domingo, 22 de novembro de 2020

A alma na Bolsa é verdade-econômica

Fala-se me suicídio de gente importante. Em corretores que enriquecem de uma hora para outra. No dia 8, a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro atingiu volume de negociações superior a 15 bilhões de cruzeiros antigos. Na Bolsa paulista, durante todo o primeiro semestre, algumas ações sofreram valorização de 200, 300 e até 400%. A revista “Visão” (Quem é quem na economia brasileira) explica o “boom”. Luiz Cabral de Menezes, presidente da Bolsa carioca, diz que já vivemos uma “verdade econômica”. A origem do fenômeno terá sido um conjunto de medidas que o Governo adotou no fim do ano passado, tendo em vista atrais novos recursos para o mercado de ações. A estratégia oficial desencadeou um processo que fez da Bolsa uma alternativa permanente de financiamento do capital de giro das empresas, reduzindo assim a pressão sobre o mercado de crédito. Luiz Roberto de Souza Queiroz e Eduardo Jardim, repórteres do “Estadão”, dão também, explicações, no excelente texto de quarta-feira. “A alta atual na Bolsa de Valores deve-se a vários fatores, mas o principal continua sendo a lei da oferta e da procura... o número reduzido de empresas... os bons lucros dos inversores...” Concluem: “o mercado continuará aumentando, a tendência é de reaplicação e de jogar mais. Pode vir uma baixa. Mas quem não arrisca não petisca”. 

Maysa volta ursa ferina 
É a Maysa remoçada de 36 quilos, ou 36 litros, como diz, quem volta no “Urso Branco”. No Rio, durante dois meses e meio, foi aplaudida entusiasticamente no “Canecão” por cerca de 3 mil pessoas diariamente. Sempre de negro, de cabelos acinzentados, bela e agressiva na mini-saia transparente. “Elis é a maior cantora do Brasil, mas é mau caráter... Gosto do preto porque ainda penso como uma mulher gorda... Felicidade é privilégio de gente burra...” Maysa. Ouça. 

Cesar criava bons “slogans” Nicolau Tuma foi o espiquer-metralhadora de 32. Dia e noite, pela Record, insuflava os constitucionalistas. Seu companheiro, dono também de bela voz, era César Ladeira. Que morreu fulminado, no Rio, por derrame cerebral. Tuma, hoje ministro do Tribunal de Contas fala comovido de seu colega, César Ladeira, o criador de “slogans”: A Pequena Notável (Carmen Miranda), Voz Orgulho do Brasil (Vicente Celestino), Cantos das Multidões (Orlando Silva). E outros. 

 Contracepção e a consciência A Editora Herder lança o livro do Padre Charbonneau: “Humanae Vitae e Liberdade de Consciência”. O pastor canadense “numa reflexão teológica e pastoral, defende o valor do magistério apostólico e a integridade da fé, e, por outro lado, impõe o maior respeito à consciência dos cônjuges... coloca ao alcance dos casais cristãos, ciosos de fidelidade á Igreja, uma via em que a plena obediência religiosa se conjuga à plena libertação espiritual” (Nogueira Moutinho). Charbonneau diz, inclusive, das conseqüências sãs e danosas do método Ogino - Knaus. E dos métodos artificiais da concepção. O livro vende. E atinge. 

Saudade fortuita O salão nobre do Palácio está repleto de prefeitos, vereadores do Interior, correligionários. Fala o governador. Ao seu lado. Vêm-se o dep. Silvério Igreja, o deputado Nélson Pereira, o deputado José Costa, o Hélio Motta, o Ivo Ramos, o Holanda de Freitas, o Salvador Fernandes. E Roberto Costa de Abreu Sodré, o governador, quase faz a cincada, junto aos companheiros das jornadas antigas: - Meus caros udeni... Mas corrige, em tempo e sôfrego, logo, para “arenistas”. 

A rebelião a leitura Márcia é a menina-moça de seus 12 para 13 anos. Suas leituras desta semana são “O Diário de Ana Maria”, de Michel Quost, e “O Sr. Embaixador”, de Morris West. Há pouco, leu “O Tibet de Hoje”, do Dalai Lama. DA última “Realidade” lei tudo sobre o Vietname e o Laos, os “hippies”, a onda erótica e os amores de Jeanne Moreau. Na idade em que está acha Monteiro Lobato ultrapassado. E José Mauro de Vasconcelos, em geral, uma “laranjada”. Com exceção de “Meu pé de laranja-lima”. Aí, como todas as mocinhas românticas do tempo antigo, chorou. 

