. 

Na sua longa trajetória, Gruber sempre surpreendeu pela multiplicidade de abordagem e pela inovação no tratamento de certos problemas que são, no entanto, uma constante na sua obra – o homem, sua condição humana, seu relacionamento com seu trabalho criador, sua realidade e seu sonho transformador. Gruber foi, no correr destes anos, um dos artistas que mais se preocupou com a nossa realidade, e na sua abordagem, Mário soube desembaraçar-se do supérfluo e do anedótico. Sua percepção aguda revela coisas, fatos, sentimentos, situações que os observadores superficiais ignoram, mas que fazem parte do nosso tempo e coabitam com a nossa gente. 

Como conhecedor de sua ferramenta de trabalho Gruber evitou sobrepor os meios e os efeitos de sua pintura, embora luminosa e de qualidades excepcionais, aos seus propósitos artísticos e de inserção social. Sua obra não se detém com os compromissos consigo mesma, como se a arte conseguisse uma trajetória e uma dinâmica própria fora da vida dos homens. Ela não só deve ser real, parte e parcela da vida, mas também forma consciente e contraditória aos padrões alienantes e opressivos da vida. Portanto, Gruber, não se conforma apenas em descrever a realidade, nem se situa fora ou acima dela observando, julgando – ele se compromete, se comove, é participante. 

Na atual exposição, inaugurada na sede do Escritório de Arte Renato Magalhães Gouvêa, Gruber mostra 25 pinturas inquietantes, de solução plástica surpreendente, mas sobretudo, fortes. 

Suas “Meninas”, seus “Fantasiados”, “Mascarados”, emergem da sombra (inconsciência) situados num espaço muitas vezes fechado por travas e parafusos (limitações, coerções) para nos enfrentarem silenciosos (ainda não atuantes) ganhando uma impressionante luminosidade, caráter mágico, mas ao nível de uma consciência possível. 

Gruber trabalha seus personagens na complexidade dos problemas dos homens e suas limitações, que vivem uma realidade imposta, inconscientes e perdidos num tempo sem condições de escolher seu presente, mas também impregnados de magia, revelada com toda sua vitalidade na obra de Mário. 

Para o artista a magia não se opõe à realidade, é energia transformadora; libertando o homem de seu ciclo trágico e atuando no seu mundo de maneira a resgatar uma realidade que pertença de direito.

Nesta mostra há ainda dois quadros fortíssimos “Mão Grande” e “Mão Pequena”. A “Mão Grande” de monumental verticalidade, cresce de sua pulseira dourada, verdadeiro elo de relevos humanos, para se impor com seu brilho. 

A “Mão Pequena” não menos imponente e monumental é uma verdadeira ferramenta de madeira e pregos; na verdade são duas mãos poderosas que atuam concretamente transformando o mundo.

AUTENTICIDADE LATINO-AMERICANA 

Mário Gruber é indiscutivelmente uma das personalidades mais poderosamente singulares da pintura paulista e certamente das menos compreendidas. Mesmo para quem vem acompanhando há mais de vinte anos a sua obra, surgem sempre novos sentidos, sendo cada fase susceptível de novas reinterpretações à luz das seguintes. Essa multiplicidade de mensagens e de códigos da linguagem plástica e cromática de Gruber atesta a profundidade da sua criação, mas também tem dificultado para muitos a compreensão da sua obra, levando frequentemente a interpretações epidêmicas de um organismo pictórico complexo. 

Na pintura recente de Gruber aparem alguns elementos de fases anteriores, combinados com outros novos, sugerindo a criação de um alfabeto de imagens, ainda incompleto, emergindo do inconsciente individual e cósmico. Entre os temas novos avultam os do Espaço-Tempo, com uma ênfase na direção do futuro, e o de biogênese, assim como o das bonecas. Há também uma luminosidade alucinógena ou talvez mágica. 

O problema do Tempo esteve sempre no centro da vivência artística de Gruber com ênfase no sentido do passado, de um passado subsistindo no presente ou de um presente aprisionado pelo passado. Agora Gruber começa a vivenciar um futuro que parece descer espiralando sobre um aqui – agora, vindo das profundidades cósmicas. Para Gruber o sentimento do passado ou do presente-passado foi sempre impregnado de angústia, mas o do presente-futuro e o do futuro denota uma alegria nascente. 

