sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

DARCY PENTEADO


O desenho brasileiro está progredindo em seus processos de criação e execução. Manter a sua linha tradicional não teria razão de ser. Os ótimos? Destaco Wesley Duke Lee e Aldemir Martins e, no campo do cartonismo a turma do “Pasquim”. O Geraldo \Lamego que conheci na Europa, gosto dele como retratista, faz um trabalho honesto. Quanto a mim, continuo com os retratos – até hoje já fiz mais de mil, aqui e no estrangeiro – e também faço uma pintura não comercial, pode ser até feia e pouco vendida. É a minha contrafacção, uma decorrência da linha “pop” que, aliás, já abandonei. A minha linha de agressão divertida, digamos. 

Darcy Penteado, 45 anos, solteirão impenitente, o rosto corado dos vinhateiros da terra onde nasceu – São Roque. Educado, gentil, refinado, descontraído, superamável, mora aqui e na Europa, seis meses por estação. Seu apartamento de cobertura na zona dos jardins é de alto luxo e bom gosto – ali estão as arcas romanas, mesas e cadeiras de “fiber glass”, belíssimos pratos “art nouveaux”, vitrôs coloridos, estufas italianas, estátuas neoclássicas, roupas de soldados jordanianos, e, claro, desenhos seus. Darcy é, ali, pintor, desenhista, cenógrafo, retratista, decorador, publicista e até arquiteto “de araque”. Falar é um de seus fracos. 

– Nasci em São Roque, tenho 45 anos, mas as pessoas curiosas dizem que aparento menos. Pratiquei nudismo aos 4 meses de idade e sua autodidata de nascença. Gosto de sol e do verão, mas pratico esportes de inverno havendo oportunidade, isto é, havendo neve. Faço meus quinze minutos diários de ginástica, amor quando dá certo, gosto de nadar e adoro esqui aquático. Civilmente falando, continuo solteiro, mas com cinco sobrinhos, um cachorro e uma gata. Desenhei moda, publicidade, ilustrei livros, revistas e suplementos de arte, fiz cenografia, trajes para teatro e TV., escrevo contos, às vezes e, na base da curiosidade, já publiquei artigos sobre história do traje. Minha primeira exposição individual foi em 1949. 

Darcy está na dele. 
– Aqui no Brasil, expus individualmente no Museu de Arte Moderna (duas vezes), no Museu de Arte de São Paulo, no de Belo Horizonte, em várias galerias, além de coletivas e de diversas bienais. A propósito de bienais em duas delas estive na “dica” do prêmio de Melhor Desenhista Nacional. Não sei se foi verdade ou “papo-furado” de sempre. Da comissão premiadora... Na verdade, os deuses nunca me favoreceram o bastante quanto a prêmios de artes plásticas, mas obtive muitos em trabalhos para teatro e ilustração de livros. 

– E no Exterior? 
– A primeira vez que expus no Exterior foi na Suíça, mostra coletiva, porém, idem a primeira vez que fiz em Nova Iorque e em Buenos Aires, todas em 1955. Em salões internacionais participei da Bienal de Paris em 1961 e do Salão de Monte Carlo em 1964. Em Portugal, em 1956, aconteceu a minha primeira individual, fora do Brasil. De 1962 em diante, passei a morar na Europa, quase sempre em Roma, mas as duas primeiras mostras foram na Alemanha em 1964, onde minha abstração – eu deixara o figurativismo havia pouco – foi comparada a Hartung, Sonderbnorg e Tapies em termos elogiosos. 

– E as suas experiências? 
– A abstração foi uma boa experiência, todavia, a minha sensibilidade me chamou novamente, não à figuração propriamente dita, mas a uma composição informal de colagens que obtive com elementos “vividos”, como os encontrados nos lixos do Trastevere, nos mercados de velharias de Roma ou, ainda, os cartazes, avisos fúnebres e religiosos que arrumei de muros antigos. Com essa escória delirante de vivência fiz os trabalhos de 1964,-65. O crítico Argan, presidente da Associação Internacional de Críticos de arte e catedrático de História da Arte da Universidade de Roma, disse então que “embora se comprazendo de exibir os objetos assim como se apresentam, Darcy Penteado não tem nada em comum com os pintores “pop” e sua técnica de fato; não é aquele do “assemblage”. 

Darcy Penteado não espera nova pergunta. Continua a depor: 
– A meu ver, começo em 1964 em ciclo inteiramente novo, importante para mim. Após as colagens pesadas e que usei até 1965, o material foi sendo simplificado e os trabalhos acrescidos de mais conteúdo literário. Era a “post-pop” se transformando em ”figuração narrativa”, onde a formação gráfica e a dinâmica da história em quadrinhos me permitiam evidenciar com ironia nostálgica, o enterro de um mundo ideal e nunca existente. A coesão dessas duas fases, em boa parte inédita, no Brasil e o fato delas terem gerado diretamente a atual, foi o que me fez incluí-las na didática da minha mostra na Bonfiglioli. A minha “Proposta para uma nova Via-Crucis”, feita em S. Roque em 1966, foi exposta no Brasil e depois viajou comigo para Roma e Paris. Gassiot-Talabot, “papa” da jovem pintura francesa, disse: “Penteado é um pintor católico; ele nos diz isso tranquilamente e celebra a mensagem evangélica com uma convicção que parece, contudo correr o risco da profanação. Para ele o processo de Cristo é ainda atual e seus juízes, seus carrascos, somos nós mesmos”. 

A entrevista não se esvazia. Darcy dá-lhe um toque pessoal. 
– Tenho lutado comigo mesmo para não pensar na incomunicabilidade entre os seres humanos, nos seus preconceitos, intolerâncias e consequente violência. Hoje, sem me tornar um indiferente, consegui com muito malabarismo e um certo cinismo, o prodígio de ser uma pessoa bem-humorada, num desajustado e caótico. Não creio fazer arte de agressão, mas tento com ironia, a tragicomédia ou o patético, exprimirem linguagem pictórica esse meu sentimento (ou ressentimento?) em relação ao mundo. Aos que me conhecem mais como portraitista que como pintor, isto deve surpreender. Ao “portrait”, que alguns críticos chamam de “gênero amável e pintura”, me dedico profissionalmente e creio bem, desde 1955, dando-lhe a minha criatividade o máximo possível, porque dele tenho vivido com conforto, felizmente... 

– E suas experiências atuais? 
– Minhas experiências atuais em plástico, material comum ou cotidiano, são tentativas de renovar o grafismo, de fazê-lo flutuar liberto, de “tromp-l’-oeil” ou ainda, de uma nova dinâmica. Tentativa de divertir o espectador, com o mesmo amargo-cômico de uma piada de humor-negro, fazendo-o participar dos meus quadros, vestindo os meus nus ou vestindo-se ele próprio com meus plásticos desenhados. O que eu estou fazendo não é mais “pop”, nem figuração narrativa. É algo novo talvez. Digamos, por enquanto, que seja um brinquedo, apenas. E por que não? 

Darcy Penteado afaga ágata “Mexerica” e o cãozinho “Zuquino”, da raça inglesa Whippet, que trouxe há pouco da Europa. Fala de um dos últimos retratos que fez em Roma, de uma de suas amigas do cinema – Silvana Mongano. No Brasil, já retratou mais de mil pessoas, de Maria do Carmo Sodré a Cecília Matarazzo, de Oswald de Andrade a Zulmira Lunardelli. Em Paris, recorda-se de duas retratadas, mais dos “retratos”, Audrey Hepburn e Françoise Sagan. Darcy dá algumas ordens a seu fiel secretário, João Bertolotto, depois espia umas pinturas infantis de seus sobrinhos de S. Roque, “criançada boa e amiga, que vejo tão pouco”. Vai agora para a Galeria Bonfiglioli, na Rua Augusta, onde expõe sua pintura, seus desenhos, seus nus, suas colagens, seus “brinquedos plásticos” – tudo é a mostra “A arte não amável de Darcy Penteado”. Despede-se com a maior amabilidade.
3/10/71.

MARIA LEONTINA


Expondo estas últimas telas da conhecida série “Estandartes” que precedem da fase “Páginas”, expostas no Museu de Arte Moderna de São Paulo (no último “Panorama” e com retrospectiva de Valdemar da Costa) e que será brevemente apresentada no Rio de Janeiro, a Galeria Seta marca uma etapa na transição cíclica da variada e rica produção da pintora Maria Leontina, como já o fizer em outubro de 1963, expondo o início desta série. A obra abstratizante de Maria Leontina é, no ver do saudoso crítico Lourival Gomes Machado, uma das poucas, senão a única, dentro do abstracionismo brasileiro, em que o lirismo se apresenta irrompendo a abstratização ao invés de ser por ela favorecido. 

Antonio Maluf expõe e Maria Leontina, na Seta, já vai explicando:

 – Em todo artista, ao longo de sua evolução, há um desdobrar-se de associações plásticas que o levam de uma fase a outra na continuidade do que quer dizer, na tentativa de expressar o seu ser integral, embora o faça por fragmentos... As fases são novas temáticas que madurecem ou então brotam espontaneamente, entro dela, novas maneiras de sentir e exprimir. Têm que ser depois filtradas plasticamente. Mas é preciso, antes, que o artista as deixe fluir livremente. Não podem ser inibidas, reprimidas, senão soam falsas, inautênticas. Isto que estou dizendo qualquer um sente e sabe, não tem nada de insólito... Cada fase ele domina genericamente, apenas para distinguir as mudanças de um desenrolar psicológico. Qualquer artista tem logicamente suas mudanças dentro de si, que ele elimina ou filtra, à sua maneira, contanto que conserve sua unidade íntegra. É o que pode distinguir um artista de outro, pintor, poeta, escritor ou músico. Também um dentista não deixa de ser um criador, dentro de sua pesquisa. E o crítico de arte ou de literatura, quando interpreta neste ou naquele momento dos diferentes métodos de “aproximação” de uma obra de arte. 

– Como define sua fase mais recente, as “Páginas”, ou as anteriores? 
– Nas “Páginas”, pretendo que cada um possa ter um diálogo pelo silencio, ou entender o que é impossível, desde que o título é apenas simbólico, mas definido. Ao mesmo tempo cada um pode ler nelas o que quiser de si mesmo ou do que o artista quis definir plasticamente, com um traço ou uma cor conscientemente titubeante ou apenas sugerido. Tenho alguma esperança de que algumas pessoas afins ou não comigo percebam, sintam e recebam o que estão nelas. Refiro-me à cor e à expressão de um traço aparentemente absurdo ou de uma forma que lhes pareça irregular... Quanto às outras fases, acontece o mesmo. São respostas e vivências que uma denominação genética tenta explicar: as “Naturezas Mortas” (tema amplo, que irrompeu de maneira surreal, isto é, os objetos reais dentro de uma atmosfera e um espaço irreais), as “Sant’Anas” (inspiradas nas esculturas de arte sacra brasileira), mas também de um grande poder simbólico para mim – a mulher, a criança, o ensinar – “Os músicos” – “Os jogos e o s enigmas” – “Frases”, em que as cores e as formas eram colocadas no retângulo da tela sobre e sob uma linha horizontal que o dividia – “Da Paisagem e do Tempo” (paisagem interior, é claro e tempo intemporal). Difíceis de explicar fases meio mágicas, alquimistas – “Os episódios”, de construção mais rígida (episódios individuais, onde os símbolos, os arquétipos nasceram de uma convivência maior com a composição renascentista, em minha viagem à Europa, coincidindo com a natural influência com o geometrismo da época). Depois, fugindo dessa rigidez, nasceu formas arredondadas, como rochas, uma espécie de paisagem fantástica, de formas entrelaçadas, que expus na Petite Galerie de São Paulo. Fiz também muitos “pastéis” desta série... Estava fazendo uma coisa ligada à poesia e à fase musical, que não levei adiante, mas que seria a sugestão da palavra plasticamente comunicada. Depois vieram “Os Estandartes” de repente descobertos como tema plástico infinito, em suas possibilidades de variação de forma, linha e cor, manifestação dos impactos atuais, pálio múltiplo defensor de mil ideias. 