A TRIBUNA Santos, s/data

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

O ensino no Paraná

O suntuoso edifício do Colégio Estadual é possivelmente o maior da América Latina 
O surto do progresso moral, material e cultural vivido pelo Estado do Paraná, atualmente, é vertiginoso. O vulto tomado pelo afluxo migratório que povoa as terras ubérrimas do oeste da serra de Apucarana e as glebas negras das antigas Missões tornam, sem dúvida, a “terra dos pinheirais” a nossa Canaã brasileira. Enquanto os pés de café de nosso Estado produzem geralmente durante 25 anos, no norte do Estado do Paraná, nas zonas das chamadas terras rochas, com essa idade, os cafezais têm, ainda, vitalidade robusta. Além disso, devemos considerar as produções sempre crescentes da madeira e do mate, duas colunas mestras, naturais da economia do Estado irmão. O Dr. J. E. Erichsen Pereira, diretor de “O Dia”, de Curitiba, em palestra aos jornalistas de São Paulo, alunos da Escola de Jornalismo da Fundação “Casper Líbero”, que foram ao Paraná a convite do governo daquele Estado, teve mesmo oportunidade de declarar que “o Paraná, dentro dos próximos 10 anos será o segundo Estado da União e concorrerá, depois, com São Paulo, no seu ritmo de produção e progresso. 

O Ensino 

No programa de realizações do atual governo, muitos são os educandários construídos. Já foram instaladas 480 classes de ensino rural, das 1.200 constantes do plano da Secretaria da Educação. Estão funcionando os cursos de aperfeiçoamento de professores e as 18 escolas normais regionais. A partir de 1950 nortear-se-ão as escolas primárias por novo programa de ensino, em virtude de ter sido considerado antiquado e ortodoxo o atual. O Instituto de Educação criou, no corrente ano, vários cursos de aperfeiçoamento, todos já com resultados práticos realizados. Foram abertos também 20 novos ginásios no interior do Estado. Além disso, o governo decretou recentemente a gratuidade do ensino no Paraná, num ato que repercutiu além fronteiras. O ensino público estadual tornou-se, portanto, inteiramente gratuito, em todas assuas modalidades, não podendo incidir sobre o mesmo selos, taxas, impostos ou emolumentos de qualquer natureza. Todas as escolas têm suas cooperativas, dirigidas por professores e alunos, onde os diversos materiais escolares podem ser adquiridos pelo preço de custo. Está assim o ensino no Estado do Paraná colocado em situação invejável perante os demais Estados da União. 

O Colégio Estadual do Paraná  

O Colégio Estadual do Paraná, a ser inaugurado em março deste ano, foi iniciado no governo Manoel Ribas e continuado pelo atual, tendo sido gastos até agora em sua construção 40 milhões de cruzeiros, além dos 3 milhões que já representam seu patrimônio em móveis. Sua localização é excelente, estando situado perto do Passeio Público, centro de Curitiba. O terreno mede 42.000 metros quadrados ocupando o prédio principal 19.200 metros quadrados. O ginásio anexo especial para educação física ocupa uma área de 1.800 metros quadrados. Esse colégio é considerado o maior em ia moderno da América do Sul. Nem mesmo o Instituto Normal da Bahia, construído no governo Juracy Magalhães, pode igualá-lo em tamanho e capacidade. 

O prédio principal consta de quatro amplos pavimentos, uma casa de máquinas e um subterrâneo - a guerra obrigou tal construção - onde estão localizadas a cantina e as aulas de trabalhos manuais. O pavimento tem 48 salas de aulas para 35 alunos em cada sala; um teatro com 1050 lugares, três anfiteatros para 80 pessoas, dois laboratórios para 40 alunos cada, uma sala de ciências completa e outras salas menores. Além disso, a administração ocupa 40 salas e o serviço médico-sanitário tem instalações para quatro gabinetes. 