Há alguns anos seria difícil compreender a autenticidade latino-americana de Gruber e do seu mundo fantástico de uma presente-passado carregado de angústia. Hoje se torna mais fácil ver que foi um pioneiro do realismo fantástico brasileiro, aparentado aos da Indo- América. Soube ver a realidade profunda do Brasil, e da América Latina, asfixiada por um colonialismo econômico e cultural. Foi também capaz de exprimi-la na sua arte, sem se deixar seduzir por influências das tendências dominantes na Europa e nos Estados Unidos. 

Os novos horizontes que vão apontando na fase atual de Gruber merecem uma grande atenção como premonições importantes de um futuro que vem chegando.

Folha de São Paulo, Domingo, 29 de agosto de 1976. 

GRUBER, UMA NOVA INDIVIDUAL 

Mário Gruber, um dos nomes firmados da gravura brasileira, expôs litografias e gravuras em metal na Arcádia, em São Paulo, com aceitação total, pois toda a produção foi adquirida. O artista, que tem na reclusão uma de suas características – embora seja participante de movimentos e emérito debatedor intelectual – há tempos não fazia uma individual. Atualmente tem ateliê de gravura nas Perdizes (Rua Cotoxó) e de pintura no Jardim Europa (Rua Iguatemi). Toda sua produção atual é de alto nível.. 

Caberá ao Escritório Renato Magalhães Gouvea realizar uma individual de pinturas de Mário Gruber, com óleos pintados este ano. Logo depois o artista retornará a Paris, onde, a partir desse semestre, passará seis meses por ano. Na capital francesa, e em outros centros da Europa, a obra de Gruber desperta interesse dos críticos e marchands. Seu ateliê em Paris, também movimentado como os de São Paulo, fica na Etoille, na Avenida Vagram. A edição da obra gravada de Gruber é mais propícia na Europa do que em nosso país. 

Quanto à sua atividade de gravador Gruber dedica-se à gravura em metal, da qual é mestre inconteste. Aprofunda ainda seu trabalho na direção do realismo, que sempre foi sua vertente principal, desde que iniciou sua atividade artística, recém-chegado de Santos, há dezenas de anos. 

 Com a viagem de Gruber a Paris, o seu ateliê de gravura, daqui, um dois mais completos e que já foi de interesse de instituições culturais, será encerrado. Ali, todo o seu investimento em maquinaria moderna tornou-o, na opinião dos entendidos, um dos mais bem equipados do mundo. Nesse ateliê têm gravado, quando se encontram no Brasil, artistas famosos como Hamaguchi, Yainaga e outros. O acervo artístico de Gruber compreende hoje cerca de 180 matrizes, todas catalogadas e cadastradas, formando um conjunto de raro equilíbrio, comparável, em termos de qualidade de gravura (e não em participação nos fundamentos da gravura brasileira) aos nomes maiores e consagrados de Carlos Oswald, Goeldi, Lívio Abramo e Grassmann. 

Conforme afirma Mario Schemberg “Gruber é indiscutivelmente uma das personalidades mais poderosamente singulares da pintura paulista, e certamente das menos compreendidas, mesmo para quem vem acompanhando há mais de vinte anos a sua obra, surgem sempre novos sentidos, sendo cada fase susceptível de novas reinterpretações à luz das seguintes. Essa multiplicidade da linguagem plástica e cósmica de Gruber atesta a profundidade sua criação, mas também tem dificultado para muitos a compreensão de sua obra, levando frequentemente a interpretações epidêmicas de um organismo pictórico complexo”. 

Segundo Schemberg, o problema do Tempo esteve sempre no centro da vivência artística de Gruber com uma ênfase num passado que subsiste em sua pintura recente combinando elemento de fases anteriores com outros novos, “sugerindo a criação de um alfabeto de imagens, ainda incompleto, emergindo do inconsciente individual e cósmico”. “Agora Gruber começa a vivenciar um futuro que parece descer espiralando sobre um aqui - agora – vindo das profundidades cósmicas. Para Gruber o sentimento do passado ou do presente-passado foi sempre impregnado de angústia, mas o do presente-futuro e do futuro denota uma alegria crescente”. 

