terça-feira, 6 de janeiro de 2015

UM HOMEM QUE O BRASIL ESTÁ CONHECENDO - III

CENSO DE INICIATIVA E DOTES DE MEDIADOR, AS QUALIDADES DO ENGENHEIRO GARCEZ

Governador Lucas N. Garcez na Bienal de 1953


 Vocação de técnico e de professor - Sempre levou as coisas muito a sério - Uma carreira brilhante, mas sem saltos - “Em nossa família, tudo acontece sem forçar o destino”, diz d. Maria Dulce, mãe de Garcez. III da Série 

FORMANDO-SE, Lucas Garcez foi contratado como engenheiro auxiliar da Secretaria da Viação. Nessa época, 1936, aperfeiçoando seus estudos de matemática no curso da Faculdade de Ciências, conheceu Maria Carmelita de Oliveira, que também ali estudava e com quem viria a casar mais adiante em 8 de março de 1941. O casal tem dois filhos: Nelson, com 10 anos e Beatriz, com 7. 

CONVIDADO 
PASSAVA-SE a fase de estudante e iniciava-se sua vida profissional. Em 1939, três anos após formado, já era convidado para assistente de cadeira n° 11, ou seja, a de Hidráulica,Hidráulica Urbana e Saneamento, pela qual, como seu pai, revelava aptidões. Nesse mesmo ano, foi indicado para o curso, como professor contratado, quando da cátedra se afastou Inglês de Souza. Mas, o jovem professor não pode prestar concurso. Faltava-lhe a cláusula “tempo de formado”. 

NO AVANHANDAVA
Em 1941 recebeu um convite da Cia. “Servix” para dirigir as obras da Usina Termoelétrica do Avanhandava, onde mais uma vez demonstraria seus conhecimentos no assunto. A mesma “Servix” pouco depois o transferia para a Fábrica Nacional de Motores, no Estado do Rio, nomeando-o engenheiro superintendente, cargo que deixaria mais adiante para vir ocupar o posto de gerente da filial paulista da firma. Lucas entrou para a “Servix” em 1940, ganhando Cr$ 2.500,00 e retirou-se em janeiro de 1947 percebendo vencimentos superiores a Cr$ 10.000,00. Informam os diretores da Companhia que ele soube se impor principalmente na parte relativa a motores. Confirmando o que afirmam seus colegas de escola, dava Garcez a tudo o que fazia um certo ar de solenidade, levando tudo a sério, mesmo as menores coisas. Demonstrava, ainda, um incomum senso de iniciativa. Quando trabalhava na Fábrica nacional de Motores, teve o primeiro contato com o atual presidente da República. Um dia chegou mesmo a ser convidado para almoçar com o sr. Getúlio Vargas. Mal supunha este, o que viria a ser depois. 

RETORNO 
A sua preocupação era mesmo a Escola Politécnica. Realmente, em 1944, voltava ele para a Escola, quando novamente foi convidado para a mesma cadeira de hidráulica. Ocupou a cadeira por mais dois anos e depois prestou concurso (1946). Em 1948, já era escolhido como vice-diretor da Escola, isso sem esquecer que fora também nomeado membro do Conselho Administrativo do Instituto de Pesquisas Tecnológicas, como representante dos professores, os quais, a exemplo dos alunos, o escolhiam sempre que precisasse de alguém para a defesa de algum direito ameaçado. 

AULA FREQUENTADA 
Disse-nos um de seus ex-colegas que as aulas de hidráulica do Lucas, embora de freqüência livre, alcançavam uma média de comparecimento que atingia de 60 a 70%, coisa rara e difícil, porque se trata de uma cadeira de aplicação, e lecionada num estágio do curso de engenharia, e em horário em que quase todos trabalham pela manhã. Depois dos exames, tinha também o hábito de discutir com os alunos as notas das provas. Nunca, ao que parece, teve que alterar uma só. Os alunos sempre se convenceram de que realmente eram justas. 