A biblioteca, já formada, ocupa uma sala com 400 metros quadrados, com 10.000 livros. Na sua formação obedeceu-se o critério de serem adquiridos livros de cultura universal. Lá se encontram os “Anais do 1º Congresso de Língua Nacional Cantada”, organizados pelo saudoso Mário de Andrade e ofertados pela Prefeitura Municipal de S. Paulo. A discoteca, por seu turno, já tem uma coleção de 2.000 discos. Na mapoteca, inovação didática utilíssima, achando-se diferentes e instrutivos mapas de várias regiões do globo. 

A sala de química é completa, com todos os requisitos modernos necessários ao estudo dessa matéria. Bicos de gás, de ar comprimido, de vácuo, água quente e fria, quarenta e poucos microscópios, etc. No salão nobre, tão majestoso quanto o de nossa Faculdade de Medicina e com capacidade para 450 pessoas, está o quadro famoso da fundação da cidade de Curitiba, feito por Teodoro Bona. Esse quadro portentoso, em exposição recentemente efetuada, ganhou medalha de ouro. 

Fala-nos o Diretor 

O diretor do Colégio, prof. Adriano Gustavo Robini, acompanhado do prof. E médico Dr. José Alexandre de Moura Negrini e do mestre de obras Humberto Machado, foi quem recebeu muito amavelmente os jornalistas membros do Centro Acadêmico “Casper Líbero”, mostrando-lhes em seus detalhes as obras do Colégio Estadual, já quase em seu término. 

- “O Colégio Estadual do Paraná a ser inaugurado logo no ano próximo - disse-nos o prof. Rubini - terá capacidade para 6.000 alunos, e poderão ser ministradas aulas nos três turnos do dia. O atual colégio estadual, localizado em outra parte da cidade, comporta apenas 1.600 alunos. Aqui funcionarão os cursos primário, secundário e normal, sendo de notar-se que o ensino será inteiramente gratuito. O aluno não pagará nada. Mesmo os cadernos, lápis e outros objetos escolares ele poderá adquirir em cooperativa própria - que já possuímos. O colégio terá cerca de 80 professores. 

- “E quanto à educação física? 

- “Consideramos a educação física importante para os alunos. O ginásio coberto anexo tem todas as instalações necessárias para a prática de esportes, com sanitários e chuveiros de água quente e fria. A piscina, já em adiantada fase de construção será de 22x50 metros e as máquinas têm uma capacidade de tratamento de água de 3.600 litros. Além disso, no terreno que ainda nos sobre estão sendo feitos vários campos de bola ao cesto, vôlei e futebol. Aliás, não descuramos de nada. Como devem ter visto, os relógios elétricos nos corredores e dependências somam a 86, e o serviço de iluminação das salas é perfeito. Até os quadros negros, são verde-escuros... Nós pensamos, segundo os técnicos em educação, que toda a assistência deve ser prestada aos estudantes. O Colégio Estadual do Paraná não é exagerado nem luxuoso. Boa educação representa maior cultura e só desta poderão advir maiores empreendimentos e administradores capazes. Assim pensava o governador Manoel Ribas e assim age também o governador Moisés Lupion”.

Os alunos da Escola de Jornalismo “Casper Líbero” tiveram, da visita às obras do Colégio Estadual do Paraná magnífica impressão. Inegavelmente, o majestoso edifício descrito será um dos melhores do Brasil, dotado, como será, de modernas instalações escolares, amplo anfiteatro e laboratórios organizados com os requisitos da técnica moderna. 

A GAZETA 7 de janeiro de 1.950

sábado, 10 de outubro de 2020

A PROPÓSITO DA MOSTRA DE JOSÉ ANTONIO DA SILVA

A propósito da exposição individual de José Antonio da Silva em boa hora realizada pela Cosme Velho, uma série de perguntas cabe bem nesta página: 


1. Por que José Antonio da Silva, ao contrário de outros primitivos brasileiros, não é um artista realmente popular, do gosto do público? 
2. Por que é, também, ignorado pela maioria da crítica, pelas galerias de arte mais em evidência, pelos salões e Bienais, pelos Museus mais importantes? 
3. Por que o Silva mantém de longa data, com raros intervalos, na cidade onde mora e pinta e dirige o museu de are contemporânea local – fundado por obra e graça dele – uma guerra surda e fria, que em nada ajuda o artista e a urbe da alta sorocabana? 
4. Por que José Antonio da Silva não procura, não alcança, teme o mercado além de S. Paulo, especificamente o carioca, estendendo sua arte admirável até a Europa, onde é citado inclusive nos dicionários de arte naif e primitiva de Anatole Jacowski? Por que... ... ... 