Folha de São Paulo, 29 de fevereiro/8 de setembro de 1976.

MANEZINHO E SUA BRASILIANA FOLCLÓRICA


Manezinho (Manuel) Araújo nasceu a 27 de setembro de 1910, na cidade do Cabo, Pernambuco. Pintor e muralista. Viveu no Recife a partir de 1916, ali cursando a Escola de Comércio. Aos 23 anos de idade veio para o Rio de Janeiro, como cantor de emboladas, incentivado por Carmem Miranda e Almirante. Trabalhou no rádio e em cassinos até 1957, conquistando uma popularidade imensa, gravando mais de 100 músicas tipicamente regionais. Abandonando a carreira musical abriu o Rio, o restaurante “Cabeça Chata”, que logo se transformou num grande sucesso, com suas comidas típicas nordestinas. Em 1962 transferiu-se para São Paulo, montando também aqui o “Cabeça Chata”, que fechou alguns anos depois. Na pintura iniciou-se em 1950, autodidatamente, aceitando um desafio de sua mulher (que agradece até hoje). Em 1954, por influência de Augustinho Rodrigues, inicia-se no figurativismo ingênuo. Em 1955 faz sua primeira exposição, numa coletiva da Escolinha de Arte do Rio. Desde então, e até sua próxima exposição (em junho) na Galeria de Arte “Alberto Bonfiglioli”, realizou 50 mostras individuais e coletivas no Rio, S. Paulo, Recife, Paris, Lisboa, Santos, Guarujá, Porto Alegre e João Pessoa. Publicou em 19678, com apresentação de Aldemir Martins, um álbum de serigrafias, “Meu Brasil”. Possui quadros no Museu da Fundação Gulbekian, em Lisboa, no Museu de Arte Moderna, em S. Paulo e Museus Regionais de Porto Alegre, Araxá, Olinda e Feira de Santana. Casado com D. Adelaide (Lalá) Araújo, mora em S. Paulo, à Rua Augusta, 941, apto. 42. 

 – Minha pintura reflete meu amor permanente pelo Brasil... Minha vida, hoje, são essas minhas telas ingênuas, folclóricas e telúricas... Procuro transmitir nos meus quadros uma realidade que gostaria que existisse. Quando vejo uma favela, pinto-a sem retratar sua autenticidade infeliz e vencida... Ao contrário, por temperamento e por filosofia, coloco só matizes alegres e coloridos nas elas que elaboro... E meus quadros, como meus personagens, são felizes. 

 Manezinho Araújo se sacode todo numa gargalhada sonora, famosa desde os tempos do “Banho do Passarinho”, no Recife, ou da “Taverna do Glória”, no Rio, na década de 30, quando ele e seus companheiros iam afogar tristezas e cantar alegrias até o sol raiar. Leônidas da Silva, seu dileto e maior amigo, está ali, pra dizer que Manézinho conta só a verdade. O pintor ingênuo que se recusa a considerar-se um “primitivo”, está eufórico: a Galeria de Arte Alberto Bonfiglioli vai expor em junho 40 telas, toda a sua coleção “Brasiliana”, que ele vem pintando com minúcia e amorosamente nos últimos tempos. Lalá, sua mulher, responsável maior pelo seu início na arte de pintar – quando era então o “Rei da Embolada”, conhecido de Norte a Sul do País, – e Iracema, a mulher de Leônidas, compõe a roda no apartamento-ateliê de Manézinho. Hoje é dia de bobó de camarão, que ta,bem recorda ao anfitrião seus tempos de mestre cuca, à frente do também famoso “Cabeça Chata”, onde tinha lugar certo, sempre, altas autoridades da República e as mais conhecidas figuras dos meios culturais e esportivos. Manezinho tira da velha cômoda uma carta recente, é de Jorge Amado, veio pelo correio nestes dias. Ele lê com sua poderosa voz de nordestino curtido no Sul o texto de seu grande amigo escritor e que servirá de apresentação do catálogo da “Brasiliana”: 

– Um artista múltiplo de várias artes em todas competentes de real talento, de apurado gosto, sem ser único na condição brasileira, marca de sua personalidade em cada setor onde exerceu ofício e arte. 