Maria Leontina interrompeu o fio da meada, comenta com a irmã, a crítica e ensaísta Maria Eugênia, sobre seu filho Alexandre, de 13 anos, que ficou no Rio (é estudante) e não pode vir para a exposição. Leontina ainda tem casas em S. Paulo, da qual se desfará este ano para morar com Milton e Alexandre, em definitivo, no Rio, numa casa entre a Lagoa e Ipanema, vivendo como sempre, de e para sua arte. Ela acha a juventude brasileira genial. Ainda agora Valter Franco, filho de outro irmão, Cid, está cotado para ganhar o FIC no Rio. Gostou da Pré-Bienal, acha muito válido os múltiplos e a arteônica, mas também a pintura tradicional. Cada um na sua, diz, com o sorriso à flor dos lábios. Não sabe quantos quadros pintou até hoje. Os prêmios são muitos, aqui, nas Bienais, fora. A relação é longa. Está no dicionário do Roberto Pontual e no catálogo bem montado por Maluf, esse bom amigo dos expositores, antigos e novos, Antonio Maluf está com a Seta desde 1968. É também desenhista e pintor – e premiado. Um dos iniciadores do movimento concretista no Brasil (o cartaz a 1ª Bienal é de sua autoria). Nas salas laterais a Seta tem mil peças de “art nouveau”. Maluf faz tempo está ameaçando organizar uma grande exposição dessa arte que considera “a mais expressiva arte do século passado”. 

– Você se considera intuitiva ou racionalista? 
– A ente é hora um pouco escravo, ora senhor de si mesmo. À vezes domina outras vezes é dominado pelo gesto ou pela forma. Temos que reconhecer isto ludicamente... Temos que ter consciência de realizar um trabalho espontaneamente racional, se se pode dizer assim, mas com um desenvolver-se homogêneo. O gesto distribui a emoção e a controla. O inconsciente rege, mas o concerto é o pintor que realiza, que afina as cores racionalmente. Na obra de arte, num quadro, o ilogismo em que ser plasticamente lógico. Muitas vezes o quadro está nítido, mentalmente, já pintado: a gente o vê inteirinho, com a cor e tudo. Mas na hora de pintá-lo, aflora outra coisa que devia estar na camada de cima. Escondida. De repente, sai aquele que a gente tinha já visto antes. É como se conservássemos as ideias em escaninhos secretos. Brotam na hora que querem. Quando se sentem completamente gerados. Porque o artista tem que dosar o racional e o intuitivo. Mas nunca frear seu momento surpreendente do gesto que não esperava e que, descoberto, deve resolver se o deixa existir ou não... A linguagem plástica não pode ser racionalizada. Um quadro leva toda a carga emocional dinâmica ou passiva, de quem o fez. Se não contiver tudo isto, é frio, nada transmite. Numa colagem espontânea ou não, numa vanguarda inventiva, às vezes mesmo mal realizada tecnicamente, você “sente” o que é verdadeiro, o que virá dali, o que ali estão u o que é farsa... O que se tem certeza, sempre, é de que quando qualquer coisa verdadeira emociona, paramos diante dela espantado de emoção ou de alegria. Então descobrimos que ali está alguma coisa dita pela primeira vez... Quem se exprime através de uma arte qualquer tem que deixar-se fluir para ser autêntico. E ser honesto, sem preocupação com a moda. Se não tem jeito para colar papel, não cole. Se não tem paciência ou interesse de inovar por inovar, fique quieto dentro de sua maneira de expressar-se, mensageiro de si mesmo para que os que o puderem compreender. 

– O que significa para você comunicação em arte? 
– Não acredito em arte para muitos. O leigo atual, que compra um quadro para enfeitar sua casa ou para “investir” (palavra que não compreendo atribuída à obra de arte) muitas vezes acerta por intuição crítica ou por sensibilidade. Para os artistas, digo, para todos nós, pintores de quadros ou fazedores de uma arte nova ou de vanguarda não sabemos mais quem gosta do que, se sente ou percebe o que estamos transmitindo liricamente ou amargamente, ou tragicamente, ou pastoralmente. Aquilo é apenas um objeto que pode ser transferido de um lugar para outro, de uma casa para outra, um divertimento de trocas, um arremedo de jogo... Um quadro não é mais uma coisa, um mundo com o qual se queira conviver, como uma pessoa que não se pode substituir. Não sabem que um quadro, uma escultura, um livro, aquela música ou aquele poema representam um ser inteiro. Apenas com a diferença de que um quadro é só aquele, que captou aquele momento, o gesto, a emoção ou emoções do tempo em que foi realizado, os nervos, o alheamento, a racionalização, o estado psicológico, o instante que não vai se repetir da mesma forma em outro quadro, mesmo que seja uma cópia dele ou uma replica. 

– Por que de uma arte mais complexa, você chegou a essa simplificação atual, a essa depuração? 
– Nós temos momentos complexos, que queremos deixar num quadro. Formas que simbolizam harmonias ou conflitos. Às vezes falamos meio ansiosos, como se tivéssemos muito que contar. Outras vezes, contidos, falamos tranquilamente. Ou então estamos o ar e transmitimos quase acremente o que sentimos. E sempre esperamos, temos mesmo a pretensão de ser entendidos... A simplicidade, a depuração são estados de espírito. Precisamos sempre, é claro, fazer uma triagem. Não sintetizar demais, porque esfriamos as palavras plásticas, o ardor de transmissão que a gente talvez deseje que se integre no mundo do outro. Esperamos que o possuidor da obra queira conversar, associe aquela forma ou aquela cor a alguma coisa que também foi dele, que também ode ser criado. 24.9.72. 

As viagens temáticas de uma abstrata sincera 

– Há anos venho acompanhando o desenvolvimento da personalidade de Maia Leontina através das telas apresentadas em mostras coletivas, e atentando para o seu progresso técnico... O que se expõe agora é um conjunto das obras de 1948 e 1949, e põe em relevo um lirismo que se compraz mais na cor do que no desenho, e mais na expressão, algo “fauvista”, do que na composição... Por ocasião das últimas exposições do sindicato, observei quanto havia de doentio em sua pintura acinzentada e quente, feita quase toda de fusões e de impulsos também, de muita melancolia, senão de amargura. A artista evoluiu. Ei-la que traz uma mensagem de convalescente. As características fundamentais de sua antiga maneira não mudaram, mas os planos se ampliaram e o colorido se afirmou com maior nitidez. Talvez seja, entretanto, a presença do poeta o traço essencial desta pintora em pleno progresso. SÉRGIO MILLIET (1949). 

– Eis aqui uma pintora da qual é preciso falar em tom mais afinado, com maior discrição. Uma artista que tranquilamente dispensa as fórmulas “passe-partout” da crítica, as vagas teorias, a vaga poética, a vaga filosofia e com segurança e amabilidade mesmo nos vai dizendo em sua pintura aquilo que nunca deveríamos esquecer; que essa universal e eterna liberdade, base de toda ação humana, se exacerba e cristaliza no verdadeiro criador, e que uma das nossas grandes heresias, dos nossos maiores ridículos, é acreditar que somos capazes de prever, antecipar as formas de arte... E concedamos, definitivamente, a Maria Leontina, aquele título e aquele lugar que poucas mulheres têm conseguido na reduzida frente dos “grandes pintores” brasileiros contemporâneos. – JAYME MAURÍCIO (1961). 

- A obra abstratizante de Maria Leontina é no ver do saudoso crítico Lourival Gomes Machado, uma das poucas, senão a única, dentro do abstracionismo brasileiro, em que o lirismo se apresenta irrompendo a abstração, ao invés de ser por ela favorecido... A importância desta pintora é facilmente percebida nas referências dos que escreveram elogiosamente sobre ela. Apoiando-nos, com tranquilidade, nesses comentários endossados através do tempo de evolução de sua obra, por tantos dos mais representativos nomes da crítica brasileira temos a certeza de apresentar a exposição de uma artista que definitivamente contribui para o desenvolver o vocabulário plástico surgido de nossa realidade nesses 50 anos que se sucederam à Semana de Arte Moderna, trazendo uma contribuição pessoalíssima e de incomum sensibilidade plástica. – ANTONIO MALUF (1972). 

 – Maria Leontina tem passe livre para todas as viagens. Além do talento, a sinceridade de sua arte e o autêntico de sua personalidade, que é sempre motivada por um motivo ainda mais permanente e fatal que o do pintor em sua pintura – o amor – são a garantia de que trará sempre dessas viagens temáticas algumas imagens dignas de conviver conosco em nossas melhores horas. – MÁRIO PEDROSA (1963).