A resposta às indagações talvez resultem, afinal, na própria louvação do artista Silva: é que ele é um artista autêntico, ingênuo, puro, fiel aos seus boizinhos e às suas floradas, à sua roça e à sua terra, ao Brasil ignoto e rural enfim. Não transige com sua pintura nacional verde-amarela, risonha e sofrida; não cede ao mercado dos marchands, que penam duro em suas mãos; não faz média com a crítica especializada e/ou aos eleitos das Bienais; e, finalmente, dimensionando sua arte no regional – tempo e espaço físico – constrói ainda assim um público menor, mas exclusivamente seu, sem as badalações da grande arte e dos aplausos enganadores dos engajados e compromissados. Faz bem, a nosso ver, pois, o Silva matuto e astuto, em manter-se numa posição individualista da maior autenticidade. É fiel à sua gente e ao nosso folclore, construindo uma obra assas verdadeira e de alto significado para a cultura popular brasileira. Ele é fiel aos seus instintos e aos seus arquétipos, e isso basta. Ele se aproxima, nesse aspecto, a pureza na arte de um Volpi, embora Volpi seja um racional elaborado e construtivo e Silva pinte instintiva e convulsivamente, sem autocensura, quase sensorialmente. 

Isso explica que grande número de apreciadores da obra de Volpi sejam também das pinturas de Silva, e também explica que, ao elaborar instintivamente, muitas vezes Silva se perde uma produção menor, tão condenada por aqueles que o apreciam e o colocam , justamente, entre os maiores nomes da arte pictórica atual de nosso país. 

Convidado pela galeria, embora não seja crítico de arte formado nem amador, fiz para o catálogo da exposição uma apresentação talvez emotiva de José Antonio da Silva. Transcrevemos aqui a primeira parte: 

 “Artista primitivo do Brasil ignoto, 
Ignoto que acredita no deus-natureza, 
Que acha, tudo, “Uma beleza!”, 
Figura estridente, álacre e plena de graça, 
de calor imanente e de linguagem de raça, 
mensageiro junguiano da roça, 
e da imaginária agrária, 
retratador folclórico e teórico, 
em discos, livros, quadros e falares, 
da alma alegre/triste e sonora do povo, 
do sertão de sua nascença e tanta sabença, 
intérprete maior do inconsciente e do coletivo popular e social, 
do caboclo sofrido e do Jeca ensimesmado, 
e do boia-fria explorado e patriota, 
do interior caipira , sincrético e armorial.”

SILVA PINTOU EM SUA CASINHA MURAIS DO BRASIL SOFRIDO

O pintor (ex-colono, ex-domador de burros, ex-ajudante de hotel) José Antonio da Silva abriu as portas de sua casinha (Rio Preto) para o povo entrar. Dentro, sobre o reboco das paredes, pintou cenas (25) da história do Brasil. 


Silva está famoso, em todo o mundo, pela sua arte ingênua e pura. Agora, é o primeiro pintor brasileiro a transformar sua casa em museu (público). Ele mesmo se emociona: 
– “Isto é uma beleza! Chego a chorar, no meio de tanta maravilha!” 
O povo de Rio Preto também gostou. Até o prefeito foi ver sua arte. E ente simples, caboclos, meeiros, colonos de pé no chão – donde Silva saiu. 

O Brasil do Silva 
Os murais, do tamanho de telas comuns, são coloridos e vivos. Toda a história do Brasil, desde o “Brasil dos índios”, está visto do seu modo sincero. 
O último mural, belíssimo, mostra o Brasil atual: são cruzes de desolação e miséria. 
 – “Fui feliz. Isto está uma beleza” – diz ele, sempre alegre. 
E solta a frase no rastro do assunto: 
– “Este Brasil será sempre assim, pobre até que o governo cuide dos colonos e das colheitas do campo!”