– Longamente poderia eu falar do cantor popularíssimo, em sertã época um dos reis do rádio, sem igual nas emboladas nordestinas, imitado por legião, aclamado por todos. Cantar foi sua arte primeira e admirável. No ritmo da embolada seu nome faz-se famoso, mais do que famoso, querido, em todo o Brasil: Manezinho Araújo símbolo do que havia de mais puro na música popular brasileira, cantor brasileiro por excelência. 

– Também na arte suprema, na divina e sublime arte da culinária, foi mestre e que mestre! Cozinha brasileira, é claro, pois aqui já se disse ser aqui ser a qualidade brasileira a marca unitária de tudo quanto Manezinho Araújo realizou. Possuiu restaurantes e dirigiu cozinhas de grandes hotéis. Pra se ter idéia de sua competência, basta contar que dirigiu cozinha de hotel baiano, e não sendo nascido em terras da Bahia, sabe culinária baiana como poucos, mestre de vatapá celebrado e de um efó da mais alta classe. 

A campainha toca, Manezinho interrompe a leitura. É Célia Cotrim Alves, da “Bonfiglioli”, quem veio filar a “bóia” da Lalá e Manezinho, que o bobó do casal não se rejeita neste mundo. Logo depois, entra o casal Tite e Ivo Zanini, ele jornalista, presidente da Comissão Estadual de Artes Plásticas. O grupo aumenta. Manezinho, com a carta de Jorge Amado às mãos, corre ao ateliê, o pessoal quer ver, um a um, todos os quadros da “Brasiliana”. 

Célia cita palavras do crítico Roberto Pontual, autor do “Dicionário de Artes Plásticas do Brasil”, sobre a pintura de Manezinho Araújo: “Sua pintura de caráter ingênuo fixa tipos e tremas populares do folclore nordestino e do Brasil em geral, com intensa vibração cromática e de uma geometrização das formas”. A admiração pelas telas que Manezinho tira vaidosamente dum grande armário, é geral. O pintor aproveita a platéia atenta, sapeca mais um pedaço dos escritos de Jorge Amado: 

– Onde, porém, veio realizar-se por completo, foi na pintura. Desde os tempos de cantor e mestre-cuca, proprietário de restaurantes de comida nacional, bolia com as tintas e os pincéis. Pouco a pouco seu nome ganhou cidadania nos circuitos de das artes plásticas como um dos mais agradáveis pintores primitivos e se firmou em meio dos colecionadores exatamente porque sua arte mais uma vez se exerceu em função do Brasil. Quem primeiro alertou o País para a pintura de Manezinho Araújo, foi, se não me engano, Assim Chateaubriand a quem encantava a recriação da vida brasileira que é o tema fundamental do pintor. Esse Brasil colorido, ingênuo e pitoresco, fixado na tela por Manezinho, e levado para exposições na Europa pelo ilustre jornalista, lá obteve ruidoso sucesso. 

Leônidas deixou o ateliê, voltou à sala e ao seu bobó. O velho “Diamante” está luzidio e enxuto como sempre. Agora está deixando a Jovem Pan, sua ocupação é só com a Secretaria do Trabalho onde dirige o setor de Promoções Esportivas, e suas construções. Manezinho, já de volta, abre o rádio, a Bandeirantes está irradiando o histórico “gol de bicicleta” de Leônidas, 30 anos atrás, no Pacaembu, S. Paulo x Palestra Itália. Na gravação, várias vezes, Geraldo José de Almeida grita que “o bonde de 200 contos fez um gol de bicicleta”... assim aludindo à compra de Leônidas pelo S. Paulo F. C.m, na época... Manezinho, um dos responsáveis por Leônidas ter trocado então o Rio por S. Paulo, ri e declara: “Como Leônidas, igual a ele, seja como artífice de vitórias, artilheiro, comando e liderança em campo, garra e técnica, nunca houve jogador melhor no Brasil!” Leônidas sorri de leve, aceita mais um uísque que Lalá gentilmente oferece. 