ANITA MALFATTI


"Em São Paulo existe meia dúzia de espíritos femininos de valor. E, entre eles, está Anita Malfatti. A senhorita Malfatti." 
Sofia Tassinari, loira e falante está chegando do Rio, foi comprar boa pintura brasileira, principalmente primitivo, para a “Azulão”. Ela foi aluna, modelo, amiga e confidente da senhorita Malfatti, de Mário de Andrade. Sofia encosta o Volks, breca, tranca a marcha, diz que Anita era uma excepcional figura humana, era como uma mãe para suas alunas, se tornava muito amiga delas. No ateliê da Rua Ceará aprendiam com Anita, ela, Oswald de Andrade Filho (Nonê), Flávio Motta, Dora Vilalva e outros. A professora pintora era polida, simples, jovial, educada, orientava nas técnicas, só os temas eram livres. Sofia também posava para Anita, ia com ela ao Embu, dias e dias seguidos, visitar um grande amigo da mestra, Cássio M’Boy. Depois, Anita se mudou seduzida pelos ares de Diadema, para a “Chacrinha”, mas então já não pintava tanto, gostava mais de receber os amigos. Ali atendia sempre a todos, passava até “pitos” se não gostava de alguma arte das alunas “como nos tempos em que nos ensinava na Associação Cívica Feminina na Rua 15 de Novembro”. E sofá vai concluindo, recordativa:
 – Naquele dia cinzento de 1964, em que ela morreu, fomos vê-la na Santa Casa. Velório decepcionante, tão pouca gente, apenas Graciano, “Ciccillo” Matarazzo, Menotti, alguns amigos mais. Ali naquele caixão simples, naquele sofrido enterro na Consolação estava depositada a pioneira, a protomártir, como dizia Mário da Silva Brito, o ponto de partida do modernismo no Brasil. 
Rua Augusta abaixo, Jardim Europa. Ao lado do marido advogado, Luiz Olavo Batista, e do filho de um ano, que já traquina, Marta Rosseti Batista pesquisa incansavelmente. Assunto: Anita Malfatti. Ela é arquiteta, formou-se na FAU, em 1964. Foi Flávio Motta seu professor de História da Arte, quem a levou para os estudos sobre o Modernismo. Hoje, pesquisadora contratada do Instituto de Estudos Brasileiros da USP, tem a seu cargo o levantamento do acervo deixado por Mário de Andrade. E mais: levantar, conferir, biografar, catalogar, escrever sobre – Anita Malfatti. É o que Marta faz, com seu jeito doce e sua tenaz persistência. O livro sobre Anita – ou, se não houver verba, pelo menos o alentado e completo estudo de Marta sai até o final do ano. O apartamento recebe o frio sul da cidade. Ela opina sem fazer uma declaração formal:

 – Estou mergulhada, surpreendida, obcecada pela personalidade de Anita – uma figura fechada, que sofreu muitas críticas e recebeu outras influências, coerentes quase sempre, uma artista, sem dúvida, histórica e importante do modernismo brasileiro. 

No Bairro dos Campos Elíseos, mora Georgina Malfatti, irmã de Anita, que a acompanhou toda a vida. Em seu apartamento, óleos e desenho que sobraram à família, das quase 2.000 obras que Anita produziu em seus 50 anos de vida artística. “Anita era um anjo bom, era alegre e afetiva, ia às reuniões sociais frequentemente, quando tinha saúde, antes de sofrer de diabetes e do coração” ... Vai depondo, essa amável senhora, que dividia com os manos Alexandre e Guilherme (este, engenheiro-pintos) a fama da irmã importante. 

– Anita era benquista e de fina educação e comportamento, falava fluentemente 5 línguas... Acordava cedo, tomava café, lia um pouco os jornais e já ia pintar, pintava muito, pintou até o fim da vida, mesmo às escondidas, o médico não queria... Dava opinião sobre tudo, certo ou errado. Gostava de seus alunos, queria muito bem o Nonê, a Sofia, sua cunhada Tecla e a sobrinha Betty... Era extremamente religiosa, da Ciência Cristã, não acreditava em remédios e dizia, “só tomo remédios para agradar vocês”... 

Carlos von Schmidt, diretor da Fundação Armando Alves Penteado diz incisivo: A última vez que as obras de Anita foram expostas foi em 1963, na Casa do Artista Plástico. Depois disso, pudemos ver algumas obras em museus. .Ao procedermos ao levantamento da obra de Anita para a série “Artes no Brasil”, no Canal 2 (1969), sentimos que essa obra poderia dispersar-se de um momento para o outro. Procuramos então, junto à irmã de Anita, Sra. Georgina Malfatti, reunir o maior número de obras possível. 

Conseguimos assim, já catalogadas, 164 obras. São desenhos, aquarelas, pastéis, guaches, gravuras, óleos, técnicas mistas. Muitas obras desconhecidas poderão agora ser vistas no MAB. Da importância de Anita, julgamos desnecessário falar. Basta apenas dizer que Anita é um marco, um ponto de partida no modernismo brasileiro. Anita é exatamente o ponto divisório onde os artistas disseram sim e não ao academicismo. A maioria dos artistas que daqui saíram para estudos no Exterior, voltavam pintando da mesma maneira de quando haviam partido. Isto é, com todos os maneirismos da escola francesa. Era “bem” pintar à moda da escola francesa. Iam à Europa, viviam o momento mais importante da história da pintura, o impressionismo e o pós-impressionismo, e continuavam a pintar como se nada estivesse acontecendo. Com Anita isto não aconteceu. Seus quadros, suas cores, suas pinceladas largas, são um autêntico grito de libertação. Não fosse Anita quem foi, não acredito que Oswald de Andrade, Menotti del Picchia, Di Cavalcanti e Victor Brecheret tivessem formado ao seu lado. Esses intelectuais e artistas eram o que de mais importante o Brasil tinha naquela época. Ao apresentarmos esta mostra retrospectiva de Anita Malfatti, em que se poderão observar as obras de 1909 a 1963, o Museu de Arte Brasileira presta à artista a homenagem que de há muito já deveria ter sido feita. Von Schmidt lamenta apenas a ausência de obras de grande importância que se encontram no Instituto de Estudos Brasileiros da USP, “em gavetas e em paredes que ninguém vê e nem sabe onde ficam”. Lamenta que Mário de Andrade foi o mais ferrenho defensor da artista, portanto, “é totalmente inconcebível que da coleção de Mário de Andrade nada esteja exposto nesta mostra”. Lembra ao reitor da Universidade de São Paulo, “que obras da importância das que se encontram naquele Instituto, não podem permanecer engavetadas, dependendo dos caprichos de funcionários públicos, pagos pela comunidade a que mal servem”. 

Susi Rebolo Gonçalves, filha do mestre paisagista gravou a fala de muitos pintores. Tarsila disse à jovem pesquisadora da USP que Anita foi uma de suas maiores amigas desde os anos 20. Anita participou da Semana de 22. Tarsila só soube do feito histórico na Europa, por cartada própria Anita. Aqui, continuaram a amizade. Susi quer mais dados, consulta seu padrinho: Clóvis Graciano. Está pintando 4 telas para a Loteria Federal. Clóvis parece mais um marinheiro forte de ar maroto, vai à prateleira, ajeita os óculos. Ele conheceu Anita. Sim, era cordial, humana, simples, “uma camaradona”, mas não é bem isso que Clóvis queria declarar. Lembra e conta: 

– Uma vez, Oswaldo de Andrade perguntou a Anita sobre “seus amores”. – Meu amor sempre foi a pintura, nunca me interessei por nenhum homem e nunca homem nenhum se interessou por mim, respondeu Anita. Ao que Oswald, “blaqueur”, retrucou: 

– Que pena, Anita”. 

Mas Clovis acha afinal, um pequeno opúsculo, editado pela Secretaria de Educação em 1951. Ali está, na íntegra, toda a conferência que Anita Malfatti pronunciou a 25 de outubro na Pinacoteca, sob o título “A Chegada da Arte Moderna do Brasil”. Graciano acha importante o testemunho pessoal de Anita, vai lendo alto uns trechos. Aparecida já serve o “Special Something”, uísque preferido de Graciano e a galeria japonesa ilumina a cores os cubos de gelo. Só se ouve a voz forte do caipirão da Família Artística Paulista, lendo o relato da colega famosa: 

– Escolhi a história da “Chegada da Arte Moderna ao Brasil”, porque nascida aqui mesmo, na cidade de São Paulo, porque foi aqui que fiz meus primeiros estudos, até os de madureza. Cresci no meio da curiosa surpresa, que foi o começo de um enorme progresso, o qual fugiu para além da mais alta fantasia ou de qualquer expectativa, na tremenda evolução que se desenvolveu em todos os setores, tanto no Comércio, Indústria, Ciências, como também nas Artes. É justamente sobre a grande mudança que se operou nas Artes Plásticas, que procurarei trazer à luz a bela inspiração que provocou este acontecimento de tamanha relevância. Sinto-me à vontade para falar sobre este particular tumulto cultural, porque, como muitos ainda ente nós, respirei antes da Primeira Guerra Mundial e ainda estou trabalhando depois da Segunda Grande Guerra Mundial! A cidade de São Paulo ainda cheia está de gente da minha geração, que pode dar testemunho da veracidade do que passo a relatar.

– Minha maior preocupação até a idade de 12 a 13 anos foi saber se eu tinha ou não talento ... para que, eu não sabia nem me preocupava, pensei que fosse para poesia... Nas minhas “Memórias”, contarei qual a experiência que me revelou ser “a cor, a pintura”, o querer de toda a minha vida. Passo a contar até onde levou-me a atração pela cor. 

 – Ao terminar meus estudos no Mackenzie College, fiquei pensando em viajar para estudar pintura. Eu tinha cursado o que havia então para meninas e moças. Pensava e pensava; comecei a lecionar e sempre em pensamento, durante e depois do trabalho eu só queria estudar pintura. 

– Meus dois professores artistas, Fritz Burger e Lovis Corinth, fora, professores de arte, mas não de pintura, ou de técnica, que Corinth desprezava porque, dizia ele, a preocupação da técnica destrói a inspiração. Os grandes artistas nunca são mesmo grandes professores ou explicadores de um ofício qualquer; esta parte é, geralmente, preenchida pela própria obra de arte que, com o correr dos séculos, torna-se a grande mestra muda que, sem interrupção, continua a iluminar os povos, ensinando a interpretação espiritual dos sentimentos e emoções. Meu grande professor da técnica da pintura, não da arte, foi Bisnoff Culm. Corinth não explicava a teoria pictórica nas cores: para ele existia apenas o instinto e o gosto, que o levaram às alturas que atingiu. Não sabia dizer em palavras qual a regra que nos guia para achar o equilíbrio da composição, a origem a forma, ou, como Fritz Burger ensinava o segredo da composição da cor. Foi este primeiro mestre, com suas teorias da subdivisão da cor, deixando espaços livres para que este espaço vazio, silencioso, forme a nota livre, igual, necessária para toda a harmonia, que me levou a fazer, durante diversos meses, centros de pequenas experiências de separações e misturas para descobrir qual a regra que rege a harmonia das cores. O mesmo fiz com os espaços livres e os encerrados pela linha. O mesmo com as sombras. 

– Ao chegar ao Brasil, minha família e meus amigos eram de opinião que eu deveria continuar meus estudos de pintura. Achavam meus quadros muito crus, mas, felizmente, muito fortes, o que prometia para depois uma pintura suave, quando a técnica melhorasse. Pouco mais tarde eu seguia para os Estados Unidos, em companhia de uma senhora americana. Em plena guerra, viajei em navio inglês, camuflado, sempre perseguido pelos torpedeiros alemães. 

– Em Nova Iorque, em companhia de uma colega que tinha as mesmas ideias, escolhi a escola que tanto quis encontrar na vida. A “Independence Scholl of Art”, cujo professor era o artista-filósofo Himer Boss. Ele achava que a arte era a pura filosofia da vida. Nosso ateliê era grande, escuro e sujo de tinta, com os de Paris. Entrava-se, saia-se e pagava-se quando e como dava jeito; quando a gente se lembrava de fazê-lo ou tivesse disposição para isto. Havia uma gaveta mágica na mesa da secretária. Essa gaveta nunca se fechava, não empobrecia nem se enriquecia. 
Mário de Andrade, 1923.