A história (ingênua) 
Os murais, com seus títulos ingênuos, são estes:
1 – O Brasil virgem habitado pelos índios; 
2 – Pedro Álvares Cabral, descobrindo o Brasil; 
3 – Primeira Missa; 
4 – Queimada; 
5 – Carnaval tratado pelos escravos; 
6 – Retirando toras com o carretão de boi; 
7 – Engenho movimentado pelos escravos; 
8 – Escravos no bacalhau, castigo público; 
9 – Execução de Tiradentes; 
10 – A independência; 
11 – Casas de pau a pique; 
12 – Colhendo café; 
13 – Colônia de Barro; 
14 – Pequeno arraial e cangaço; 
15 – Casamento antigo de trole; 
16 – Matadouro debaixo de uma árvore; 
17 – Grandes arranha-céus e a burguesia; 
18 – Revoluções; 
19 – Devastação pela seca acompanhada pela miséria; 
20 – Fome, desespero e grande suicídio; 
21 – O caboclo abandonou a roça; 
22 – Taperinha de barro; 
23 – Só resta uma pequena lagoa; 
24 – Um único pé de bananinha. 

Os benfeitores 
No último mural, Silva escreveu os nomes de seus “benfeitores”. Desde seu descobridor (o crítico Lourival Gomes Machado), passando pelo escritor Carlos Pinto Alves e o psiquiatra Theon Spanudis, e outros, até um repórter modesto (este, que fez esta notícia). 
Sobre eles, diz pitorescamente o pintor: 
– “No quadro de honra, estão os nomes dos que são meus amigos e Mecenas de verdade, e que vão figurar na história da arte (sic) per secula seculorum, amém”. 
A lista não é grande: dr. Lourival Gomes Machado, João Cruz Costa, dr. Paulo Mendes de Almeida, Procópio Davidoff, Benedito Lacorte Peretto, Luiz Ernesto – jornalista – dr. Nivaldo CArrazzone, dr. Carlos Pinto Alves, dr. Theon Spanudis, dr. Coimbra, dr. Euphly Jales e major Léo Lerro. Museusinho e Simeão 
Muitas vezes, à porta do museu do Silva param carros de luxo. É gente de fora, de São Paulo, que chegou para ver as obras do artista. Silva continua morando – com mulher e os filhos – nas salas do fundo. 
E já se acostumou com tanta agitação. Quando não está em casa (museu) é encontrado na Prefeitura, onde tem emprego modesto. Tem lutado com dificuldades. E tem vencido. Quer saber porque o Simeão Leal não cumpriu uma promessa: a de ver no Ministério onde estão os dólares (200) que ganhou na Bienal de Havana. É um esquecimento. Silva não se importa: 
 – “Vou ficando por aqui, no meu museusinho tão bonito e tão amável e que mostra o Brasil tão sofrido”. 
 O meu museu é do povo. Porque a arte (sua) também é. 

Este artigo foi publicado no jornal “Tribuna da Imprensa”, Rio de Janeiro, em 1954.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Geraldo Ferraz - um cultor da verdade e da liberdade

Um cultor da verdade e da liberdade: Geraldo Ferraz 

Foi-se do mundo dos vivos o nosso amigo, o nosso colega, o nosso companheiro de A TRIBUNA, Geraldo Ferraz, escritor e ensaísta, veterano do pós-modernismo de 22, desbravador e corajoso intelectual. Há três anos, no Palácio dos Campos Elíseos, ao receber um prêmio como o melhor crítico do ano, da ABCA, proferiu palavras estimulantes e instigantes sobre essa atividade, afirmando que a “crítica deve ser parcial, em favor da verdade”. Geraldo combatia a crítica dita imparcial, amorfa, sem raiz e sem espinha dorsal. Por isso, pela adoção desse primado da busca da verdade, GF tenha talvez se indisposto tanto, em seus 40 anos de atividades, com rodas e rodinhas literárias e artísticas.