MEMBRO DO CONSELHO 
Confirmando aqueles dotes de mediador que todos adivinhavam nele nos tempos de estudante, quando fez parte do Conselho Técnico Administrativo, revelou-se mais uma vez. Sua maneira de resolver os problemas de administração interna (por exemplo, escolha de um novo auxiliar, tipos de exames a serem dados, etc.) era um atributo não tão fácil de encontrar nos demais. Acontece, porém, que as vezes, seu ponto de vista não prevalecia. Mas, nessas ocasiões, sempre teve capacidade de compreensão e adaptação ao pensamento oposto. Sabia reconhecer seus erros e aceitava então o que ficava resolvido. Durante o tempo em que lecionou na Escola Politécnica, por quatro vezes foi convidado pelos alunos para paraninfo. Da primeira vez era professor assistente.

RAPIDAMENTE 
Tudo aconteceu num abrir e fechar de olhos. Formado, passou a ser professor da Escola, foi escolhido para dirigir a Usina do Avanhandava e a Fábrica Nacional de Motores, voltou para a Politécnica, onde ganha a cadeira em concurso, e foi nomeado vice-diretor da Escola, tudo em um pequeno número de anos. Ainda em 1947, foi convidado para assumir a Chefia do Departamento de Saneamento da Faculdade de Higiene, onde lecionou Saneamento Geral, isto sem contar que era também professor da Faculdade de Engenharia Industrial. Participou também da fundação do “Movimento de Economia e Humanismo”, cuja seção paulista era dirigida por ele e pelo professor Cintra do Prado. 

OBRAS 
Não deixava de exercer sua profissão de engenheiro. Seu nome ficou ligado ao projeto de abastecimento de água e o das galerias de águas pluviais de Volta Redonda, a da Estação de Tratamento de Água para a Usina Siderúrgica Belgo-Mineira, o aproveitamento hidroelétrico do rio Tibagi, no Paraná, etc. Escrevia também artigos técnicos em revistas especializadas. Por exemplo: “Da Condição de Mínimo Custo nos condutos Forçados” e “Curso de Hidráulica e Saneamento”. 

SECRETÁRIO DE VIAÇÃO 
Foi em outubro de 1940 que, sendo governador de Estado, Ademar de Barros, o jovem engenheiro foi convidado para assumir a Secretaria da Viação. Voltemos à Rua Fagundes, 122, reatando a entrevista da Sra. Maria Dulce Nogueira Garcez. Afirma ela que quando seu filho Lucas recebeu a indicação para titular daquela pasta, chegou em casa e disse em tom de naturalidade: - Mamãe, fui indicado para secretário da Viação... E afirma que a nomeação não a surpreendeu, porque tudo na sua casa, na sua família, chegava naturalmente, sem saltos bruscos, sem forçar os acontecimentos. 

VOLTARÁ Com o pai tinha sido assim e, com o Lucas, já de há muito se habituara a vê-lo subir sempre. - “Acho, porém, que ele prefere acima de tudo ser professor da Escola Politécnica. Lá é seu verdadeiro mundo e o “metier” que não trocaria por nenhum outro. Creio mesmo que, depois de terminar seu mandato como governador do Estado, o Lucas voltará para a Escola da Praça Fernando Prestes. 

VONTADE DE DEUS 
- “Aqui em casa vem tudo sem forçar o destino”, diz d. Maria Dulce, mãe do professor Garcez. Assim foi quando o meu falecido marido recebeu o convite para ser diretor do Departamento das Municipalidades, no governo de Armando de Salles Oliveira. Assim foi quando o Lucas se tornou secretário da Viação. Assim quando eleito governador. Sei apenas que o Dr. Ademar o incluiu numa lista e, dentre os que nela figuravam, meu filho foi o indicado. Acima de tudo, porém, penso que é vontade de Deus, a quem tudo se deve e motivo pelo qual de nada nos devemos orgulhar. Sou uma mãe como outra qualquer e por isso acompanho com interesse a carreira de meu filho”.

OLHOS DE MÃE 
- “Fico contente quando recebo notícias de suas medidas acertadas e que fazem ganhar a simpatia e o respeito de todos. Apenas me entristeço de ver que o Lucas, que nunca na sua vida teve um único desafeto, corra agora o perigo de acumular inimigos, sabe o sr. como é a carreira da política... De resto, ele continua a nos visitar sempre, embora mais espaçadamente do que antes. É claro, de seus inúmeros afazeres, também continua a ajudar o sustendo da casa materna, mesmo depois de casado. É o mesmo filho de sempre”. 

TRIBUNA DA IMPRENSA Rio de Janeiro, 8 de Janeiro de 1953 

Nenhum comentário:

Postar um comentário