– Pintei então “A Estudante Russa”, “O Homem Amarelo”, “O Japonês”, “A Mulher de Cabelos Verdes” e muitos outros quadros, que foram vendidos ou desapareceram com o correr dos tempos. Diziam que estes quadros só seriam apreciados depois de vinte anos. Eu estava em pleno idílio pictórico. Vivia calma e feliz no meu trabalho. – Em agosto de 1917 voltava eu ao Brasil, com uma carga de estudos e quadros. Não tive a menor preocupação sobre a natureza do efeito de toda essa pintura. Eram caixões de obras de arte, desenhos, gravuras de quadros de todos os tamanhos. Minha família e meus amigos estavam curiosos para ver os meus trabalhos. Mas, que efeito. Ficaram desapontados e tristes. Meu tio, dr. Jorge Krug, que tanto interesse teve na minha educação, ficou muito aborrecido. Disse ele: “Isto não é pintura, são coisas dantescas”. 

– Numa tarde de novembro apareceram em casa alguns jornalistas como Di Cavalcanti e Arnaldo Simões Pinto. Foram eles que me entusiasmaram a fazer uma grande exposição, que eu não queria em virtude da opinião negativa dos que me rodeavam. Eu recalcitrava, mas eles insistiam. E venceram. 

– A exposição se compunha de cinquenta e duas telas, desenhos, gravuras e alguns quadros e desenhos cubistas, os primeiros feitos na América. Expus também os curiosos desenhos que minhas colegas tanto apreciavam. 

– O Conde de Lara cedeu-me uma grande sala térrea, num dos seus prédios à Rua Líbero Badaró. 

– Em meados de dezembro de 1917 inaugurei a grande exposição que durou até fins de janeiro de 1918. A sala encheu-se e continuou cheia até o fim da exposição. A princípio foram os meus quadros muito bem aceitos e vendo nos primeiros dias oito quadros. Em geral depois da primeira surpresa, acharam a pintura perfeitamente natural. Qual não foi a minha surpresa quando apareceu o artigo crítico de Monteiro Lobato: “Paranoia ou Mistificação”. 

– Este artigo pela sua combatividade prova hoje ter sido o início da revolta estética que nos trouxe a Arte Moderna – Muito falou-se e escreveu-se sobre a decantada Semana de Arte Moderna. Foi com a chegada do escritor Graça Aranha, vindo do Rio para S. Paulo, que Renê Thiollier com Paulo Prado conseguiram obter o Teatro Municipal para os artistas por uma semana. Foram eles influenciados por alguns artistas cariocas e por Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Guilherme de Almeida e outros íntimos de Paulo Prado, que foram os promotores desta semana, que tanta influência teve sobre o desenvolvimento da Arte Moderna no Brasil. Ninguém a inventou, ninguém a descobriu. Foi nada mais, nada menos que o fim da época romântica e o ressurgimento do interesse vital e artístico em formas novas. Essas formas novas se adaptam melhor a nossa vida e costumes. Apresentam uma oportunidade lógica para todos os indivíduos poderem expandir-se artisticamente dentro desse conceito novo, não precisando ir à Europa ou América do Norte a fim desse tomarem artistas modernos. – Só assim podemos separar a obra de arte do maravilhoso cinema e melhor ainda do tecnicolor. Daí a extraordinária importância da Semana de Arte Moderna. Entrava em cena o individualismo. Foi em 9 de fevereiro de 1922, com a inauguração da Semana de Arte Moderna, que se afirmou a nova era artística no Brasil. 

– Recordo-me que no dia da inauguração, o velho conselheiro Antonio Prado, com grande espanto da comitiva, quis comprar meu quadro “O Homem Amarelo”, porém, Mário de Andrade acabava de adquiri-lo. A plantinha havia vingado.

– Já à tarde, muita ente estava à postos para não sair mais. Os bilhetes e cartas insultuosas ou ridículas tinham aumentado de número. Pena foi não termos guardado alguma coisa concernente a esta parte, pois teria hoje muita graça. Aliás, estávamos completamente felizes, apesar dos protestos e raivas que nos rodeavam. Uma ideia nova sempre provoca raiva aos que não a compreendem, aos ignorantes que se zangam diante do desconhecido. O Villa-Lobos executou um magnífico concerto sinfônico. Certas partes foram de abalar as paredes do velho Municipal. 

– Tínhamos feito algo que só vinte anos mais tarde seria comentado, invejado, pois se tornaria, como se tornou, um ponto luminoso na história da cultura da cidade de São Paulo. Foi a alegria de construir e sentir a força de ter feito um bem para a nossa geração. Este mesmo espírito de construção existe hoje perfeitamente vivo e vemos a seara deste grande surto de inspiração que foi a Semana de Arte Moderna – é a conclusão de Anita Malfatti, em 1951. 
7/11/71  -  6/8/72

 Compreender, amar e louvar essa sensitiva do Brasil 

...bem como o desenvolvimento da consciência americana e brasileira, os progressos internos da técnica e da educação impunham a criação de um espírito novo e exigiam a reverificação e mesmo a remodelação da inteligência nacional. Isto foi o movimento modernista, de que a Semana de Arte Moderna ficou sendo o brado coletivo principal. Há um mérito intangível nisto, embora aqueles primeiros modernistas... das cavernas, que se reuniam em torno da pintora Anita Malfatti e do escultor Victor Brecheret, tivessem como que apenas servido de alto-falantes de uma força universal e nacional muito mais complexa que nós. Força fatal, que viria mesmo. (...) Com efeito: educados na plástica “histórica”, sabendo quando muito da existência dos impressionistas principais. Ignorando Cézanne, o que nos levou a aderir incondicionalmente à exposição de Anita Malfatti, que em plena guerra (1917) vinha mostrar-nos quadros expressionistas e cubistas? Parece absurdo, mas aqueles quadros foram a revelação. (...) Porque na verdade, o período ... heróico fora esse anterior, iniciado com a exposição de pintura de Anita Malfatti e terminado na “festa” da Semana de Arte Moderna. – Mário de Andrade – Aspectos da Literatura Brasileira – O Movimento Modernista – 1943. 

O fato histórico inconteste é que a disputa no país entre Arte Moderna e Arte Acadêmica se inaugurou com a exposição de Anita Malfatti em 1917. Essa mostra teve o condão de suscitar o problema e agitar os meios artísticos e intelectuais arregimentando adeptos e adversários, alcançando e apaixonando até mesmo a opinião pública em geral, e, sobretudo naquele tempo, distanciada de tais assuntos. – Paulo Mendes de Almeida – De Anita ao Museu, 1961. 

 ...Devemos agora, como queria Mário de Andrade, compreender, amar, louvar essa sensitiva do Brasil. – Carlos von Schmidt (Diretor do M.A.B.)

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

WALDEMAR DA COSTA


Em agosto próximo realizo, a convite do Museu de Arte Moderna e com patrocínio do “Pão de Açúcar”, que concorreu para a feitura do catálogo, uma exposição “Retrospectiva de 45 anos de Pintura”... Simultaneamente um grupo de artistas amigos e que estudaram comigo, realiza uma homenagem aos meus 35 anos de professor... Na retrospectiva exporei 124 ttrabalhos, desde um estudo da Escola de 1928 até a atualidade... Na homenagem, os artistas Amélia Toledo, Charoux, Clóvis Graciano, Fliaminghi, Ianelli, Izar, Maria Leontina, Miriam Chiaverini, Rachel, Ubirajara, expõe 10 trabalhos cada um... 

O calor humano dado pela amizade me é indispensável e é para mim uma grande alegria ter e manter amigos assim. 

Simpático, afável, enxuto em seus quase 70 anos, o velho sotaque português (é brasileiro de Belém – Pará). Waldemar da Costa está sorridente em sua casa da Vila Nova Conceição, na fria noite paulistana. Ele abre a porta para Charoux e Fiaminghi, dois antigos alunos seus, velhos amigos de hoje. Os dois pintores vem cuidar da exposição que Waldemar fará no MAM, quando ex-discípulos seus o homenagearão especialmente. Zoraide (Zozó), pequenina, agitada, aparece logo e já prepara um chá forte, para esquentar todos. O pintor-professor senta-se à mesa, examina as peças do catálogo da mostra-homenagem. Nas paredes das salas, à sua volta, telas de ex-alunos, como Maria Leontina, Charoux, Raquel, Ferraz, de artistas amigos, como Portinari, Rebolo, Carlos Lemos – e ainda 3 telas suas da fase atual. 

Waldemar da Costa, pintor, professor, mestre, como se auto define? 
O meu nome todo é Waldemar da Costa Guimarães. Descendo, pelo lado materno, de duas famílias “importantes”... Uma, os Costas, cuja ascendência (Távoras) lutou contra o Marquês de Pombal, em Portugal. João Gualberto da Costa, meu bisavô, veio para o Brasil por volta de 1803, fixou-se em S. Luiz do Maranhão e aí contra a ordem se estabeleceu, lutou pela independência. Foi um rebelde da época! Felizmente, a causa foi ganha e meu bisavô foi condecorado por D. Pedro... Era a ação!... A outra família é a dos Guillon. Essa ascende ao marques de La Fontaine, o fabulista fabuloso. Era o sonho!... Da parte de meu pai (português), ao contrário, não houve sonho nem ação. Eram os Lopes Guimarães, pares do Reino e lentes da Universidade de Coimbra... Era a ordem... A ação e o sonho maternos não se deram muito bem com a ordem paterna e como sói acontecer separaram-se... Na minha arte figurativa sente-se bastante esta luta constante... Pose-se dizer que são composições com uma desordem organizada... Antonio Pedro, o crítico e pintor português, quando esteve em S. Paulo, escreveu na revista “Atlântico” que minhas naturezas-mortas eram cuidadas, a fingir que não. Assim sou eu. 

Fiaminghi parece um marinheiro basco, com sua boina tosca e longos bigodes. Charoux escuta atrás dos óculos e da cara vienense e rosada. O relógio antigo inglês, na saleta, bate as horas. Na mesa da entrada, bem destacadas, cerâmicas francesas, italianas e portuguesas, das Barradas. Uma bela tapeçaria de Maria Teresa lemos de Arruda Camargo pende, soberana, na parede estreita. Waldemar vai dizendo que já pintou, até hoje, de 300 a 350 quadros. Agora a produção é menor. Pinta diariamente em seu ateliê da Rua João Cachoeira, ali perto.