Temido e respeitado, aberto e livre, Geraldo Ferraz continuará em nossa memória, inclusive como debatedor, lutador e trabalhador incansável, desde a juventude, quando, modesto gráfico, iniciou-se no jornalismo e nas letras. Mais que um pioneiro, um idealista, o brilhante e sarcasta Geraldo Ferraz, que conhecemos ao lado de Wega, em suas andanças em São Paulo, no seu refúgio do Guarujá, na Ilha Verde, onde morreu, deixa a esteira de seu pensamento por um socialismo utópico, e suas reflexões profundas do papel da arte na sociedade humana. Um cultor da cultura, um defensor da liberdade, eis, em suma, a fidelidade de Geraldo Ferraz a seu mundo, e, sobretudo, a si próprio. 

A QUALIDADE DO MUNDO DEPENDE DOS JOVENS 

Um dia após a morte de GF, a crítica Radhá Abramo publicou sentido texto na Folha de São Paulo, do qual destacamos estes trechos: 

“Há quarenta anos Geraldo Ferraz escreve sobre arte, estética e política. As décadas de 30 e 40 e os movimentos de renovação artística a partir dos anos 50 até os dias de hoje, merecem do escritor diversas análises que por serem tratadas em profundidade facultam ao leitor uma visão de mundo muito densa, contraditória, porém, autêntica. 

Fora os estudos das diversas tendências artísticas, desde o expressionismo até as atuais manifestações da arte, designada como realismo mágico, Geraldo Ferraz percebe na educação artística um meio pelo qual o homem pode libertar seus sentimentos, extravasar suas sensações. 

“Esse aspecto da obra do crítico possivelmente seja o mais importante entre todas as propostas defendidas com rigor de uma formação humanística ampla, que sempre fundamenta seu pensamento filosófico. Geraldo Ferraz aponta inúmeros problemas decorrentes da falta de educação artística do artista militante e Da sociedade humana em geral. Quanto ao primeiro, acredita que o desconhecimento das potencialidades sensoriais não desenvolvidas impedem o artista de processar sua linguagem com a fluidez latente, fazendo-o vítima exclusiva do aprendizado das técnicas. Este perigo possivelmente levaria o artista ao exercício meramente instrumental, obrigando-o ao virtuosismo,ao preciosismo técnico e ao academicismo, ou seja, à repetição de fórmulas estilísticas. O fazer artístico implica descontração e descomprometimento com a técnica, mas para que isto ocorra é preciso que o universo sensorial do artista esteja presente e que o instrumento de realização da obra de arte tenha um relacionamento afetivo, íntimo, pessoal com a mão que manipula. 

“A educação artística aplicada à infância e à adolescência facultaria, pensa Geraldo Ferraz, a emergência de sentimentos novos, harmoniosos “que precisamos preservar da barbárie e da extinção”. Para o crítico, portanto, a qualidade do mundo depende do aproveitamento dos recursos existentes nas crianças e jovens que ainda não foram deformados pelos modelos, sejam lá quais forem, que cerceiam e sufocam o que há de bom e belo e ainda não explorado na humanidade. Como Herbert Read, Geraldo Ferraz,encontra na arte um meio de transformação social que obriga o indivíduo a pensar em si próprio, nas suas emoções e sensações em, primeiro plano. A transformação, portanto, deve ser do homem para que em última instancia ele consiga realmente elaborar a transformação da sociedade.

“As idéias de Geraldo Ferraz, levantadas agora, nesse momento em que seu corpo pousa tranqüilo sob a terra de Santos que ele muito amou e a mais afetiva das homenagens porque elas revelam o espírito criador do homem presente, dando seu recado especial às crianças e aos jovens que ele soube em vida abrigar com ternura, com doces palavras, com pitos merecidos e polêmicas apaixonadas”.

A TRIBUNA Domingo, 30 de setembro de 1979.

sábado, 29 de julho de 2017

DIÁLOGO COM J.Q. EM "A GALERIA"


 JQ – O senhor que escreveu aquela noticia no “Painel” na Folha? 
LE – Eu não escrevi. Eu dei uma entrevista à Folha. 
JQ – Você é um mentiroso! 
LE – Não. Escutei aquilo do Carlos... 
JQ – Você é um mentiroso!!! 
LE – Mentiroso é o senhor! 
JQ – Aquilo é uma infâmia, me atinge!
LE – Eu informei no jornal o que o Carlos me disse. Que nunca mais queira saber de Jânio Quadros. Que o senhor era um traidor!
JQ – Isto é uma infâmia! 
LE – Na opinião do senhor... 
JQ – Isto não vai ficar assim! Eu tenho provas...
LE – Eu também tenho, Presidente! 
J.Q.  –... E eu vou esmagá-lo!!! 
LE – Pode fazer o que quiser, Presidente. Sou um jornalista modesto... 
JQ –... Eu vou esmagá-lo! 
LE – Pode fazer o que quiser. Não sou candidato a nada. 