Manezinho também entra no bobó e no uísque, nesse domingo festivo não está de regime. Aos sábados também garante uma boa feijoada, ali na Rua Augusta mesmo. Hoje em dia, não gosta de cantar embolada, embora continue arisco e com voz esmerada se o quiser fazer.. Ele gosta mesmo é de pintar – de manhã, à tarde e á noite – e de nos fins de semana receber os amigos, Leônidas e Iracema, o jornalista Audálio Dantas, Deodato o escultor, o cômico Zé Fidelis, seu medico Moricheswki. Nestas horas, “e afoga” um pouco, confessa, recordando os tempos dos carnavais cariocas, quando músicos, artistas de rádio, jogadores de futebol, saíram no grupo “Traíras da Lapa”, bebendo até de madrugada... Manezinho comenta que a arte brasileira precisa de pintores que pintem mais o Brasil, como um Aldemir Martins, por exemplo, um “artistaço”... Diz que se considera realizado como cantor de emboladas, que fez época em seu tempo, e como proprietário com Lalá, do “Cabeça Chata”, no Rio e em S. Paulo... Mas em arte, ainda está depurando, essa “Brasiliana”, conta, está dando o que falar, e a mostra ainda não foi inaugurada... Neide Bonfiglioli, a vistosa loira dona da galeria, já está anotando os pedidos de reserva das telas da “Brasiliana”, são 40, os preços variam de 3 a 10 mil... Manezinho está solto em sua camisa grená, jovial, situa sua pintura como “ingênua araujina”, diz que acredita no Brasil acima de tudo... Lembra de sua mãe, d. Juventina que o inspirou e o protege na sua arte de pintor ruminando à consagração, e do velho pai, filho de portugueses, “seu” José Bonifácio. E todos querem ouvir, agora, o final da apresentação da “Brasiliana” de Jorge Amado, Manezinho põe os óculos, lê grave: 

– Estou diante dos quarenta quadros da “Brasiliana” de Manezinho Araújo – uma exposição de grande força evocativa, uma festa de cores, do Rio Grande do Sul à Amazônia, da querência do seringal. Manezinho Araújo documentou, em quadros onde a arte do pintor se expande numa indiscutível qualidade de ofício, toda a vida popular brasileira, no campo e na cidade, no trabalho duro e na festa tradicional, na alegria e na tristeza, na religião dos pobres e nos folguedos de carnaval. Vejo as paisagens do Sul, do Extremo Norte, do Nordeste, vejo as cidades, as feiras-livres, as flores, os pássaros, as mulheres, as ruas típicas, a grandeza do Pelourinho na Bahia, a face antiga de Ouro Preto, os fortes e os pequenos cais – “Ver o Peso”, a “Rampa do Mercado” – de saveiros e barcos, o trabalho na colheita de café, nas roças de cacau, na floresta amazônica, nas plantações de babaçu, no carnaval, na labuta do algodão. Toda a vida brasileira está fixada nestes quadros tão nossos, trabalhados com tanto amor. 

 Sim, eis a arte feita com amor, amor de um homem bom, cujo talento e cujo ofício foram colocados a serviço do maior conhecimento da paisagem física e humana de nossa terra, talento e ofício exercidos na paixão pelo Brasil. 

 O burburinho aumenta na Augusta, da janela do apartamento do pintor se vê o povo alegre e dominical que deixa os cinemas da rua – é a sessão das quatro que chegou ao fim. Manezinho mostra peças de sua coleção, cerâmicas de Vitalino, entalhes de Chico Santeiro, fotos emolduradas do padre Cícero, telas de Aldemir, Campello, José Antonio da Silva, esculturas de seu amigo Deodato, lembranças de todo o Brasil, – Brasil que conhece de ponta a ponta, de Norte a Sul. Só que agora, se tudo der certo, quer conhecer a Europa. Ele e Lalá, levando Leônidas e Iracema. No ano de 74, ainda a tempo de pegar a Copa do Mundo na Alemanha. “Pena que o nosso Diamante Negro não seja mais nosso centroavante”, diz recordativo e ingênuo. Manezinho Araújo, dando um tapa de amizade na calva famosa e retinta de Leônidas da Silva.

A TRIBUNA Santos, domingo, 28 de maio de 1972.