Como foi a evolução de sua obra? 
Lenta, pensada, sentida. Ao chegar a Paris vindo da Escola de Belas-Artes de Lisboa, onde o ensino era francamente acadêmico, encontrei o movimento que se chamou mais tarde de “Escola de Paris”, em pleno sucesso. Aderi imediatamente a ele por estar de acordo com o que ele representava: uma volta à realidade tranquila... Tinha passado a época dos grandes movimentos – fauve, expressionismo, cubismo, futurismo e quase todos os pintores que tinham pertencido a qualquer uma dessas manifestações retrocederam na sua visão fantástica para uma representação objetiva... Naturezas-mortas, paisagens, figuras nuas ou vestidas, ou ainda semivestidas, com posturas calmas e tranquilas, eram os assuntos preferidos. Foi com essa arte que participei nos vários salões e exposições que fiz durante os três anos de minha estada em Paris. Foi ainda com essa visão que participei dos Salões dos Independentes, em Lisboa, e no Primeiro Salão de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em 1931. Passaram-se alguns anos antes que eu evoluísse para o expressionismo, o que sucedeu no período de 1944 a 1948... Buscas de uma construção purista vieram a seguir, passando depois para uma geometrização ainda figurativa, onde se sentia já o desmembramento das figuras e objetos, caminhando para uma solução francamente abstrata... Foi na Itália, como bolsista da Fundação Calouste Gulbenkian, de Portugal, que me inspirei para aplicar metais nos quadros. Então, numa abstração lírica, comecei a empregar o ouro e a prata como elementos plásticos... Mais tarde volto a uma construção geométrica, tirando partido de efeitos luminosos dos referidos metais. No momento atual a arte que faço situa-se nos temas “Estático-Semovente” e “ Movimento”... São formas metálicas que fazem lembrar peças de máquinas imaginárias, tornando a crueza da tecnologia mecânica em objetos oníricos e poéticos. Participando de uma época em que tudo é tão material e prático, procuro criar um mundo técnico em que o homem não abandone o sonho, através de formas e movimentos dados por efeitos luminosos. 

Zozó substitui o chá por um licor de estima. A conversa se torna mais aquecida. Waldemar continua o depoimento sem interrupções. 

Tive já vários ateliês de pintura. O primeiro no Boulevard Montparnasse 75, em Paris, onde trabalhei de 1929 a 1931 e onde, por empréstimo, Portinari, que não tinha ateliê, fez os seus primeiros trabalhos na França, em 1929, quando então chegou a Paris... No Rio trabalhei em casa (era solteiro), na Rua Santa Cristina, em Santa Tereza... Em S. Paulo o meu primeiro ateliê foi no Teatro Municipal, no salão da sapataria, cedido pelo Departamento de Cultura; foi aí que comecei a lecionar, tendo tido entre outros alunos Clóvis Graciano. Mas foi no ateliê da Brigadeiro Luís Antônio, 3147, que, desde 1939 até 1948, realizei o maior número de trabalhos e onde também mais aulas dei. Frequentaram minhas aulas os artistas Charoux, Fiaminghi, Amélia Toledo, Ianelli, Maria Leontina, Rachel, Izar e outros. Zozó foi também minha aluna então e em 1950 nos casamos. A casa de meu ateliê tendo sido vendida, passei para a Rua João Adolfo. Aulas, aulas e mais aulas. Foram então meus alunos, entre outros, Charlottte Adlerová, Helena Vaz, Claire Hugon, etc...

No Museu de Arte, onde fui professor de técnica de pintura, frequentaram, entre outros, as minhas aulas, Ubirajara, Mariza Portinari, Miriam Chiaverini, Raimundo de Oliveira, Aparício Basílio da Silva e Inez Rosenthal... Fui para Portugal em 1956, fixando residência em Lisboa, onde tinha meu ateliê em casa, à Rua Marcos Portugal 91-1º... Mais alunos: Josefina Lind, Antônio Ferraz, Antônio Paisano, Antônio Bouças, etc. Fui contratado pelo “Círculo das Artes Plásticas da Universidade de Coimbra”, para dar aulas, sendo o fundador do curso. Foram meus alunos, entre outros, Loff, Manoel de Oliveira, Sampaio e Mello, etc. Em 1966 fixei-me novamente em S. Paulo. Desde então, tenho meu ateliê à Rua João Cachoeira, 1453... No momento, alguns dos meus alunos já começaram a expor, como Lia Amaral de Souza, que, em breve, realizará uma individual na Bonfiglioli. Outros alunos são esperanças promissoras... Devo dizer que, de Santos, tive ótimos alunos, neste meu presente ateliê, como Vera Prado e Luiz Martins. 

Estão chegando à casa portuguesa (“pequena por fora, mas grande por dentro”, como a define Waldemar), seu cunhado, irmão de Zozó, o famoso cirurgião Edmundo Vasconcelos, com a jovem e bela mulher, Elza. Edmundo tem prosa fácil, conta episódios daqui e de fora, sua erudição é vasta e universal. 

Fiaminghi anotou mais um erro na revisão do catálogo, que é de Geraldo Ferraz: “Waldemar da Costa: aqui e agora”. O catálogo tem também uma introdução-homenagem dos 10 alunos de Waldemar, e a resposta deste, em linhas de muita emoção. O silêncio se faz de novo, o professor fala de seu lazer, de suas ocupações diárias. 

Moro em casa própria numa vila da Rua Ministro Jesuíno Cardoso. Meu ateliê – uns 300 metros adiante – é na Rua João Cachoeira. Não sou de levantar cedo; sou preguiçoso. Bem contra os hábitos paulistanos; gosto às vezes de tomar meu café da manhã na cama, onde leio meu jornal som sossego. Às 10 horas começo as aulas, que são dadas duas vezes por semana, às terças e quintas-feiras; nos outros dias, aproveito para pintar. Uma vez por mês passo o fim de semana na Praia Grande – “Cidade Ocian” – onde temos um pequeno apartamento. Nas férias descanso e pinto. A minha família: eu e Zozó, minha mulher, que foi minha aluna e que hoje me ajuda nas aulas para principiantes. Também Valdomiro, que considero como meu filho adotivo. Ele, além de estudar e trabalhar faz teatro no grupo teatral do Ginásio Costa manso. Pensa estudar arquitetura. Mora no meu ateliê. 

Waldemar conta que já teve um “hobby”: criar galinhas. Foi o pioneiro da avicultura em Petrópolis, na Granja Santa Rita e, em S. Paulo, criou-as no Sítio da Pedra Bonita, em Jandira, perto de Cotia, “quando a pintura não dava”. Hoje o tempo já é pouco para o que ainda quer realizar. Nas horas de folga, lê sobre Arte. Possui quase dois mil volumes relacionados às artes. Confidencia: 

Dizem que sou alegre, simples e afável e, no entanto, a minha pintura, do início até a atual, era nostálgica e melancólica, influências de uma infância infeliz? Talvez! 

Como encara a pintura brasileira de hoje? 
Evoluiu muito, mas ainda não tem um alto nível internacional, como nossa gravura, por exemplo, que frutificou mais intensamente, graças aos excepcionais professores que tivemos, como Friedlander... 
A arte, nestes 36 anos de S. Paulo, evoluiu enormemente... Quando fui um dos fundadores da “Família Artística Paulista”, tudo era feito por nosso próprio esforço... Alugava-se local ou pedia-se emprestado; fazia-se catálogo, tudo com o dinheirinho recolhido entre os expositores (sabe lá com que sacrifício), e muito raramente o público retribuía, já não digo com aquisições, mas com a sua presença... A Bienal trouxe uma outra amplitude para o nosso ambiente. Galerias se abriram, salões se organizaram, marchands apareceram... Hoje uma grande parte dos artistas pode viver do seu trabalho... Confio na juventude artística que me rodeia... Assim como outrora, os problemas são os mesmos, como também os anseios, somente os tempos mudaram e com eles a forma de expressão. Nada é definitivo em arte. Tudo é um pequeno minuto expressivo da evolução constante de um movimento perpétuo. 

Zozó está inquieta e participante. Todos ali ouvem e respeitam aquela pequena senhora dedicada, que fala depressa, com sua alma bem feminina de companheira e mulher. O frio aumenta lá fora. Zozó: 

Há pessoas cujo convívio – conscientemente ou não – é-nos prejudicial. Sufoca-nos a personalidade e amesquinha-nos o raciocínio, tornando-os tíbios e medrosos. No entanto, aqueles que são o oposto, fazem com que as nossas poucas ou fracas qualidades venham à superfície e brilhem; que a nossa personalidade se afirme e o caráter se fortaleça. Destes últimos, o Waldemar é o protótipo. Aqueles que com ele convivem só alegria de viver, força para lutar, tolerância e amor ao próximo, dele aprendem... O meu encontro com ele foi o acontecimento mais marcante da minha existência. Assim como a muitos que dele se aproximaram, transformou completamente a minha vida. Reconstituiu-a, renovou-a, enriqueceu-a. 23/7/1972. 

A Família Artística Paulista 
O pintor conseguiu passar nesses tempos da década de trinta com galhardia conquistada em Paris – a celebrada aura de Montmartre deixou-lhe alguma coisa de refinado, que palpita à maneira de Cézanne ou de Elime Othon-Friesz, como já se disse dele, como já se disse dele. Na sua adesão à nova visão provinda do neorrealismo que emergiu do cubismo e do expressionismo, não há extravagâncias. Ele tinha profundidade, e muito sua, verificável em qualquer destas figuras. Waldemar da Costa parece-nos ter sofrido, multiplicadamente, o desgarramento de quem não se fixava num meio. Esteve no Salão que a revolução de 30 permitiu a Lúcio Costa, em 1931, o primeiro Salão Nacional em que o espírito moderno fez a sua intromissão para ficar. Apareceu aí ao lado de um Cândido Portinari, com quem estivera em Paris – contudo, que destinação diferente da sua. Não se deixou empolgar por nenhuma política. Interessava-lhe conhecer e fazer conhecido o tinha alcançado. O mestre tinha de emergir dessas contingências. De fato, já nessa década de trinta é dele que se aproxima, insipiente pintor, um homem do povo: Clóvis Graciano. Foi dos que mais se responsabilizaram pela Família Artística Paulista, movimento que tem aparecido ultimamente na publicidade, sem incluir o nome de Waldemar da Costa, o que é erro histórico e diminuidor da verdade que houve em tal movimento. GERALDO FERRAZ (Catálogo da Exposição do MAM, 1972).

Cassio M’Boy – talento, arte, cultura caipira

A Rossini Tavares de Lima, 
defensor maior da cultura popular. 
L.E.M.K. 


Descendo de família originária dos primeiros povoadores das terras de Piratininga. Nasci numa fazenda de café, no município de Mineiros do Tietê, São Paulo... Três meses depois, fui levado para uma fazenda de café em Botucatu, cuja escola rural cursei. Em 1929, já era proprietário em sítio no Embu, após ter vivido alguns anos na cidade de São Paulo... Faço escultura e pintura desde menino. Fui “santeiro” popular durante o tempo que permaneci na zona rural... Fiz parte da Comissão Paulista de Folclore, entidade oficial da UNESCO... Fui pesquisador folclórico da Divisão de Festejos Populares do DEIP... Em 1937 ganhei a Medalha de Ouro da Exposição Internacional das Artes e Técnicas em Paris, recebendo diploma do Ministério do Comércio e Indústria da França... Em Veneza, expus no setor brasileiro da XXVI Bienal as telas “Nossa Senhora do Coração” e “Mãe de Ouro”, tendo sido esta a primeira tela vendida naquela Bienal... Em 1950, concorri ao Salão Nacional de Tóquio com o “Saci” e ao Salão de Maio de Paris com a “Nossa Senhora Bonita” e “Mãe d’Água”... A tela “Nossa Senhora do Desterro” faz parte da Pinacoteca do Museu de Arte de São Paulo... Pertenci à equipe de artistas plásticos que realizou o grande vitral documentando a atualidade artístico-plástica do Brasil, no Museu da Fundação Armando Álvares Penteado de São Paulo... Agora, duas telas minhas – “Fuga para o Egito” e “Presépio” – foram escolhidas para figurar em cartões de Natal da UNICEF, organização da ONU que reverte seus fundos para a assistência à infância pobre e que serão vendidos em todo o mundo... E o governo estadual está querendo comprar outras duas telas minhas – “Fundação de São Paulo” e “Fundação do Embu” – já fiz até o preço.