Diálogo ocorrido em A Galeria, em 24.8.77 
Testemunhas: Paulo de Tarso dos Santos, Waldemar Szaniecki e outras pessoas. Houve avanços e recuos. Saí de A Galeria em seguida ao diálogo. Na rua, já na calçada, Szaniecki me seguiu e convidou-me a entrar de novo. Agradeci e disse que não o fazia, em homenagem a duas pessoas que muito prezava: Paulo de Tarso e ele, Waldemar. Tomei o carro e fui à casa do Flávio Pinho (aniv. Silvia), onde cheguei muito agitado. O bom ambiente, o bom vinho, as muitas conversas com amigos me acalmaram. 

A respeito dessa passagem e para bem melhor compreendê-la, escreveu Gabriel Kwak em “O Trevo e a Vassoura”:

Jânio Quadros queria que Carlos Lacerda, o homem que havia precipitado o seu gesto ingênuo de renúncia, escrevesse um manifesto de homens públicos com direitos políticos cassados. O espevitado ex-presidente fez essa proposta ao veterano jornalista Luiz Ernesto Kawall muito ligado a Lacerda, na missa de sétimo dia do empresário Ciccillo Matarazzo. 

Dias depois, Luiz Ernesto esteve com Lacerda no Rio de Janeiro, na Editora Nova Fronteira, de propriedade do ex-governador da Guanabara, e tocou no assunto. O Corvo cortou: 

– Esse é um traidor da pátria. Eu nunca mais quero falar com esse f.d.p.! 

Oito dias depois, Carlos Lacerda faleceu na Clínica São Vicente. Jânio, então, declarou à Folha de S. Paulo que o falecido tinha sido “o culpado da sua renúncia”. Luiz Ernesto contra-atacou, plantando na coluna “Painel” do mesmo jornal as declarações sobre Jânio que ouvira de Lacerda, dias antes.

Dias depois, Luiz Ernesto foi a um vernissage de Paulo de Tarso Santos em A Galeria, na Rua Haddock Lobo, nos Jardins, São Paulo. Lá encontrou Jânio Quadros, em companhia de Fernando Mauro Pires da Rocha e Roberto Cardoso Alves. Quando viu o jornalista, o ex-presidente teria perdido o fair play e saído em disparada em sua direção. Fora de si, chamou Luiz Ernesto às falas:

– Foi você que me chamou de traidor na “Folha”? 

– Eu não. Foi o Lacerda. 

Sacudindo o copo na direção de Luiz Ernesto. Jânio ameaçou: 

– Mentira! Vou esmagá-lo! 

Luiz Ernesto não se intimidou e ainda arremedou o homem da vassoura: 

– Esmagá-lo-ei primeiro, presidente. S

e não fosse a entrada em cena da “turma do deixa disso”, a noite acabaria em prejuízo para um dos dois galos de briga. Abreu Sodré, no entanto, queria que o episódio, verdadeira cena de ópera bufa, tivesse outro desfecho. O ex-governador disse a Luiz Ernesto: 

– Você devia ter da do um tapa nesse canalha.

(O Trevo e a Vassoura - os destinos de Jânio Quadros e Adhemar de Barros - Ed. A Girafa, p. 178).

CARLOS LACERDA NÃO MORREU; IMPLODIU

CARLOS LACERDA NÃO MORREU; IMPLODIU 







O jornalista Luiz Ernesto Kawall trabalhou 14 anos com Carlos Lacerda e colaborou com ele até sua morte 


Conheci Carlos Lacerda em 1943, ou 1944, não me lembro bem, num congresso de Escritores realizado na Biblioteca Municipal, em S. Paulo. Ele sentou-se à mesa principal, junto à Sergio Milliet, Jorge Amado, Mário de Andrade e outros cobras da nossa cultura, que lutavam contra a ditadura e exigiam a abertura – naquele tempo! – democrática para país que ganhava a guerra com os aliados. 