 Moreno queimado e curtido de sol, os cabelos longos e grisalhos, a camisa colorida, os pés descalços que logo vão calçar sandálias de couro rústico, o seu jeitão de boiadeiro rude, Cássio M’Boy está nos fundos de sua casa, cortando grama com o tesourão. Ele tirou o sábado para capinar sua rocinha caseira, plantar algum milho, melancia, abóbora, um feijãozinho. Mora no Caxingui, numa casa de cuidados caipiras, de pequeno burguês, como ele mesmo define, “pra proletário não falta muito”. É enxuto, franco, inteligente, sacudido e ágil nos seus 70 anos... 

Minha vida é essa, vou capinando, vou fazendo a minha roça, o meu ambiente caipira, todos os dias vou à “porteira”, na rua, ver quem passa na estrada... “Bom dia, seu Cássio, hoje vai chover? Não vai chover? Então está bem”... Quero ver a rua, ir à feira, fazer minhas compras. Fico horas batendo papo com a vizinhança, gente amiga, povo bom. Saí a 12 anos do Embu, fui para o bairro de Higienópolis. Não aguentei aquele chiquê nem três meses. Fui para o Brooklin, depois comprei esta casa, estou contente e alegre aqui... Por aqui ainda vou ficando mais uns 20 anos... 

O bigode de Cássio é mais branco que os cabelos. Ele muito se impressionou com a morte de Sérgio Cardoso, “fizeram com o Sérgio o que fizeram com o Nijinski, que morreu enlouquecido com o casamento. Coitado do Sérgio... E olhe, ele bem dirigido, superaria Leopoldo Fróes”. Ele fala e opina sobre todos os assuntos: política, arte, religião. Cássio acorda ao meio-dia, levanta-se, lê o “Estado” e a “Folha”, observa que um jornal desdiz muitas vezes o outro. Faz seu café de ermitão, liga o rádio, quer ficar a par do noticiário geral. Aprendeu a cozinhar com um famoso cozinheiro do conde Prates faz ele próprio seu almoço, um peixe frito, uma omelete com arroz simples, “feijão, feijão”, “verdura, verdura”. Nada de coisa complicada, detesto “estrogonofes” e outras coisas de grã-finada. À tarde, mil transas. Vai ao centro, cuida de suas coisas, raramente pinta – ele sempre foi de não muito pintar. Filosofia_ - “Em toda a minha vida tive sempre o cuidado de não comer a carne de vaca que comprei, só bebo seu leite, vivo agora dessas quireras”... 

- Quantos quadros pintou? 

- Não tenho a menor ideia. 

- Onde estão eles? 

- No Brasil, por aí, no mundo. 

- Tem emprestado suas telas para mostras no interior, etc.? 

- Não, nossos museus não têm gente habilitada para cuidar das obras. Não confio. 

- O que tem pintado atualmente? 

- A história do bicho papão. Veja a tela que a menina da roça não usa cruz no pescoço, mas uma figa, e na parede de seu quarto não tem uma imagem de santo... Resultado, o bicho-papão apareceu, claro. São histórias assim, da roça, das fazendas do interior, que pego para fazer minhas pinturas ditas caipiras... Muitas vezes, invento também, mas acho mesmo como dizem os entendidos, que tenho a verdadeira vivência, a verdadeira carga de cultura caipira dentro de mim... E, veja, só, sou formado em Sociologia, já vendi em Copacabana, já andei de raque e cartola o quanto quis... Na verdade, acho que sou mesmo um autêntico caipira erudito. 

O quadro que Cássio citou está inacabado, a um canto da sala – que ao mesmo tempo é sala de entrada, de estar, serve de ateliê e onde estão todas as telas que restaram ao artista primitivista-caipira, após 30 anos de pintura- dez, dozes telas, se tanto. Elas estão dispostas nas paredes. Nos quartos figuram quadros de outros pintores, alguns do Embu, alguns de Osasco, como Américo Modanes, líder de um grupo de primitivos e ingênuos, que Cássio formou e incentiva até hoje. Assuas são principalmente telas angiológicas e folclóricas, e, para cada uma, Cássio dá explicação. Mestre na arte de interpretar lendas do nosso populário e estórias ingênuas dos Mineiros do Tietê, de Botucatu, da vida roceira que levou. A tela do bicho-papão tem, por isso, essas lembranças, essas achegas, a tramela, a colcha de retalhos, o baú de folha-de-flandres, o tradicional pinico. 

- Cássio, como nasceu seu nome artístico, Cássio M’Boy? 

- Meu pai, como minha mãe, eram quatrocentões, eu era bem nascido... Eles tinham horror a ter filho artista. Prometi que, se chegasse a tanto, não usaria o nome de família... E não usei mesmo. No começo, assinava só Cássio... Depois, em 37, concorri a uma exposição internacional em Paris, ganhei um prêmio importante... Precisava então de um sobrenome artístico. Utilizei o M’Boy, pois eu era o Cássio do M’Boy, nome primitivo do Embu.... Quando ganhei oi prêmio em Paris, meu pai pediu para colocar o nome de família, mas aí eu disse: “Agora, já estou consagrado, fica Cássio M’Boy, mesmo”. E assim ficou... Só que tinha um “de” no meio: “Cássio de M’Boy”. Tirei-o certa ocasião, a pedido do José Geraldo Vieira... 

- Nestes anos tidos, quais foram seus maiores amigos? 

- Literatos, poetas, jornalistas, pintores, que sei eu? Anita Malfati era minha amiga, minha companheira, minha irmã. Passava dias e dias no Embu, conversando e pintando... Mário de Andrade. Oswald, Portinari, Flávio de Carvalho, Nonê, Menotti, só o Cassiano Ricardo conheci mais tarde... Aliás, é do Cassiano o prefácio de meu livro de poesias, que está no prelo, na Martins... O Monteiro Lobato destratou o caipira, com seu horrível Jeca-Tau, falso, desfigurado. Neguei três vezes a mão a ele... Quando fico amargurado com certas coisas, fico quieto, não falo com ninguém, então faço poesias... Só que o livro está custando a sair. Eu, pedir, implorar, ajoelhar, isso não faço, nunca fiz... Se querem editar, editem, o Cássio é que não vai chatear ninguém... O artista seve ter auto-respeito, e eu acho que tenho muito... Deve também ser reconhecido em vida, mas, se não for, não faz mal, será depois de sua morte... Nesse ponto, penso como João Vilare: “A arte que tenho não pertence a mim, massa Deus”... Não sou religioso, sou ateu místico... Como dizia, se tenho amargurar, me escondo, não exponho minhas chagas no Viaduto do Chá, não sei valorizar a dor, como fez Verônica no Sudário... Na minha pintura não há dramas nem amarguras... Só uma vez fiz um óleo, Cristo carregando a cruz. Deve estar no Convento do Embu, deve estar, não sei o que fizeram com aquelas coisas lá... Tem algum hobby? - Não, todo colecionador é um doente, e eu estou forte e rijo, na mente e no corpo, não coleciono nada... Não tomo álcool desde que terminou a guerra. Nesse dia tomei um litro de pinga, jurei que nunca mais punha a maldita na boca e cumpria até hoje a promessa... Como pouco, não fumo, não jogo... Fiz as revoluções de 22, 24, 30 e 32 e estive pra ser fuzilado. Com este meu jeito caipira, era espião de Isidoro... Tanta coisa acabo escrevendo o romance de minha vida... Mas o que gosto, mesmo, é o de conversar em casa, em exposições, nas feiras, sou até conhecido por aqui como o “Praça da Alegria”. 

Cassio serve o cafezinho solúvel. Reclama das cuias, não as encontra mais na cidade grande, aquelas “do tipo-roça”. Mexe em seus guardados, mostra telas achadas em seu quarto de solteirão – tem dois filhos adotivos e um neto. Fala de pinturas e pintores, não perde as melhores exposições. É sempre um papo disputado e disposto, o velho tipo faceiro e caipira, “erudito também”, como corrige. Agora elogia um pintor caipira que também se fez no Interior, também autêntico, também da roça sofrida e amada – José Antonio da Silva. 

- A cultura caipira existe e é autêntica. O caipira é o melhor protótipo do nosso povo. Descende dos bandeirantes, dos tropeiros, das raças formadoras do nosso povo. Querem ver caipiras na verdadeira acepção do termo? É ir em Iguape, nos dias da festa do Bom Jesus. A minha pintura caipira é o sentir, é o pensar, é o agir do nosso caipira da roça, caipira da cidade, caipira onde estiver, sem mistura, sem miscigenação, sem falsidade. Eta, “seu” Cássio M’Boy.

Texto publicado originalmente no jornal "A Tribuna, de Santos, SP, em 3/9/72.

Gênio anônimo, popular, poético 

Cássio M”Boy... Saudação e saudade... Hoje, Dia das Mães, recebi seu álbum. Sem endereço para resposta, possível graças ao grande Rossini. Fiquei na minha salinha, na cadeira que foi de meu pai viajando nas dimensões cabocas do Brasil. “Caboco” com L é invenção. “Caá-boc”, saído, emerso, tirado do mato. Não pode haver L nenhum, nem existe brasileiro que pronuncie “Caboclo” e sim CABOCO! Perdoe. Adiante. Para mim v. é pintor, com a legitimidade, força, exatidão do gênio anônimo e popular. Não há mutilação em sua pintura de encanto contagiante. É natural, espontâneo, puro, como os ditos “primitivos” que só pintavam com o sentimento interior do entendimento coletivo. Para todos os olhos, ricos e pobres. Não há anacronismo para o povo, é sim uma justa posição de imagens. Não elimina as velhas anteriores e tudo é contemporaneidade expressiva, na reexposição mental. V. leu, viu, é inteligente, (não há caipira burro no plano do interesse pessoal), e essa sua cultura em vez de deformar sua recriação, disciplina a veracidade plástica... Penso numa cantiga do Pará 
 – Quem te ensinou a dançar? 
 – Foi andorinha do ar? 
Quem te ensinou a pintar, feiticeiro? 
Não “M’BOY”, cobra, mas M’Baé, cousa, substância, tutano, talento... Um beijo no focinho. 
LUÍS DA CÂMARA CASCUDO

Volpi


A Aracy Amaral e Walter Zanini,
Com quem aprendi, desde os tempos da Escola, os segredos das artes.
L.E.M.K. 


Volpi está pintando em seu ateliê, uma sala ampla nos fundos de sua casa no Cambuci, onde mora com Judite “desde os trinta”. Ele acordou às seis e meia, tomou um cafezinho simples só. Já faz seu cigarrinho de palha – fumo de Laranjal de Tietê, de Paço Fundo, comprados no bar da esquina ou ganho dos amigos. Vai pintar até cinco e meia da tarde.

Depois paro. Só pinto à luz do sol. No verão, ainda vou até as seis, seis e meia... 

De manhã e à tarde, trabalha como um operário. Prepara caprichosamente cada tela, de entretela de linho puro ou de linho cru, com gelatina de porco e gesso. O chassi de cada uma merece cuidados especiais, “para não entortar”. A moldura, cortada por uma serrinha manual, fabricada por ele mesmo, é quase imperceptível. As tintas são diluídas numa emulsão de verniz e ovo, numa infusão complicada, a chamada têmpera-ovo, em que são colocados os pigmentos importados ou por ele mesmo preparados. Estes foram, antes, decantados e ressecados ao sol. Tudo e misturado por fim. Os pigmentos são comprados no mercado, puros ou então preparados por Volpi – ele decanta terra, ferro, óxidos, ocres.

Óleo - 1948

– Não uso pigmentos industriais, que criam mofo, e que com o tempo as cores do quadro perdem a vida. Mas Volpi ainda vai pintar. Testa cada tinta. Se a cor se altera, joga tudo fora. Se as cores permanecem alguns dias bem fiéis, lá está Volpi colorindo com, pinceladas curtas e desordenadas, suas telas famosas. Ali estão as cores preferidas de um dos maiores pintores coloristas da pintura mundial: roxo-terra, verde-esmeralda, azul-de cerúleo, azul-ultramar, violeta-cobalto, vermelhos e amarelos-cádmio. Aí, entra o artista. Ele já fez estudos a carvão em papel, estudos vendidos atualmente em São Paulo. 

Se o quadro não “resolve”, pego outro; a pintura precisa “sair”... 

Volpi nasceu em Lucca, na Itália, em 1896. Veio para o Brasil com 18 meses. Seu pai era comerciante no Cambuci. Na Escola Italiana desse bairro aprendeu rudimentos de marcenaria, decoração e encadernação. Autodidata. Em 1911 começou a pintar murais decorativos e então, um pouco mais tarde, surgem as primeiras telas. 

Comprei há dias dois pequenos quadros meus, duas paisagens, por três mil cruzeiros cada. Tinha feito esses quadros em 1915, e os vendi, na ocasião, por uns tostões... 

– Quantos quadros pintou até hoje? 
Não sei, pintei mais foi na fase “dos quarenta”. 

– Quantos quadros faz por mês? 
Uns dois ou três, só... 

– Seus quadros são vendidos onde?
– No Rio, na “Petit Galerie”, e aqui, vendo diretamente ou através da “Cosme Velho” ou “Documenta”. 

– E quanto custa um Volpi hoje? 
Os maiores, de 12 a 15 mil, os menores, de 8 a 10 mil. 

A partir de 1922 começa a expor em várias mostras coletivas e em salões dos artistas plásticos. Junta-se à “Família Artística Paulista”– Rebolo, Osir, Zanini, Graciano, Quirino – no palacete Santa Helena. Ganha vários prêmios, começa a ser notado. 

– Qual o maior mérito da “Família”? 
Organizar exposições. 

– Por que pinta? 
Porque gosto. 

– O que significa o concreto, o abstrato, em sua obra? 
Não sei, nunca pensei nisso. 

Volpi é dócil, doce, feliz e alegre. Judite, sua mulher, diz que ele não cria caso por nada. Eles têm uma filha, que, telefone à mão, é sua secretária solícita. E mais de 30 filhos adotivos, crianças pobres do Cambuci e de outros bairros, que criaram a ajudaram a crescer. Muitos deles levam o nome “Volpi” na assinatura. Volpi não é um toscano temperamental, ao contrário. Fala da sua obra com simplicidade, fugindo às formulas e tendências. 

Gosto da boa pintura, seja ela de Giotto ou Tarsila, Picasso ou Di Cavalcanti... E quando ela não me diz nada – e tem muitas telas de Picasso que não me dizem nada – não gosto. 

Ele almoçou bem – arroz, feijão, carne de porco e bife de vaca, salada. Um copo de vinho tinto – sempre. Nessa hora, ouviu um noticiário de rádio. À noite, apenas lancha - e quando sai com os amigos, gosta de “pizza” e vinho – tinto. Quando não sai, vê novela para distrair, joga xadrez, mesmo sozinho, ou paciência. Volpi acredita nos signos. É de Áries. Acha engraçado quando o chamam de ingênuo, de primitivo.

"Não estudei pintura, mas li bastante, viajei pela Itália e gosto de ver pintura boa, conhecer o passado." 

No seu ateliê, os 3 volumes da “Storia dell’Arte”, de Giulio Natali e Eugênio Vitelli são sempre consultados. Com seu linguajar típico, comenta com conhecimento sobre pintores antigos e modernos. A sua casa é repleta de telas de pintores amigos como de José Antonio da Silva, Golbbin, Souza e outros e de peças populares e de nosso folclore. Faz tempo que não vai ao seu sítio em Moji das Cruzes. 

Não recrimino as experiências atuais, gosto de toda arte que é boa.

Em 1954, já premiado, inicia com suas bandeirolas superpostas, rasgando fachadas horizontalmente, logo depois assimila ideias e imagens do concretismo. Depois avança para a abstração completa; já não é mais um pintor regional e sim universal. Os críticos, como sempre, não conseguem rotular convenientemente as suas telas, que, hoje, estão nos mais importantes museus do país e melhores coleções particulares. Theon Spanudis, psicanalista conhecido, compra dezenas de Volpis – que revende, agora, a bons preços. Volpi também fez murais (afrescos) e pintou a igrejinha do Palácio da alvorada, em Brasília. 

Me disseram que está toda estragada... No Palácio dos Arcos, me disseram que ainda não, ainda bem. 

A crítica Aracy Amaral prepara para setembro a grande mostra de Volpi, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Além da apresentação de Aracy, o catálogo está sendo elaborado por Haroldo de Campos, Mário Pedrosa, Maria Eugênia Franco e Décio Pignatari. Vão ser rodados dois filmes sobre sua vida e sua obra, por Décio Pignatari. Ao fazer 75 anos no mês passado, recebeu mais de 100 pessoas em casa. O baile durou até a madrugada. 

– E os jovens, Volpi? 
Ajudo todos os que vêm aqui. Pintura não ensino. Não se ensina pintura. Técnica sim.

– É feliz? 
Sim, muito – tenho tudo, apetite, saúde. 

Volpi abre um largo sorriso, a cabeça toda branca, a roupa esporte (“só raramente ponho gravata”) no corpo robusto. 

 Hermelindo Fiaminghi, um amigo chegado, comenta: O maior pintor do nosso país. Um artista e um homem – otimista, alegre, afetuoso, tranquilo, sadio, confortante, amigo dois amigos, intuitivo, espontâneo. 

Volpi prepara mais um cigarrinho, é o vigésimo nesse dia. É noite. Aracy Amaral vem discutir detalhes da grande retrospectiva de Volpi no Museu de Arte Moderna do Rio. Lá fora dorme o pombal de Judite. Ela chama Volpi para o jantar, acenando com aquele vinho tinto que o mestre não dispensa. 

Texto publicado originalmente no jornal "A Tribuna", de Santos, S. P. em 22/8/71. 

A crítica e o mestre 

Imagem sobre azulejo


 Alfredo Volpi é uma das figuras mais interessantes da pintura brasileira contemporânea: o maior de nossos coloristas e um dos nossos artistas mais originais... Já completou meio século de uma riquíssima atividade pictórica... Sua posição em nossa pintura é singular: não se enquadra em qualquer das correntes dominantes cem criou escola... É também difícil situá-lo com exatidão na pintura mundial... Absorveu de modo criador numerosas influências, desde a dos mestres do quatrocento italiano até às do impressionismo e do concretismo atual, apurando sempre a sua visão e a sua técnica, sem desvirtuar a sua fisionomia artística tão peculiar. – MÁRIO SCHEMBERG 

Alfredo Volpi, sem pretender, é o analista e o revelador de um comportamento cultural brasileiro que transcende o registro dos episódios e o diagnóstico convencional dos modelos... A composição pictorial de Volpi baseia-se na estrutura cultural, estética, do comportamento arcaico brasileiro... Devemos a Volpi a visualização da paisagem humana do comportamento arcaico brasileiro, fundamentada na virtualidade de uma arquitetura romântica e protogótica, na iconografia bizantina e na nostalgia talássica dos degredados. – CLARIVAL DO PRADO VALADARES. 

A bem dizer, o geometrismo de Volpi nasceu de sua evolução natural do temário popular, das bandeirinhas de papel de seda, utilizadas nas festas juninas e que ele tomou como base de uma forma que iria desdobrar-se noutros elementos de simplificação... E assim temos agora o Volpi geométrico, que realizou uma incursão arriscada, partindo de um autêntico dado do folclore – não o que justificou a “pop-art”, o folclore urbano da incongruência de Pierre Restany. – GERALDO FERRAZ 

O reencontro físico de Volpi com a Itália se deu em 1950, na viagem que absorveu em Giotto o abstracionismo geométrico de linhas retas puras... A arquitetura colonial brasileira passou a ser usada por Volpi como uma abstratização, uma fachada única, uma superfície alheia á terceira dimensão. – MARIA EUGÊNIA FRANCO. 

Em sua obra Volpi demonstra um interesse relativo pela figura humana: sua preferência vai para a paisagem em, na paisagem, a casa... À medida que a arquitetura visual da casa vai se confundindo com a do próprio quadro, a cor vai se purificando: um Mondrian trecentesco. – DÉCIO PIGNATARI. 

Volpi pinta volpis... Suas casas, bandeiras, fachadas ou composições são sempre o resultado que Volpi encontra ao usufruir contemporaneamente de sua experiência dentro do figurativo, do abstrato ou do concreto... Eis porque Volpi pinta apenas como Volpi, enfrentando a predestinação do gosto com aquilo que ele argutamente sabe e acha inexplicavelmente que deve pintar. – WILLYS DE CASTRO. 

Nem pintor “ingênuo”, nem primitivo: o que lhe é característico é a humildade artesanal, fruto de profunda sabedoria pictórica... Suas inclinações de muralista... Até hoje não as aproveitaram os nossos arquitetos modernos. A posteridade lhes poderá tomar satisfações por essa omissão escandalosa... A posteridade vai guardar o nome de Volpi. É o mestre de sua época. – MÁRIO PEDROSA. 