Lacerda inflamava e, anos após, derrubado Getúlio, lá estava fustigando em sua coluna do “Correio da Manhã”, a Tribuna da Imprensa. Estudante de jornalismo, na Casper Líbero, em 47, 48, 49, comprava o “Correio”, que líamos na Escola da “A Gazeta”, nós os lacerdistas da época. Em 1949 Lacerda faz o próprio jornal, a intrépida Tribuna da Imprensa, e nós o entrevistamos duas vezes, para “A Imprensa”, o jornalzinho da Casper, acompanhando sua trajetória, e, mesmo, o escolhemos para paraninfo, na turma de 1951. Feitos os contatos, passou a pedir notícias a 3 ou 4 colegas, para ganharmos experiência, dizia ele, e, quando Cláudio Abramo, que chefiava a redação do jornal em S. Paulo, viajou à Europa, ficamos encarregados de coordenar o serviço editorial aqui, e fundamos logo, com a cooperação de Samuel Ribeiro, a Sucursal paulista do jornal, no Prédio Glória, Praça Ramos de Azevedo, 209, onde passaram, nos 14 anos que lá estive, tantos jornalistas, como Walter Zanini,Regina Helena, Fernando Lemnos, Miguel Batlouni, Aracy Amaral, Joaquim Dias, Elu Azevedo, Luiz Edgar de Andrade, Luis Fernando Mercadante, Redento Natale e tantos outros. 

Lacerda vinha do Rio com freqüência e nos dava as missões mais difíceis, como entrevistar Jânio então vereador, ou pegar o ministro Souza Lima demissionário, ou levantar os bastidores da briga Ademar/Garcez, e ainda o “quem é quem” de Ademar Ferreira da Silva ou “Ciccillo” Matarazzo. Mas, parece, nos desincumbimos bem do trabalho e a “Tribuna” seguia vitoriosa, apoiada por industriais amigo e os “lacerdistas” das agências de propaganda, como David Monteiro, Saulo Guimarães, Nilo Gambini, Ítalo Éboli, Emil Farhat e tantos outros de saudosa memória. Um dos trabalhos mais difíceis que tive péla frente foi provar que Samuel Wainer era bessarabiano, tinha vindo num navio ainda bebê com seus pais imigrantes. Em 24 horas fui a todos os cartórios de S. Paulo e ainda hoje não sei se a pesquisa foi positiva. Parece que Wainer veio com outro nome, ou não, se é brasileiro, que me perdoe, hoje! Os tempos de Jânio x Lacerda foram empolgantes e duros, pois um desconfiava do outro, e, muitas vezes – até depois da morte de Lacerda – paguei o pato. Jânio disse que Lacerda foi o causador de sua renúncia e eu protestei contra a inverdade. Carlos tinha me dito, 15 dias antes de morrer: “Nunca mais quero falar com esse traidor”. E Jânio não gostou. Numa galeria de arte, me contestou e quis, mesmo, me agredir. Deixa pra lá. 

Lacerda em S. Paulo procurava os amigos e amenidades. Uma boa companhia – e Roberto Sodré foi sempre seu melhor anfitrião entre nós – um uísque amigo, as madrugadas a dentro para as conversas – literatura, arte, política, viagens, pessoas, fatos, confidências, tudo servia à sua mente privilegiada e sua memória incrível. Culto até envergonhar a gente, era educado e fino, de mandar rosas à família hospedeira e beijar a mão das senhoras. Mas, bravo, era o diabo. Sua genialidade desmontava, e uma vez, acuado por José Gregori na Faculdade de Direito (a quem a “Tribuna” acusara de comunista injustamente), levantou-se, fez pose, e... pediu, humildemente, perdão ao estudante. A Faculdade veio abaixo, em aplausos! A maior figura de seu tempo, em nosso país, neste século. Superior a Ruy, comparável a Kubistcheck, ousou, empreendeu, cultivou o espírito, viveu entre o tangível e o imaginável. Não morreu, implodiu, por amor à cultura, à sua terra, à sua gente, ao Brasil.