– Ingênuo, no meu entender, é todo artista espontaneamente estacionário em sua arte; as crianças, os alienados, uma Grandma Moses, Henri Rousseau (Le Douanier), Vitalino, Heitor dos Prazeres. Volpi não é um ingênuo. Concretista, ele mesmo disse um dia, foi “por acaso”. E primitivo é o autor das máscaras africanas ou o artista das cavernas. Volpi recebe, constantemente, a informação de tudo aquilo que ocorre fora do seu meio-ambiente. Volpi é um homem simples, refinadíssimo. Suas figuras lembram os afrescos de Pompéia e sua pintura é aveludada, fosca. Volpi é um artista popular; nunca um primitivo. – Quem é mais importante: Di Cavalcanti, Portinari, Volpi? – A obra de Portinari terminou em 1939. Depois disso, ele descobriu Picasso e não teve mais nenhuma importância. Di Cavalcanti teve seu apogeu no final dos anos 20 e 30. Volpi é o melhor, porque se renova e mantém a mesma altíssima qualidade desde a sua primeira obra. Ele tem um senso de autocrítica raro e muito apurado. Hoje, com 76 anos de idade, quando uma obra não está como ele quer, ele vai até o tanque e lava a tela. Quem faria isso, com os marchands e leiloeiros abanando dinheiro diante das obras e do artista? 
(De uma entrevista concedida por Aracy Abreu Amaral ao Jornal da Tarde – 9/72).

TARSILA


Para Deus nada é impossível. Ainda espero andar com aparelho ou sem, algum dia – Tarsila do Amaral, a primeira dama da pintura brasileira (Celso Kinjô), está sentada em sua cama, no apartamento onde reside, no bairro de Higienópolis. Há seis anos teve um desvio na coluna e desde então leva uma vida reclusa, assistida por sua fiel enfermeira-secretária, d. Anete. O especialista Roberto Melaragno tirou 16 novas radiografias e acha Tarsila plenamente recuperável. 

Sou uma otimista e tenho muita fé: ainda quero ver a sala Tarsila do Palácio Boa Vista, em Campos do Jordão, que reúne minhas melhores obras. Ou assistir a um concerto de minha melhor amiga, Guiomar Novaes, só que agora ela não tem mais aquela cara bem brasileira, parece uma alemãzinha...

O Mamoeiro


Esse apartamento é seu? 
Sim, comprei-o há alguns anos e nele espero chegar aos 100... 

Não perguntamos a idade de Tarsila. 
“Artista não tem idade” disse ela recentemente a Carlos Lacerda, que a entrevistou para a “Manchete”. Mas informa que sua mãe viveu até aos 82 anos e seu pai até aos 94. 

Tarsila, como é o seu dia? 
Acordo geralmente pelas sete horas, quando não tenho insônia. Esta noite tive uma brava, fiquei contando os carneirinhos pulando cerca... 400... Mais 400... Mais 400... Depois dormi. Tomo café com leite, frutas e iogurte. Depois o espanhol Manuel Fernandes Cravijo me faz massagens e obriga-me a uma severa ginástica, durante 90 minutos. Então descanso, leio as novidades no “Estadão”, principalmente na secção de artes... E aguardo o almoço. 

Come bem? 
Não sou uma comilona, mas adoro os pratos brasileiros. Arroz, feijão, miolo todos os dias – para conservar a memória! – frutas e legumes, e, claro, os doces caipiras, preparados à antiga: de cidra, de marmelo, de laranja. Cresci numa fazenda e não esqueço o paladar típico de nossos quitutes, É verdade que vivi na França muitos anos, e também adoro a cozinha francesa, são repletos de pratos sensacionais e com seus afamados temperos... Mas, meu prato predileto, é d. Anete quem faz, bacalhau ao leite de coco... Ah, se Oswald provasse esse prato... pedia minha secretária em casamento... 

Retrato de Mário de Andrade


D. Anete, conte como a descobriu...
D. Anete é uma figura... Ela é Anete Biondi Mendes, seu marido trabalhava na USELPA, morreu. Foi a preta Libânia, que trabalhou com escava numa das fazendas de meu pai, quem me a indicou. Veio para cá para ficar 10 dias, já está 5 anos e vai comigo até os 100 anos também... E ultimamente deu para pintar, umas coisas lindas, bem brasileiras... Ela é além de tudo minha confidente, conto para d. Anete minhas recordações de infância, aventuras na fazenda, que foram os melhores anos de minha vida... E as minhas lembranças de Paris... Fora ela, tenho aqui no apartamento a Alcinda, minha cozinheira portuguesa e a Clotilde, ajudante de enfermagem, duas ótimas pessoas também. 

Visitas, muitas? 
Tenho muitos amigos e amigas, mas quem vem cá diariamente, bater um papo e saber da tia pintora, é minha sobrinha Helena Amaral Galvão Bueno... O Nonê também costuma me visitar, tão gentil, sempre. Agora ele me disse que tem uma aluna que pinta igualzinho a mim. Disse a ele – Mande a jovem prosseguir... Pode me copiar... Já os críticos empregam o termo “tarsilismo”... Ótimo. 

Maternidade

Tarsila gosta de conversar. Pronuncia as palavras com correção incrível, assentando os esses e costuma corrigir os erros eventuais de interlocutores. Fala também um francês perfeito (foi professora de francês). À sua cabeceira, dois dicionários – um brasileiro e o Petit Larousse. 

Gosto de ler dicionários, aprender coisas novas... Em Paris, passava por francesa, nascida lá. São entendo como é que muitas pessoas não conseguem falar corretamente, até hoje, Chopin, Beethoven, Mozart, Debussy... uma lástima. 

Ela acabava de citar seus clássicos preferidos. De música modera, quase nada. Diariamente, depois do almoço, escuta dois programas de música erudita, um após outro, das Rádios Eldorado e Cultura. Reconhece, em qualquer momento da execução, qualquer autor clássico famoso.

- A que horas, e, como pinta? 
À tarde, como está vendo, com tela e palheta colocadas junto à minha cama. Pinto os temas caipiras de sempre, folclóricos, populares, recordações da infância e da fazenda... O colorido autêntico do nosso Brasil... Nossas árvores, nossos animais... Nossos céus... Nossas casinhas do interior... E também desenho sempre, principalmente bichos. Bichos fantásticos, desde a Antropofagia gosto deles. Bichos de seis pernas, duas na frente, duas atrás, duas no meio... Os pincéis dão de pelo de marta, trazidos de Paris pelo meu amigo Bielwski; e as tintas que uso, são estrangeiras também, Lefranc. 

Tarsila está terminando um óleo de tamanho médio, para apresentar na Galeria Collectio, duante o lançamento deseu álbum de gravuras e desenhos. Mônica Almeida, ex-monitora da Bienal, dirige a galeria especializada em leilões de arte e já chega com alguns álbuns prontos. Tarsila gosta e assina cada desenho com um T. Chega outro amigo de sempre, bem falante, o carioca Carlos Alberto bastos. Ele recorta tudo que os jornais de S. Paulo e Rio dizem da, sempre, “Caipirinha vestida por Poiret” (Oswald de Andrade). À noite, depois de um café com leite e bolachas, Tarsila vê televisão. À sua volta no pequeno dormitório, pelas paredes, os retratos dos familiares, de sua mãe Lídia, do pai José Estanislau, da filha Dulce, do tio Milton, uma Árvore da Vida, presente da consulesa de Israel, um “retrato” de Jesus, o móbile com pássaros num canto, as rosas vermelhas na mesinha, os dois dicionários, o “Golfinho de Ouro” do Museu da Imagem e do Som, o vidro de perfume francês Ma Griffe, a água de colônia alemã, 4711. Duas cadeiras e o armário grande, “tem tanto mistério aí dentro que nem quero abrir”. Tarsila é uma otimista alegre, diz sem nostalgia: 

Meus planos futuros? Nenhum especial. Viver a minha arte. Escutar música. Recordar minha infância. Manter minha fé. 

É d. Anete que vem, agora, servir um cafezinho gostoso da região de Indaiatuba, onde Tarsila passou a infância, feliz, numa das vinte e duas fazendas de seu pai. 

Cityscape

OPINIÕES SOBRE GENTE & COISAS 

Durante a conversa com Tarsila, a nossa maior pintora estendeu algumas  opiniões sobre gente & coisas. Algumas delas:

Trabalho – Vivo ainda dele e de alguma renda; meus quadros vendo diretamente aos interessados, não tenho contrato com galerias; 

Flexor e Genaro – Senti demais a morte de ambos; quando fui jornalista dos “Diários”, escrevi um artigo inteiro sobre a boa arte de Flexor. 

Graciano – Fiquei contente com a ida do Clóvis para a direção da Pinacoteca, uma escolha acertada do Paulo Bomfim; já dirigi a Pinacoteca e sei de sua importância no campo cultural de São Paulo. 

Chico Xavier – Uma criatura extraordinária, com ele tenho uma correspondência fraterna e afetiva desde muitos anos; suas cartas são confortadoras e ele me manda também flores de seu cultivo em Minas Gerais; Chico comenta meus quadros, onde recentemente me disse uma coisa bonita “quando Tarsila pinta, ela ora em cores”... 

Arte brasileira – Não tenho visto com frequência, parece que os desenhos antigos eram melhores; também não gosto do uso do acrílico, não tenho confiança em certos modernismos. Só gosto mesmo de arte brasileira, nas cores e nos temas, e isso não tenho visto. Talvez por não ir a exposições. A vida – Adoro a vida, sou fã dela.

A vida - Adoro a vida, sou fã dela. 

Religião - Sou católica espiritualista, não deixei a Igreja; até oro em latim. 

O amor – O fulcro, a base de tudo na vida.

Favela


REMINISCÊNCIAS
Embora eu estivesse na Europa, eu acho que participei da Semana de 22 através da carta que a Anita Malfatti me mandou, contando detalhes. Por essa carta fiquei sabendo da grosseria do Monteiro Lobato, quando menosprezou toda a obra de Anita. Muito reacionário, pois ele se julgava pintor.
Eu comecei a trabalhar em São Paulo sob a direção de Pedro Alexandrino. Depois fui estudar na França com um grande professor que gostava muito da minha pintura. Ele chamava a atenção dos alunos para o que eu fazia. Ele gostava muito do meu trabalho e dizia para os outro “Voyez ce qu’elle fait, comme c’estpuissant!” 
Eu quis fazer um quadro que assustasse o Oswald, uma coisa que ele não esperava. Aí é que vamos chegar no “Aba-Puru”. O “Aba-Puru” era uma figura monstruosa, a cabecinha, o bracinho fino, aquelas pernas compridas, enormes e junto tinha um cacto que dava a impressão de um sol como se fosse também uma flor. Oswald ficou assustadíssimo e perguntou: “Mas o que é isso? Que coisa extraordinária!” Ele telefonou para o Raul Bopp: “Venha imediatamente aqui que é pra você ver uma coisa!” Bopp lá no meu ateliê na rua Barão de Piracicaba, assustou-se também. Oswald disse: “Isso é como fosse um selvagem, uma coisa do mato”, e o Bopp concordou. Eu quis dar um nome selvagem também ao quadro e dei Aba-Poru palavras que encontrei no dicionário de Montoia, da língua dos índios. Quer dizer antropófago. 

 Reportagem publicada originalmente no jornal "A Tribuna", de Santos, SP, em 8-8-71.